Buscaremos neste capítulo compreender o discurso sobre a orientação das intervenções do urbano em Campina Grande, no período pesquisado, de modo a perceber como a cidade é pensada e com base em que o debate das intervenções é fomentado. Caracterizaremos as intervenções públicas realizadas enquanto formulação de um discurso do planejamento sobre a cidade em sua renovação urbana e problematizada pelo projeto de urbanidade.
Ao nos referir à urbanidade, tomaremos por compreensão os sentidos e os significados que passam a atribuir às transformações dos problemas urbanos e as alterações que estas processam na ordem social. Cabe, assim, chamarmos atenção à perspectiva de Louis Wirth ao distinguir urbanismo de urbanização. ‗Urbanismo‘ é aquele complexo de caracteres que formam o modo de vida peculiar das cidades e ‗urbanização‘ que se denota o desenvolvimento e as extensões destes fatores 122 ,incorporados em planos e Programas quanto a relação entre a cidade e sua materialidade vivida.
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Analisaremos assim em que consistiram as concepções do planejamento na estrutura urbana, visto que essa estrutura também articula um arranjo que reflete as relações sociais vivenciadas na cidade. Podemos supor que as intervenções no espaço da cidade, e neste ínterim discursos e práticas de planejamento, só podem ser compreendidos na articulação que mantém com a estrutura urbana e os seus arranjos, inclusive não territoriais, a exemplo da economia, da política e da cultura (Villaça, 2001).
O conceito estrutura urbana apresenta diferentes acepções, pois, pós anos 1990―(...), o termo estruturação urbana tem sido usualmente substituído por reestruturação urbana que se refere mais especificamente aos estudos que buscam compreender os processos de valorização capitalista do espaço enquanto movimento dinâmico de renovação de uso ou reutilização dos espaços da cidade‖. (SPÓSITO apud GOMES, 2007, p.23).
Percebemos estes arranjos como escritas de uma cidade que vai dispondo em seu espaço urbano os lugares, equipamentos, intervenções e formas de significá-la em seu processo de estruturação e reestruturação urbana. São formas orientadas pelo planejamento urbano local como tentativas de disciplinamento do uso e ocupação do solo, em sua estrutura urbana. Para efeito desta reflexão,
(...) chamaremos de estrutura (Grifo de autoria!) um todo constituído de elementos que se relacionam entre si de tal forma que a alteração de um elemento ou de uma relação altera todos os demais elementos e todas as demais relações. (...) São considerados elementos dessas estruturas o centro principal (...), os subcentros de comércio, e serviços (...), os bairros residenciais, ou melhor os conjuntos de bairros residenciais segundo as classes sociais e as áreas industriais.Esta estrutura está imbricada a outras estruturas territoriais, como os sistemas de transportes e de saneamento.(...).( VILLAÇA,2001, p.12).
Por essa perspectiva perceberemos como se constituíram as imagens e discursos acerca de Campina Grande a partir das suas estruturas territoriais, localizações123 e renovação em seu tecido urbano, de modo a perceber a dinâmica urbana do Município e as visões que caracterizaram a formulação de uma imagem do planejamento na cidade em seu desenho institucional.
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Desde logo, ao que diz respeito ao planejamento, não nos parece correto nos prendermos aqui à discussão desse termo, comumente e exaustivamente examinado por diversos autores, ou ainda o enfraquecimento teórico e metodológico do planejamento nas cidades.
Apontaremos, por assim dizer, a análise de formas mais ´mercadófilas´(Souza, 2006) e de privilegiamento do conceito de gestão em detrimento do de planejamento e das críticas endereçadas ao pensamento da tradição dos estudos sociológicos funcionalistas a respeito do urbano. Ou seja, pela condução do planejamento e da gestão urbana como mecanismos que visam o gerenciamento da cidade pelo empresariamento urbano posto pelo discurso do planejamento estratégico (Vainer, 2000), nesse sentido podemos afirmar que:
(...). Planejamento e gestão não são termos intercambiáveis, por possuírem
referenciais temporais distintos e, (...), por se referirem a diferentes tipos de atividades (Grifo de autoria!). (...). O planejamento é a preparação para a
gestão futura, (...), e a gestão é a efetivação, ao menos em parte (...), das condições que o planejamento feito no passado ajudou a construir. Longe de serem concorrentes ou intercambiáveis, planejamento e gestão são
distintos e complementares (Grifo de autoria!). (SOUZA, 2006, p.46).
