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Seguindo a trilha dos acontecimentos políticos dos quais a Justa Trama participa, fomos a Montevideo, no Uruguay, em fevereiro de 201198. Por se tratar de viagem atípica, em pesquisa com objeto tão complexo, sentimos necessidade de dar-lhe contexto.

Recebemos o convite para acompanhar a comitiva brasileira, já que estávamos interessadas em seguir a agenda política da rede: cerca de dez pessoas, entre representantes da Justa Trama, da Unisol Brasil e do governo estadual gaúcho99. Objetivo da missão: concretizar a formação de uma cadeia produtiva solidária binacional, que produzirá fios e tecidos a partir da reciclagem de garrafas de plástico (PET)100. Ou seja, buscava-se articular, política e economicamente, cooperativas autogeridas dos dois países e de diferentes setores. Ideia inspirada na Justa Trama, tem contornos mais ousados. Havia sido disparada por integrantes da rede, junto de outros parceiros, meses atrás, mas não vinha para engolfá-la ou superá-la. Uma das intenções era que a nova cadeia nascesse livre, política e economicamente, a partir da atuação de atores e de cenários ainda mais numerosos e diversos.

Como já foi dito, em todas as viagens presenciamos o freqüente debate de novos projetos políticos do grupo. Por isso, já conhecíamos os sonhos dos associados da Justa Trama de fomentar outras redes autogeridas e de trabalhar com fibras alternativas ao algodão, como uma forma de diminuir a vulnerabilidade da rede frente às crises do produto que, por ser uma

commodity, é muito suscetível a especulações no mercado capitalista internacional101. Esta viagem a Montevideo permitiu, portanto, acompanhar de perto parte do processo de desenvolvimento destes projetos. 102

98 Cidade estranha à cadeia, em país estrangeiro, é minha cidade natal. Este fato disparou fenômenos curiosos, do ponto de vista metodológico, afinal, a nativa ali era a pesquisadora. Sobre isto, sugerimos a leitura do item: As

viagens de campo: múltiplos deslocamentos e encontros inusitados (Cap. II).

99 Esta missão gerou considerável impacto político e midiático, especialmente na região sul do país. Veículos da chamada “grande mídia”, que pouco publicam sobre Economia Solidária, repercutiram a notícia: “Deverá ser firmado pelo Brasil e o Uruguai, com o patrocínio do governo do Estado, através da Secretaria de Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sesampe), o primeiro termo de cooperação internacional

entre empreendimentos solidários” [grifos nossos] (Diário Popular, Porto Alegre, 16/02/2011, p. 15).

100 Além das instituições brasileiras citadas acima, integram o projeto organizações uruguaias e internacionais como a FCPU (Federación de Cooperativas de Producción del Uruguay), Red del Sur e seções especializadas no tema do Mercosul.

101 Commodity significa mercadoria na língua inglesa. Atualmente o termo é utilizado para denominar aquelas comercializadas de modo homogêneo e em larga escala. Em geral são produtos primários, ou seja, de pouca ou nenhuma industrialização, cujos preços são taxados internacionalmente, em bolsas de mercadorias e futuros, sob a influência de grandes corporações capitalistas.

102 Havíamos ouvido, meses atrás, associados relatarem os graves efeitos da crise do algodão nos primeiros elos. Pouco depois, presenciamos o enunciado do projeto de trabalharem com outras fibras, como a do PET. Mais informações estão disponíveis no item Diário de Fortaleza: o encontro com a rede e com seus fenômenos.

Trataremos de apresentar, brevemente, o trajeto percorrido pelo projeto da Cadeia Binacional Solidária do PET até a viagem em questão. Primeiro, e com a agilidade que os caracteriza, associados da cadeia levaram as ideias acima mencionadas a espaços políticos mais amplos dos quais participam. Pensando em criar uma grande rede para beneficiar um espectro maior de grupos e de trabalhadores, saíram em busca de apoiadores nos diversos Fóruns de Economia Solidária, locais e regionais. Uma das dificuldades, logo identificada, era a ausência de um dos elos da futura cadeia, uma cooperativa autogerida que dominasse a tecnologia responsável por uma das etapas do processo: a transformação do flake (pequenos grânulos de PET) em fibra poliéster.

