3.4. Araştırmaya Dahil Edilen İşletmelerin Belirlenmesi
3.4.9. Noksel Boru
O discurso do desenvolvimento sustentável ganhou força no contexto da crise ambiental criando uma forte demanda por fontes alternativas de energia. Ao tratar dos sentidos e significados intrínsecos à discussão sobre a agrocombustíveis, Moreira (2007b, p. 44) destaca que o assunto deve ser entendido na perspectiva do “biopoder e o bioespaço”, sem desconsiderar o seu viés geopolítico, visto que a expansão da produção dos chamados combustíveis limpos e renováveis ocorre, inclusive, sob a forma de
commodities, havendo para tal propósito a necessidade de reestruturar as formas de
organização da agricultura. Por outro lado, acaba por reforçar a hegemonia do capital porque organiza as relações sociais e de produção a partir da perspectiva do grande capital, desestruturando relações não capitalistas de produção, como verificamos com a atual proposta do governo baiano em seu Programa BAHIABIO, ao fomentar a produção de matéria-prima para os agrocombustíveis em áreas tradicionalmente ocupadas com lavouras para o sustento das famílias.
Nesse cenário, em que o Estado e as elites agrárias incorporam e disseminam o discurso ufanista de que o Brasil deve assumir a responsabilidade por liderar a transição da hegemonia do petróleo para os agrocombustíveis, tem-se a elaboração de novos fundamentos para justificar o paradigma produtivo, recorrendo ao discurso ambientalista para respaldar as mediações do capital em seu processo expansionista.
Essa realidade, acrescida das características hidrológicas, tem constituído um fator delimitador dos espaços a serem reconstruídos e reelaborados, para atender às demandas internas e externas em relação a determinados produtos, com destaque,no caso brasileiro, para a produção de açúcar, café, carne de frango, suco de laranja e etanol.
Especificamente no tocante à região Nordeste, a fruticultura irrigada representa o “carro-chefe” da política agrário-agrícola das áreas semiáridas, fortemente marcadas pela expansão dos perímetros irrigados e pela inserção dos agricultores camponeses nos projetos arquitetadose implantados hierarquicamente, sem que haja discussão,nas comunidades atingidas,acerca de qual modelo de desenvolvimento se adéqua à realidade local. Ao optar pelo modelo de desenvolvimento para o Semiárido pautado na agricultura monocultora e grande consumidora de água, diversos são os desdobramentos, pois, além de reduzir as reservas desse recurso, tanto no que se refere às águas superficiais quanto subterrâneas, há ainda outro aspecto igualmente preocupante que é a contaminação por agrotóxicos, pois sabe-se que a monocultura está baseada na utilização intensiva de insumos químicos. Ademais, para Marinho et al. (2011, p. 273-4), esse contexto
gera um tensionamento por mudanças socioespaciais que se materializam em transformações no modo de vida, nas relações de trabalho e no modo de lidar com a terra. Somam-se ainda as fragilidades das políticas públicas direcionadas ao homem do campo, que privilegiam o cambate às secas ao invés de promover a convivência com o semiárido. O resultado desse processo é o “surgimento” de um novo personagem no meio rural: o trabalhador do agronegócio.
Há uma harmonização das políticas públicas pautadas nos princípios neoliberais, associadas às políticas reguladoras do Estado, materializadas e entrelaçadas no espaço, com vista ao favorecimento dos “projetos de desenvolvimento eco-destrutivos63” (LEFF, 2009, p. 188). A Bahia, importante propulsora do agrohidronegócio no contexto nordestino, passa por rearranjos no âmbito da política governamental, com vistas à adequação da realidade regional, baseada na produção de commodities agrícolas (café, soja e fruticultura em ascensão), ao processo produtivo atualmente centrado no fomento aos agrocombustíveis, atendendo ao chamado do desenvolvimento sustentável para a produção de “energia limpa”. Nesse contexto, o governo do estado da Bahia lançou, em
63 Leff, 2009, p. 188 define como projetos de desenvolvimento eco-destrutivos as hidroelétricas, a expansão da
2008, o Programa Estadual de Bioenergia, BAHIABIO64, com o intuito de tornar a Bahia autossuficiente na produção de energia, sem alterar a produção de alimentos. O propósito do programa é transformar a Bahia pioneira no tocante à “substituição de energia de origem fóssil pela renovável, pois possui condições climáticas para a produção da maioria das oleaginosas para o biodiesel e a cana-de-açúcar para etanol, bem como área disponível para incremento na produção dessas matérias-primas (BAHIABIO, 2008, p. 7)”. Exemplificando essa questão, Fabrini (2010, p. 77) destaca que
[...] a produção de biodiesel se realiza no PNPB (Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel) e conta com importante participação estatal na sua realização. Governos estaduais também têm feito a gestão e investimentos para a produção de biodiesel na pequena agricultura.
