Em 1998, o BNB implanta o modelo de atendimento voltado para o microcrédito, onde, por meio da criação do Programa Crediamigo, passa a ser reconhecido como o primeiro banco público brasileiro a implantar o referido modelo (BNB, 2009), o que faz com que essa iniciativa tenha um caráter de novidade em relação às experiências mundiais, pouco referenciadas em relação a bancos estatais.
Bandeira (2008) cita que o Crediamigo surgiu a partir de reuniões realizadas entre o Banco do Nordeste e o Banco Mundial, em 1996, em Fortaleza: “o Crediamigo nasce no período de inclusão das microfinanças na agenda nacional através do Comunidade Solidária do governo FHC.” (BANDEIRA, 2008, p. 50).
Também Farranha (2005), expõe que, no governo FHC, o Programa Comunidade Solidária define o desenho de atuação para as microfinanças coincidindo com a criação do Programa Crediamigo, como “uma iniciativa articulada a partir de um banco estatal, o que assinala a ampliação do leque de atuação de um banco de desenvolvimento”. (FARRANHA, 2005, p. 87).
Farranha (2005) destaca que é a partir de 2002 que o Programa Crediamigo atinge a sua fase de ampliação e consolidação.
De acordo com Leandro (2009, p. 43-44):
O processo de implantação começou através de um projeto estratégico. No primeiro momento, antes de iniciar a fase operacional, a equipe de trabalho era constituída por três pessoas, além de uma coordenadora geral. Essa estrutura realizou as primeiras atividades de prospecção de mercado, visitas de conhecimento de novas experiências, articulação interna, geração de informações e desenho da nova política de crédito.
Leandro (2009, p. 43-44) apresenta entrevista com a coordenadora executiva do projeto de implantação do Programa de Microcrédito do Banco do Nordeste:
[...] A partir de novembro de 96, com essa reunião do Banco Mundial, nós já começamos a trabalhar numa equipe. Eram três pessoas, eu, João Cunha e a Rita. Eu cuidava da coordenação do programa, o João Cunha da área financeira e de sistema, e a Rita dos recursos Humanos. Então a gente e a Silvana Parente, ela era a coordenadora geral. Só que, o que era que acontecia, tudo que a gente precisasse na área de recursos humanos, a Rita Josina ia articular no departamento de recursos humanos, o que precisasse da área de finanças, o João Cunha ia articular as questões relativas, se precisasse de alguma coisa de setor jurídico pra poder contratar as pessoas que iam trabalhar lá, então eu ia acionar o superintendente jurídico. Então a gente tinha uma, uma gama de parceiros, onde a gente ia acionar as áreas retaguardas do banco, pra poder fazer funcionar o microcrédito.
Na época, a equipe, da qual eu participava, como citado acima, tinha o grande desafio de pensar, planejar e implementar um programa novo interna e externamente, além de conciliar as estratégias de desenvolvimento e de sustentabilidade do Banco. Foram vários meses de reuniões, viagens e negociações antecedentes às ações de definição da política, programação do sistema de informática, consolidação da metodologia do processo de crédito e estruturação de equipes de trabalho, tanto na direção geral quanto nas superintendências estaduais.
A intensa agenda de trabalho envolvia ainda os relacionamentos com consultorias internacionais para a elaboração de planos de negócios e de capacitação, na tentativa da implementação de uma proposta inovadora em termos de democratização do crédito e de desenvolvimento. Mas o Programa precisou assumir um escopo definido dentro dos limites da política pública no atual contexto.
O Programa teve início como projeto piloto em 1997, abrangendo 5 agências: Fortaleza(CE), São Luís(MA), Recife (PE), Aracaju (SE) e Itabuna (BA) e passou efetivamente a operar em 1998, em mais 45 agências, chegando à sua presença atual em 1.773 municípios, por meio de 258 pontos de atendimento. (SOUZA, 2008; BNB 2009).
Para a implantação do Programa, Souza (2008) cita a aplicação da pesquisa de mercado desenvolvida por Rosa e Castelar (1997) em 7 cidades do Nordeste: São Luís (MA), Teresina e Picos (PI), Fortaleza e Limoeiro do Norte (CE), Recife e Timbaúba (PE) visando obter o mapeamento do mercado potencial, a identificação dos nichos e a sua segmentação, e ainda uma melhor compreensão do comportamento e das necessidades dos clientes.
Em Fortaleza, a pesquisa foi desenvolvida em bairros de aglomeração de grande parte das microunidades produtivas que chegam a se organizar em forma de vida própria, entre eles: Centro, Montese, Pirambu e Bom Sucesso. O resultado da pesquisa realizada em Fortaleza confirmou o perfil encontrado nas demais localidades pesquisadas e que se configura conforme a Tabela 4 abaixo:
Tabela 4 - Resumo da Pesquisa - Perfil da Demanda para Microcrédito – Outubro 1997 Setor de atividade Participação dos clientes (%)
Comércio 57,14
Indústria 16,43
Serviço 26,43
Faixa etária (em anos) Participação dos clientes (%)
Até 24 anos 14,26
De 25 a 35 anos 34,16
De 36 a 50 anos 33,42
Acima de 50 anos 17,96
Escolaridade Participação dos clientes (%)
Analfabeto 4,76
1 a 4 anos 31,58
5 a 8 anos 33,08
9 a 11 anos 27,32
Superior 3,26
Gênero Participação dos clientes (%)
Mulheres 37,87
Homens 62,13
Tipos de financiamentos Participação dos clientes (%)
Não utiliza 63,81
Rede bancária ou programas oficiais 6,35
Agiotas 9,70
Fornecedores 17,91
Familiares 2,24
Interesse por crédito Participação dos clientes (%)
Sim 55,97
Não 44,03
Disposição para compor grupo solidário Participação dos clientes (%)
Sim 36,61
Não 63,38
Fonte: Elaboração Própria da Autora a partir de Souza (2008, p. 79).
De acordo com a pesquisa, as mulheres apresentaram menor capacidade financeira, maior nível de escolaridade, maior diversificação de fontes de financiamento e pagamento de menores taxas de juros. No que diz respeito às atividades informais, existem aquelas que são tradicionalmente ocupadas por mulheres e outras por homens. Entre as predominantemente femininas encontram-se prestação de serviços pessoais, serviços domésticos, serviços de confecção, estética, produção, dentre outros. (SOUZA, 2008).
Também segundo a pesquisa, um dos aspectos que diferenciam as mulheres de Fortaleza das de outras cidades é que as mulheres de Fortaleza demonstraram possuir maior autonomia e menor dependência. No que diz respeito às decisões sobre o negócio, apresentaram-se mais propensas a assumir riscos e mais interessadas em financiamento do que os homens.
Outros dados obtidos na mesma pesquisa mostram que a maioria dos microempreendedores conta com bastante experiência adquirida ao longo dos anos de vida e dedicação à atividade que lhe permitiu obter rendimentos maiores do que teria conseguido no mercado formal de trabalho.
Ainda de acordo com a pesquisa, a maior parte dos entrevistados não utilizava fonte de financiamento, uma vez que não dispunha de garantias reais e não atendia às exigências bancárias e, portanto, organizava-se para depender o mínimo possível de qualquer espécie de financiamento. Mas, apesar disso, manifestava interesse e necessidade de crédito. A grande maioria, no entanto, demonstrou rejeição à ideia de aval solidário.