• Sonuç bulunamadı

NH 3 ile bazikleştirme ( pH= 11 )

H- NMR spektrumunda 1 ve 2 nolu bileĢikten farklı olarak 6 ppm civarında olefinik protonlara ait olan protonlar gözlenmemiĢtir Bunun yerine 3-4 ppm

1 ve 2 nolu bileĢikten farklı olarak bu bileĢikte olefinik protonların sinyallerinin

Quando decidimos lançar um olhar sobre a questão da identidade cultural no município em estudo, encontramos um fato curioso: os apelos identitários associados à tradição rural aparentemente se ampliavam na mesma medida em que a modernidade econômica avançava sobre o território osasquense.

O município permaneceu como subdistrito de São Paulo até 1962, de forma que sua emancipação política é relativamente recente. No ano imediato surgiu um lema de caráter identitário que anunciava “Osasco: Cidade Trabalho”, cuja presença se reproduziu em importantes símbolos cívicos como o brasão de armas, a bandeira e o hino municipal. Curiosamente, no ano de 2007, o município recebeu outro título identitário, sendo reconhecido junto à Assembléia Legislativa de São Paulo como “Capital da Viola”. Este instrumento musical é muito popular no interior do país, sendo também conhecido como viola caipira ou viola cabocla.

Uma observação superficial desses fatos nos causaria estranhamento, pois trata-se da sobreposição de um signo urbano por outro essencialmente rural, estabelecidos em contextos territoriais aparentemente contraditórios: na década de 1960, quando surgiu o primeiro emblema “Osasco: Cidade Trabalho”, apesar da elevada expressão econômica alcançada pelas indústrias locais, os relatos descrevem amplas extensões de terras devolutas e um estágio de urbanização incipiente no município; por outro lado na primeira década do século XXI, quando surgiu o segundo emblema “Osasco: Capital da Viola”, já não existia mais sequer a zona rural no município, extinta oficialmente em 1978. Qualquer esforço de análise através do determinismo ambiental encontraria aqui o seu limite teórico, já que o espírito humano não parecia corresponder às ‘vocações’ impostas pelo espaço geográfico.

A abordagem culturalista nos sugere outro caminho de reflexão: ela aponta para a origem da população migrante como elemento chave na compreensão desses predicados, pelo menos no que diz respeito ao emblema mais recente que qualifica o município como capital da viola. Sabe-se que parcela significativa dessa população migrada para a região de Osasco entre as décadas de 1940 e 1960, era natural do interior paulista, onde predomina a cultura caipira. Esse dado instigou a possibilidade de que o título identitário refletisse a presença marcante do elemento caipira na cultura local, mas a aceitação dessa “conformação do sujeito a padrões culturais” (BRITO-HENRIQUES, informação verbal71) prevê uma idéia de

continuidade que nem sempre corresponde ao dinamismo cultural efetivo, podendo abrigar algumas armadilhas teóricas.

Osasco nos fornece alguns exemplos em relação a isso: torna-se curioso pensar que Antônio Agú, fundador da vila, reconhecido pelo seu espírito empreendedor na implantação das primeiras indústrias locais tenha nascido num vilarejo italiano, também chamado Osasco, que permanece rural até nos dias de hoje; e que, de outra forma, Hirant Sanazar, primeiro prefeito eleito no município, tendo exercido uma série de ocupações urbanas (professor, advogado e vereador) tenha sido lembrado na memória popular como um notável cavaleiro. Estes exemplos servem apenas para compreendermos que as lacunas serão sempre numerosas se trabalharmos com a ideia da cultura como algo que recai sobre o sujeito ao invés de algo que é produzido por ele através de suas interações.

De acordo com Brito-Henriques (informação verbal72) seria um equívoco “entender a cultura mais como um objeto do que como um processo”. Neste sentido, a cultura estaria continuamente em construção: ela seria “uma teia na qual estamos imersos e que nos condiciona, mas que nós também estamos tecendo” (Brito-Henriques, informação verbal73).

71 BRITO-HENRIQUES, Eduardo. Problemas atuais da Geografia Cultural. Disciplina acadêmica. Programa

de Pós-Graduação em Geografia Humana. Universidade de São Paulo. São Paulo: outubro, 2013.

