Na busca de uma caracterização mais qualitativa das abordagens feitas pela revista Ocas no período compreendido pela amostragem estudada nesta dissertação, buscou-se uma observação mais cuidadosa sobre a utilização das fontes nas matérias e entrevistas feitas ressaltando os vínculos e os contextos de apresentação das fontes. Foram consideradas, para esta categoria, apenas as fontes que têm posicionamentos claros acerca de questões relacionadas à desigualdade e à exclusão sociais47. Os relatos, opiniões e depoimentos sobre situações de risco sociais também estão sendo considerados nesta categoria, ao se considerar os narradores desse tipo de texto também fontes.
Destaca-se que todas as matérias publicadas na seção “Cabeça sem teto”, por tratarem exclusivamente de situações que envolvem a questão da vulnerabilidade social, apresentaram fontes que abordavam a questão. Já nas reportagens e entrevistas de capa, o tema não faz parte de sua estrutura editorial. No entanto, das 12 edições estudadas, apenas quatro não abordavam de maneira direta ou indireta a questão da vulnerabilidade social na reportagem/entrevista da capa. São elas: edição número 63, que traz entrevista com a cantora Zizi Possi; edição número 66, que publica entrevista com Milton Nascimento; edição número 69, referente à entrevista com Marcelo Tas; e edição número 72, que traz a entrevista com o cartunista Paulo Caruso. Em todas as outras edições, o tema da desigualdade aparece de forma direta ou indireta: seja por meio de perguntas feitas a entrevistados, ou pelo próprio tema da reportagem48.
Identificou-se três tipos de fontes nas seções estudadas: 1) fontes favoráveis à linha editorial da revista; 2) fontes que contextualizavam a linha editorial, fornecendo dados; 3) fontes em contraposição à linha editorial. Os dados quantitativos mostram que a utilização de fontes é desequilibrada, numa clara tendência a priorizar as vozes que buscavam reproduzir e refletir sobre perspectivas críticas em relação à exclusão e desigualdade sociais.
ANO 2009
Tipos de fontes Número
1) fontes favoráveis 24
47 O detalhamento do contexto de fala de todas as fontes que aparecem na revista se encontra na “Descrição do material analisado” na seção “Apêndice”.
48 Em todas as cinco reportagens publicadas nas capas das edições da revista Ocas ao longo dos dois anos estudados, a questão da vulnerabilidade social estava no cerne do tema central das reportagens.
2) fontes de dados 6
3) fontes de contraposição 1
Quadro 3: Tipos de fontes na revista Ocas: 2009. Fonte: pesquisadora
A única fonte que foi utilizada de forma a se contrapor uma perspectiva apresentada pela revista ocorre apenas na matéria “Antes que o frio doa...” (nº65, maio/junho 2009, “Cabeça sem teto”), em que uma representante da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) de São Paulo fala sobre as expectativas da “Operação Frentes Frias”, defendendo e explicando a estratégia adotada pela prefeitura para o contexto em questão (o enfrentamento das baixas temperaturas por parte da população em situação de rua). Mesmo buscando o contraponto da prefeitura municipal, o texto ressalta as lacunas da operação, tanto ao selecionar seis depoimentos de moradores de rua – reforçado pelo relato do próprio autor do texto, quanto ao ponderar a eficácia da operação no penúltimo parágrafo do texto explicativo complementar:
Não há, entretanto, como garantir o atendimento em todos os casos, mesmo nos dias de frio intenso: ‘Se for avaliado risco de morte pelo profissional durante a abordagem e houver recusa de ajuda, a pessoa assinará um termo de responsabilidade’, explica a funcionária da SMADS. (“Antes que o frio doa...”, Revista Ocas, nº65, maio/junho 2009, seção “Cabeça sem teto”)
As fontes favoráveis foram também identificadas em função de suas inclinações no contexto em que foram ouvidas: numa perspectiva de denúncia da exclusão e desigualdade sociais ou pelo viés do destaque de contextos de superação de tais conjunturas. Em 2009 houve um equilíbrio: das 24 fontes favoráveis ouvidas, 12 buscavam destacar exemplos de superação por meio de ações assistenciais, e as outras 12 assumiram um tom mais denuncista.
