B. Şüpheli vaka
1.1.3.3 Nekrotizan Fasiitin Patofizyolojis
Como em um grande coro, emergem-se as vozes de algumas (dentre as várias) personagens de António Lobo Antunes. Logo de entrada, nesta grande cena, encontra-se uma personagem indagando-se diante espelho: “Quando é que me fodi?” (2009, p.21). No outro canto, escuta-se a voz de outra personagem (ou seria a mesma?) tentando buscar no passado a inocência perdida: “(...) em que fundo de mim deixei que essa inocência se perdesse?” (2003, p.195). Entre essas vozes, surge mais uma sem saber ao certo se está a sonhar ou a delirar: “(...) E, como sempre acontecia no decurso das insônias, os malucos da infância, os ternos, humildes, indignados, esbravejantes malucos da infância principiavam a desfilar um a um pelas trevas” (2006, p. 12). Surge na cena um “miúdo” tentando entender os pássaros: “Quando eu era pequeno o meu pai explicava-me os pássaros, os ninhos, os costumes deles, o modo de voar. Não faças caretas, éramos ambos diferentes nessa época. Se o conhecesses então compreendias” (2009, p.47). Enquanto, outra revive a infância: “Lembro-me de quando tinha doze anos, roubava cigarros ao avô, os dividia com o filho do caseiro e se estendiam ambos na relva a fumar (...)” (2005, p.21).
As lembranças que insistem em vir à tona, a infância sempre a rumorejar (2008, p.87), como disse uma das personagens. Entre tantas vozes, escutam-se também o eco de vozes autoritárias, discursos repressores. Há o grupo daqueles que preferem inventar para si mesmos uma infância que nunca existiu. Recordações de momentos de abandono, uma infância repleta de mágoas e de desencanto.
Quem são essas personagens? De que narrativas elas saíram? Em muitos momentos, ao longo deste trabalho, apesar dos romances antunianos serem extremamente polifônicos e dividirem-se em seis ciclos temáticos, tive a sensação de estar “ouvindo” sempre a mesma voz, que poderia ser chamada de a “voz da memória”. Aliás, a memória é a problemática central deste estudo associada à identidade, à alteridade e à linguagem. Dessa forma, as identidades são formuladas no entrecruzar das distintas espacialidades e temporalidades como em um grande mosaico. Com a vida totalmente em desordem, o caos instaurado, as personagens revivem a difícil tarefa de aprender pela experiência mesmo que dolorosa. Um aprendizado que surge por meio de um discurso, muitas vezes, confuso, caótico e
disperso, mas sempre na tentativa de religar as pontas da vida: passado, presente e futuro.
Sendo a personagem antuniana formada pelas aporias da memória, foi importante apoiar-me em Paul Ricoeur a fim de definir a identidade como uma questão temporal. É na temporalidade que o eu narrador empreende a busca por si mesmo e consegue encontrar possíveis respostas. Sendo assim, pretendi demonstrar que as personagens tentam reconfigurar o passado pela narração. O corpus teórico e ficcional mostrou-me que rememorar é também criar. A narração, através da linguagem, instaura outra temporalidade e por isso nem tudo o que emerge da atividade mnemônica corresponde ao passado. Ou seja, é assinalado o inegável entrecruzamento da memória e da imaginação que coloca em diálogo lugares reais e inventados.
Nessa tese, alguns questionamentos foram-me essenciais para compreender o romanesco antuniano, especialmente nos últimos romances. As personagens reelaboram as suas experiências conflituosas partindo sempre de uma situação dolorosa no presente. Por exemplo, a partir da casa, espaço físico, mas também psicológico, a personagem recupera diferentes fragmentos do passado. Como também uma situação de morte ou quase-morte pode ser ponto de partida para o surgimento das lembranças não tão felizes.
A leitura dos romances revela que há fatos que não podem ser narrados, salientando a importância do que fica no esquecimento, do que não é dito, daquilo que ainda resiste e não pode ser recordado, mostrando a impossibilidade de traduzir o vivido. Sem dúvida, a memória é seletiva, sendo assim, os esquecimentos são extremamente significativos na tentativa de lidar com algum trauma. Nos cinco romances, pude comprovar que o trauma insistentemente recuperado, mesmo que cada repetição produza outros sentidos, traduz uma situação conflitante da infância. Recuperar um momento que ainda causa dor, essa “ferida na memória”, faz as personagens redimensionarem os sentidos do passado, reorganizando toda a reflexão sobre o presente.
Outro questionamento que me propus nessa tese deve-se à dialética das personagens. A procura por entendimento é uma constante nos romances, seja ao olhar-se no espelho, intentando encontrar-se nas fotografias, nas memórias, no diálogo com o Outro, na lembrança do Outro, mas, principalmente, através da
narração e da escrita (se considerar que muitos personagens escrevem em um diário). A metáfora do espelho personificada nas diversas relações que as personagens estabelecem consigo e com os Outros, traduzindo a fragmentariedade/fragmentação dos sujeitos.