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Ibidem

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Retomando o apontamento inicial deste capítulo, sobre a ampliação dos apelos identitários de maneira concomitante ao avanço da modernidade no espaço local, nos lançamos a algumas reflexões possíveis. De acordo com Damiani (2000, p.24), a modernidade sempre esteve mesclada à reprodução das culturas tradicionais, tanto em São Paulo como no restante do país. Neste sentido a autora menciona as idéias de José de Souza Martins, sugerindo a existência de “uma assimilação e integração do que é diverso e, inclusive, antagônico” (DAMIANI, 2000, p.25).

“No caso brasileiro, o grande passo no sentido da modernização, que foi a Revolução de 1930, com sua centralização política e sua política econômica desenvolvimentista, procurou se legitimar na cultura popular e nas tradições, que se tornaram, por isso, raízes culturais do nosso nacionalismo.” (MARTINS, 2008, p.28-29)

O depoimento do senhor Vrejhi Sanazar, irmão do primeiro prefeito eleito, demonstra como essa idéia alcança correspondência nos processos que se desenvolveram em Osasco, revelando como essa modernidade associou-se de maneira íntima ao fortalecimento de elementos culturais de origem rural atuantes na região:

Hirant [Sanazar] tinha por vontade, por determinação dele, como homem cívico [e] patriótico, fazer coisas voltadas para a brasilidade, para a nacionalidade. Dentro deste espírito, ele montou em 1962, por exemplo, JUCO [Juventude Cívica de Osasco], a Corporação Musical Santo Antônio de Osasco e também o Clube dos Cavaleiros e Charreteiros de Osasco. Esse clube teria hoje [mais de] 50 anos de existência, que nada mais é do que a união de cavaleiros e charreteiros que devotavam amor ao cavalo, o animal nobre, e que normalmente faziam festas como o 07 de setembro: [eles] desfilavam na avenida dos Autonomistas, reunindo centenas de cavaleiros que se regozijavam pela data magna da liberdade, da Independência do Brasil. [...] Então, eu era garoto, [mas] eu já participava dos desfiles e fazia a locução dos carros de som que iam à frente anunciando para população. Por exemplo, [eu] me lembro [de] alguma coisa assim: “Alô amigos, não deixe de sair à porta da sua residência para ver o desfile dos cavaleiros da emancipação de Osasco, estamos rumando para o desfile do sete de setembro...” (entrevista 22 - Vrejhi Sanazar)

Ainda neste sentido, os relatos da época atestam que os paulistanos não reconheciam o subdistrito de Osasco como território pertencente à capital, o que aborrecia a população local. De acordo com Brito (1996), em 1948, o posto fiscal denominado “barreira da paineira” exigia que os motoristas apresentassem notas fiscais alegando que eles prosseguiriam por terras do interior.

Consta que para qualquer tipo de mercadoria destinada a Osasco, era obrigatório um exame na “barreira” então existente na Avenida Vital Brasil. Essa “barreira” era um posto fiscal e toda mercadoria (sal, açúcar, farinha, etc) deveria ter nota fiscal correspondente para ser liberada (OLIVEIRA e NEGRELLI, 1992, p.33)

O depoimento de alguns participantes procedentes do interior paulista nos revela que também havia uma percepção negativa sobre Osasco em suas cidades de origem. Alguns relatos, obtidos no contexto do grupo focal, descrevem a região na década de 1960, como “terra de ciganos e índios”, grupos culturais que carregavam, nesta época, um estigma social relacionado ao perigo. Os relatos abaixo demonstram essa impressão:

[Eu vim] aqui em Osasco no finalzinho de 1951. Quando eu pedi a conta na firma que eu trabalhava lá [em Jundiaí], eles falaram para mim: “Você vai

para Osasco? Vão te roubar a tua filha” e todo mundo falava, Osasco tinha uma fama terrível e tem até hoje. [Eu] não abria nem a porta, quando [eu] saía, [eu] ficava com a minha filha assim [apertou os braços] de medo que roubassem ela, depois [eu] fui conhecendo, vi que não era nada disso. (entrevista 09 – Júlia Zamfolim)

Essas informações nos levaram a refletir sobre a possibilidade de entender o emblema “Osasco: cidade-trabalho” como uma estratégia política que buscava transformar a percepção das pessoas sobre o novo território, substituindo a ideia de um vazio demográfico e do perigo iminente pela perspectiva da oportunidade. A Geografia Radical Marxista nos convida a visitar esse panorama quando afirma que as formas culturais podem constituir respostas ao interesse dos grupos que se encontram no poder, neste sentido “a cultura é o domínio da ideologia e, portanto, tende a ser um instrumento da hegemonia” (Mitchell, 200074 apud