A implementação desse programa tem como horizonte a incorporação de aproximadamente 2 milhões de hectares à produção de agrocombustíveis, expandindo a área agrícola pelos três domínios ecológicos (Semiárido, Cerrado e Mata Atlântica), incorporando várias bacias hidrográficas com potencial para outorga de água para irrigação (São Francisco, Rio de Contas, Corrente, Paraguaçu, Prado e Jequitinhonha). Ressalte-se que algumas dessas bacias já se encontram bastante degradadas, por conta da superexploração dos recursos hídricos devido ao seu uso intensivo para atender às demandas de água para irrigação.Entre estas, destacam-se as bacias do rio São Francisco e do Rio Corrente, sendo a primeira voltada para a fruticultura irrigada e a segunda para a produção de soja, no oeste baiano.
Esse cenário desenvolvimentista traz à tona a necessidade de discutir e/ou problematizar qual o papel do campesinato no contexto da produção de agrocombustíveis, visto que a proposta do Programa BAHIABIO acoplar a agricultura de base familiar aos interesses agroindustriais do setor de agroenergia, como se estivéssemos tratando de sujeitos iguais num contexto de relações horizontalizadas, expressas a partir da perspectiva do “agronegócio familiar”. Cabe destacar que os agrocombustíveis estão associados à “produção em cadeia e mercados globais monopolizados por corporações nacionais e estrangeiras” (FABRINI, 2010, p. 81) e, nesse universo, detectam-se fortes contradições na proposta implementada pelo Estado
64 Esse programa tem como objetivo “incentivar e desenvolver a produção de bioenergia na Bahia, visando
atender às demandas dos mercados interno e externo, através de dois subprogramas: Etanol e Biodiesel, sendo que os resíduos originados por esses subprogramas também serão computados e adicionados, através da Cogeração de Energia e Crédito Internacional de Carbono, entretanto, parte será destinada para Biomassa para fertilização (adubo orgânico) e arraçoamento animal.” (BAHIABIO, 2008, p. 8).
que, ao perspectivar o uso do território camponês a serviço do mercado de agrocombustíveis, coloca em risco os componentes territoriais (simbólicos e materiais) que foram construídos historicamente e que se expressam sob a forma de saberes e práticas camponeses – uso de sementes crioulas, uso da terra e da água, relações solidárias e produção para o autoconsumo, entre tantos outros –, como materialidade de uma lógica diferenciada da produção capitalista fundamentada na produção de mercadorias e no valor de troca. A terra e o território, trunfos para os camponeses caatingueiros, acabam sendo incorporados sob a perspectiva dos agrocombustíveis, sofrendo metamorfoses em seus componentes político, cultural e econômico, trazendo à tona as contradições do projeto brasileiro de produção de agrocombustíveis, do qual o Programa BAHIABIO é uma célula.
A expansão e a consolidação desse modelo de desenvolvimento agropecuário para as terras não contempladas com projetos de irrigação no Semiárido baiano devem ser analisadas a partir de seu componente político, pois representam a estratégia, adotada pelo capital e pelo Estado, de extrair renda da terra nos territórios camponeses, sem que haja expropriação das terras (sejam elas tituladas ou não) e de exercer controle sobre o trabalho, cujos produtos passam a ser apropriados pelo segmento dos agrocombustíveis em detrimento da produção de alimentos. Assim novas fronteiras de acumulação vão sendo delimitadas com o propósito de inserção dos lugares na lógica do capitalismo globalizado, tendo como desdobramentos dois processos extremamente danosos para os sujeitos que vivem nas terras semiáridas: primeiro, desafia a identidade da autonomia camponesa e, segundo, extrai de forma avassaladora os recursos territoriais mediante a modernização das forças produtivas, cujo processo é altamente espoliativo das populações tradicionais que historicamente ocuparam esses rincões do Semiárido baiano. Em nossa compreensão, a execução do Programa BAHIABIO nada mais é que a dilatação da fronteira agrícola no Semiárido, como estratégia para extração de renda mediante a transferência de recursos entre as regiões brasileiras, aproveitando assim da mão de obra barata, dos investimentos públicos e da manutenção das arcaicas estruturas fundiária e de poder que, ainda hoje, permanecem marcantes no Nordeste semiárido. Nesse sentido, concordamos com Brandão (2010, p. 67), quando o autor destaca que o Brasil
forjou economias urbano-regionais e rurais de natureza bastante complexa, submetidas a estruturas políticas arcaicas de um pacto de dominação, que soldou um contrato social produtor de diversas expressões de desigualdades e gerador de intoleráveis privações
materiais, atém de sufocar a reprodução ampliada de forças produtivas avançadas.