A resolução desta dificuldade foi insólita, e responde a uma pergunta muito suscitada pelo projeto: “Por que com o Uruguay?!” Casualmente, num evento sobre Economia Solidária, realizado em Montevideo, em 2010, dá-se o encontro entre trabalhadores da Justa Trama e da Cooperativa Maragata (Coopima), fábrica recuperada local que domina a tal tecnologia:

Essa necessidade que a gente tem de provar, de fato, que os trabalhadores são capazes. [...] Quando foi criada a Red del Sur, os trabalhadores da Coopima estavam lá e eu fui representar a Unisol: „Nelsa, nós queremos falar contigo.‟ Eles vieram com uns pedacinhos de pluma preta, do PET. Queriam ver como que eles podiam incorporar isso na Justa Trama. A gente conversou [...] „precisamos achar uma saída...‟ [...] A gente sempre falou que a Justa Trama tem que ir se fortalecendo e ajudando a criar outras cadeias. [...] Desde que eu comecei a ir pro Uruguai, que seja pra apresentar a Justa Trama, pra fazer discussões, ficou essa provocação, da gente pensar alguma coisa junto, dessa identidade com a gente e tal. – Nelsa (Univens), em entrevista.

Ali, voltam a vislumbrar a possibilidade de organizar a grande rede, mas em marcos binacionais, algo ainda mais desafiador: “En Brasil hay un centenar de empresas [capitalistas] que fabrican poliéster, pero si trabajáramos con ellas no estaríamos construyendo una red solidaria como Justa Trama, conformada por diferentes cooperativas y que no tiene intermediarios”, explicou Nelsa em entrevista concedida no Uruguay. Detalhe curioso, para nós, foi o título da reportagem: “Política para un nuevo mundo”103.

Em 2011, Nelsa (Univens) assume a recém-criada diretoria de Economia Solidária do governo gaúcho, com forte apoio do movimento. Deste lugar, conhece as duras condições de vida de trabalhadores da chamada reciclagem, setor mais amplo e injusto do que o nome sugere. Ela, que tanto já vivera em militâncias mundo afora, em tempos de JOC (Juventude Operária Católica), de movimento sindical ou de Orçamento Participativo, comove-se fortemente:

Quero enviar também minha indignação pelo que encontramos neste RS [Rio Grande do Sul], que às vezes achamos que já superou muitos de seus problemas sociais. Ainda existem trabalhadores que procuram nos lixões a céu aberto seu alimento. Temos companheiros catadores que se alimentam das carnes, das frutas, das folhas que sobram no lixo, o qual é disputado junto aos animais. Crianças que acompanham os pais, e a Escola não existe. Estão longe de todos os direitos, e do primeiro deles, que é comer, beber, ter um lugar decente para morar, pois moram em cima do lixão. [...] Isso é presença de gerações. Por que estamos numa sociedade tão indiferente às pessoas?! A Indignação nos acompanha nestes pagos [...] Nosso esforço é de convencer os governos, e os que têm mais responsabilidade sobre essas situações, para darmos passos firmes de mudança (Nelsa Nespolo, Comunicação Pessoal, 24/07/2011).

Desta forma, aos projetos da Justa Trama, de desenvolver novas fibras e fomentar outras redes solidárias, uniram-se mais parceiros e recursos políticos, inclusive como uma das formas de “beneficiar os companheiros catadores”, nas palavras dos associados.

À época da viagem a seguir relatada, o projeto já havia vencido algumas etapas do longo percurso que proposições ousadas como esta costumam percorrer. De início assemelham-se a delírios, como apontamos - não à toa as lideranças da Justa Trama foram tanto chamadas de “loucas”. Mas, a depender de variadas circunstâncias, como veremos, podem ganhar adeptos, pessoas que mesmo desconfiadas, apóiam a iniciativa e aportam suas contribuições. Talvez seja justamente este, o momento histórico em que o projeto da “cadeia solidária binacional do PET”, como se tornou conhecido, encontrava-se na ocasião.

Após esta viagem, no fim de 2011, Nelsa revela os avanços conquistados e confirma a leitura acima, qual seja, sobre o ganho paulatino da confiança de novos parceiros e apoiadores como algo crucial para a materialização do projeto:

[Nelsa] Néspolo resumió el proceso que se viene realizando de la siguiente forma: „Tuvimos un primer momento de curiosidad, donde todo podía ser muy interesante, pero los actores tenían dudas y no creían mucho en esto tan bonito. Ahora estamos en un momento de mucha credibilidad por parte de todos los actores, donde se ha hecho mucho recorrido en poco tiempo. En la actualidad contamos con tres polos [recicladores] que están bien amarrados, con gestores públicos locales, con contrapartidas de las prefecturas, que apoyan las iniciativas en la construcción de sus formatos jurídicos, en la gestión, en el estudio de viabilidad de las cadenas, donde cada actor construye su hilo para poder llegar al valor final, y que pueda ser un valor justo‟[comentários nossos] 104.