Brito-Heniques, informação verbal75). O texto de Dora Shellard Corrêa que associa a origem desse emblema a uma revista local, reforça essa perspectiva:

A Revista Osasco foi criada em junho de 1963 para ser uma revista informativa e promocional de Osasco. Heliodoro de Vicenzo, coordenador e responsável pelo magazine, e sua equipe queriam mostrar a pujança da nova cidade, emancipada de São Paulo fazia apenas um ano. Já no primeiro número apareceu na capa o slogan “OSASCO – CIDADE TRABALHO” criado por seu editores e oficializado posteriormente por uma lei municipal em 1968 (CORRÊA, 2013)

A explosão demográfica que acompanhou a expansão do parque industrial local também nos permite refletir o emblema “Osasco: Cidade Trabalho” a partir de outro prisma de observação: as oportunidades de trabalho aparecem como motivação importante no que diz respeito à decisão de partida de inúmeros indivíduos que migraram para essa região. Essa grande recorrência da experiência migratória nas histórias de vida poderia ter favorecido o reconhecimento do trabalho enquanto importante elemento de identidade coletiva. De acordo com Brito-Henriques (informação verbal76) “a identidade partilhada por vários sujeitos torna- se uma identidade coletiva” e o trabalho se tornou um importante referencial do que seria um modo de vida osasquense para os grupos pioneiros.

Na esteira deste mesmo pensamento, considerando que o sujeito migrante se depara com uma pluralidade de modos de vida, mas compartilha uma experiência comum que é a migração, poderíamos reconhecer no deslocamento um ponto de identidade. Quando observamos o elevado destaque que a música sertaneja ganha no calendário oficial da cidade, assim como a menção da viola no segundo emblema identitário, poderíamos compreender que essa ampliada aceitação talvez estivesse associada ao tema do deslocamento que nela predomina.

75 BRITO-HENRIQUES, Eduardo. Problemas atuais da Geografia Cultural. Disciplina acadêmica. Programa

de Pós-Graduação em Geografia Humana. Universidade de São Paulo. São Paulo: outubro, 2013.

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De acordo com Pimentel (1997, p.209-220), uma das distinções possíveis entre a música caipira e a música sertaneja encontra-se nos temas abordados por suas letras: enquanto a música caipira se concentra nos elementos de um cotidiano conduzido por “mínimos vitais”77, a música sertaneja, ao contrário, descreve uma personagem sem morada fixa.

Segundo o autor “o que o define como personagem é precisamente a sua condição de executor da travessia. Sempre daqui para ali, sempre viajando de um lugar para outro [...]”

É preciso considerar que os estudos culturais envolvem sempre enorme complexidade. Seria imprudente guiarmos nossas reflexões sobre a formação da identidade cultural osasquense exclusivamente pela ênfase dos seus títulos identitários. De acordo com Brito- Henriques (informação verbal78), os estudos culturais não podem se limitar à abordagem das representações, pois a questão das identidades é muito mais complexa. Podemos afirmar que os títulos identitários expõem, portanto, apenas alguns olhares possíveis sobre a cultura local.

Em relação à população de Osasco, a inspeção sanitária realizada em 1939, afirmava:

A população de Osasco é, em sua maior parte, constituída por italianos ou descendentes. De início a predominância dessa nacionalidade foi completa, o que é compreensível, pois seu fundador foi um italiano. Com a abertura de diversas indústrias, afluíram a Osasco diversas correntes migratórias. Encontramos um número apreciável de russos, portugueses, poloneses, turcos, alguns alemães, sírios e suecos. Desta maneira, presentemente, o povo da região é o mais heterogêneo possível. (OLIVEIRA e NEGRELLI, 1992, p.59)

Os relatos a que tivemos acesso mencionaram, por exemplo, aproximadamente 40 famílias de origem russa que formaram um enclave nas ruas do bairro central do município na década de 1960, mas que se mudaram todas para os Estados Unidos. Outro exemplo interessante é a presença da comunidade armênia que formou um enclave no bairro de Presidente Altino. Essa comunidade imigrou para o Brasil em função da guerra e tinha a

