O Código Civil de 2002 regulou o assunto nos arts. 11 a 21. Segundo
Paulo Nader82, Inovou o legislador de 2002, em matéria dos direitos da
personalidade, abrindo um leque normativo sobre temas anteriormente
entregues à doutrina e à jurisprudência.
O direito da personalidade é inerente a todo ser humano, independentemente de qualquer condição. Dessa forma, basta que viva e assim é o indivíduo detentor de direitos da personalidade. Esta é a razão que justifica as posições de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho83. Para os autores, “o homem não deve ser protegido somente em seu patrimônio, mas, principalmente, em sua essência”.
Vez por outra alguém confunde direitos da personalidade com direitos
80
Valério de Oliveira Mazzuoli e Aldir Guedes Soriano, Direito, cit. p. 46.
81
Carlos Roberto Gonçalves, Direito civil brasileiro, v. 1: parte geral, 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 184
82
Paulo Nader, Curso de direito civil: parte geral, 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 210.
83
Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, Novo curso de direito civil, v. 1: parte geral, 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 135.
da pessoa. São coisas distintas. Os primeiros, dizem respeito aos bens jurídicos protegidos, e se irradiam nos ambientes dos direitos físicos, psíquicos e morais, enquanto que os segundos, se projetam perante o Estado, a família, com terceiros84, mas não somente.
Arnoldo Wald85 refere aos direitos da personalidade, dizendo que eles são absolutos, e correspondem direitos de todos os membros da comunidade, se projetando na vida, na saúde, no nome, na imagem, na privacidade etc.
No âmbito da legislação civil, além da Lei nº 10.406/2002, que instituiu Código Civil, há outras, como por exemplo, a Lei nº 9.434, de 04 de fevereiro de 1997, dispondo sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento; a Lei no 10.211, de 23 de março de 2001, que altera dispositivos da Lei no 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento.
Maria Helena Diniz86 traça um quadro sinótico, estabelecendo a divisão dos direitos da personalidade, com fundamento no Código Civil. No trabalho elaborada pela autora, a matéria está assim delimitada:
a) direito ao corpo vivo ou morto - arts. 13 a 15. b) direito ao nome – arts. 16 a 19.
c) direito à imagem – art. 20. d) direito à privacidade – art. 21.
Renan Lotufo ressalta que os direitos da personalidade constituem tema novo, não previsto em muitos ordenamentos civis, ao mesmo tempo em que cita Países que acolheram a matéria em suas legislações codificadas: Código Civil português, art. 70º; Código Civil italiano, art. 10; Código Civil de
84
Carlos Alberto Bittar, Teoria geral do direito civil, 2. ed. ver. e atual.e ampl. por Carlos Alberto Bittar
Filho, Márcia Sguizzardi Bittar, Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 46-7.
85 Arnoldo Wald, Introdução e parte geral, v. 1. 11. ed. reform. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 152. 86
Quebec, arts. 10 e 11; e Código Civil suíço, art. 2787, adiante transcritos: Código Civil português:
SECÇÃO II
Direitos de personalidade
(Tutela geral da personalidade) ARTIGO 70º
1. A lei protege os indíviduos contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral.
2. Independentemente da responsabilidade civil a que haja lugar, a pessoa ameaçada ou ofendida pode requerer as providências adequadas às circunstâncias do caso, com o fim de evitar a consumação da ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida.
Código Civil italiano:
Art. 10 Abuso dell'immagine altrui
Qualora l'immagine di una persona o dei genitori, del coniuge o dei figli sia stata esposta o pubblicata fuori dei casi in cui l'esposizione o la pubblicazione e dalla legge consentita, ovvero con pregiudizio al decoro o alla reputazione della persona stessa o
dei detti congiunti, l'autorità giudiziaria, su richiesta dell'interessato, può disporre che cessi l'abuso, salvo il risarcimento dei danni.
Código Civil de quebec:
DE L'INTÉGRITÉ DE LA PERSONNE
10. Toute personne est inviolable et a droit à son intégrité. Sauf dans les cas prévus par la loi, nul ne peut lui porter atteinte sans son consentement libre et éclairé. 1991, c. 64, a. 10.
SECTION I DES SOINS
11. Nul ne peut être soumis sans son consentement à des soins, quelle qu'em soit la nature, qu'il s'agisse d'examens, de prélèvements, de traitements ou de toute autre intervention. Si l'intéressé est inapte à donner ou à refuser son consentement à des soins, une personne
87
autorisée par la loi ou par un mandat donné en prévision de son inaptitude peut le remplacer.
Código Civil suíço(texto em francês):
Proteção de la Personnalité Art. 27
1 Nul ne peut, même partiellement, renoncer à la jouissance ou à l’exercice des droits civils.
2 Nul ne peut aliéner sa liberté, ni s’en interdire l’usage dans une mesure contraire aux lois ou aux moeurs.
Elimar Szaniawski88 apresenta um panorama sobre os direitos da personalidade nos países: Estados Unidos da América, Áustria, Escandinávia, França, Inglaterra, Itália, Portugal, Suíça e Alemanha. Analisando o trabalho coligido pelo autor, e comparando-o com o formato legal, doutrinário e jurisprudencial, é possível destacar algumas semelhanças e também dessemelhança em relação ao direito brasileiro.
Na Escandinávia, por exemplo, os direitos da personalidade não se acham regulados na estrutura tradicional de seu Direito, o que implica em que os indivíduos não têm como se prevenir contra os ataques contra a vida privada, nem tampouco podem reclamar por danos experimentados no âmbito dos
direito da personalidade89. Nesse aspecto, temos a grande dessemelhança
com o sistema brasileiro, pois os direitos da personalidade são previstos a partir da Constituição Federal, irradiando para o direito civil e até para o Direito Penal.
Sistema que muito se assemelha ao modelo brasileiro, em sede dos direitos da personalidade, é Portugal, onde a matéria está regulada pela
88
Elimar Szaniawski, Direitos de personalidade e sua tutela, Revista dos Tribunais, 1993, p.153 -174.
89
Constituição Federal, pelo Código Civil e também pelo Código Penal, conforme ensina Szaniawski90.
Gilberto Haddad Jabur91, em estudo comparado, trata acerca dos direitos da personalidade, trazendo significativa contribuição, ante sua experiência ao analisar o Código Civil da Província canadense de Québec, no qual o texto legal disponibiliza mais ou menos 40 artigos versando sobre a matéria.
Duas majestosas obras tratam sobre os direitos da personalidade. A primeira, Os direitos da personalidade, de Adriano de Cupis92. Nela, o autor trata principalmente da teoria e da estrutura dos direitos da personalidade. A segunda, Direito à vida e ao próprio corpo, de Antônio Chaves93. Nesta, o autor expende análise acurada sobre a irradiação dos direitos da personalidade, delineando suas repercussões no âmbito da vida e da morte do indivíduo, além de fazer acurado estudo sobre as questões da homossexualidade, intersexualidade e transexualidade da pessoa.