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“Olga Roriz está muito à vontade nos caminhos de uma teatralidade exacerbada que  se multiplica em personagens, que mais não são que arquétipos roubados à literatura  e  ao  mito.  A  atmosfera  onírica  culmina  com  um  belíssimo  dueto  que  deixa  em  turbilhão o espelho e o som da água.” 

António Laginha, Correio da Manhã, 07‐07‐2003 

 

“(…) em termos dramatúrgicos, a coreógrafa não foi escrava dessa espécie de mistura  entre a história e a lenda mas, pelo contrário, fez uma construção narrativa para servir  o  discurso  do  movimento.  Um  dos  principais  dispositivos  de  invenção  da  peça  é  a  multiplicação das presenças (ou das figuras, mais que as personagens), que permite,  do  ponto  de  vista  da  ocupação  do  espaço,  os  sempre  renovadores  jogos  de  composição  que  caracterizam  a  dança  de  Roriz.  (…)  uma  das  peças  mais  merecidamente românticas da dança contemporânea portuguesa.” 

Cristina Peres, Expresso, 25‐10‐2003 

 

“Pedro  e  Inês  arrisca  a  tornar‐se  um  dos  maiores  «clássicos»  da  dança  portuguesa.  Quatro anos passados sobre a sua estreia, a obra confirma inequívoca consistência e a  sua  dimensão  lírica  ganhou  maturidade.  Da  peça,  apesar  de  ancorada  num  guião,  sobressai uma visão predominantemente impressiva da narrativa que, se é pontuada  por  alusões  reconhecíveis  (como  o  famoso  beija‐mão  a  Inês  morta),  estas  logo  se  desvanecem, como nocturnas miragens, nos planos do onírico, do premonitório ou da  evocação,  porque  é  nesse  patamar  que  Roriz  coloca  os  protagonistas.  Injusto,  porventura, destacar um entre os vários momentos sublimes da obra, mas o dueto de  Pedro e Inês inanimada (Ana Lacerda e Christian Schwarm (permanecerá um dos mais  belos  momentos  da  dança  portuguesa.  Tal  como  será  sempre  surpreendente  o  imperceptível  surgimento  daquele  lago  em  cena,  «fonte  das  lágrimas»  onde  mergulham  os  amantes  e  se  dissolverá  a  materialidade  do  amor.  A  cada  representação, uma sombria energia lunar urde, entre a plateia e o palco, uma trama  única, íntima e irrepetível.” 

Luísa Roubaud, Público, 16‐05‐2007 

 

“A Companhia Nacional de Bailado exibiu na capital russa, no âmbito do Festival Dance  Inversion,  o  bailado  Pedro  e  Inês,  que  foi  recebido  com  reticências  pelos  críticos  de  arte russos. 

Limito‐me a publicar algumas das críticas da imprensa russa especializada, pois tenho  de reconhecer que não sou profundo conhecer de bailado moderno. Antes de passar  às críticas, apenas gostaria de sublinhar que se tratou de um grande risco trazer uma  companhia  de  dança  moderna  para  uma  das  capitais  do  ballet  clássico.  «Só um louco ou um português pode levar ao palco a história verdadeira dos principais  amantes  portugueses»  –  escreve  Tatiana  Kuznetsova,  crítica  de  dança  do  diário  Kommersant. Segundo  Tatiana Kuznetsova, no espectáculo encenado por Olga Roriz,  «o  elo  mais  fraco  é  a  longa  dança  inicial:  O  Sono  de  Inês,  rico  em  movimentos  estáticos.  Sete  bailarinas  (sete  imagens  da  beldade  castelhana)  vivem,  em  sete  monólogos,  uma  visão  profética:  a  própria  morte.  As  artistas  bem  ensinadas 

desempenham  os  seus  solos  com  uma  expressão  fanática,  mas  a  sua  verbosidade  patética  parece  demasiadamente  longa  e  exageradamente  melodramática»  –  considera a crítica. 

«O  rei  Afonso  acrescenta  dissonância:  durante  todo  esse  tempo,  o  monarca,  em  convulsões no trono e fazendo caretas terríveis à própria coroa, desempenha o papel  de mau no estilo do antigo teatro de pantomima» – acrescenta Tatiana Kuznetsova.  A crítica considera, porém, que «o espectáculo é salvo precisamente pelas cenas mais  arriscadas»,  sublinhando  momentos  como  o  adágio  de  amor  de  Pedro  e  Inês  e  a  exumação encantadoramente bela do cadáver (de Inês). 