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Dir-se-á, então, que um grupo ou camada vive segundo mínimos vitais e sociais quando se pode, verossimilmente, supor que com menos recursos de subsistência a vida orgânica não seria possível, e com menor organização das relações não seria viável a vida social: teríamos fome no primeiro caso, anomia no segundo. (CANDIDO, 2010, p.33)

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intenção de retornar à sua pátria de origem ao final dos conflitos, o que mantinha entre os seus membros uma vigorosa necessidade de preservar suas disposições culturais. Note-se que essa comunidade organizou um centro de memórias que se mantém em pleno funcionamento ainda nos dias atuais, denominado “Centro de Documentação e Memória Armênia”.

Além desses grupos, muitos outros imprimiram sua presença sobre a região, mesmo que sob uma perspectiva de passagem. Essa característica é tão intensa que mesmo as comunidades indígenas presentes no município provém de aldeamentos distantes, localizados na Bahia (Pankararé) e em Pernambuco (Parakararú), tendo imigrado para a região no mesmo contexto que os demais grupos culturais: a procura por oportunidades de trabalho. Ainda sobre a perspectiva de um espaço de passagem, sabemos que as periódicas inundações aluviais sustentaram uma realidade brejeira que manteve a região por muito tempo inapropriada à ocupação demográfica, por esta razão, temos evidências da passagem de indígenas e tropeiros, mas não do estabelecimento de aldeamentos ou pousos.

Todas as formas culturais resultam da contribuição e da disputa entre diversos atores sociais, por isso Brito-Henriques (informação verbal79) afirma que para existir a cultura, “não deve existir consenso, mas deve existir consentimento”. Considerar essa diversidade de atores sociais implica reconhecer que nem todos encontrarão representatividade nos emblemas municipais ou no calendário oficial, além de que tais “identidades não são fixas, elas mudam na forma, portanto são históricas e orgânicas” (APPIAH, informação verbal80).

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BRITO-HENRIQUES, Eduardo. Problemas atuais da Geografia Cultural. Disciplina acadêmica. Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana. Universidade de São Paulo. São Paulo: outubro, 2013.

80 APPIAH, Anthony. Identidade como problema. Palestra proferida em 11/09/12 em Conferências USP:

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A região onde se localiza o município de Osasco sempre se mostrou muito mais orientada a constituir um espaço de passagem do que um espaço de permanência demográfica. Como vimos, a presença das planícies aluviais é marcante no relevo local. Este cenário nos ajudou a compreender as particularidades da sua ocupação, pois o solo continuamente encharcado restringia as possibilidades de exploração agrícola e de expansão urbana.

Os estudos que descrevem os arredores da cidade de São Paulo, no século XIX, pouco revelam sobre o território de Osasco em seus discursos. Neste sentido, concluímos que essa área experimentava uma situação geográfica de transição entre o cinturão das chácaras paulistanas e o cinturão caipira, o que explica porque os participantes desta pesquisa relataram elementos pertinentes aos dois cinturões em seus depoimentos, embora essa área não integrasse efetivamente nenhum deles.

Os numerosos vazios demográficos derivados da condição geomorfológica local explicam, em grande parte, a baixa representatividade dos seus dispersos aglomerados nesta época. A ocupação ganharia maior relevância com a progressiva implantação de plantas industriais atraídas por três importantes atributos locais: a presença da linha férrea, cursos fluviais e terrenos planos com preços acessíveis.

A década de 1940 desencadearia uma série de transformações que, mais tarde, consolidariam a realidade urbano-industrial do atual município: a intensificação dos fluxos migratórios resultou numa verdadeira explosão demográfica, provocando o reordenamento espacial do território osasquense, de forma que as antigas fazendas e sítios foram segmentados para criação de loteamentos. O incremento populacional, entretanto, não correspondia apenas aos trabalhadores das fábricas locais, pois o baixo preço na aquisição dos

terrenos e a excelente mobilidade oportunizada pela ferrovia favoreceram a formação de aglomerados com claros vínculos suburbanos.

Essa proximidade da região com a cidade de São Paulo resultou numa forma de uso do solo profundamente vinculada com as necessidades da capital. A instalação de matadouros e frigoríficos, por exemplo, alimentava o mercado de carnes, as olarias locais forneciam materiais de construção para a expansão urbana paulistana e os armazéns reguladores de café anunciavam a importância desta situação geográfica em termos de interesses logísticos.