No período de 1996 a 2006, a área dos estabelecimentos agropecuários manteve- se estável, ao passo que a área ocupada pelas lavouras temporárias e permanentes ganhou um aumento acima de 50% (Quadro 6). Esse crescimento na área ocupada pelas lavouras permanentes e temporárias representa um ponto nodal para a implantação do Programa BAHIABIO, mediante a incorporação da agricultura camponesa à produção de matéria-prima para o mercado dos agrocombustíveis.
Quadro 6 - Área dos estabelecimentos agropecuários por utilização das terras na Bahia, 1996/2006
Utilização de terras Área dos estabelecimentos agropecuários (ha) Área dos estabelecimentos agropecuários (%)
1996 2006 1996 2006 Total 29.842.900 29.767.590 100 100 Lavouras permanentes 1.348.743 2.646.271 4,52 8,47 Lavouras temporárias 2.698.49 3.665.970 9,4 13,26 Áreas em descanso ou produtivas não utilizadas 2.984.290 2.016.815 10 6,77 Pastagens 14.489.768 12.901.698 48,55 46,66 Matas e florestas 7.136.561 9.301.335 23,91 33,64 Fonte: BAHIABIO, 2008. Org.: DOURADO, J. A. L., 2013.
Ainda com base nas informações do Quadro 6, detecta-se um jogo de representações, por parte do Estado, na busca do dessubstanciamento do camponês caatingueiro de seu ser, para reduzi-lo à pura força de trabalho, quando da sua incorporação ao sistema de produção de matéria-prima para a produção de agrocombustíveis. Há uma apropriação da natureza e uma captura dos sujeitos, quando os camponeses são coisificados, num duplo processo de superexploração – tanto dos recursos naturais (terra e água) quanto da força de trabalho –, que, regido pelos ditames do mercado dos agrocombustíveis, passa a ser determinado por fatores externos e definido por agentes hegemônicos. Terra, água e força de trabalho assumem valores intercambiáveis no contexto da racionalidade econômica, devido à procura de novos setores de investimentos, capazes de satisfazer às demandas expansionistas do capital. Sobre a produção de agrocombustíveis pelo campesinato, Fabrini (2010, p. 75) coloca a seguinte contradição:
[...] se de um lado, o agrocombustível produzido pelo agronegócio apresenta um conjunto de limites e prejuízos sociais, [...] movimentos camponeses, sindicatos de trabalhadores rurais e agricultores familiares têm demonstrado simpatia à agroenergia, principalmente o biodiesel, quando praticado pelos pequenos agricultores. Apresentando uma concepção diferenciada de produção de agrocombustível do agronegócio, entidades e movimentos entendem que os pequenos agricultores devem participar do projeto dos agrocombustíveis. Portanto, não são necessariamente contra a produção de agrocombustível, mas contra produção hegemonizada pelos setores dominantes no campo ligados ao agronegócio.
A proposta da implantação do Programa BAHIABIO é promover a expansão do agronegócio a partir da integração da agricultura empresarial à agricultura camponesa e essa incorporação dos territórios camponeses à lógica do agrohidronegócio tem como horizonte as áreas de produção de alimentos, que passariam a fornecer matéria-prima para a produção de etanol e biodiesel. Vê-se que, no contexto do Programa BAHIABIO, os camponeses são reduzidos à carapaça do capital esuas realidades e demandas são ultrajadas em nome de um “[...] sistema de controle reprodutivo social fetichista e alienante, que subordina absolutamente tudo ao imperativo da acumulação de capital (MÉSZÁROS, 2007, p. 41)”, camuflado no/pelo discurso da energia limpa e renovável.
Os atuais projetos desenvolvimentistas em curso no Nordeste brasileiro têm buscado mistificar ideologicamente a premissa de que as parcerias público-privadas (PPP) são a alternativa mais viável para a superação das desigualdades sociais e econômicas regionais. A Petrobrás, segundo informações da coordenação regional da CODEVASF na região de Irecê, já manifestou interesse em firmar parceria para fazer a gestão do projeto de irrigação Baixio de Irecê.
