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A história das Unidades de Conservação no Ceará inicia-se com o Decreto-Lei nº. 9.226, de 2 de junho de 1946, criando a primeira UCs do Estado, a Floresta Nacional do Araripe (FLONA), no Sul do Ceará (BRASIL, 1946).

É através da Lei Estadual n° 12.488, de 13/09/1995, que dispõe sobre a Política Florestal Estadual, que se inicia a criação de inúmeras UCs, (CEARÁ, 1995). Na década de 1990, sobretudo, no tocante às unidades de uso sustentável como as APAs que predominam em números e se localizam em sua grande maioria nos ecossistemas costeiros do Estado.

Inseridas na área regional de estudo, estão as APAs do Pecém, Lagamar do Cauípe, Dunas de Paracuru, Estuário do rio Curu e Dunas da Lagoinha. As APAs criadas não cumprem seus objetivos de criação em função de uma série de problemas, discutidos nos trabalhos de (CABRAL, 2005; CÔRTE, 1997; MEDEIROS, 2006; SAMPAIO, 2007; VIDAL, 2006).

No Ceará, como nos demais estados do Brasil, em geral, a criação das UCs, como já dito, não obedeceu a critérios técnicos e científicos, pois essas áreas passaram a ser estabelecidas muito em função das belezas cênicas ou como resultado de vontades e oportunidades políticas.

Esse fato pode ser observado quando da data de criação dessas unidades, no caso específico das APAs cearenses, a maioria têm na data de 29/03/1999 seu marco de criação. Verifica-se que sete de treze APAs estaduais foram criadas na referida data e isso implica dizer que 54% das APAs estaduais foram criadas em data conjunta, conforme FIGURA 8.

Figura 8 – Gráfico demonstrativo dos anos de criação das APAs estaduais cearenses.

Fonte: Ceará (2013), elaborado por Maria Rita Vidal.

Através da forma de criação e do período, final da década de 1990, anterior à publicação da Lei do SNUC (BRASIL, 2000), pode-se dizer que muitas dessas unidades foram incluídas em categorias inadequadas no tocante a suas características e objetivos de manejo, de modo que não condizem com seu uso atual, ou foram incluídas em categorias que não têm objetivos claros e determinados. Em virtude disso, alguns instrumentos legais referentes às UCs devem ser adequados ao SNUC.

Em relação aos objetivos de criação de APAs, de acordo com Côrte (1997), estes se estruturam em quatro níveis principais identificados por: proteção de recursos hídricos, da fauna, da flora e de áreas de grande beleza cênica. Verificou-se no estudo que quanto à elaboração dos objetivos, a tendência para as APAs cearenses é de estabelecer objetivos generalizados, não levando em consideração as características locais que cada área requer.

As APAs cearenses têm sua gênese fortemente ligada aos condicionantes para a implantação do sistema viário (CE 085-via estruturante do turismo na costa oeste do estado) do Programa PRODETUR-I. Coube a SEMACE19, executar várias ações de melhorias ambientais com recursos investidos na ordem de aproximadamente 5 milhões. Nesse período foram criadas 5 unidades de conservação na Costa Oeste conforme FIGURA 9.

19As principais ações da SEMACE/PRODETUR-I foram divididas em quatro linhas: 1. Recuperação,

controle ambiental de praias, mananciais e lagoas, 2. Recuperação, conservação ambiental e urbanização do entorno de lagoas e lagamares, 3. Implantação de unidades de conservação e 4. Educação ambiental. Em específico para Paracuru, foram efetuadas ações de fixação das dunas do Paracuru, urbanização do rio Curu, demarcação da APP da Lagoa Grande e a criação das APAs das dunas do Paracuru e do estuário do rio Curu (BNB, 2001).

23% 54% 23% Criadas em 1998 Criadas em 1999 Criadas na década de 2000

Figura 9 – Ações do PRODETUR-I na Costa Oeste do Ceará na década de 1990.

Fonte: BNB (2001).

Outra semelhança pontuada diz respeito aos decretos de criação das UCs. A redação dos artigos tem semelhança ímpar, evidenciando a não consideração das características locais de cada área delimitada. Tais aspectos podem ser observados no QUADRO 6, que demonstra a síntese entre os objetivos, as justificativas de criação e restrições de usos entre as APAs Cearenses.

Fonte: SEMACE (2013), elaborado por Maria Rita Vidal.

Os objetivos de proteção de uma APA precisam ser bem especificados em seus decretos de criação, uma vez que estes orientam o processo de planejamento e gestão territorial, (IBAMA, 2001).

Decorridos quase duas décadas e meia desde o início das primeiras discussões sobre a criação de Unidades de Conservação estadual (do Parque do Cocó), somente no ano de 2009, através da Lei Estadual nº 14.390, o Governo do Estado do Ceará instituiu o Sistema Estadual de Unidades de Conservação – SEUC, que abrange UCs estaduais e municipais (CEARÁ, 2009). A referida lei traz a incumbência de adequar as áreas protegidas do Estado dentro das categorias estabelecidas pelo SNUC e estabelecer critérios para a criação de novas UCs (CEARÁ, 2001). Um ano depois, através do Decreto nº3.834, de 2001, ficou determinado a exigência da adequação das categorias existentes às categorias propostas pelo SNUC.

No Ceará existiam e ainda existem categorias fora das unidades estabelecidas pelo SNUC, a exemplo das Reservas Ecológicas Particulares (REP), extintas pela determinação do decreto acima, e do Parque Botânico do Ceará, ainda em funcionamento.

