4. DENEYSEL ÇALIŞMA
4.5. Deney Numunesi SPS3
Os depoimentos do entorno trazem para a discussão actantes que se relacionam com o problema, mas não o sofrem diretamente. Por isso, sua representação do agir indica uma visão mais consciente do problema da prática da escravidão, porque a opressão não é sentida diretamente, mas “de fora”. Os autores empíricos analisados detalhadamente são o bispo da CPT (segmentos 1 a 3) e a representante do sindicato dos trabalhadores (segmentos 4 e 5). O primeiro é um notório ativista contra a escravidão moderna, o segundo, um representante clássico da oposição à prática da escravidão.
No segmento 1, temos a ação definição, que capta o problema como objeto de reflexão e alvo de uma redefinição. A ação é marcada pela presença da voz social e pelo discurso teórico, com autonomia em relação ao ato de produção e conjunção com as coordenadas do mundo, da ordem do expor.
O tema bordado é o trabalho, introduzido por uma avaliação feita por modalização deôntica, segundo parâmetros sociais (O trabalho deve ser um trabalho digno, da pessoa) “‘um fenômeno do mundo’ ... suscetível de o delimitar em relação a outros tipos de atividade”98 (BULEA, 1999, 146, grifo da autora, tradução minha). A relação com a
sociedade e a justiça é marcada pela modalização apreciativa (qualquer tipo de trabalho que não respeita plenamente essa dignidade é trabalho escravo).
No âmbito da prática social, se circunscreve na definição do trabalho escravo e instancia um julgamento negativo da prática, com marca forte de indignação ou inconformidade (Não precisa que seja na Amazônia).
No segmento 2, também temos a figura de ação definição, marcada pelo discurso teórico.
O tema abordado é o gato – o aliciador – a quem é atribuído poder (os gatos gerenciam essa rede contábil), indiferença ao problema (conta com as pessoas como contábil) e ação de vigia (são os olhos do dono). Faz uso da modalização apreciativa (todo esse mundo ... sai ganhando) com uma avaliação negativa.
No âmbito da prática social, se circunscreve na prática de cerceamento de liberdade, especialmente no que diz respeito a servidão por dívida (conta com as pessoas como contábil) e a vigilância ostensiva (são os olhos do dono), mas também podemos inferir
98 [...] envisagé comme un “phénomène dans le monde” … susceptibles de le circonscrire et de le délimiter d’autres sortes d’activité [...]
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a sua função na prática de retenção de documentos e salário (gerenciam essa rede contábil), pois os gatos se ocupam da “organização” e “manutenção” da prática social da escravidão. Figuram como representantes da prática, como indivíduos que a perpetuam.
No segmento 3, temos a figura de ação ocorrência, que se dá pela identificação de constituintes do agir oriundos de dimensões específicas. O discurso interativo marca a implicação com o ato de produção e conjunção com as coordenadas do mundo, mas tem uma função de ilustrar uma recorrência, uma generalização do caso específico de que trata, tomando-o como corriqueiro, ordinário (ter enterrado vários peões sem trecho ... sem caixão, sem documento, sem nome inclusive).
O tema abordado, o enterro do peão, se vale da modalização apreciativa quanto ao lugar do sepultamento (lugar mais sagrado da região). Há presença de marcas de generalização do fato (eu tenho experiência de ter enterrado vários peões), de constatação de descaso (sem caixão, sem documento, sem nome inclusive) e de avaliação do medo dos trabalhadores (criar ânimo na hora de enterrar o companheiro e na perspectiva de amanhã ser enterrado eu) e da desaprovação dos demais personagens que apresenta (os coveiros conversava, discutiam a cabeça pra cá e pra acolá, [os coveiros] condenando as fazendas).
No âmbito da prática social, o segmento denuncia a exposição a situação degradante de maus tratos até na hora da morte (enterrado vários peões sem trecho...), e retenção de documentos (sem documento, sem nome inclusive), como as razões da morte não são explicitadas no trecho, há a possibilidade de ocorrência de outras características, como o isolamento geográfico, por exemplo, posto que teria nome se estivesse em contato com familiares.
Os segmentos 4 e 5 apresentam a modalização apreciativa, tanto na voz do autor empírico, quanto na voz dos personagens.
No segmento 4, temos a ação ocorrência marcada pelo discurso interativo.
O tema tratado são as condições do alojamento, marcada pela modalização apreciativa (O alojamento aqui é muito ridículo), que permite-nos perceber a discordância clara quanto a situação, enfatizada pela intensificação da descrição que faz do local (muito quente, com telha Brasilit muito baixa) e pela percepção da condição degradante (ficavam com rede com mau cheiro) e exploração dos trabalhadores (eles não têm tempo).
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No âmbito da prática social, destaca-se demonstração dos itens alojamento (muito quente, sem ventilado, com telha Brasilit muito baixa), riscos de doenças e maus tratos (a mesma rede pra fica a safra toda ... semanas e semanas sem lavar).
No segmento 5, que trata do pagamento, temos a figura de ação acontecimento passado, que capta o agir em retrospectiva pela sua singularidade, e a ação experiência, que apreende a cristalização pessoal de múltiplas escolhas e de suas maneiras de fazer que transgredem a singularidade das situações. Ambas as ações são marcadas pelo relato interativo, com forte implicação do actante com relação ao ato de produção e disjunção com as coordenadas do mundo, da ordem do narrar.
