2. MATERYAL ve METOT
3.4. Western Blot Analizleri
3.4.1. OAT-1 Düzeyleri
"A prática é aquela outra coisa, a partir da qual não só se pode fazer caminhar a filosofia, mas, mais ainda, aquilo graças ao qual se pode começar a ver claro no interior da filosofia." (ALTHUSSER, Louis. A Transformação na Filosofia).
Louis Althusser (1918-1990), franco-argelino como Derrida, com passagem em campo de concentração e casado como um judia lituana, Hèléne Rytmann, é, sem dúvida, o pensador cujo legado ficou mais obscurecido entre os filósofos franceses dos anos 60. Fortemente criticado por Jacques Rancière pelo teoricismo em uma descrição de época quase canonizada323, Althusser ficou além disso associado a certo receio de enfrentar a dogmática marxista e o Partido Comunista Francês quando a violência totalitária da União Soviética já era totalmente visível, perdendo por isso espaço em relação a Lévi-Strauss, Lacan, Barthes e a geração seguinte de Foucault, Deleuze e Derrida. A meio caminho entre o estruturalismo e o marxismo, Althusser não apenas representa, de um lado, uma via anti-humanista e anti- hegeliana na leitura de Marx, como igualmente permitiu o prosseguimento do que poderíamos chamar da corrente estritamente racionalista na França. De herança cartesiana, essa corrente passa pela prevalência do pensamento racional sobre o empírico, combinando elementos da
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Segundo Hyppolite, "...Bachelard, en étudiant la relativité et la mécanique ondulatoire, l'une et l'autre dans leur structure, dans leur genèse et dans leur émergence historique autant que dans leur intention réalisant, a permis d'entrevoir ce caractère hautement philosophique de la science contemporaine..." (HYPPOLITE, Jean. Gaston Bachelard où le romantisme de l'intelligence, p. 15). E outra belíssima passagem: "Dans le cas de la science, le savoir rationnel et la phénoménotechnie nous font dépasser l'horizon de l'humain, du trop humain peut-être; dans le cas de l'imagination des éléments, du rêve et de la rêverie, nous restons dans le champ d'une vision humaine et naturaliste des choses, d'une vue de l'humain dans le langage de la nature" (idem, pp. 25-26). 323 DOSSE, François. História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, pp. 212-215 e 309-311 ("o althusserianismo não conhece um verdadeiro declínio mas a morte súbita, tão espetacular e fulminante quanto seu sucesso" - p. 309). É evidente que os graves problemas pessoais de Althusser também devem ter contribuído para o recalcamento da sua contribuição. Ademais, Althusser orgulhava-se de nunca ter imposto a qualquer aluno sua linha de pensamento. Para dar um exemplo: alterou, como professor, a prática de manter a primeira folha em branco dos trabalhos de estudantes para que o "mestre" possa a comentar, fazendo o comentário em separado em uma folha que poderia ser descartada. Derrida seguiu o exemplo de seu professor (BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, pp. 89-90).
ciência com um forte viés laicista (não seria exagero chamar de viés ateísta)324. Trata-se do elo entre Derrida e a tradição da "filosofia do conceito"325, manifestada pelo sua presença central nos Cahiers pour l'analyse (dividida com Jacques Lacan), nos quais Derrida publicou seu importante texto sobre Lévi-Strauss. Assim, Althusser é um personagem que oscila entre quase todas as correntes até agora enunciadas à exceção do hegelianismo: o marxismo revisitado pelo estruturalismo, de um lado, e a filosofia racionalista da ciência326, de outro, sem falar da influências subterrâneas de Heidegger (que o próprio Derrida afirma), por exemplo.
A recente biografia de Benôit Peeters permite-nos acompanhar com muitos detalhes a relação intensa, em especial afetiva, que Derrida manteve com Althusser, naquilo que o primeiro chamava, no diálogo com Elisabeth Roudinesco, de uma amizade "de quarenta anos" permeada de agressividade, mas regida por uma espécie de cumplicidade enigmática para além dos partidarismos do código corrente do político. Introduzido na École Normale Supérieure pelo último, Derrida foi, ademais, importante amigo durante os difíceis tempos de internações e o substituiu diversas vezes na impossibilidade de prosseguir seu curso, além de ter permanecido os últimos anos já posteriores ao assassinato de sua esposa como um dos visitantes mais assíduos até sua morte327.
