Ao analisar as fotos de alguns violonistas do Violão Clube do Ceará, observei que raramente os critérios técnicos defendidos pelo violonista Francisco Tárrega são seguidos, o que sugere haver dúvidas ou informações imprecisas sobre o que ele realmente propôs. A breve exposição que faço sobre o que pesquisei e entendi sobre o método empregado por Francisco Tárrega conirma, de algum modo, o que se declara acima.
Aleardo Freitas e Fábio Girão
Como se sabe, os conceitos técnicos adotados por Francisco Tárrega vieram a de- inir o que veio a se chamar a Moderna Escola do Violão. Durante anos, ele desenvolveu e utilizou vários exercícios com escalas, arpejos, formas de ligados e trêmulos que, segundo ele próprio, facilitariam a execução das peças musicais e proporcionariam a evolução instrumental do violonista. Precisamente suas intervenções se dão na forma como os dedos pulsam as cordas, na posição peculiar da mão direita, no uso do banquinho de apoio, na colocação do violão sobre a perna esquerda e no toque sem unha. Onde se sentar, como se sentar, como colocar o violão, as posições da destra e da esquerda são detalhes que, juntos, resultarão numa movimentação muscular que permite melhor execução, pois decorre de uma adaptação natural entre o corpo e o instrumento e constitui, além disso, uma forma de relaxamento.
Francisco Tárrega não escreveu nenhum método para o violão, porém todos os con- ceitos por ele desenvolvidos estão nos escritos de seus principais discípulos, dentre os quais se destaca, já tantas vezes dito, o violonista e pesquisador Emilio Pujol.
Por meio de algumas fotos e gravuras de Francisco Tárrega, é possivel observar facilmente o que ele propôs: deve-se sentar na frente de uma cadeira sem braço, colocar o pé esquerdo num banquinho de mais ou menos 15 cm de altura, apoiar o violão na perna esquerda, o que resulta numa postura ereta da coluna vertebral. Como a mão direita tem função primordial na execução no violão, pois todo o esforço rítmico está concentrado nela, o antebraço deve icar sobre o arco do violão, fazendo com que essa mão caia sobre a boca do violão sem forçá-la. Os dedos indicador, médio e anular dessa mão icam numa posição de aproximadamente 90o em
relação às cordas e o dedo polegar toca as cordas de forma independente dos outros dedos. A posição ideal da mão esquerda é aquela em que o dedo polegar ica atrás do braço, enquanto as demais tocam as cordas com as pontas e numa abertura natural entre eles. Isso é o que menos se vê nas fotos que registram os integrantes do Violão Clube do Ceará em atuação.
4.4 Qual é a música?
Lembrando mais uma vez o que já comentei, o compositor e violonista espanhol Francisco Tárrega revolucionou a técnica violonista por meio do que rotulou de Escola Tárrega. Ela conjuga uma teoria e um método mediante os quais se estabelece uma nova maneira de se pensar o violão e traz implícito um repertório musical que se tornou consagrado pela difusão e po- pularização promovidas por muitos de seus alunos – principalmente, Emilio Pujol (1886- 1980) e Miguel Llobret (1878-1938) —e que hoje é adotado por vários conservatórios. Nas pesquisas feitas há duas publicações icnográicas sobre o repertório tocado no Violão Clube do Ceará, vei- culadas na Gazeta de Notícias, nos dia 15 e 22 de julho de 1945, não destacando a presença de nenhuma composição de Francisco Tárrega. Eis o programa de 15 de julho de 1945:
1ª parte:
1 —Caixinha de Música- Isaias Sávio —Interpretado por Miranda Golinac 2 —Te Recuerdo- Guilherme Gomes —Interpretado por Miranda Golinac 3 — Serenata- Schubert Bernadino —Interpretado por João Lima
4 —Recordando- choro-João Pernambuco —Interpretado por João Lima 5 —O Teu Sofrer- valsa -Donizeth Lima —Interpretado por Álvaro Maia. 6 —Dime que si-valsa- Isaias Sávio —Interpretado por Francisco Soares 7 —Olhos Negros- Canção Russa- Interpretado por Aleardo Freitas.
2ª Parte:
1 —Souvenir d`um réve- Bairros Soares- Francisco Soares 2 —Estudo —Francisco Soares
3 —Arlete – valsa de Aleardo Freitas 4 —Dança Ritmada n 1 —Aleardo Freitas
5 – Interrogando — choro de João Pernambuco por João Lima 6 —Elegie – Massonet M. Cortez por Miranda Golinac
7 —Émilse Maria – valsa Armando Paiva e Aleardo Freitas por Aleardo Freitas 8 —Pequeno Pescador – Estudo de Francisco Soares por Francisco Soares.
Programa do recital de 22 de julho de 1945:
1ª Parte:
1 —Três da Manhã —valsa de João Lima 2 —Elegie —Massenet M. Cortez —João Lima 3 —Lucia —Valsa de Oscar Cirino —João Lima
4 —Prelúdio 20 – Chopin – Isaías Sávio, Interpretado por Miranda Golinac 5 —Estudo em forma de valsa —Miranda Golinac —Interpretado pelo autor 6 —Corrant- Bach –Isaias Francisco Soares
7 – Nara – Valsa de Francisco Soares —idem
8 —Dança no 1 —Francisco Soares por Francisco Soares
9 —Pricezita- polca Aleardo Freitas —Interpretado por Aleardo Freitas 10 – Tristeza —canção Aleardo Freitas
2ª Parte:
1 —Mazurca n 1- Isaias Sávio —Interpretado por Miranda Golinac. 2 – Reboliço –Choro de João Pernambuco —João Lima
3 —Ao Luar —Valsa de Levino —João Lima
4 —Sons dos Carrilhões – João Pernambuco, Interpretado por José Borges. 5 – Emily – Valsa Aleardo Freitas —Interpretado por Aleardo Freitas
6 —Celebre Serenata –H. Toseli —Interpretada por Aleardo Freitas
7 —Doce Mistério da Vida – arranjo de tremulo de Aleardo Freitas —Interpretado por Aleardo Freitas
8 – Estudo —Francisco Soares por Francisco Soares 9 —Reverie de Schuman Bernadine por Francisco Soares Parte 3ª —números variados
Como se percebe, não há nesses dois registros nenhuma música composta por Fran- cisco Tárrega ou que o relacione com o repertório musical que se tornou consagrado pela difu- são e popularização promovida por seus alunos, principalmente Emilio Pujol e Miguel Llobret e hoje adotado por vários conservatórios.