*

A seguir, uma seleção das passagens mais representativas desta viagem:

Na van que nos levaria à Coopima, tive a sorte de sentar-me ao lado de Eduardo, cooperado da Cooarlas - Cooperativa de Reciclagem de Canoas/RS. Muito articulado, e com uma vivacidade incomum, contou-me a história de sua cooperativa. O grupo começou com cinco mulheres desempregadas, uma delas sua mãe, em 2000. Passaram por épocas muito difíceis. Um marco importante na luta deles foi o Encontro de Catadores em Caxias do Sul (RS), em

2003105. Importante, aliás, porque organizou politicamente a categoria. Já há algum tempo,

conseguiram livrar-se dos atravessadores. Vendem boa parte de seus materiais diretamente para a indústria, já processados. Com isso, a renda e as condições de trabalho melhoraram. Hoje almejam mais, e em esferas mais amplas. Eduardo é um dos coordenadores do Setorial da Reciclagem da Unisol Brasil. Entre outras coisas, busca com seus companheiros articular grandes redes cooperativas. Uma de suas frases que guardarei: „Esse negócio de cooperativa tem que entrar, chegar no sangue da gente. E isso aconteceu comigo, sabe?‟ (sorri apontando o antebraço, palma da mão para cima). [Diário de Campo, Montevideo, 14/02/2011].

A situação acima revelou, já de início, uma pluralidade. Estava na presença não apenas de membros da Justa Trama, como nas demais viagens, mas também de representantes de outra categoria e setor que, a seu turno, estão articulados a outras redes. Em comum, a identidade como classe trabalhadora da Economia Solidária, reunidos numa missão política maior, além das fronteiras de seus respectivos grupos, redes e instituições de representação.

Ao chegar à Coopima, em San José, notamos uma aglomeração de pessoas. Havia também jornalistas e cinegrafistas de rádios e televisões locais. „Virou um evento, né?‟, Nelsa comenta. [...] Fomos conduzidos a uma grande mesa. Éramos 18 pessoas. Passamos a ouvir uma longa fala do coordenador técnico da Cooperativa sobre seus processos produtivos e possíveis aplicações [...] Depois, apenas Nelsa falou, pouco, mas bem: „O que queremos aqui é cooperar, cooperar para que todos ganhem.‟ [...] Coopima encontra-se num extenso terreno. São 20 hectares bem cuidados, onde se localizam várias edificações. Se a área externa deslumbra os visitantes, com seus largos jardins, o percurso pelo interior dos prédios, em companhia de seus cooperados, desola. [...] Bastou caminhar um pouco por ela para perceber que a fábrica estava parada há meses. Interrompida é palavra mais adequada. Alguns cooperados surgem constrangidos. Pareciam envergonhar-se disso. [...] Quanto mais avançávamos, andar por andar, sala por sala, mais indícios desta interceptação. Como se o direito ao trabalho lhes tivesse sido cassado. Matérias-prima a meio usar, máquinas a meio processar. O desconcerto cresce ao lermos em giz, numa lousa no canto da fábrica: „Hoy podemos dar más que ayer. Por nuestros hijos.‟ [Diário de Campo, Montevideo, 14/02/2011].

Foto 26. Reunião entre membros da missão brasileira e trabalhadores de Coopima Foto 27. Visita à planta industrial de Coopima

105 Tratou-se do I Congresso Latino Americano de Catadores de Materiais Recicláveis. Ocorreu simultaneamente ao III Fórum Social Mundial e reuniu 800 trabalhadores do Brasil, da Argentina e do Uruguay.