Este cenário também nos permitiu reconhecer a presença em Osasco de numerosas atividades primárias estimuladas pela atuação das indústrias locais, tais como a extração mineral de argilas e areias para a fabricação de tijolos e telhas, a extração vegetal de madeira para alimentar os fornos das olarias e de capim para abastecer os currais dos frigoríficos, assim como a criação de animais empregados em operações de transporte, como cavalos e carros de bois.

A agricultura osasquense nunca alcançou expressividade econômica em função da baixa fertilidade dos solos locais, de outra forma, a pecuária imprimiu uma presença marcante no território. É importante lembrarmos que Osasco participava muito mais como entreposto para comercialização de animais, do que como área de criação dos mesmos. Essa observação reforça a perspectiva de uma área de passagem, de forma que a região recepcionava criadores, grupos tropeiros, comerciantes de animais, bem como representantes da indústria de processamento das carnes. Este contexto demonstra como Osasco constituiu historicamente um espaço de interação entre realidades culturais muito distintas, representadas não apenas pelo contingente populacional migrado, mas também pelos grupos que percorriam essa região, sem instalar-se definitivamente neste território.

A questão cultural revela nesta área toda a sua complexidade, mas observamos que apesar da pluralidade de visões de mundo que se congregaram e interagiram neste espaço, as identidades rurais e urbanas sempre foram importantes referenciais no entendimento da cultura local, não tomadas enquanto dualidade, mas como elementos que guardam uma marcante coexistência histórica.

Este rural, que foi objeto de interesse central em nosso estudo, mostrou-se incipiente enquanto foi compreendido apenas como um cotidiano agrícola, ganhou força ao ser observado enquanto espaço de vinculações suburbanas, mas alcançou sua verdadeira expressividade quando foi concebido como local de origem de grande parte dos habitantes locais, tendo em vista seu deslocamento através dos fluxos migratórios.

Notamos que a manutenção de determinadas práticas culturais ligadas ao mundo rural pelos habitantes osasquenses, não implica necessariamente nessa experiência pretérita das mesmas, mas indica a existência de uma rede de transmissão dos conhecimentos e da apreciação em relação a essa cultura específica, em seus aspectos materiais e imateriais. Nesta fronteira entre o que foi efetivamente vivido e o que foi adquirido pelos processos de transmissão cultural é que a identidade osasquense se estabelece. Concluímos nesta pesquisa que o cidadão osasquense reproduz através das diversas gerações elementos de uma forte rusticidade local e não de uma ruralidade herdada. Cabe ressaltar que o conceito de rusticidade não diminui a importância desse processo, porque ele continua cumprindo plenamente a sua função social.

Outro aspecto curioso é notar que muitas vezes a retomada cultural se processa através de pessoas e/ou grupos que nunca vivenciaram um passado rural, apesar da enorme identificação que demonstram em relação a ele. O fato de algumas manifestações culturais terem sua origem vinculada à iniciativa de vetores intelectuais demonstra este processo. A intenção cultural que permeou a criação das folias de reis, por exemplo, não limitou sua

vivência enquanto real manifestação da religiosidade popular, assim como a criação da missa caipira como expressão de resistência frente à expansão da música estrangeira, não reduziu sua representatividade como manifestação espontânea da cultura local. Isso significa que tais grupos poderiam ter se perpetuado essencialmente como uma manifestação folclórica, mas expandiram sua atuação assimilando outros significados.

Essa retomada de tradições em Osasco talvez também possa representar a expressão local de um movimento muito maior que se processou em nível nacional. Sabemos que a modernidade no Brasil buscou se legitimar nas culturas tradicionais, transformando-as em símbolos do nacionalismo. Se isso ocorreu na década de 1930 com a modernização empreendida pelo governo de Getúlio Vargas, também se fez presente no contexto da ditadura militar sob a insígnia dos pressupostos cívicos. A contemporaneidade entre o surgimento de associações, como o Clube dos Cavaleiros de Osasco e a Casa do Violeiro do Brasil, e esse momento histórico nacional, nos levou a indagar sobre a possibilidade de estarem conectados, mas essa ideia é disposta aqui apenas como hipótese, não tendo sido desenvolvida ao longo da pesquisa.

Este trabalho nos permitiu a reunião de muitas informações e a conexão de uma parte

Benzer Belgeler