3. MATERYAL VE METOT
4.3. Yeraltı Suyu Kalitesinin Belirlenmesi
4.3.1. Nitrat ve Nitrit Haritası
“O typo geral deste povo é doentio. Magros, amarellos, pouco desempenados na maioria; havendo uma grande proporção de defeituosos, aleijados e rachiticos”.257
Em uma de suas crônicas, Alfredo Camarate, colocando-se na posição de um “outro”, estranho e estrangeiro, ocupou-se de anunciar as características físicas dos habitantes do Bello Horisonte, deixando claro, porém, sua “ignorância” e sua crítica em assuntos de medicina. “Por isso, se me vou occupar da apparente saúde dos habitantes de Bello Horizonte, não vão em mim descocadas pretensões de decisões competentes; mas simplesmente o desejo de dizer, a meu costumado modo, a ideia que faço deste bom povo, pela impressão que me apresenta o seu aspecto, que eu tenho estudado attentas e repetidas vezes, nestes dias de festividades que aqui produzem raras e numerosas reuniões, dos habitantes do logar e cercanias”.258 Essa crônica deixa revelar um dos maiores interesses do cronista: os sujeitos. Esta “missão” de caracterizar um povo, um grupo, pessoas, parece ter sido, para Camarate, uma atividade cara, que lhe despertou interesses. Apesar de não possuir “pretensões de decisões competentes”, o viajante parece estar acostumado com a observação, que, para essa crônica, ganha um tom de “estudo” e revela tanto uma preocupação em demonstrar sua experiência como um investigador do “outro”, quanto sugere uma pretensão científica. É também singular que Alfredo Camarate tenha dito observar, nesse estudo, o povo, as figuras em conjunto, na multidão, reunidos nos dias de festividade. Talvez esse olhar sobre o coletivo reafirme ainda
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1894, p.1. Ver figura 16. Instituição de Guarda: Arquivo Público Mineiro. Título: Residência de uma Papuda. Fundo: Secretaria da Agricultura - Comissão Construtora da Nova Capital. Notação: Sa2 004 007. Autoria: Raimundo Alves Pinto. Local: Belo Horizonte. Data: entre 7 ago 1894 e 11 nov 1896. Disponível em: www.comissaoconstrutora.pbh.gov.br.
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mais o caráter científico da sua observação, encontrando mais o geral que o singular, mais as regras que exceções.
Estudar a aparência, a partir desse olhar atento, colher indícios de como é a vida, oferecer um diagnóstico. Inicialmente, faz-se uma anamnese e logo se define um padrão para os habitantes. Para o olhar do cronista, o corpo expressava um problema, indicava ausências. Era preciso saber de onde vinham as causas dessa aparência doentia do povo. “Ora, esta physionomia quasi geral da população de Bello Horizonte desharmoniza completamente com a amenidade do clima, com o ar secco e batido quasi constantemente pela brisa, com a natureza do sólo que é magnífica e com a bôa saúde e pantagruelico appetite que têm os que para aqui têm vindo e que, em mais de um mez de residencia, já iriam percebendo symptomas e prenuncios de mal-estar futuro”.259 Se não está no clima ou na qualidade do solo, a causa de um corpo amarelado estaria em outro lugar. Alfredo Camarate procurou diagnosticar, então, essa aparência do povo, lançando seu olhar sobre um hábito, sobre os costumes, no dia-a- dia.260
Esse sujeito que se colocou na função de analisar e “estudar” o outro assim se justificou: “Mas o mesmo estudo profano mas sincero que tenho feito nas physionomias, applico-o, com igual bôa vontade, à mesa, apreciando, com os cuidados de estatistica, o que cada um come e quando come!”.261 Estudar a “mesa” dos habitantes não está na mesma linha da observação das fisionomias. É preciso uma aproximação, mobilizar outro sentido. O distanciamento de estudar o outro, pelo olhar, foi trocado por levar até a boca, provar, degustar o que o outro comia. “O paladar é sentido íntimo; não podemos sentir gosto à distância. E o gosto que sentimos das coisas, assim como a composição exata de nossa saliva, pode ser tão individual quanto nossas impressões digitais”(ACKERMAN, 1992, p. 162).262 Apesar da característica muito particular da sensação do paladar, o cronista-estudioso afirma que iria recorrer aos métodos e à exatidão da estatística. Talvez essa fosse uma maneira de se
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260 Renée Valeri (1989a) observa como o estado físico manifesta as consequências de diversas carências,
principalmente em regimes limitados e monótonos. Mesmo que esses diagnósticos sobre a ausência ou carência não possam ser analisados apenas em uma perspectiva objetiva, porque se encontram entremeadas por questões culturais, é interessante como se construiu esse “método” de observação do outro, bem como o diagnóstico e o julgamento de determinada carência alimentar.
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262 A autora explica que paladar e gosto carregam um sentido duplo. Segundo Ackerman, “a palavra vem do
inglês médio, tasten, que significa examinar pelo toque, teste ou prova, e tem suas origens latinas em taxare, tocar com força. Portanto, paladar é sempre julgamento ou teste” (1992, p. 163).
proteger diante dos leitores, tornando a análise dos habitantes e da mesa menos pessoal, com ares científicos.