Surge, nesse contexto, um círculo vicioso de relações de dominação e subordinação, pois a agricultura praticada pelas famílias camponesas do Semiárido passa a ser mediada pela lógica perversa do capital, sujeita a regras e regulações do mercado as quais acabam por redefinir os processos e as dinâmicas locais, ficando os camponeses cada vez mais dependentes dos agentes dominantes do setor dos agrocombustíveis. Nesse diapasão, há um esforço do capital em empreender processos de sobreposição das “mediações de primeira ordem”65que caracterizam as práticas socioculturais locais a um conjunto alienante de “mediações de segunda ordem”66, subvertendo assim a interação entre os camponeses caatingueiros com o Semiárido.
65 Cf. Mészáros, 2007, p. 40. 66 Cf. Mészáros, 2007, p. 41.
Sobre essas mediações, Mészáros (2007, p. 41) destaca que, se
compararmos as mediações de primeira ordem com as bem conhecidas determinações estruturais hierárquicas das mediações de segunda ordem do capital, percebemos que tudo se altera com o surgimento do capitalismo de modo quase irreconhecível. Pois todas as demandas mediadoras primárias devem ser modificadas de modo a adequar-se às necessidades auto-expansivas de um sistema de controle reprodutivo social fetichista e alienante, que subordina absolutamente tudo ao imperativo da acumulação do capital.
Embora afirmem que a implantação do Programa BAHIABIO não afetará a produção de alimentos, é necessário destacar que as práticas tendenciosas formuladas ao longo do último século, com o intuito de promover a superação das desigualdades sociais do Nordeste semiárido, revelam as crescentes escassezes associadas, cuja criação serve unilateralmente a um conjunto de imperativos visando à manutenção das relações de dominação bem como à reprodução do sistema sociometabólico do capital. De acordo com o Programa BAHIABIO (2008, p. 10), a Bahia possui
uma superfície de 565.000 km², com amplas possibilidades de produção de cana-de-açúcar em condições de sequeiro, bem como irrigada, para se tornar um importante pólo de produção de etanol. Para a produção em condições de sequeiro o Estado da Bahia dispõe de uma área superior a 300 mil hectares, localizada na região do Extremo Sul que, também, conta com infra-estrutura de portos e de aeroportos internacionais, malha rodoviária que percorre toda a região e uma boa oferta de energia elétrica e de telecomunicações. A disponibilidade de solo e de clima favorável da região tem possibilitado a obtenção de produtividade média de colmo de 85 t/ha.
As metas para o Programa BAHIABIO (Quadro 7) são audaciosas, pois buscam a incorporação da agricultura camponesa para possibilitar a extração de valor, de mais- valia, sem que haja a despossessão, muito embora as famílias camponesas fiquem sujeitas à subjugação/desrealização, haja vista que a produção focada prioritariamente na produção de alimentos básicos parece estar atrelada aos interesses do grande capital, visto que o processamento da matéria-prima produzida pelo campesinato será feita pelo capital agroindustrial/agroenergético.
Quadro 7 - Metas do Programa BAHIABIO
Etanol 6,2 milhões de m³
Biodiesel 1,23 milhão m³
Cogeração de energia 3.672,69 GW
Crédito internacional de carbono 4,54 milhões de toneladas
Fonte: SEAGRI/SPA, 2008. Org.: DOURADO, J. A. L., 2013.
A produção de matéria-prima para o etanol67 foi planejada a partir da instalação de três polos canavieiros na Bahia: Recôncavo, Vale do São Francisco e Extremo Sul(Mapa 5). A incorporação de terras semiáridas para a produção de agrocombustíveis coloca em risco a produção de alimentos pela agricultura camponesa, que passaria a produzir oleaginosas (mamona, pinhão manso, amendoim, entre outros), num processo de subordinação às corporações responsáveis pelo processo da matéria-prima.
67 O Programa BAHIABIO estabeleceu metas a serem alcançadas, não havendo, todavia, um prazo para serem
Em virtude da localização na região semiárida do estado, a produção canavieira no vale do São Francisco seráatravés de irrigação com água desse rio, por exigência climática (Quadro 8). Ressalte-se que esse polo abrangerá os municípios do Médio e Submédio São Francisco, região onde há a forte presença do agronegócio, desenvolvido nas áreas dos projetos públicos de irrigação. Segundo dados do Programa BAHIABIO (2008, p. 11) a bacia do rio São Francisco possui um “[...]considerável potencial para produção de cana-de-açúcar nos Projetos de Irrigação Salitre, Baixio de Irecê, Corrente e Médio São Francisco (Muquém, Igarité/Barra, Mocambo/Cuscuzeiro e Santa Maria da Vitória), todos em implantação ou em fase de estudo”.