Em Lobo Antunes, especialmente nos romances do ciclo do silêncio, a linguagem é um processo terapêutico, muitas vezes, constituindo uma luta contra a morte seja da própria personagem ou o fim da narrativa. Narrar torna-se imperativo. Não há salvação, pois não tem como esquecer ou apagar o passado, todavia é preciso buscar algum sentido nessas experiências subjetivas.
É o que faz o autista em O arquipélago da insónia,manifestando o desejo de voltar para casa: “(há alturas em que gostaria de estar em casa de novo e não só pelo brilho dos cobres, não vou contar porquê, eu cá me entendo, pode parecer esquisito porém até das doninhas sinto a falta (...))” (2010, p.90). Em Que cavalos
são aqueles que fazem sombra no mar, Beatriz, a última voz do romance, também
quer voltar: “Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso” (2009, p.334). Em Sôbolos rios que vão, o romance termina com a imagem do personagem-narrador ao lado da mãe: “enquanto em vez de adormecer ao colo, encostado às rendas do peito, ele sentado ao chão à medida que a mãe ajeitava a máquina de costura e a enrolar-se-lhe nas pernas para a ouvir cantar” (2010, p.199). Cristina, em Comissão das lágrimas, ainda gostaria de estar perto da mãe no apartamento em Lisboa: “(...) apesar de tudo as molas continuam e eu viva ao seu lado, não morri por enquanto (...)” (2011, p.295). O final de Não é meia noite quem
quer também é bastante emblemático, pois no momento do suicídio, a personagem
imagina reencontrar a família: “o meu irmão mais velho falecido há tanto tempo a sorrir um sorrir um sorriso que lavava a cara dele e a minha (...), a minha mãe a separar-se de si e a estender-me na direcção do mar (...)” (2012, p.454).
Por último, considerando que a memória é um trabalho do sujeito, mas carrega consigo as memórias de diferentes grupos, em cada memória emerge de condições coletivas, sociais, históricas, etc. Gostaria de finalizar este trabalho com um pequeno trecho do último romance Caminho como uma casa em chamas:
Segundo Direito
Não gosto do apartamento porque não me encontro, pequeno,a brincar na marquise, alugámo-lo ao casar e o resultado estes filhos, a tua asma, sobretudo eu tão desajeitado, tão fraco, em solteiro a minha mãe protegia- me não do meu pai que nem me via, das minhas irmãs e do meu irmão, gabava-me às visitas
– Tira os óculos para a dona Adelaide reparar nesses olhos azuis o mundo uma névoa difusa, a dona Adelaide surpreendida – Quem havia de dizer que são lindos?
e logo a seguir com dó – Que pena tantas dioptrias
não gosto do apartamento nem dos móveis, a água da jarra mais murcha que as flores, gritos de sobrancelhas rápidas na janela a que chamam andorinhas, a minha mãe de súbito nova (2014, p.11)
Sem dúvida, o último romance de António Lobo Antunes, publicado em Outubro de 2014 em Portugal, poderia ser objeto de estudo neste trabalho, pois apresenta, assim como os anteriores, personagens que buscam na encruzilhada de tempos e memórias uma possibilidade de resolver seus conflitos mais internos. Em
Caminho como uma casa em chamas há, como pano de fundo, quatro andares de
um prédio onde convivem alguns personagens. No capítulo, “Segundo Direito”, Joaquim afirma não gostar do apartamento, pois não encontra nele vestígios da sua infância. Em outro trecho, percebe-se que ele, assim como tantas outras personagens, teve um pai ausente: “(...) não conversávamos ele e eu, a vinha e sem neblina os candeeiros de Manteigas ao longe, conversar de quê, tão parecidos, desajeitados, fracos, o que fez você de útil pai, o que se aproveita, o que fiz eu de útil pai (...)” (2014, p.13).
Não poderia essa voz estar em um dos romances estudados nesse trabalho? Certamente que sim, já que essa voz volta-se para o passado, mas não recupera um paraíso perdido, idealizado. Mais uma vez corroborando com a ideia de que lembrar- se do passado permite uma releitura crítica do presente.
Acabou a viagem, sem conclusões definitivas, mas cheia de possibilidades futuras, caminhos por percorrer. E sim, Senhor Lobo Antunes, essa trajetória deu nexo a minha própria vida39.
39
“Peço-lhes que dêem por ela, compreendam que vos pertence e, além de compreenderem que vos pertence, é o que pode, no melhor dos casos, dar nexo à vossa vida". In: ANTUNES, António Lobo. "Receita para me lerem", Revista Visão, 3 jan. 2002.