Na seara dos resíduos sólidos, no que concerne ao seu gerenciamento, aspecto que envolve a geração, acondicionamento, coleta, transporte e destinação adequada, o Código de Meio Ambiente Municipal, em seu capítulo sobre resíduos sólidos iniciado pelo art. 128, apresenta a seguinte determinação:
A coleta, transporte, manejo, tratamento e destino final dos resíduos sólidos e semissólidos do Município, devem ocorrer de forma a não causar danos ou agressões ao Meio Ambiente, à saúde e ao bem-estar público e devem ser feitos obedecendo às normas da ABNT, deste Código, do Código Sanitário do Município e de outras leis pertinentes.
É oportuno lembrar, que quando da produção do referido capítulo, a Lei nº 12.305/10 da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), ainda era apenas um projeto de lei. Por
isso, a obrigatoriedade da existência de plano de gerenciamento de resíduos obrigava apenas o estabelecimento de saúde a adotar condutas pontuais no trato dos demais tipos de rejeito. Assim, por sua abrangência e paradoxalmente por sua especialização, a PNRS, juntamente com a Norma Brasileira (NBR) 10.004/04 e a Resolução CONAMA 313/02, serão os instrumentos delimitadores das considerações sobre o tema no DI.
Assim no seu art. 6º da PNRS, Dos Princípios, em seus incisos V, VI e VII, diz que:
V - a ecoeficiência, mediante a compatibilização entre o fornecimento, a preços competitivos, de bens e serviços qualificados que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida e a redução do impacto ambiental e do consumo de recursos naturais a um nível, no mínimo, equivalente à capacidade de sustentação estimada do planeta;
VI - a cooperação entre as diferentes esferas do poder público, o setor empresarial e demais segmentos da sociedade;
VII - a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
Na aludida política, o art. 7º aponta quais são os objetivos primordiais, dos quais destacam-se os contidos nos incisos II, III, IV, V, VI, VII, XIII e XIV, diretamente ligados às atividades industriais.
II - não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos;
III - estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo de bens e serviços;
IV - adoção, desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias limpas como forma de minimizar impactos ambientais;
V - redução do volume e da periculosidade dos resíduos perigosos;
VI - incentivo à indústria da reciclagem, tendo em vista fomentar o uso de matérias- primas e insumos derivados de materiais recicláveis e reciclados;
VII - gestão integrada de resíduos sólidos;
XIII - estímulo à implementação da avaliação do ciclo de vida do produto;
XIV - incentivo ao desenvolvimento de sistemas de gestão ambiental e empresarial voltados para a melhoria dos processos produtivos e ao reaproveitamento dos resíduos sólidos, incluídos a recuperação e o aproveitamento energético;
De forma auxiliar, a NBR 10.004/04 tem o objetivo de definir e classificar os resíduos sólidos mostrando as seguintes classes, conforme a periculosidade em relação à saúde humana e ao impacto causado por determinadas substâncias no meio ambiente: resíduos classe I - Perigosos; resíduos classe II – Não perigosos, não inertes (Classe II A) e inertes (Classe II B). A Figura 46 apresenta a distribuição espacial das fábricas que apresentavam resíduos não industriais e aquelas que geravam resíduos sólidos tanto industriais quanto não industriais.
Figura 46: Disposição espacial do tipo resíduo sólido das indústrias no DI de João Pessoa – PB entre os anos de 2009 e 2010.
seguintes características: inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxidade ou patogenicidade, conforme os critérios técnicos estabelecidos pela norma, nos quais estão em grande parte os resíduos de origem dos processos fabris. Os resíduos não perigosos da Classe II A, não inertes, possuem características de biodegradabilidade, combustibilidade ou solubilidade em água. Por último, as massas sólidas ou semissólidas pertencem à classe II B, inertes, quando não apresentarem mudanças em suas características, nas quais se possam verificar no ensaio de solubilização em comparação com os padrões de potabilidade de água, excetuando variação ocorrida na cor, na turbidez, na dureza e no sabor.
A Resolução CONAMA nº 313/02, que possui o objetivo de montar as bases metodológicas do Inventário Nacional de Resíduos Sólidos, alicerçada na PNRS em seu art. 8º, inc. II, classifica-os em três classes, I, II e III. Sendo a classe I, correspondente aos resíduos perigosos e as classes II e III, resíduos não perigosos, conforme a NBR 10.004/04. As seguintes tipologias de resíduos sólidos presentes nos empreendimentos do DI, constantes na citada Resolução, estão expostas nas Tabelas 25, 26, 27 e 28, tratando, respectivamente, do armazenamento, do tratamento, da reutilização e da disposição final das 46 indústrias pesquisadas e ativas.
Tabela 25: Classificação do armazenamento dos resíduos sólidos das indústrias pesquisadas de acordo com a Resolução CONAMA nº 313/02 em 2009 e 2010.
Código Armazenamento Quantidade de indústria %
S01 Tambor em piso impermeável, área coberta 12 26,09%
S11 Tambor em piso impermeável, área descoberta 2 4,35%
S02 A granel em piso impermeável, área coberta 11 23,91%
S12 A granel em piso impermeável, área descoberta 3 6,52%
S05 Bombona em piso impermeável, área coberta 1 2,17%
S22 A granel em solo, área coberta 1 2,17%
S32 A granel em solo, área descoberta 16 34,78%
Total 46 100,00%
Fonte: Tabulação dos Dados Pelo Autor. Apêndice I.