Torna-se interessante perceber como a cidade se projeta e como se configura através das relações sociais, no espaço urbano do período analisado na tese. A ótica que orienta nossa leitura sobre o planejamento vai ao sentido de um esforço em promover uma análise do espaço urbano como prática social associada às modificações socioespacias, da estrutura urbana e das políticas que a constituíram.
Nesse propósito, tendo em vista buscar não cairmos na incompreensão dos dois termos envolvidos, optamos por trilhar os caminhos de Castells e Harvey124 , ao proporem a renovação crítica da pesquisa urbana na Sociologia e pensarem o espaço e os ‗problemas urbanos‘manifestados na cidade como problemas sociais relacionados às dinâmicas das relações, inclusive as de poder.
Relações sociais que estruturam este processo continuamente como complexo e diferenciado do qual especificamente tomaremos Campina
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Em obras como, respectivamente, ―A sociedade em rede (2006) e ―Condição pós-moderna‖ (2000).Souza (2006, p.25-26) também realiza uma discussão interessante, tomando por base a análise do planejamento urbano rumo a um planejamento urbano crítico.
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Grande como expressão particular, pois cada cidade se inscreve num determinado sistema urbano, e numa certa dinâmica.
O que importa considerar no recorte aqui proposto, e por nós escolhido, é a compreensão dos discursos que deram suporte aos programas e planos que refletiram, por sua vez, uma imagem de Campina Grande. Imagem essa configurada a partir da preconização de uma concepção de planejamento, orientada em um discurso de uniformização dos interesses e sob a construção de consensos, em torno das questões refletidas na estrutura urbana local.
Planos, programas e projetos que, enquanto planejamento urbano local, traçam e definem um perfil econômico, social e espacial da cidade e, diante deste cenário, propiciam e registram intervenções e elaborações sobre o urbano em Campina. Orientam a nomeação de um discurso modernizador e desenvolvimentista que, a partir dos anos 1970, será capaz de apresentar e encaminhar a cidade por outro padrão de urbanidade, ao ter por base a idealização de um planejamento centralizado e calcado em um discurso racional, cientifico e técnico.
É este planejamento que, em seu padrão, rege as intervenções públicas e a compreensão da dinâmica urbana de Campina Grande. É a
produção dos planos (Maricato, 2000) que passa a projetar um discurso sobre
a cidade, por nós lido como utópico e autoritário; o que também confirma o sentido e as tendências mais recentes da ação pública sobre o urbano em Campina Grande.
Registra-se o surgimento da predominância nas intervenções públicas, tal como no restante do país, e de procedimentos de um planejamento fundamentado pela imposição de grandes planos e obras urbanas que se caracterizam pela debilidade e pobreza das ideias operacionais. Debilidade no sentido da formação de uma racionalidade que contraditoriamente não se realiza: ―(...), existência de um pântano entre sua retórica e sua prática,
normatividade cidadã (grifo de autoria!) no discurso e desigualdade prática
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A instabilidade política e administrativa características do período ditatorial gerou uma inércia da política urbana local, praticamente inexistente até então. Porém é justamente neste momento que se tenta retomar a urbanização de Campina, através de uma política de racionalização preconizada pelos militares. Interessante reforçar que a ideia de intervenção urbana teve por tônica a industrialização, articulada pelo Grupo Desenvolvimentista nos anos 1950, e a marca dos financiamentos de projetos via SUDENE nos anos 1960.
A perspectiva dos planos obedecia a uma orientação de âmbito federal, de uma espécie de modernização autoritária das cidades brasileiras iniciada em 1964, com a criação do BNH (Banco Nacional de Habitação). A esse respeito Ferraz coloca que:
Desde os tempos mais remotos as cidades sofrem adaptações e mudanças na sua estrutura física, seja porque em cada tempo cada sociedade apresenta suas próprias características estruturais, seja em função do seu próprio crescimento e desenvolvimento em um determinado período de sua história. Equipamentos vão sendo construídos, aumenta-se o número de moradias, abrem-se ruas, constroem-se pontes, ou ainda obras de infraestrutura (...).