Sua análise estatística recaiu sobre o que lhe foi servido. Em seus escritos, logo trouxe uma certeza: “a julgar pela alimentação que nos propinam no hotel e pela de algumas casas que tenho visitado, o povo de Bello Horizonte, num clima depauperante e abafadiço como o do Rio de Janeiro, não seria magro, nem amarello, nem franzino; seria apenas uma multidão de cadáveres!”.263 Seria interessante saber se o cronista se alimentava na casa de algum morador do arraial. A observação da mesa nas casas que vinha visitando não indica, necessariamente, que ele tenha se alimentado, nem se as próprias visitas foram tão numerosas de modo que lhe autorizassem a dizer sobre um costume, para ele, tão regular, idêntico. As estatísticas estariam, talvez, mais concentradas no que era servido em um lugar destinado a abrigar e a servir o “outro”, geralmente estrangeiro. Aí não comportaria uma diferença? “O proprietario do hotel, homem sincero e honrado, e que procura por todos meios possiveis e imaginaveis estar à altura das exigencias e niquices264 dos senhores fidalgos que lhe chegaram da capital, dá-nos, como já disse noutro artigo, invariavelmente ao almoço e ao jantar: feijão, arroz, carne de vento e café!”.265 Essa alimentação que “faria fugir a sete leguas um europeu ou mesmo um fluminense” representava para esse povo um festim comparado “às bôdas de Camacho!”.266 Nesse escrito, o viajante sugere como a alimentação do arraial era diferente de um “padrão civilizado”, estabelecido já na Europa e muito incorporado pelos fluminenses. Nesses dois espaços, existia e exigia-se uma educação do sentido, uma sensibilidade que toleraria a variedade dos gostos. Para o viajante, aí seria possível o prazer do paladar. Em Belo Horizonte, o sentido não era “instigado”. A homogeneidade dos alimentos embotaria o sentido. O benefício da alimentação era físico, nutritivo apenas. E talvez, para o cronista, nem isso, já que a aparência dos habitantes era doentia.
O viajante, que em muitas crônicas se colocou como pertencente ao meio, em assuntos da alimentação, da mesa e do paladar, fez questão de definir o “eu/nós” e o “outro” do arraial. Alfredo Camarate estabeleceu e esclareceu as diferenças: “Ninguém aqui tem semelhante
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Para estudar as crônicas, foi necessário um investimento no significado de algumas palavras desconhecidas por mim. Niquices está definida no dicionário assim: “Que se preocupa com as nicas, bagatelas, impertinente, rabugento”.
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ostentação de menu; ninguém aqui se sente, como nós, assoberbado pela prodigalidade e variedade de tais manjares, ninguém de Bello Horisonte, mesmo que seja remediado ou rico, mesmo que festeje baptisado ou casamento, se mette em funduras alimentares d’este jaez; funduras que seriam consideradas regalias e acepipes de nababo ou de príncipe russo!”.267
Para ajudar-lhe a diagnosticar com mais precisão a saúde da localidade, Alfredo Camarate recorreu à “higiene da alimentação”, “sciencia tão querida e explorada dos franceses”.268 “Sem medo de engano ou do cochillo scientifico”,269 afirma que um regime permanente de feijão e arroz e raras surtidas de carne-de-vento, não podia levar ninguém a “ostentar faces rubicundas e bochechudas de camponez minhôto, que recheia e alaga o estomago com carne, fructas e generoso vinho; nem tão pouco exhibir têz, com louçanias de moringa da Bahia, como apresentam os súditos de S. Majestade a Imperatriz do Reino Unido e Índias; que se atascam, de manha à noite, em monolithos de roast-beef, em saladas e conservas de toda a especie e tudo mergulhado na nutritiva e córante pale-ale ou em ingestões frequentes de Sherry ou do Porto, na phrase delles, e que corroboram e fortificam”.270 Essa descrição acaba por denunciar uma alimentação por ele considerada “correta”, em moldes estrangeiros, que passa pelo nutritivo e também pelo gozo do paladar. Camarate apresenta, dessa forma, um rico e saboroso cardápio aos paladares belohorizontinos. Instiga e faz brotar água na boca.
Alfredo Camarate concluiu que a palidez e a magreza dos filhos dessa terra eram uma enfermidade, portanto, fácil de ser tratada. Essa cura nem mesmo necessitaria de “aconselhamentos paternos”, para que os filhos se alimentassem devidamente. Para Camarate, “(...) o exemplo, dado na maneira de viver dos outros, será o sufficiente para acabar, pela raiz, com este enfezamento artificial; como o exemplo do viver dos ingleses, franceses e allemães, transformou completamente a mesa dos habitantes do Rio de Janeiro, que, observados por mim durante o espaço de vinte e tantos annos, provam que lhes foi facil e agradavel trocar pelas honestas entoações do vermelho, a cara de desmamar crianças que
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possuiam outr’ora!”.271 Apesar de não precisar “aconselhar”, o viajante colocou-se como o responsável por dar os exemplos.272
Só pode oferecer um padrão ou modelo aquele que o conhece, pratica ou exercita. Na escrita de Alfredo Camarate, há uma sutil sugestão de que seria ele o responsável por essa transformação do paladar e na mesa dos fluminenses. A sua crônica, a sua escrita carrega um tom pedagógico: busca compreender, analisar, observar e ensinar por exemplos. O exemplo não seria um aconselhamento? A transformação – que muitas vezes é considerada penosa, difícil –, nesse caso, torna-se prazerosa, “fácil” e “agradável”. Quem não gostaria de se deliciar com os sabores de uma farta e diversificada mesa?273 O cronista parece mostrar que não seria necessário – e talvez isso seria impossível – impor um outro/novo hábito alimentar aos habitantes do arraial. Os habitantes, com a convivência com o estrangeiro, sujeitos portadores de outros valores, hábitos, sensibilidades, acostumariam o paladar a determinados alimentos e sabores.