Com base nos decretos analisados e na possibilidade destes auxiliarem o processo de gestão, observou-se que aqueles melhor estruturados foram os que, de alguma maneira (mesmo que de forma tímida), reportaram características locais e endêmicas da unidade em questão. A exemplo cita-se a APA do Rio Pacoti, que traz a importância da bacia hidrográfica para o Sistema de Abastecimento d’água da cidade de Fortaleza, e a APA da Serra de Aratanha, que aborda a conservação dos remanescentes da Mata Atlântica (MENEZES; ARAÚJO; ROMERO, 2010). Exemplos significativos da importância das APAs estaduais na conservação e proteção dos espaços naturais podem ser observados abaixo:

 Abastecimento de água – a APA do Estuário do Pacoti (CEARÁ, 2000), localizada na Região Metropolitana de Fortaleza, criada em 2000, tem como uma de suas finalidades a proteção e manutenção da bacia a que pertence de fundamental importância para o sistema de abastecimento de água da cidade de Fortaleza;

 Preservação do ecossistema manguezal – a APA do Estuário do Rio Curu (CEARÁ, 1999) tem como uma de suas finalidades a manutenção do valor

ecológico do ecossistema, considerando a fragilidade do equilíbrio ecológico da área. Ações da ONG Eco-Ação são desenvolvidas na APA com a intenção de disseminar atividades de cunho ambiental e a conservação do ecossistema manguezal. Além da APA do Estuário do Rio Curu, também contribuem para a conservação do manguezal as APAs do Rio Mundaú, Pacoti e Ceará;

 Turismo e valor ecológico - a APA da Bica do Ipu,(CEARÁ, 1999), tem em seus objetivos proteger e conservar as comunidades bióticas, recursos hídricos, fortalecer o turismo ecológico, científico e cultural.

Em relação às definições do Conselho Gestor, os decretos se restringem a definir quem serão os atores para a composição do conselho, não definindo atribuições com direitos e deveres. As dificuldades referentes à gestão das unidades se expressa, entre outros fatores, pela inexistência de planos de manejo, precariedade na infraestrutura física e operativa da unidade, a perda da capacidade operativa dos conselhos gestores criados e/ou formados, evidenciando a necessidade de capacitação para os gestores das UCs.

Atualmente, o Estado do Ceará conta com 13 Áreas de Proteção Ambiental sob sua administração, distribuídas em sua quase totalidade na Zona Costeira. Destas, apenas três (APA da Bica do Ipú e a APA de Baturité e APA da Aratanha) ficam fora da zona costeira, conforme FIGURA 10.

Esse desequilíbrio é fruto de várias décadas de criação de UCs sem planejamento, tendo como critério primordial a apenas a beleza cênica das paisagens, implicando assim, em uma baixa capacidade de proteção dos recursos naturais e socioculturais como um todo (VIDAL, 2006).

Figura 10 - Distribuição espacial das Áreas de Proteção Ambiental Estaduais Cearenses.

Além da distribuição espacial voltada para a zona costeira, nota-se, ainda, a disparidade entre a extensão (em hectares) das áreas de proteção ambiental cearenses, algumas perfazendo grandes áreas, como é o caso da APA da Bica do Ipu com 3.484.665 hectares (SEMACE, 2005), contrapondo-se à APA do Estuário do Estuário do Rio Curu, que tem apenas 881,94 hectares, conforme FIGURA 11.

Figura 11- Extensão das áreas de proteção ambiental estaduais em porcentagem.

Fonte: SEMACE (2013). Elaborado por Maria Rita Vidal.

As dimensões das APAs e UCs, cearenses que variam de 881,9 a 3.484,665 hectares, caracterizam um sistema de conservação com predomínio de área de proteção de pequenas extensões, configurando um sistema de conservação dispendioso e ineficiente, fragmentando esforços e dificultando a gestão (PRIMACK; RODRIGUES, 2001).

Esse modelo está longe de garantir a conservação e o equilíbrio entre os usos estabelecidos nas unidades de conservação, bem como garantir a manutenção dos atributos da paisagem em escala regional e local.

Dimensões, distribuição e data de criação foram sintetizados no mapa de áreas de Proteção Ambiental dos municípios de Paraipaba e Paracuru e São Gonçalo do Amarante, conforme MAPA 1.

0,55% 20,61% 0,11% 58,49% 0,88% 0,66% 4,61% 0,15% 0,05% 2,68% 4,49% 6,71% Serra de Baturite Lagamar do cauípe Pecém Aratuba Bica do Ipu Lagoinha Duna paracuru Estuário do Rio Ceará Estuário do rio Curu Estuário do Rio Pacoti Estuário do Rio Mundaú Lagoa do Uruaú Lagoa de Jijoca

A importância da extensão de uma UC reside no fato desta ter implicações positivas na conservação ecológica e manutenção dos atributos da paisagem. A esse respeito, Sampaio (2007) chama atenção para a incoerência na criação das APAs do Estuário do Rio Curu e das Dunas de Lagoinha, ambas no município de Paraipaba, cujas características de criação são incompatíveis com a categoria prevista pelo SNUC que, no Artigo 15, define as APAs como áreas em geral extensas e com um certo grau de ocupação (BRASIL, 2000). Essa afirmação vai contra o tamanho das APAs citadas, 881,94ha e 523,48 ha respectivamente, e no baixo grau de ocupação humana que as mesmas apresentam.

Outro fator relevante a pontuar diz respeito à grande maioria das áreas das APAs serem compostas basicamente por APPs, como é o caso da APA das Dunas de Paracuru, Lagoinha e todas localizadas nas áreas de estuários.

Benzer Belgeler