«No entanto – sublinha ela – está longe de ser perfeita. A longa procissão do rei com o  cadáver de Inês e a cena igualmente longa da coroação da morta são muito estragadas  pelo  “trono”  idiota...  parecido  com  uma  cadeira  de  estomatologia  ou  ginecologia.  Mas todas as falhas deste bailado “incorrecto” são compensadas pela simplicidade e  sinceridade dos sentimentos de que são capazes só os habitantes da Península Ibérica,  periferia  europeia  da  dança  moderna  que  ainda  não  foi  atingida  pelo  reflexo  auto‐ destruidor dos vizinhos setentrionais mais apurados» – conclui ela. 

Anna  Gordeeva,  crítica  do  diário  Vremia  Novostei,  é  menos  clemente  para  com  o  bailado encenado por Olga Roriz. 

Segunda  ela,  várias  vezes  a  música  parece  não  coincidir  com  a  dança  no  palco.  «A  música  aqui  (uma  mistura  de  sete  autores...)  estremece  monotonamente,  não  coincidindo  de  forma  alguma  com  a  expressão  dolorosa  do  pesadelo  nocturno»  –  escreve a crítica, referindo‐se a O Sono de Inês. 

«A cena impressiona novamente, mas uma vez mais não coincide de tal forma com a  música que parece que puseram a tocar outro fonograma por engano» – acrescenta  ela,  sobre  a  cena  do  assassinato  de  Inês.  No  fim  de  contas,  a  nossa  versão  sobre  os  sofrimentos do monarca por uma pessoa perfidamente assassinada também não pode  ser  considerada  feliz:  “Ivan,  o  Terrível”  poderá  ser  ainda  mais  tenebroso»  –  conclui  Anna Gordeeva, comparando o drama português ao assassinato do filho do czar Ivan, o  Terrível pelo próprio pai.  

«Talvez  valesse  mais  se  o  bailado  de  Portugal  trouxesse  obras  de  coreógrafos  cujos  nomes  provocam  inveja  dos  amantes  de  teatro  de  Moscovo»  –  considera  o  diário  Vedomosti.”  José Milhazes, 19‐11‐2007, www.darussica.blogspot.com (retirado a 25 de Fevereiro  de 2012)                  

Anexo 5 – Tabelas de análise do movimento da obra Pedro e Inês    SECÇÃO I  “OS SONHOS DE INÊS”  ACÇÕES DO CORPO  Gesto (levar as mãos à cara), Transferência de peso, Rotação, Salto, Curvar, Aninhar, Encolher,  Estender  TEMPO  Lento no movimento e rápido na dinâmica  RITMO  Irregular  PESO  Leve  FLUXO  Livre na dinâmica  ACÇÕES DINÂMICAS  Colapso e continuidade ininterrupta  MOVIMENTO NO ESPAÇO  Direcções: lados, cima e baixo, frente e trás  Planos: frontal e sagital  Níveis: alto e baixo  Extensões: grande e perto  Percursos: curvo  RELAÇÃO  Solos.  Relação da parte do corpo mãos e braços com o tronco e cara.  COMPOSIÇÃO E ORGANIZAÇÃO  DO MOVIMENTO  Cada solo, uma frase que se repete e no fim realizam uma frase em comum ao mesmo tempo.  NOTAS  Rei sentado do lado direito de cena.  Gesto (mão na cara), Quietude, Torcer, Contrair.      SECÇÃO II  “A MORTE DE INÊS” 

ACÇÕES DO CORPO  Gesto  (Cortar  o  pescoço),  Transferência  de  peso,  Rotação,  Salto,  Curvar,  Aninhar,  Encolher,  Estender, Expandir  TEMPO  Lento no movimento e rápido na dinâmica  RITMO  Irregular  PESO  Leve  FLUXO  Livre na dinâmica  ACÇÕES DINÂMICAS  Colapso, Continuidade ininterrupta, Oscilação  MOVIMENTO NO ESPAÇO  Direcções: lados, cima e baixo, frente e trás  Planos: sagital, horizontal  Níveis: alto (eles) e baixo (elas)  Extensões: grande e perto  Percursos: curvo  RELAÇÃO  Duetos  COMPOSIÇÃO E ORGANIZAÇÃO  DO MOVIMENTO  Cada dueto com a mesma frase de movimento em cânone entre os duetos.  NOTAS  Rei sentado do lado direito de cena.  Gesto (bater no peito com punhos fechados), Vibração, “Epiléptico”.     

Benzer Belgeler