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A. Askeri Darbeler

2. Nedenleri

Jeca Tatu ganhou vida própria no final de 1914, a par do momento em que as populações europeias assistiam horrorizadas ao iniciar dos combates da Primeira Guerra Mundial. Por esta altura, Monteiro Lobato já ampliara sua experiência com a terra e administrava ele mesmo a propriedade herdada em área do Vale do Paraíba, zona do café. O café era o principal produto da pauta de exportação brasileira e muita riqueza estava a trazer aos fazendeiros, mas essa riqueza não era homogeneamente distribuída, nem tampouco a produção. Esta dependia de inúmeros fatores, da qualidade e estado da terra, da extensão da propriedade e benfeitorias das quais dispunha, da técnica e método de cultivo, da mão-de-obra. O Vale do Paraíba não constituía mais o pólo rico, pelo contrário, começara a decair, seu brilho rateara junto com o apagar das luzes do sistema de produção escravista. Lobato „estava‟ fazendeiro desde 1911, ao herdar, com as irmãs, as terras do avô, visconde de Tremembé. E o seu texto, intitulado “Uma velha praga” 41

e publicado em 12 de novembro no jornal O Estado de S. Paulo, surgiu da irritação do Lobato fazendeiro com as queimadas que grassavam na serra da Mantiqueira a cada ano e que naquele agosto de 1914 atingiram proporções inauditas.

Segundo o autor, o responsável por tal despautério era o caboclo, uma espécie de homem baldio que vivia à beira da civilização, agregado às fazendas. Nascia o personagem que, em novo artigo publicado dois meses depois, a 23 de dezembro, no mesmo jornal, sob o título “Urupês”, receberia a alcunha de Jeca Tatu. Aquela figura fraca, desprovida de força de vontade e senso estético, feia e grotesca, viu-se largamente ampliada neste segundo artigo. Nele, Lobato acentuou a ignorância e a preguiça do habitante do interior, caracterizando-o como “sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço”, aquele que vivia do que a natureza dava, sem gastar energia para alcançar qualquer objetivo na vida.

Os dois artigos foram posteriormente acrescentados ao livro primogênito de Monteiro Lobato, um volume de contos que ele mesmo publicou em 1918, com o idêntico título de Urupês, e cuja recepção o surpreendeu deveras, porque se esgotou

41 O nome original, tal como impresso a primeira vez, no jornal, incluía o artigo „um‟. Posteriormente,

rapidamente. O sucesso levou-o a tirar seguidas edições da brochura e, vinte e cinco anos depois, para comemorar o jubileu de tão meteórica carreira, saía uma „edição ônibus‟, que hoje se usa chamar edição crítica. Usei a expressão “acrescentados” porque os artigos só foram incorporados ao volume de contos a partir da segunda tiragem de

Urupês, conforme esclarece o prefácio feito especialmente para ela.

Em 1943, visando às comemorações do jubileu, o editor Artur Neves organizou um estudo intitulado “Notas biográficas e críticas”, onde esmiúça detalhes sobre o histórico da obra – em sua opinião, um verdadeiro milagre editorial em um país de analfabetos. Tal estudo foi posteriormente integrado ao volume de Urupês, a partir das edições da série „Obras Completas de Monteiro Lobato‟ feitas pela Editora Brasiliense42.

A tiragem inaugural, que Neves afirma ter sido vendida em poucos dias, saiu em agosto de 1918, com mil exemplares e capa de José Wasth Rodrigues 43, artista plástico que ensaiava os primeiros passos de uma carreira luminosa. Fora impressa nas oficinas gráficas d‟ O Estado de São Paulo e trazia, além dos desenhos de Wasth, outros de um „curioso sem estudos‟, que depois se divulgou ser Lobato mesmo. A segunda, com 2.000 exemplares, finou em um mês e tiraram então a terceira, ao final daquele ano, cuidando de multiplicar por dois a fornada no prelo. Parecia até que a obra tomara carona no vírus da gripe espanhola, tal o seu poder de disseminação. “O livro estava na quarta edição quando Rui Barbosa entra em cena e abre um famoso discurso no Teatro Lírico do Rio de Janeiro com a inesperada citação de Jeca Tatu”, registrou Artur Neves. A partir daí, segundo relembra o próprio Lobato,

“no escritório da „Revista do Brasil‟ – a editora do livro – o telefone não parou de tocar e as visitas emendavam uma na outra. „Isto é a suprema consagração, Lobato!‟. „O Rui não cita vivos e abriu uma exceção para você‟. Não houve comentário que não fosse feito. E no dia seguinte começaram a chover telegramas. Pedidos de Urupês de quanta cidade havia.

42 A empresa, que terá atuação marcante no ramo da produção de livros no Brasil, fora fundada em

novembro de 1943 por Caio da Silva Prado, Leandro Dupré, Hermes Lima, Artur Neves e Caio Prado Júnior. Em 12/02/1946 aumentaria seu capital com a adesão de oito novos sócios, entre eles o autor de Urupês. Além de sócio, Lobato lhe emprestaria a popularidade ao se tornar seu „autor carro- chefe‟, uma vez que toda a sua obra, até então impressa pela Companhia Editora Nacional, passou a sair com o selo da Brasiliense. Cf. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia, p. 341.

43 Wasth foi o autor, em colaboração com Guilherme de Almeida, do brasão da cidade de São Paulo,

escolhido em concurso promovido em 1916 por Washington Luis durante a sua gestão na prefeitura. Esse brasão trazia a inscrição “Non ducor duco” (não sou guiado, guio), dístico que resume bem o espírito paulista à época. Seu nome logo brilharia, associado ao que de mais in se publicava então na Pauliceia.

„Mande 100”, pedia uma casa do Rio. „Duzentos‟, pedia outra – e a quarta edição voou a galope. Tivemos de tirar imediatamente a 5ª, a 6ª, a 7ª e o livro foi subindo como foguete até saturar o público” 44.

Eu desconheço o porquê de Lobato só incluir “Velha Praga” e “Urupês” a partir da segunda edição. Imagino que isso se deveu ao fato de não serem contos, como os demais textos enfeixados no volume. Seja como for, logo ele mudou de opinião e resolveu aproveitar, na condição de editor, a fama dos seus escritos mais polêmicos como autor. Anos antes, ao saírem na imprensa, tais artigos obtiveram excelente repercussão e suponho que ele intentasse garantir, com a inclusão, que seu livro fosse bafejado ao menos por uns respingos daquela fama. A decisão se mostrou mais que editorialmente acertada, porque o trecho que motivou o discurso de Rui Barbosa pertence justamente ao artigo “Urupês” e a citação fez inflar ainda mais os índices de venda. Ao invés de “uma quantidade negativa” 45, o seu Jeca estimulou-o a perseverar

na seara de editor e resultou numa atividade empresarial que ajudaria a tornar mais nítido o papel fundamental do livro e da leitura para a modernização do país.

44 NEVES, Artur. “Notas biográficas e críticas”, in Urupês, 1951, p. 23-24.

Benzer Belgeler