Quadro 8 - Metas de Produção de Etanol nos Polos da Bahia68
Polo Área propícia ao cultivo de cana-de-açúcar (ha) Meta de Produção (mil m²)
Extremo Sul 300.000 2.167
Baixio do Irecê 40.000 340
Salitre 20.000 170
Médio São Francisco 60.000 510
Corrente 30.000 255 Cerrados do Oeste 210.000 1.785 Sudoeste 60.000 510 Canal do Sertão 60.000 510 Total 780.000 6.247 Fonte: SEAGRI/EBDA, 2007. Org.: DOURADO, J. A. L., 2013.
Buscando atender às demandas internacionais de biodiesel, principalmente da Europa, Ásia e Estados Unidos da América (EUA), há uma articulação, na esfera governamental,com vistas a viabilizar o direcionamento das atividades no campo, de modo a criar as condições necessárias à reprodução do grande capital. A PAC europeia tem contribuído para esse avanço da produção de commoditiesagrícolas, sobretudo, da produção de grãos (os chamados feed-grains)para a ração animal e da produção de etanol (cana-de-açúcar e oleaginosas). Essas estratégias para “desenvolver” a região semiárida colocam, como elemento fundante, a incorporação dos camponeses à lógica do mercado externo da produção de agrocombustíveis, gerando despossessão, miséria e subordinação, além da precarização das relações de trabalho, pois os camponeses transformam-se em trabalhadores para o capital. Nesse contexto, as relações de trabalho no campo passam a ser mediadas pelo mercado externo, sem haver alterações na
68 Considerando uma produtividade média de 100 t/ha para as áreas irrigadas e 85 t/ ha para as áreas de sequeiro
estrutura fundiária e sem muitas alterações no tocante à utilização de máquinas: um exército de reserva de lugares e de trabalhadores tem sido convocado a contribuir para efetivar a reprodução ampliada do capital.
No tocante à produção de biodiesel (Mapa 6), as áreas a serem incorporadas sobrepõem, em alguns casos, os projetos de irrigação e, em outras situações,abrangem terras historicamente ocupadas por populações tradicionais (fundos de pasto, quilombolas, ribeirinhos), fato que traz uma série de desdobramentos em função da reorganização produtiva do território, mediante lógicas externas às práticas socioculturais locais.
Destaque-se que a agricultura camponesa se insere na produção de agrocombustíveis por meio das lavouras de mamona, pinhão manso e dendê, principalmente (Quadro 9). Esse ajuste espacial nada mais é que uma alternativa encontrada pelo sistema sociometabólico do capital para garantir os níveis de acumulação, tendo como resultado a especulação fundiária, a exploração de renda da terra, fazendo uso, inclusive, de relações não capitalistas de produção, inerentes ao
modus vivendi do campesinato. Observa-se que esse fenômeno traz em seu bojo a
dualidade contraditória expressa pelo “moderno”, ou seja, a produção de energia limpa e pelo “arcaico”, materializado nas relações não capitalistas de produção. Do prisma do agronegócio, isso representa uma oportunidade para expandir seus domínios e superar as clivagens espaciais e os obstáculos à realização do processo de acumulação. Contraditoriamente, para a agricultura camponesa, esse modelo desenvolvimentista traz riscos à soberania alimentar, à produção de alimentos voltada para os ciclos curtos, bem como à sinergia entre o campo e a cidade, pelo fato de desencadear rupturas e fragmentações mediante o estabelecimento de padrões de produção que desconsideram as demandas locais. Podemos tomar como exemplo muitos perímetros irrigados implantados no Semiárido nordestino, pelo fato destes terem uma produção mais direcionada aos mercados europeu e estadunidense que ao mercado local/regional.
Quadro 9 - Projeção de Cultivo de Oleaginosas na Bahia para o ano de 2012 Oleaginosa Área a ser cultivada (mil ha) *
Algodão 580 Mamona 290 Amendoim 17 Girassol 60 Pinhão Manso** 60 Dendê*** 120 Soja 850 Total 1.237 Fonte: SEAGRI/SPA, 2007. Org.: DOURADO, J. A. L., 2013.
*Área do Sudoeste e do Oeste somadas.
**Representando também outras oleaginosas inovadoras, como Crambe, Moringa e Licuri.
***A partir de 2014.
Estas ações fazem parte da estratégia adotada pelo Estado para fomentar o que se entende por desenvolvimento territorial rural e para delegar a responsabilidade de superação da pobreza no campo, sem que haja, por parte dos sujeitos atingidos diretamente por tais políticas,envolvimento na construção de mecanismos efetivos de participação social. Tais programas implantados pelo Estado para atender às demandas