3. HATAY KÜLTÜRÜ
3.2. Hatay Müzik Kültürü
3.4.1.1. Nusayrilik
No versículo 28 a narrativa rompe com a sucessão temporal e transporta aquele servo perdoado e libertado a outro cenário, onde as coisas sucedem de modo distinto. O olhar do leitor acompanha o servo perdoado a esta nova sucessão de eventos e podemos supor que a ausência do “homem-rei” condiciona seus novos atos, que fornecem um exemplo negativo sobre o tema do perdão:
(28) E tendo saído aquele servo encontrou um dos seus conservos, o qual lhe
devia cem denários, e tendo lhe agarrado o sufocava dizendo: “Paga, se alguma coisa deves”.92
(29) Tendo caído então o conservo dele, lhe rogava dizendo: “Sê paciente para
comigo, e te pagarei”.93
92 Texto grego: (28) evxelqw.n de. o` dou/loj evkei/noj eu-ren e[na tw/n sundou,lwn
auvtou/( o]j w;feilen auvtw/| e`kato.n dhna,ria( kai. krath,saj auvto.n e;pnigen le,gwn\ avpo,doj ei; ti ovfei,leijÅ
(30) Ele, porém, não queria, mas tendo partido o lançou na prisão até que
pagasse o que ficou devendo94.95
Para nós, que lemos com atenção a primeira cena, é fácil notar que essa nova cena não é tão inédita assim. Temos praticamente a repetição da cena narrada entre os versículos 24 e 27; de maneira consciente, o texto as constrói paralelamente, fazendo a segunda repetir a primeira com poucas mudanças para que o leitor faça obrigatoriamente a comparação entre elas e alcance as conclusões esperadas. Os papéis principais, o do emprestador e do devedor, continuam existindo, porém os atores são trocados. O “homem-rei” saiu de cena, como já observamos, e seu papel é encenado pelo devedor perdoado da cena anterior, que agora passa a ser também um emprestador. O papel do devedor também está lá, e dessa vez há um novo personagem para o encenar, que é chamado de “conservo”.
Esse conservo não é um servo do primeiro servo como a hierarquia econômica em que o texto os coloca pode sugerir. Ele é um conservo, alguém que serve com o outro; noutras palavras, ele é mais um dos escravos daquele primeiro senhor. Isso é o que nos mostra também o versículo 31, em que outros conservos aparecem e o narrador chama o primeiro senhor de “senhor deles”. O substantivo grego usado para o designar é su,ndouloj, que também aparece na versão de Mateus (mas não na de Lucas 12.42) de uma breve parábola sobre a vigilância de um escravo prudente a quem um senhor encarrega de alimentar seus conservos durante sua ausência (Mt 24.45-51). Portanto, voltando ao texto, temos a aparição de outro escravo do mesmo senhor que aqui se encontra em condição inferior à daquele primeiro escravo, e essa inferioridade se constitui principalmente por razões econômicas. Ainda que no geral só existam duas classes sociais, a do senhor e a dos seus servos, temos dentro desse arcabouço uma construção social mais complexa: as posições superiores e inferiores são, acima de tudo, determinadas pelo nascimento, mas simultaneamente há subdivisões extraoficiais determinadas pelo poder econômico desigual dos sujeitos de uma mesma classe. Estamos uma vez mais estudando uma narrativa fictícia que desenha seu cenário a partir do antigo Mundo Mediterrâneo com seus tradicionais sistemas clientelista e
93 Texto grego: (29) pesw.n ou=n o` su,ndouloj auvtou/ pareka,lei auvto.n le,gwn\
makroqu,mhson evpV evmoi,( kai. avpodw,sw soiÅ
94 O que temos no texto grego aqui é o particípio presente passivo do verbo ovfei,lw (dever, ser devedor).
Nossa tradução (o que ficou devendo) procura destacar a passividade da ação de ficar devendo, como se o conservo não tivesse tal intenção, tendo sido conduzido àquele estado pelas circunstâncias.
95 Texto grego: (30) o` de. ouvk h;qelen avlla. avpelqw.n e;balen auvto.n eivj
129
escravagista. E vai ficando cada vez mais evidente quão significativo é este mundo extratextual para a construção e compreensão do discurso mateano.
