Fonte: site da Fazenda Pinhal
Na década seguinte, as peças arroladas eram ainda mais sofisticadas, por exemplo, cadeiras austríacas, mesas de mármore, guarda-louças com portas de vidro e
guarda-roupas. Entre os utensílios, como preocupação com o requinte, nota-se a presença de aparelhos de jantar e de chá, de pratarias e de cálices de cristal, por exemplo. A figura 09 traz o referido piano, que foi usado para a educação dos filhos e netos do Conde e ainda permanece na sede da fazenda do Pinhal.
Lapa (1983 apud GORDINHO, 1985) assinala que ocorreram mudanças não nos produtos de consumo, mas na própria decoração e nos objetos da casa, que foram tornando-se mais sofisticados:
As paredes internas eram ornadas com gravuras e quadros, sendo a decoração completada com espelhos, candelabros de prata, lustres e mobiliário trabalhado, com muitas peças de procedência estrangeira, cristais, tapeçarias, porcelanas de Sèvres, que com o tempo foram substituindo as de fabricação local, mais rústicas. Um piano conquistou um canto da sala. (p. 64)
Havia também uma demanda por produtos finos europeus. Depoimentos de membros da família Botelho, por exemplo, relatam o consumo de produtos importados como a manteiga De Mani, o vinagre Des Îles, o azeite, a farinha de trigo, velas de
Clichy, fósforos Jean Copimks, sabão de Marselha (ARANHA, 1966, p.83).
No final do século XIX, principalmente entre 1870 e 1880, é o período em que se dá o maior expansão das ferrovias paulistas, o que, segundo Martins (1990), foi um dos fatores mais importantes no desenvolvimento do interior da Província de São Paulo. A estrada de ferro, essa atraente novidade tecnológica e econômica, chegou a ser referida na literatura e na poesia como “arauto da luz” (CASTRO ALVES,
Espumas Fluctuantes). A propagação da teia ferroviária deveu-se ao interesse de
empreendedores nacionais interessados em aumentar o lucro de suas lavouras, em diminuir os custos com transporte de seus produtos e diversificar o capital agrário em
novos projetos comerciais e financeiros, envolvidos com reformas sociais e políticas (MARTINS, 1990).
Temendo que os trilhos da Companhia Paulista se dirigissem para outros rumos, o que dificultaria a interligação com a região de suas fazendas para o escoamento da produção, Antônio Carlos empenhou-se sobremaneira para viabilizar o seu projeto da ligação entre São Carlos e Rio Claro. Para tanto, ele fundou a Companhia de Estrada de Ferro de Rio Claro juntamente com o engenheiro, então recém-formado, Antônio Francisco de Paula e Souza, que mais tarde exerceu o cargo de primeiro diretor da Escola Politécnica em São Paulo. A expansão das ferrovias, às vezes, dava-se sem a subvenção governamental, como no caso da Companhia Rio Claro, criada por Antônio Carlos de Arruda Botelho.
Entre aqueles que investiram seus dividendos na construção e expansão das linhas ferroviárias estão, por exemplo: Saldanha Marinho, que liderava o Partido Republicano; Antônio Queiroz Telles, que encetou a imigração; Luiz Mateus Mailasky, empresário dinâmico do setor algodoeiro e fundador do Gabinete de Leitura Sorocabano; Antônio Carlos Arruda Botelho, que então era um dos líderes do Partido Liberal (MARTINS, 1990) e que, em 1879, recebeu o seu primeiro título de nobreza, o de barão do Pinhal.
Conseguidos os recursos junto aos fazendeiros da região, Governo Imperial concedeu no ano de 1880 o privilégio para a construção da ligação entre Rio Claro até a região de Brotas e Jaú, passando por São Carlos, próximo às terras de Antônio Carlos e demais amigos e familiares. Truzzi (2000), ao comentar a definição do traçado da estrada de ferro, faz o seguinte comentário: “Além de influenciar o Governo
Imperial, no sentido deste fazer vir os trilhos da ferrovia até São Carlos, o Conde do Pinhal, como representante de um vasto conjunto de oligarquias locais, determinou o traçado que melhor conviria aos interesses de seus amigos e parentes fazendeiros” (p.83).