Observa-se na Tabela 25 informações acerca da forma de armazenar os resíduos sólidos antes do tratamento, da reutilização ou da coleta. Esta última pode ser realizada pela municipalidade ou por empresa especializada em tratamento de resíduos. A escolha do tipo de armazenamento, se em tambores, ou a granel, dependerá tecnicamente de duas variáveis básicas: o tipo de resíduo armazenado e qual sua finalidade (coleta, tratamento ou reutilização nos processos fabris). Entretanto, os citados critérios não são executados, sendo vários os entendimentos dos gestores das fábricas, embasados em nenhuma técnica ambientalmente
adequada. Assim sendo, 34,78% das indústrias pesquisadas e ativas armazenavam seus resíduos sólidos e semissólidos diretamente no solo e em área descoberta (Figura 47).
Figura 47: Armazenamento a granel, diretamente no solo e em área descoberta. Indústria de reciclagem de plástico localizada na Av Walter Bellian – DI. Fonte: o autor.
Data: 09/09/2009.
Tabela 26: Classificação do tratamento conferido aos resíduos sólidos das indústrias pesquisadas de acordo com a Resolução CONAMA nº 313/02 em 2009 e 2010.
Código Tratamento Quantidade de indústria %
T01 Incinerador (empresa especializada) 7 15,22%
T05 Queima a céu aberto 4 8,70%
T18 "Landfarming" 1 2,17%
T34 Resíduo orgânico triturado 1 2,17%
Nenhum tratamento 33 71,74%
Total 46 100,00%
Fonte: Tabulação dos Dados Pelo Autor. Apêndice I.
A Tabela 26 mostra que 15,22% das indústrias visitadas tratavam seus resíduos sólidos industriais por empresa especializada em incineração, isto é, queima autorizada pelo órgão ambiental estadual, a qual ocorria de forma monitorada e controlada tecnicamente. Observou-se que 71,74% não conferiam nenhum tratamento aos seus resíduos, antes da coleta ou da destinação final. A Figura 48 mostra a disposição espacial do tipo de resíduos sólido que vai para o aterro sanitário da região metropolitana de João Pessoa.
Figura 48: Disposição espacial dos tipos de resíduos sólidos que são coletados nas indústrias do DI e transportados diretamente para o aterro sanitário metropolitano de João Pessoa-PB entre os anos de 2009 e 2010.
disposição da coleta convencional – aquela realizada pela prefeitura e encaminhada para o aterro sanitário – resíduos perigosos oriundos de seus processos produtivos. Além disso, 8,70% das empresas tratarem o resíduo de suas fábricas de forma inadequada, queimando-o, em total desconformidade com o que preceitua a PNRS, art. 47, inc. III, e revelado na Figura 49.
Figura 49: Resquícios de queima a céu aberto de resíduos sólidos. Indústria de reciclagem de plástico localizada na Av Walter Belian – DI.
Fonte: o autor. Data: 09/09/2009.
Tabela 27: Classificação e quantificação da reutilização conferida aos resíduos sólidos das indústrias pesquisadas, de acordo com a Resolução CONAMA nº 313/02 em 2009 e 2010.
Código Reutilização / reciclagem / recuperação Quantidade de indústria %
R06 Incorporação em solo agrícola 1 2,17%
R08 Ração animal 3 6,52%
R12 Sucateiros intermediários 6 13,04%
R13 Reutilização / reciclagem / recuperação interna 8 17,39%
R99 Repasse do reciclável não metal 5 10,87%
Nenhuma reutilização / reciclagem / recuperação 23 50,00%
Total 46 100,00%
Fonte: Tabulação dos Dados Pelo Autor. Apêndice I.
Destaca-se da Tabela 27, os 17,39% dos empreendimentos que rearranjam seus resíduos sólidos fazendo-os retornar aos processos de produção como matéria-prima, com ênfase às empresas nos ramos da metalurgia, da cerâmica e dos plásticos em geral. Daquelas que não se utilizam de nenhum tipo de reaproveitamento estão incluídas todas aquelas que possuem, no mínimo, resíduo como papel, papelão, plástico, oriundos de materiais de
escritório, ou ainda, as que detêm rejeitos com potencial reciclável e o destinam para o aterro sanitário, ou outra forma menos adequada (Figura 50).
Figura 50: Resíduos sólidos armazenados no solo. Indústria têxtil localizada na rua P-11 DI. Fonte: o autor.
Data: 03/08/2009.
Tabela 28: Classificação e disposição final conferida aos resíduos sólidos das indústrias pesquisadas, de acordo com a Resolução CONAMA nº 313/02 em 2009 e 2010.
Código Disposição final Quantidade de indústria %
B01 Infiltração no solo 3 6,52%
B02 Aterro municipal 38 82,61%
B20 Rede de esgoto interna (fossa séptica) 1 2,17%
B30 Restos e cinzas no solo 4 8,70%
Total 46 100,00%
Fonte: Tabulação dos Dados Pelo Autor. Apêndice I.
Cerca de 16,0% das empresas dispõem seus rejeitos sólidos e semissólidos diretamente no solo (Figuras 47, 49 e 50). A grande parte das demais (82,61%) direciona seus resíduos para o aterro sanitário metropolitano da cidade de João Pessoa. O risco ambiental intrínseco a esse dado é refletido nas empresas que possuem resíduos industriais e os destinam à coleta convencional. Aproximadamente 29,0% das empresas que utilizam o citado aterro, repassam seus resíduos industriais sem nenhum tipo de tratamento, ou não são coletados separadamente pela empresa de limpeza urbana municipal para serem dispostos em células especiais para este tipo de rejeito.
De acordo com os artigos 14 e 20 da PNRS, cada empresa, nos termos da referida lei, deverá elaborar e executar, inclusive para obter o licenciamento ambiental (art. 24), o plano
de gerenciamento de resíduos sólidos, que deverá ser integrado ao plano da edilidade municipal.