Formalmente, a estrutura da segunda cena narrativa é a mesma da primeira. Em ambas as cenas a dívida é cobrada pelo credor, mas o devedor está incapacitado de realizar o pagamento e satisfazer as expectativas do emprestador. Em ambas a punição pelo descumprimento do contrato estabelecido está presente, assim como o momento de clamor do devedor. Vejamos as similaridades e diferenças num quadro comparativo:
CENA 1 - O SERVO DEVEDOR CENA 2 - O CONSERVO DEVEDOR
A Dívida é Cobrada (v. 24) A Dívida é Cobrada (v. 28) Sentença (v. 25) Clamor do Conservo (v. 29) Clamor do Servo (v. 26) Sentença (v. 30)
Perdão da Dívida (v. 27) Não-Perdão da Dívida (v. 30)
A principal diferença entre as duas cenas é a ausência na segunda de um momento de perdão após o clamor do devedor, e motivados por esta diferença é que estamos comparando as duas e dizendo que temos numa um exemplo de perdão e noutra um exemplo de não- perdão. Claro que há outras diferenças mais discretas entre as duas cenas, como por exemplo, quando elas apresentam tipos diferentes de sentenças contra o devedor. Na cena do servo devedor, embora só se faça a ameaça (v. 25), o que se promete é vender a família escrava para que se pague a dívida. Já na cena do conservo devedor, a sentença aparece no final, sendo executada e não simplesmente em forma de ameaça (v. 30). Interessante é que esta segunda sentença é absolutamente diferente da primeira: o servo perdoado, quando assume o lugar de credor, parece não ter os mesmos poderes que seu senhor; como escravo liberto, ele não lida com seu conservo com um homem livre de nascimento que trata com um escravo, pelo que não pode vendê-lo. Contudo, ele ainda é capaz de encarcerar o conservo para forçar outros a pagar sua dívida.96 Na segunda cena, a ausência do perdão é também a ausência do elemento
96 Lançar um devedor na prisão era um recurso jurídico conhecido no mundo grego, no Egito, e também na
Palestina sob Herodes I (Cf. Reimer, 2006, p.142). A mesma situação também está presente em Mateus 5.26-27, o que nos oferece novas indicações de que estamos lendo a representação de eventos considerados ordinários da parábola (Stambaugh; Balch, 2008, p. 64). Porém, era também normal que credores fizessem sua própria justiça,
fantástico da parábola, o que nos leva a dizer que toda ela é construída como representação do cotidiano ordinário.
É possível e até desejado que outro detalhe tenha saltado aos olhos do leitor, que é a diferença absurda entre as duas dívidas. A primeira dívida, como já vimos, eram aqueles impagáveis dez mil talentos, enquanto que a segunda era de apenas cem denários. A grande diferença de valores deve ser vista também frente às duas maneiras de se cobrar. Na primeira cena o “homem rei” age como um típico senhor de escravos, rico, poderoso e provavelmente nobre (v. 24); já o servo liberto na segunda cena se revela um homem rude, agarra o conservo pelo pescoço e o sufoca com as próprias mãos enquanto cobra a dívida (v. 28). Julgamos que a violência está, de maneira paradoxal e proposital, ligada à dívida mais amena, o que ressalta a culpabilidade do servo perdoado que não sabe perdoar, assim como nos lembra a grande bondade do senhor que perdoou uma grande dívida.
Temos ainda que observar com atenção como os versículos 26 e 29 estão construídos. Comparando-os vemos que os dois culpados por não poderem pagar suas dívidas clamam por novos contratos, maiores prazos, e o fazem com os mesmos gestos e com palavras quase idênticas:
(26) Tendo caído então o servo se prostrava frente a ele
dizendo:
“Sê paciente para comigo, e tudo te pagarei”
(29) Tendo caído então o
conservo dele,
lhe rogava dizendo: “Sê paciente para comigo, e te pagarei”
A similaridade é também uma estratégia literária; deveria o leitor se lembrar da primeira cena enquanto lia a segunda e por meio dessa memória supor que o servo também ofereceria o perdão a seu conservo. Porém, o texto novamente frustra as expectativas do leitor e o conduz à surpreza e à indignação; tendo se familiarizado com o princípio do perdão do Reino dos Céus, o leitor é confrontado com o retorno abrupto às normas do seu mundo, em que devedores não são perdoados, mas punidos. O resultado deve causar alguma revolta; o homem que foi perdoado se depara com outro que se encontra nas mesmas condições em que ele próprio estivera (até melhores posto que devia muito menos) e que age do mesmo modo
expondo o devedor à vergonha pública ou até o prendendo e punindo por conta própria, já que o exército romano não desempenhava um papel como o da nossa polícia em favor dos cidadãos (Veyne, 2009, p. 138, 152-153).
131
clamando por paciência, mas o devedor perdoado não perdoa, e tanta ingratidão conduzirá os leitores a experimentar sentimentos negativos em relação àquele personagem, sendo tomados por uma espécie de desejo de vingança. O anseio por um final mais digno é o que os faz querer seguir rápido com a leitura, já desconfiando que alguma justiça seria feita.
Enfim, o servo que antes foi perdoado (e libertado) se revelou indigno da dádiva recebida. O texto não quer conduzir seu leitor à conclusão de que o primeiro senhor não devia ter perdoado seu servo, antes, quer que ele se revolte com a atitude ingrata do devedor perdoado, para que não negue, ele mesmo, o perdão a quem quer que seja. Pensando no objeto do ensino, o “Reino dos Céus”, o leitor deve se perguntar se o não-perdão que é tão contrário ao ideal utópico de Jesus em Mateus pode subsistir no Reino. Noutros termos: como são vistas pela ótica do Reino as pessoas que são perdoadas e não perdoam, como o servo da parábola? A resposta virá a seguir.