Nessa época, Antônio Carlos prestou uma outra contribuição importante para a história de São Paulo, que foi a aprovação de um projeto para o levantamento para elaboração das Cartas geográficas, topográficas, itinerárias, geológicas e agrícolas
da Província de São Paulo. Não se dispunha de mapas completos sobre a Província.
O trabalho de elaboração da carta geográfica de São Paulo só terminou por intermédio de seu filho Carlos José Botelho, já nos 1900. Em 21 de abril de 1880, São Carlos do Pinhal foi elevada à categoria de cidade.
O período de expansão das ferrovias também foi, segundo Martins (1990), um período de transformação sociocultural das cidades da Província. Nas localidades em que chegavam os trilhos, as informações chegavam mais rapidamente, as companhias de teatro se apresentavam e nasciam entidades associativas, tais como clubes recreativos, políticos e literários, e os gabinetes de leitura. O tipo de entidade mais comum nessas cidades eram as associações musicais, seguidas das associações literárias. A capital, por exemplo, possuía dezoito entidades; Campinas, então centro econômico da região, possuía trinta e uma; e São Carlos, cidade em que se situa a presente pesquisa, quatro: o Club Concórdia Familiar – do qual Bento Carlos, irmão caçula de Antônio Carlos era um dos membros fundadores e que mantinha um gabinete de leitura - o Círculo Literário Valentim Magalhães, a Sociedade Artística Beneficiente e o Club dos Rabecões. Pelo que consta, o Club Concórdia era um dos
principais. Era, no entanto, extremamente seletivo e em oposição a ele foi criada a associação “Democrática”. De nome sugestivo, esta nova entidade alardeava que o seu maior mérito estava em franquear o acesso a todos. A seleção de seus membros era baseada apenas na “honradez, na moral e no civismo” (NEVES, 1984, p.13).
Além das associações, a Escola Normal Secundária são-carlense fomentava a vida cultural da cidade, promovendo conferências e organizando apresentações de grandes oradores daquela época, como Coelho Neto, Alberto Faria, Cassiano Ricardo, Martins Fontes, Plínio Salgado, Amadeu Amaral, Menotti Del Picchia e Malba Tahan, servindo assim como “verdadeiro cenáculo de onde irradiavam não só as luzes de cultura, mas, principalmente, de boa e vibrante oratória, tão ao gosto do tempo” (NEVES, 1984, p.45). A criação da escola também fomentou o surgimento de inúmeras publicações literárias na cidade. A existência de entidades desse tipo demonstra a importância atribuída à cultura e ao livro naquela sociedade no período.
Na última década dos 1800, um viajante estrangeiro, ao passar pela cidade de São Carlos, fez a seguinte observação:
Logo depois, contraste surpreendente, percebemos a mansa colina de São Carlos, salpicada dos focos elétricos da jovem cidade de São Carlos do Pinhal, que não era senão um vilarejo em 1875, é agora uma verdadeira cidade e deve tomar um grande desenvolvimento. Encontram-se nela já diversos médicos, farmacêuticos, notários advogados e jornalistas... em uma palavra, todos os flagelos da civilização. Possui até um café-concerto e no cartaz posto à porta deste honesto estabelecimento, vejo em letras maiúsculas: “Cançonetas do gênero por Mademoiselle Nini dos concertos de Paris. Importação caracteristicamente francesa, que certamente não paga alfândega...” (L’Etat de Saint-Paul et son café, p.128 apud AMADOR, 1997, p.88)
Em 1882, Antônio Carlos foi eleito presidente da Câmara Provincial de São Paulo, para um mandato de dois anos. Durante esse período, ele foi agraciado com mais um título, o de Visconde do Pinhal. Em 1884, foi inaugurada a interligação entre Rio Claro e São Carlos, chegando a Araraquara em 1885 e a Jaú em 1887 (veja figura 10).