Embora Derrida afirme que jamais as conversas entre ambos tratavam de matéria filosófica, certo é que ele próprio partiu do local de trabalho que Althusser produz (sabendo- se que a noção de estado de forças e cálculo histórico são fundamentais328) e suas primeiras preleções como docente, geralmente em torno de Edmund Husserl, se deram no âmbito do cenário gauchiste radical da França dos anos 60, tendo mais tarde redundado numa aproximação signicativa com Philippe Sollers e a revista Tel Quel. O próprio Derrida reconhece que sua aproximação com Althusser não foi apenas de nível afetivo, mas igualmente de nível intelectual. Tratando do tema "o espírito da Revolução" no diálogo com Roudinesco, Derrida afirma que sua cumplicidade com Althusser era "também política", e que os próprios textos publicados após a morte dele seriam prova dessa aliança, ainda que, naquele momento histórico específico, pretendia ao mesmo tempo conciliar o silêncio com a não-passividade, à medida que se via no lugar de nem subscrever nem denunciar o gesto
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BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, p. 267. 325 Ver, p.ex., PEDEN, Knox. Introduction: the fate of the concept, pp. 9-17. 326 DOSSE, François. A História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, p. 334. 327
PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 105-106, 111-113, 123-124, 187-198, 390-395, 442-444, 501-502. 328
O que também pode explicar a "inexplicável" ausência de Althusser no rol dos primeiros alvos de Derrida: Lévi-Strauss, Foucault, Lacan, Levinas, Sartre, Merleau-Ponty, etc.
althusseriano, sob pena de confundir-se com o anticomunismo, antimarxismo ou mesmo o partido comunista, posição que nitidamente não desejava ocupar329.
...
Se as leituras de Marx por Althusser, Etienne Balibar e outros não parecem ter tocado diretamente Derrida à época330, parece ter sido importante, por exemplo, a reconsideração da noção de ideologia que Althusser tematiza, nublando a cisão entre ideologia e não-ideologia e preparando a possibilidade, por exemplo, do pensamento microfísico do poder de Foucault e mesmo da violência hierárquica que perpassa as polaridades oposicionais em Derrida331. Badiou, analisando os conceitos de Althusser, utiliza precisamente a ideia de "diferença impura" de Derrida332 para caracterizar as relações entre ciência e ideologia: se a ideologia é reprodução, reduplicação e ilusão, voltada ao âmbito do vivido e com o intuito de provocar a manutenção de determinado status na ordem do trabalho, e a ciência é transformação e produção na ordem do conhecimento, as noções não podem ser simplesmente contraditórias. A relação, apesar das tentações, não pode ser de erro e verdade. Trata-se, afirma Badiou, de uma relação que se dá em forma de processo no qual a ideologia é irredutível333. Tem-se aqui a possibilidade de - paradoxalmente numa rachadura em relação a certo cientificismo do estruturalismo - introduzir a dimensão da força, isto é, do material, no campo do teórico. De forma muito próxima à noção de "mitologia branca" ou mesmo da "violência do fundamento"
329 DERRIDA & ROUDINESCO, De que amanhã..., pp. 99-100. 330
Ao menos nas primeiras obras, mas em Spectres de Marx Etienne Balibar é uma referência constante quando de trata do debate com o marxismo (p.ex., Spectres de Marx, p. 116, 140).
331 Em Espectros de Marx Derrida utiliza o conceito althusseriano de “aparelhos ideológicos” (Estados, partidos, células, sindicatos etc.) para pensar algumas estratégias marxistas inaceitáveis, fazendo espécie de homenagem implícita à crítica althusseriana do marxismo oficial (DERRIDA, Jacques. Spectres de Marx, p. 35). Mais tarde, após subscrever sem restrições a análise de Blanchot, ele menciona a crítica deste ao “cientismo” de Althusser aplicado à obra de Marx, que ameaça neutralizar a injunção que seu pensamento porta (idem, pp. 63-64). E finalmente resume sua posição: “On peut continuer à parler de domination dans un champ de forces en suspendant non seulement la rèférence à ce support ultime que serait l’identité et l’identité à soi d’une classe sociale accordé à ce que Marx appelle l’idée, la détermination de la superestructure comme idée, représentation idéelle ou idéologique, voire la forme discursive de cette represéntation” (idem, p. 97). Como se pode ver, a posição é bastante próxima tanto de Althusser quanto de Foucault. Elisabeth Roudinesco considera o livro não apenas como homenagem aos espectros de Marx, mas também os de Althusser (ROUDINESCO, Elisabeth. Jacques Derrida: spectres de Marx, spectres de Freud, p. 54, 57).