Por certo, muitos recursos foram investidos neste aparato fabril. O que mais consterna é pensar nas centenas de trabalhadores que verteram naquela fábrica suas melhores horas, por anos, atrelando a ela o sustento de suas famílias. Recentemente, os 43 trabalhadores que ousaram resistir à última grande crise e recuperar a fábrica, há pelo menos seis anos investem tudo o que têm nela. No entanto, tiveram que interromper as atividades. Não à toa, sentia-se uma aflição peculiar em seus olhares naquele encontro. Imaginamos agora o quanto deve tê- los mobilizado uma missão brasileira, composta por secretários de Estado e representantes de uma conhecida cadeia produtiva, com articulações importantes com o governo uruguaio, interessados em estabelecer com Coopima um grande contrato de cooperação106:

Depois da visita às instalações, passamos a uma nova reunião, desta vez no refeitório da cooperativa. Momento importante. Primeiro houve uma espécie de „intercâmbios de histórias‟ entre as cooperativas ali representadas. Destaque para a escuta atenta e solidária dos trabalhadores brasileiros. Aos poucos, e em meio a dificuldades idiomáticas, passam a falar dos planos em conjunto, das reais possibilidades de trabalharem em rede. [...] Eles tratam das necessidades de cada um mas principalmente da necessidade maior de terem um fator comum, motivo para uma cooperação que possa beneficiar a todos, inclusive aos recicladores gaúchos e uruguaios. [...] A conversa então se dirige ao exame da viabilidade técnica da empreitada. [...] Um entusiasmo sincero e um grande alívio toma a todos, é notável. [...] Ao final do encontro, retomam as tratativas feitas e reiteram os próximos passos. Agradecimentos multilaterais. E Nelsa fala „do sentido maior que está por trás de tudo isso‟, e interrompe a frase, me parece, propositalmente. [Diário de Campo, Montevideo, 14/02/2011]

Chamamos a atenção para os modos característicos de fazer política dos membros da Justa Trama, algo de difícil descrição, em termos factuais. Por meio de gestos inclusivos, são ouvintes atentos e têm falas certeiras, como veremos. Detém clareza de seus propósitos e diferenciam com agilidade limites e possibilidades de ação, e em diferentes tempos e contextos políticos: “isto dá pra dizer aqui”, “isto não agora” etc. Também tratam com freqüência de declarar seus princípios e valores e de marcar uma identidade comum com os companheiros uruguaios. Apresentam-se como classe trabalhadora - algo que desde já destacamos – orientada por marcos de Outra Economia. Proposição delicada, de contornos frágeis, mas um lugar ocupado por eles de modo consciente e bastante autoral:

Em termos políticos, Nelsa, inegável liderança ali, teve gestos importantes. Sempre que chamada a ir com „as autoridades‟ em outro carro, em outra mesa, declinava e permanecia com os demais. Quando perguntada „quem‟ deveria ir a tal reunião, incluía a todos. Se não fosse possível, dirigia-se ao grupo para com ele definir a situação: „Acho muito importante não dividir o grupo. É isso o que acontece e que na minha opinião não deveria acontecer: os gestores públicos se reúnem e os atores sociais não participam. É importante que eles estejam e discutam, junto com os gestores, as políticas.‟ [Diário de Campo, Montevideo, 14/02/2011]

106 Para saber mais, consultar http://www.coopima.com/quienes_somos.html Também encontra-se disponível na Internet uma matéria que relata o fechamento da antiga Polímeros Uruguayos e a fundação de Coopima:

Um dia que pareceu dois: seis reuniões, duas visitas, além de fenômenos incontáveis A agenda da comitiva foi, com efeito, muito intensa. Reuniu compromissos diversos, todos exigentes, do ponto de vista político. O curto tempo de que dispunha o grupo, o esmero na economia dos recursos empreendidos e o empenho de todos investido na missão, fizeram caber, num único dia, seis reuniões: visitas a duas cooperativas (uma de reciclagem e outra habitacional), três ministérios, além de um órgão da Economia Solidária local. Uma jornada cansativa mas muito proveitosa. A seguir, o relato de algumas passagens:

