Depois de confeccionado o memorando, como um ponto de apoio para todo o resto da análise, é que se inicia o aprofundamento na biografia do entrevistado. O foco está voltado para uma análise sequencial dos dados biográficos, um dos princípios deste método. Esta sequencialidade pode ser notada na utilização em ordem cronológica dos eventos vividos (mencionados durante a entrevista e complementados com documentos disponíveis). São assinaladas datas para, em seguida, serem utilizados como objeto de hipóteses apenas os dados passíveis de verificação. Neste momento não se leva em conta a interpretação do entrevistado sobre a sua própria vida, excluindo relatos centrados em sentimentos e percepções. A partir daí são formuladas hipóteses e hipóteses secundárias ou follow-ups.
Trata-se de um trabalho exaustivo e minucioso para que nenhum dos critérios de uma reconstrução de caso adequada sejam evitados ou esquecidos. Por isto, também apresento nesta pesquisa uma espécie de roteiro da análise proposto por Rosenthal de forma a tornar o resultado ainda mais transparente.
Depois de listadas as datas objetivas de momentos marcantes da vida narrada de Joaquim, como nascimento, morte da mãe, ingresso nos abrigos e etc, são formuladas hipóteses sobre como o entrevistado toma as suas decisões conforme a hermenêutica objetiva de Ulrich Oevermann. Para cada hipótese empírica, uma contra hipótese e suas possíveis consequências. Nesta busca, imagina-se o que poderia acontecer na vida do entrevistado ao ponto de tornar as mudanças possíveis. O horizonte, que era amplo no começo, vai ficando cada vez mais estreito no decorrer da análise.
Com isto se mostram também as amplas oportunidades e possibilidades na vida do entrevistado e quais os possíveis caminhos percorridos. As hipóteses principais descrevem de forma geral qual poderia ser a situação enfrentada pelo personagem, sua família, e as
78 secundárias restringem-se a algumas possibilidades dentro de um cenário mais geral traçado pela hipótese principal. Por último, as follow-ups representam consequências mais específicas, que podem ter sido desencadeadas pelas hipóteses secundárias e como estas consequêncas poderiam ter influenciado o contexto e as ações futuras (SUSIN, 2014).
Conforme as hipóteses vão sendo lançadas, começa-se a verificar as linhas mais plausíveis que se transformarão no fio condutor da vida do entrevistado. No caso de Joaquim, o que conduz a vida dele, se analisadas somente estas datas, é a busca por afeto, por restabelecer os laços com a família de origem e um esforço para livrar-se das ofertas de ingresso na criminalidade. Além de não saber quem é o pai, ter raiva do padrasto e ter tido a mãe morta em um contexto de violência doméstica, possivelmente pelo companheiro, Joaquim ainda cresceu separado da irmã mais nova. Todas estas questões, somadas ao fracasso nas tentativas de reaproximação com os tios, geraram no adolescente um desapego aos aspectos de convivência familiar (com os tios, com os próprios irmãos e com a ex- namorada). Para não ter de lidar com um possível acerto de contas com o padrasto, Joaquim tende a culpar a irmã Beatriz pela morte da mãe, já que Maria estava grávida de Beatriz, que sobreviveu, quando foi atacada pelo padrasto Altair. Joaquim buscou canalizar a dor para o esporte, onde sempre se destacou. Aos 16 anos, começou a se envolver em situações ilícitas, como o uso de drogas. Na mesma época, passou a frequentar mais a casa dos tios, durante as tentativas de reaproximação. O convite para morar com os padrinhos devolveu a Joaquim as esperanças de alcançar os objetivos que têm sido o centro de sua jornada: aconchego familiar e incentivo para ter boas atitudes.
Somado ao que foi dito acima, com base nas hipóteses confirmadas também é formulada uma apresentação do entrevistado com base nas datas apresentadas por ele. Aqui devem ser consideradas informações como o contexto familiar que o entrevistado nasceu, assim como a situação histórica, quais foram os conflitos e as estratégias para lidar com estes conflitos e o que se extrai de significante para a sua vida futura.
O produto deste exercício serve como preparação para o passo 3, quando será feita a reconstrução da biografia vivenciada. Quando o texto for analisado já com este horizonte de significados possíveis haverá um maior acesso ao conteúdo que costuma habitar as entrelinhas. É na terceira fase que as hipóteses dos dados biográficos serão confrontadas com as hipóteses para a história vivenciada. Esta etapa, de análise sequencial dos dados biográficos, é realizada antes da análise de campo temático para servir à análise da autoapresentação de vivências do entrevistado como um ponto de contraste. Pode-se ver claramente "quais dados biográficos —
79 ou fases e domínios da vida — se consolidam enquanto tais na fala do entrevistado, no relato principal, assim como os que não chegam sequer a ser mencionados e em qual sequência cronológica aqueles são trazidos à tona" (ROSENTHAL, 2014b, p. 230).
Uma dúvida que fica em suspenso aqui para ser confrontada no passo três é a situação da morte da mãe e o entendimento que teve desta perda. Somente na reconstrução de caso é que ficará melhor esclarecido, ao menos o que representou para Joaquim.
Com isto, pretende-se dar conta de apresentar o personagem, sem levar em consideração a maneira como ele narra a sua vida. Trata-se de um resumo dos aspectos objetivos da vida do entrevistado — coletados junto a ele e possíveis de serem conferidas —, em que são consideradas as alternativas que estariam, hipoteticamente, disponíveis na vida dele e não apenas o que se confirma objetivamente. Todas plausíveis. Um dos objetivos deste passo é deixar claro na análise que a trajetória não é linear e que, ao contrário, ela está de alguma maneira vinculada a eventos passados, reduzindo as chances de que se implique em um determinismo.
Conforme a abordagem de Rosenthal, o que o entrevistado narra é separado e analisado no passo seguinte, justamente para que o pesquisador não se deixe levar pela forma como o biografado deseja ser visto apenas, apesar de o seu interesse de apresentação estar sempre em evidência. Esta separação em etapas distintas é fundamental para que não se caia na armadilha de assumir aquilo que o entrevistado quer nos contar como sendo a única possibilidade. Ela é complexa e completamente diferente das outras abordagens que usam narrativas e análise do discurso na sociologia, como a etnometodologia (análise da conversação), pós-estruturalismo, filosofia da linguagem francesa, pragmatismo americano e sociologia do conhecimento de orientação fenomenológica (ROSENTHAL, 2014b, p. 273). Estas outras abordagens assumem o que é dito como o testemunho "real" dos acontecimentos, quando se esquece que o entrevistado possui um "interesse de apresentação", que é justamente o que se vai buscar na próxima fase da análise.