O tema, o pagamento, é o mesmo abordado pelos trabalhadores, no segmento 5 e 6 (salário e forma de pagamento), do documentário Bagaço. Reitera, com modalizações apreciativas, o que é dito pelos trabalhadores (sai olhando os holerite de cada um. O que eu achei que tinha ganhado mais dinheiro, 216 reais). As falas dos personagens evocados corroboram a desaprovação (não tem altura eu tá gastando de eu tá ganhano só isso que eu ganho aqui). O autor empírico também avalia negativamente o tema (Ele tinha ganhado só 180 reais).
No âmbito da prática social, o segmento foca no salário pago aos trabalhadores da cana e apresenta marcas de indignação do actante, autor empírico (tinha ganhado só 180 reais) e investido do cargo de fiscalizador que se opõe à prática (saí olhando os holerite), mesmo que com uma marca de um acontecimento passado pontual (teve uma vez), ela é ilustrativa e mostra uma desconfiança de que a prática da escravidão ocorre. A ação é representada pela indignação e pela tentativa de preservar os trabalhadores, já que ela se reveste do caráter de fiscalizar o salário pago. Dada a sua condição, de trabalhar no sindicato, isso prenuncia uma ação real a ser tomada pelo órgão que representa.
3.2.3.4.1 Figuras de ação dos depoimentos dos envolvidos (entorno)
Os segmentos 1 a 5 do entorno revelam um grau de conscientização maior do que aquele visto nos trabalhadores. A conscientização é marcada pela figura de ação definição (segmentos 1 e 2), em que temos uma marca de desaprovação da situação de escravidão vinda da voz social, ou seja, há uma aproximação maior do conceito de cidadania e, por conseguinte, de esclarecimento sobre direitos e deveres.
A discussão acontece na forma de desaprovação (Então qualquer tipo de trabalho que não respeita plenamente essa dignidade é trabalho escravo) com a clara percepção dos papéis dos envolvidos para a manutenção da prática e a comparação com outros
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elementos do mundo (ele [o gato] conta como os olhos dono de pensão). Estes, os gatos, representam uma forma de cerceamento da liberdade física e intelectual do trabalhador.
A figura de ação definição (com marcas de reflexão, seja de suporte, seja de alvo de uma redefinição feita pelo actante) revela a representação dos depoimentos do entorno como associada à visão vista na legislação, na organização digna da sociedade e reconhece a exclusão do trabalhador da cana de açúcar deste cenário. A atividade de exploração do trabalhador é uma apresentada como desestruturante da sociedade. Os segmentos 2 e 3 apresentam a figura de ação ocorrência (o agir é captado através de dimensões particulares e específicas e é apreendida de forma contígua à sua textualização), em que os depoimentos do entorno reforçam, com a voz do autor empírico, a desaprovação consciente das situações vividas pelos trabalhadores (Os alojamento aqui é muito ridículo, ficavam com rede com mau cheiro). Reforçam a perspectiva de exclusão já apontada nos segmentos 1 e 2, e ilustram a exclusão com provas contundentes desta prática (Eu tenho experiência de ter enterrado vários peões sem trecho ... sem caixão, sem documento, sem nome inclusive).
Os depoimentos fazem um exame crítico da opressão e consciente da organização social do trabalho. Indicam a consciência do coletivo e da função de cada um na cadeia produtiva. Embora não sofram a escravidão, a conhecem bem e dela tratam como agentes que participam como coautores “que conhecem, compreendem e avaliam essa situação da mesma maneira” (CLOT, 2006; p. 41).
A prática social exclui e relega o trabalhador a uma posição inaceitável, visto pela presença de modalizações apreciativas (conteúdo temático avaliado segundo o mundo subjetivo) que examina as atitudes socioprofissionais que assiste. Criam desapreço ao sistema da prática social (Ele tinha ganhado só 180 reais) e sentimento de compaixão com os trabalhadores a garrafa de pinga (ininteligível) para criar ânimo e coragem na hora de enterrar o companheiro)
As figuras de ação captam as impressões dos depoimentos do entorno e revelam a filiação às concepções de que o trabalho não pode desrespeitar o trabalhador, porque o “O trabalho não é uma atividade entre outras. Exerce na vida pessoal uma função psicológica específica” (CLOT, 2006, p. 12).
Revelam que a opressão a que esses escravos modernos são submetidos é uma maneira de amputação da sua capacidade de agir e da sua histórica coletiva (CLOT, 2001, 2006, 2010), de sua representatividade como cidadão. Como as atividades do trabalho são dirigidas, as figuras de ação nos mostram a reprovação da prática. Indicam
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que os agentes do entorno são conscientes da estrutura organizacional das relações trabalhistas dignas e não as encontra na prática da escravidão moderna.
A atividade dirigida participa portanto de três vidas ao mesmo tempo (a do objeto, do sujeito e a dos outros), mobilizando o gênero de atividades adequado à situação. No entanto, é necessário vê-la como um todo singular em que cada um dos elementos tem sempre os dois outros como pressupostos. (CLOT, 2006, p.102).
As representações do agir humano aqui analisadas nos encaminham para a percepção de que, no entorno, a observação do objeto do trabalho, do sujeito que o executa, e a dos outros, os opressores, compõe uma forma de promover agentividade.
Vemos, porém, que os trabalhadores não possuem agentividade quando vistos pelos agentes do entorno.
3.2.3.5 Considerações a respeito da utilização do ISD como ferramenta para a