332 BADIOU, Alain. El (re)comienzo del materialismo dialéctico, p. 14. Sobre a diferença impura, ver DERRIDA, Jacques. Violência e Metafísica, p. 222, nota 80.
333
BADIOU, Alain. El (re)comienzo del materialismo dialéctico, pp. 18-19. Ver ainda: ALTHUSSER, Louis. A Transformação na filosofia, p. 42.
em Derrida, a ideologia em Althusser, "invertendo as posições da vulgata, que via na ideologia uma simples excrescência deformadora do real", é considerada estrutura essencial que exprime a relação dos homens com seu mundo334.
Assim, Althusser, ao colocar a oposição idealismo e materialismo como central à filosofia e fazer de Marx um "produtor de um novo continente", provoca uma rachadura na cisão platônica entre teoria e prática, fazendo do conhecimento uma prática específica que, como ação entre viventes dentro um mundo concreto, envolve a configuração de interesses materiais e portanto reivindica, contra certa tradição, a atenção aos fatores de poder que estão envolvidos em todo processo epistemológico335. Althusser afirma:
... Marx asesta un golpe crítico al 'defecto de todo materialismo passado, incluido el de Feuerbach': la realidad, el mundo concreto, no son considerados, en dicho materialismo, sino bajo la forma de objeto o de intuición, pero no como actividade humana concreta, práctica, no de modo subjetivo336.
É claro que outra influência decisiva em Althusser compartilhada em alguma escala com Derrida é Gaston Bachelard, de quem herda a ideia de ruptura epistemológica337 e a ciência como produção, com o qual passará a reler Marx sob outro viés que não o estritamente hegeliano (isto é, vinculado a uma teleologia histórica necessitarista)338. Voltarei a essa questão com maiores detalhes em seguida, quando tratar de Foucault.
334 ALTHUSSER, Louis. A transformação na filosofia, p. 49 ("Na sua forma concentrada, a mais abstracta, a das obras dos grandes filósofos, [a filosofia] é algo que está ao lado das ideologias, como espécie de laboratório teórico onde experimentalmente se põe na ordem do dia, na abstracção, o problema fundamentalmente político da hegemonia política, isto é, da constituição da ideologia dominante"); ver também DOSSE, François. História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, p. 198; DERRIDA, Jacques. Limited Inc, p. 18.
335
ALTHUSSER, Louis, Materialismo histórico y materialismo dialéctico, pp. 56-57; BADIOU, Alain. El (re)comienzo del materialismo dialéctico, p. 23; WAHL, François. Estruturalismo e Filosofia, pp. 67-76; DOSSE, François. História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, p. 204. Curiosamente, na Alemanha realizava-se o mesmo movimento com Jürgen Habermas (com Conhecimento e Interesse e Técnica e ciência na era da ideologia), ainda no legado crítico de Adorno, e antes portanto da sua virada neokantiana e idealista que justamente irá romper, a partir da filosofia analítica da linguagem, com o materialismo marxista em nome de uma política social-democrata cujo motor seria a "razão comunicativa", e que mais tarde iria gerar seu confronto com o pensamento dito "neoconservador" francês (Bataille, Foucault, Lyotard, Derrida) em O Discurso Filosófico da Modernidade. A raiz comum de Althusser e o primeiro Habermas obviamente é Marx, abandonado pelo segundo no seu retorno a Kant.
336 ALTHUSSER, Louis. Sobre el pensamiento marxista, p. 21. Ver ainda ALTHUSSER, Louis. A Transformação na Filosofia, pp. 23-25.
337
BADIOU, Alain. El (re)comienzo del materialismo dialéctico, p. 12. 338
ALTHUSSER, Louis. Sobre a relação entre Marx e Hegel, pp. 61-97; idem, Materialismo histórico y materialismo dialéctico, pp. 41-53.
...