Entretanto, as soluções encontradas para resolver os problemas urbanos de caráter físico não se reduzem apenas às questões técnicas, imediatas ou não, mas perpassam pelos campos político e simbólico, que lhe dão respaldo. (...). Trata-se de uma ação política, com interesses específicos, cuja intervenção deve atender aspectos ideológicos e tecnológicos (...). (FERRAZ, 2008, p.107).
Deste modo nos anos 1970 a cidade vai passar pelo ressentimento da ausência e articulação de um projeto mais amplo, que se dará em vista da desarticulação e o esvaziamento promovidos pelos militares à grande parte das lideranças locais oposicionistas ao regime125. Nesse sentido, ressalta Lima:
(...). No primeiro decênio em que vigorou a política centralizadora, ocorreu o acúmulo enorme de prejuízos e quase nenhum benefício por parte do governo federal para o município de Campina Grande. E, mesmo no período de distensão gradual, no tocante a grandes projetos de investimentos, pode-se afirmar que os militares mantiveram a mesma política excludente em relação ao município. (LIMA, 2004, p.220).
Definhava-se a relação entre administradores locais e poder central, mas Campina continuaria a necessitar ser viabilizada como receptora de
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Basta observar que no período de 1964-1970 Campina Grande teve cinco Prefeitos e dois Interventores Federais. A esse respeito conferir Lima (2004).
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investimentos e reinserida ao processo de ampliação de recursos federais. De sobremaneira se busca uma ação, refletida nos arranjos políticos locais, mobilizada para adequar, mesmo que de forma ambígua, o discurso da cidade e sua formulação às ações desenvolvimentistas protagonizadas vias governo central.
Campina passa a ser remetida pela engenhosa estratégia de sua inserção a critérios técnicos que, uma vez conjugados à orientação centralizadora, fundamentarão os princípios ordenadores do espaço urbano em nome de uma apregoada necessidade de planejar e sistematizar estudos técnicos sobre a cidade, o que exigiria olhar Campina Grande pelo estabelecimento de uma imagem de cidade ordenada, controlada e, em suma, planejada.
É assim que o PDLI, elaborado em 1973 e aprovado em 1975, será continuamente ajustado às metas dos governos de plantão Para tanto, necessário se fazia melhorar a infraestrutura urbana da cidade, expandir a sua rede rodoviária, ampliar as atividades de comércio e serviços abrigados e barrar os movimentos migratórios intraregionais nela instalados.
Busca-se apoio no discurso de que Campina necessitava de um planejamento funcional, contraposto à realidade densa e conflituosa que se deparava em seu território. Aprofunda-se a crença da possibilidade da técnica que passa a ditar a melhor solução para a cidade, na qual as questões urbanísticas devam ser pensadas pela implantação de um sistema local de ordenação e controle.
Esses objetivos visavam consolidar o arcabouço político-institucional em direção à concepção da cidade como forma integrada, mantida em um corpo socialmente controlado e sadio, submetida a um conjunto de racionalidades oriundas da instituição estatal cujo poder se efetivava pelo planejamento centralizador de diretrizes, planos e ações(vide Figura 24).
A concepção do desenho institucional se dirige a um planejamento que solucionaria os desequilíbrios gerados na cidade; o que, em sua maior parte,
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trará consequências drásticas a problemas que começavam a ganhar destaque como questão urbana local a ser enfrentada por uma imagem pública e peculiar de pensar o urbano em Campina Grande. É o caso, por exemplo, da favelização e a pobreza urbana passam a ser encaradas pelo viés de um planejamento que as percebiam como perigosas débeis em suas formas, marginais em seus usos e atravessadas em suas práticas, dada suas ilicitudes.
Figura 24: Campina em seu desenho institucional. Fonte: PMCG/COPLAN, 1983.
PDLI e CURA se caracterizam como intervenções que se voltam à necessidade de resolução de crescentes problemas, cujos desafios mais visíveis localmente serão o precário padrão da reprodução social e a exigência em pensar Campina Grande a partir de outra ordem: a urbana. Constitui cada um, por formato específico, a representação de Campina Grande e as dimensões acarretadas no urbano, colaborando assim para a definição das imagens e significados sobre a cidade, como veremos a seguir.
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