Já em 2010, o número de fontes aumentou, e o cenário também teve uma leve modificação conforme o quadro:
ANO 2010
Tipos de fontes Número
1) fontes favoráveis 37
2) fontes de dados 5
3) fontes de contraposição 3
As três fontes consultadas como contraposição aparecem numa mesma matéria que compõe a reportagem de capa da edição número 70 (março/abril 2010). A matéria, intitulada “A história se repete” denuncia a inadequação do tratamento recebido por moradores de rua. A primeira fonte ouvida em contraposição a essa denúncia é a Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop), que nega a acusação de violência e preconceitos no tratamento dos moradores de rua. A segunda fonte é o site da própria prefeitura municipal, que mesmo representando o governo – portanto, apoiador das medidas tomadas – é utilizado para destacar relatos presentes em releases oficiais que confirmam a falta de cuidados no tratamento com a população em situação de rua, como a informação sobre apoio recebido da polícia na abordagem e a apreensão dos pertences dos moradores de rua. Por fim, a terceira fonte é Fernando William, secretário municipal de Assistência Social, que defende as operações e oferece informações sobre investimentos em projetos que buscam atender a população de rua; no entanto, o texto sugere que o posicionamento do secretário é duvidoso, ao questionar implicitamente, no final do texto, a postura do secretário ao longo da entrevista: “Durante a entrevista por telefone, William diversas vezes chamou de hipócritas os que criticam as ações do “Choque de Ordem”. Segundo ele, as mesmas pessoas que dizem discordar da iniciativa reclamam quando tem alguém morando na sua rua” (“Outro lado”, texto complementar de “A história se repete”, Revista Ocas, nº70, março/abril 2010, seção “Capa”).
Ou seja, a utilização de fontes que potencialmente poderiam trazer à tona complexidade do que seria o combate à exclusão social se dá a partir de um pressuposto já consolidado na linha editorial da revista, ou seja, a inoperância dos governos frente à questão das pessoas em situação de risco social. Esse pressuposto pode até se basear em experiências muito latentes no dia a dia de quem vive nas ruas, e de quem acompanha tal realidade, no entanto, leva à condenação dos aparatos estatais para enfrentar o problema, depositando implicitamente as expectativas de superação em programas e entidades assistenciais, o que, apesar de ter sua validade na experiência sensível, não garante a existência (ou, antes, a cobrança) de medidas estruturantes que façam parte do cotidiano das pessoas, por meio principalmente, de ações estatais.
E é nesse contexto que também as fontes favoráveis se apresentam nas matérias do ano de 2010. Das 37 contabilizadas, 19 estavam relacionadas a relatos de superação da condição de risco social por meio de ações de assistência, e 18 faziam referência a contextos de denúncia.
Ao se observar a utilização das fontes na revista Ocas de uma forma genérica, pode-se inferir que a publicação se preocupa menos em fornecer um panorama amplo do que
representa o problema da exclusão e desigualdade sociais nas grandes cidades onde circula – São Paulo e Rio de Janeiro, do que simplesmente dar visibilidade a tal problema sob a perspectiva de ações de assistência e voluntariado, a exemplo do próprio projeto que sustenta o periódico, a OCAS – Organização Civil de Ação Social. Isso distancia a Ocas do exercício jornalístico clássico, de apresentação das várias facetas oponentes de um fato de forma “imparcial”, mas também a afasta da possibilidade de uma construção narrativa mais complexa sobre a realidade. No entanto, a forma como se utiliza das fontes aproxima a revista Ocas das caracterizações de um produto jornalístico midiático, que busca a autorreferência – no caso, o projeto de voluntariado e assistência OCAS – como estratégia para lidar com as novas configurações societárias que se impõem na contemporaneidade.