de obra: uma Utopia”. Dois anos depois, morreu em acidente de carro, encerrando precocemente sua contribuição ao campo arquitetônico.
Flávio Império, por sua vez, continuou suas atividades de docente, pintor e cenógrafo, mesmo atravessando as turbulências do cenário teatral com a censura e exílio e auto-exílio de alguns protagonistas951 e a prisão de seus amigos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre. Ele, que fora colaborador na revista Mirante das Artes Etc, realiza a obra “Para Lina”, dedicada à Lina Bo onde escreveu: “Lina eu pensei que tinha ficado só, imagine...” 952 , quando esteve muito próximo da arquiteta, em 1970-1973.
Flávio Império, naquela década conturbada, teria dado uma “virada de 180 graus” 953 em sua
vida e carreira. Ele se aproximou do Living Theatre, de Judith Malina e Julian Beck - grupo contracultural norte americano que esteve no Brasil a convite de Zé Celso do Teatro Oficina; iniciou um processo de busca pelo oriente através da Yoga que começou a praticar; e também, se inseriu no
psicodelismo (de acordo com a Geração AI-5 que veremos no próximo capítulo) quando “tem
experiências com alucinógenos e mergulha fundo numa ‘metafísica individual”954. Ele também
compartilhou sua casa-atelier com outros artistas, vivendo numa espécie de comunidade “dividida por
gente legal”955. Sobre sua “virada” Flávio Império declarou:
“Mergulhei fundo numa metafísica individual, meti a cara em vários terreiros, me coloquei muito tempo pai-de-santo, a ioga procurando acompanhar os meus mortos assumidos e consumidos com as guerras do mundo. Encontrei meu transe transido de pavor. E vi, juro que vi, embora tenha esquecido, coisas tão estranhas que ao voltar para o lado de cá, estranhei
muito o meu mundo, que nunca tinha encarado bem de frente.” 956
Em 1975, Flávio Império realiza seus primeiros filmes em Super-8: “Colhe, Carda, Fia, Urde e
Tece”957 - documentário sobre as tecedeiras de Uberlândia que integrou a exposição Repassos, 1976
[Fig 68], no MASP e A Pequena Ilha da Sicília, sobre as transformações do bairro do Bixiga, que o
951Segundo Cláudia Campos o Teatro de Arena após o AI-5 é desmantelado e cai em semi-clandestinidade. Augusto Boal é exilado. Cf. CAMPOS, Cláudia de Arruda. Zumbi, Tiradentes. São Paulo: Perspectiva e Ed. Univ. São Paulo,1988, p.164. Segundo Helena Camargo de Staal o Teatro Oficina é invadido por forças policiais em 20 de abril de 1974 quando atores e técnicos são presos e o teatro fechado. Neste episódio José Celso Martinez Corrêa foi sequestrado e desaparece por 10 dias. Posteriormente devido a apelos da classe artística internacional representada por Jean Paul Sartre, Bernard Dort e Jean-Louis Barrault que, escandalizados, escrevem ao governo brasileiro exigindo a libertação do diretor que foi encontrado nas dependências do DOPS. Depois de três semanas de prisão e tortura é libertado. Zé Celso decide pelo autoexílio em Portugal retornando ao país após a Lei de Anistia em 1978. Cf. CORRÊA, José Celso Martinez. Primeiro Ato, cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974).São Paulo: Editora 34, 1998, p. 335.
952 FLÁVIO IMPÉRIO. Renina Katz e Amélia Império Hamburger org. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
953 ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre de Artigas aos mutirões. São Paulo: Editora 34, p.235. 954 Ibidem, ibidem.
955 Depoimento de Maria Cecília Cerrotti (Loira) cenógrafa formada pela FAU-USP. In. IMPÉRIO, Flávio. In. ITAÚ CULTURAL, Ocupação Flávio Império, Catálogo, São Paulo, cenografia Hélio Eichbauer, coordenação arquiteta Vera Hamburger, jun./jul., 2011, p. 36.
956 Depoimento de Flávio Império. Apud. ARANTES, op. cit. p. 157.
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insere na tendência superoitista, que eclodiu na cena artística paulista, nos anos 1970, com grande produção de filmes experimentais exibidos em circuitos alternativos958.
Em 1976, Flávio Império foi responsável pela cenografia do espetáculo Doces Bárbaros959 com
direção de C.Veloso e outras cenografias e figurinos para espetáculos de M.Bethânia. Flávio Império
tinha grande afinidade com o grupo baiano, conforme declarou: “de uma certa forma, a produção musical dos baianos informa o que eu faço”.960
Flávio Império, em 1977, se demitiu da FAU-USP e partiu em viagem pelo nordeste brasileiro em pesquisa para sua cenografia e pintura. Em Recife, ele descobriu “os tabuleiros de carne-seca dos mascates”961 - tecidos manchados descartados pela indústria e que eram comercializados por quilo - os
quais abriram um novo caminho de investigação artística para seu trabalho de serigrafia. Flávio Império explicou sua pesquisa: “As bandeiras em pano “carne-seca” são experiências mais próxima desse encontro possível, onde o incidente e o acidente se cruzam na criação de novas realidades” 962, ele
também se mostra sensível à realidade brasileira: “fico com a impressão de que a “carne-seca” veste a miséria que se veste”. 963 A pesquisa de Flávio Império resultou em uma série de obras que fizeram
parte da exposição “Matrizes, Filiais e Companhias”, realizada no SESC Anchieta, São Paulo, 1979. Seis anos após a exposição, Flávio Império adoece e morre, em 1985.
68 - Exposição Repassos, Lina Bo 1976, com imagens do filme de F. Império “Colhe,Fia,Urde, Tece”.
BARDI, 2008, 2001
958 Rubens Machado Jr. foi o curador da mostra “A Marginália 70 e O Cinema Experimental”, realizada no Itau Cultural em 2001. Disponível em www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/cinema/home/index.cfm, visitado em 15/09/2012.
959 Espetáculo que estreou em 1976, no Canecão, Rio de Janeiro. Cf. IMPÉRIO, op. cit. 149. 960 Ibidem, ibidem.
961IMPÉRIO, Flávio. In. ITAÚ CULTURAL, Ocupação Flávio Império, Catálogo, São Paulo, cenografia Hélio Eichbauer, coordenação arquiteta Vera Hamburger, jun./jul., 2011, p. 41.
962Ibidem, ibidem. 963Ibidem.
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