Outra questão interessante é a influência reversa, ou seja, de Derrida sobre Althusser339. É somente no fim da sua vida, com o póstumo Materialismo Aleatório, por exemplo, que Althusser deixa de lado o viés fortemente racionalista que o caracterizava para introduzir o elemento da aleatoriedade como contingência radical340, revelando a influência exercida pela dessedimentação da metafísica que Derrida e outros autores realizavam à época sem depreciá-la como "irracional" ou outras adjetivações do gênero. Ainda nesse trabalho Althusser assume, por exemplo, o termo "logocentrismo" para designar a filosofia, algo bastante estranho para um filósofo originalmente racionalista341. O repúdio à dialética que caracteriza a geração de Foucault, Derrida e Deleuze era também herança e compartilhamento com Althusser, que nas primeiras páginas do livro converte os filósofos que menciona (chineses, índios, Maquiavel, Spinoza, Kant, Hegel, Heidegger, Cavaillès, Derrida, Deleuze etc.) não em materialistas dialéticos, "esse horror!", senão em materialistas aleatórios342. O materialismo aleatório, por isso, já é efeito da desconstrução de Althusser de seu próprio pensamento, mostrando a ainda subestimada proximidade desse autor em relação a Derrida.
339 Ver, por exemplo: BÓRQUEZ, Zeto & RODRÍGUES, Marcelo. Althusser y Derrida. Estrategia e implicaciones concepturales. Disponível em <www.pensamientopolítico.udp.cl>. Acesso em 10.08.2013; DOSSE, François. História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, p. 212.
340 O polêmico livro de Meillassoux é devedor de Althusser em diversos sentidos. Em Materialismo Aleatório Althusser já enunciava uma contingência radical (p. 34, 39) que, em Meillassoux, se tornará a "necessidade da contingência". Por outro lado, o próprio termo "fideísmo", utilizado por Meillassoux para criticar a posição pós- kantiana em relação ao absoluto, remete a Lênin e a Filosofia, texto fundamental de Althusser, em que a expressão é literalmente utilizada (ALTHUSSER, Louis. Lenin and Philosophy, p. 61). Se somarmos à equação a filiação mais ou menos aceita de Meillassoux em relação a Alain Badiou, ficam claras as conexões dessa linhagem de materialismo racionalista e miltância ateísta tipicamente francesa. Para um contraponto, em especial dirigido a Badiou, SOUZA, Ricardo Timm de. Sobre novas e velhas restaurações - o conceito de verdade em Alain Badiou, especialmente pp. 104-105.
341 ALTHUSSER, Louis. Materialismo Aleatorio, p. 32. Já em 1976 Althusser, em conferência proferida em Granada, caracterizava a filosofia como logocentrismo - sem usar a expressão, mas relacionando logos, voz, discurso e Verdade (ALTHUSSER, Louis. A Transformação da Filosofia, pp. 20-21).
2.4 O ESTRUTURALISMO
2.4.1 O Estruturalismo
Advindo na sequência da cronologia histórica, mas posicionado como grande corrente intelectual do século XX ao lado da epistemologia, do hegelianismo e da fenomenologia, está sem dúvida o estruturalismo. Formado no ocaso do existencialismo humanista de Jean-Paul Sartre343, o estruturalismo se caracterizou como um dos grandes movimentos transversais em termos disciplinares que ousadamente questionou a primazia da filosofia e, fazendo da linguística seu paradigma, proporcionou uma série de avanços em diversas ciências, em especial a antropologia, disciplina do seu "fundador" Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Trabalhando com um "pensamento da forma" em que busca encontrar as estruturas inconscientes que servem de base para a ação dos indivíduos no real, combina elementos da linguística de Saussure, da fonologia de Jakobson, do marxismo revisitado pela antropologia de Marcel Mauss, da psicanálise freudiana e da epistemologia francesa. O movimento é geralmente identificado com os personagens Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan (1901- 1981), Louis Althusser, Roland Barthes (1915-1980) e, aí já de modo muito mais instável, Michel Foucault (1926-1984). Por razões de Limited Ink344, focarei, portanto, nos seus extremos, Lévi-Strauss e Michel Foucault, entendidos como entrada e saída do estruturalismo. Ademais, uma vez que o próximo capítulo tratará de apresentar "Da Gramatologia", as conexões e divergências, em especial com Lévi-Strauss, terão um foco mais antropológico, deixando para o tópico seguinte a crítica do fonocentrismo em geral, como recalcamento solidário ao logocentrismo na metafísica do Livro.
343 DOSSE, François. História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo - 1945-1966, pp. 23-24; idem, História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, p. 35.
344
Althusser foi abordado no item interior. Barthes e Lacan, por outro lado, ficarão de fora por razões totalmente contingentes, embora tenham sido importantes para Derrida. Tentarei abordar ao menos minimamente a relação entre Derrida e Lacan no terceiro capítulo, quando o relacionar com Freud.