8h30 - Visita à Planta de Reciclagem e à Cooperativa Ahora se Puede. As primeiras impressões foram confirmadas pelo restante da visita. Triste realidade. Já da calçada sente-se um intenso mau-cheiro. Muitos insetos, uma infinidade. [...] A tal „coleta especial‟ parece ter também resíduo orgânico. Cachorros revolvem os sacos espalhados pelo chão junto aos trabalhadores. Selecionam os materiais agachados, sem esteira nem bancada. Tudo e todos a céu aberto. Aquele era um dia bonito de verão. Angustiou pensá-los em „días crueles de invierno‟, como dizemos os montevideanos. Que condição de trabalho é essa?! Cuidam dos restos de toda uma sociedade e assim são tratados por ela. Fomos logo apresentando-nos aos trabalhadores. Vertemos saudações, estendendo a mão. Foi evidente o constrangimento deles, o que revelou nossa indelicadeza. Um rapaz estendeu-me o antebraço, como ocorre em ambientes fabris, mas o fez cabisbaixo. Outro, ao seu lado, abriu as mãos em leque, talvez para exibir a sujeira, justificando o não-contato. Pior que sujas, estavam feridas... Era moço, suas mãos pareciam ter vivido mais que ele. [...] Um pouco atrás, observava-nos uma senhora. Sobrancelhas franzidas, personificava um alerta, logo anunciado. Apontou-nos a sede: „mejor hablamos adentro‟. Prontamente estávamos lá, nas cadeiras de plástico, dispostas em círculo. Começa a rodada de apresentação e com ela os problemas de entendimento, que pareceram maiores ali. Como esperado, fui convocada para „ajudar na tradução‟. Foi difícil fazê-lo, não pela tarefa, mas pela consternação. [...] Começa então uma tímida conversa. Pergunto a eles como surgiu o nome da cooperativa: Ahora se puede. Um deles contou que desde 2004 pensavam em organizar uma cooperativa, mas havia muitas dificuldades. Cita como marco o mesmo encontro de recicladores mencionado por Eduardo (Coarlas/Unisol), ocorrido em Caxias do Sul (RS), em 2003107: „volvimos de allá y justo la intendencia [prefeitura] nos

propuso apoyo. Entonces dijimos „ahora se puede‟‟ [...] Uma das passagens mais tocantes da visita foi o encontro de Eduardo (Coarlas/Unisol) com este grupo, mostra de franca solidariedade, de trabalhador para trabalhador. [...] Ouvi-os com atenção, ofereceu-lhes ajuda, deu boas dicas e se dispôs, inclusive, a facilitar a ida deles ao Brasil para um „intercambio‟ de saberes e experiências. Nelsa depois comentara: „Temos que entender que muitas vezes, principalmente neste setor [reciclagem], as pessoas não vêem para a Economia Solidária por escolha. Enquanto não entendermos isso... [...] A partir daí, sim, dá para trabalhar a organização, as relações com o poder público e por aí vai.‟ Este encontro, por si só, já foi uma importante experiência de intercambio político. [Diário de Campo, Montevideo, 15/02/2011]

107 As várias menções a este encontro, feitas por catadores brasileiros e uruguaios durante a viagem, chamaram a atenção. A Carta de Caxias, documento-fruto deste congresso, revela a importância do evento para a organização política da categoria que, apoiada em princípios da autogestão, busca enfrentar as precariedades de suas condições de trabalho. Destacamos, a seguir, aspectos que sugerem identidade de classe e consciência, por parte dos trabalhadores, das circunstâncias sociais e históricas que produziram as condições mencionadas: “O Congresso nos ajudou a entender o que vivemos no dia-a-dia: fazemos parte de sociedades em que valem mais as mercadorias do que as pessoas e a natureza. Só se dá valor às coisas que se pode vender para aumentar os lucros. Tudo que sobra - até mesmo as pessoas - é jogado fora. [...] Não aceitamos esse projeto dos capitalistas. [...] compromissos: 1. lutar em favor da organização de todos os Catadores e Catadoras em associações ou cooperativas; 2. intensificar o intercâmbio e a articulação [...] visando a construção de redes de cooperativas”

Foto 28. Visita à Cooperativa Ahora se puede.

Dali saímos rumo a uma visita a uma cooperativa habitacional108, no centro antigo da cidade. Em seguida, partimos para as reuniões nos ministérios, talvez a agenda de maior interesse político por parte dos organizadores da missão:

11h15: Reunião no Ministério da Indústria, Energia y Mineração - Fomos recebidos em uma das grandes salas do monumental edifício. Cenário protocolar, ambiente sóbrio e silente. Tudo muito cerimonioso. Porém, surpreendentemente, foi um dos melhores encontros. [...] Conforme os dirigentes uruguaios (FCPU) apresentavam os presentes e as intenções da reunião, a diretora do Ministério demonstrava aproximar-se das intenções do grupo: „Antes cooperativa era uma mala palabra‟. Diz enquanto traça um rápido retrospecto das relações entre as conjunturas políticas maiores e o „movimento cooperativista uruguaio‟. José Ribeiro