Como uma construção jurisprudencial, a declaração de um estado de coisas inconstitucional teve seus requisitos definidos inicialmente pela Corte Constitucional colombiana.
Observa-se, entretanto, que houve uma notável evolução no entendimento jurisprudencial da Corte colombiana, possivelmente inspirada pelo desenvolvimento doutrinário do tema.
Neste sentido, constata-se que foram sucessivamente revistos os requisitos iniciais que ensejavam a decretação de um estado de coisas inconstitucional.
Com efeito, a concepção inicial do novo instrumento judicial trazia como condições dois requisitos básicos que já constavam na sentença original (SU- 559/97275) mas que foram melhor delineados na sentença SU-090/00276.
Assim sendo, neste primeiro momento, a decretação de um estado de coisas inconstitucional pressupunha apenas que a existência de uma repetida violação de direitos fundamentais de muitas pessoas (que poderiam recorrer individualmente a ações de tutela) e que a causa desta vulneração não fosse imputável a uma única autoridade, uma vez que repousa em fatores estruturais.
À primeira vista, se percebe que essa concepção inicial não era suficiente o
275 Segue parte selecionada da referida referida decisão: “La distribución regional de los educadores debe responder a las
necesidades de la educación, es decir de los alumnos y de los potenciales beneficiarios del servicio. Esta Sala es consciente de que la redistribución de los docentes oficiales de acuerdo con las necesidades del servicio puede acarrearle trastornos a muchos educadores. Sin embargo, es ese un costo inevitable si se desea dar cumplimiento a las órdenes constitucionales de destinar los recursos del situado fiscal a la educación y a la salud, de asegurar que todas las personas, y, en particular, las de menores ingresos, tengan acceso efectivo a los bienes y servicios básicos y de solucionar las necesidades insatisfechas de la población en materia de educación.”
276 Segue trecho da referida sentença: “El estado de cosas inconstitucional se predica de aquellas situaciones en las que (1) se
presenta una repetida violación de derechos fundamentales de muchas personas - que pueden entonces recurrir a la acción de tutela para obtener la defensa de sus derechos y colmar así los despachos judiciales - y (2) cuando la causa de esa vulneración no es imputable únicamente a la autoridad demandada, sino que reposa en factores estructurales. Estas características se presentan en lo relacionado con la omisión en el pago de las pensiones en el Chocó. En efecto, como se ha observado, la mencionada situación afecta ya a cientos de personas y ha significado una importante sobrecarga para la administración de justicia en el último tiempo, debido a los centenares de tutelas e incidentes de desacato a que ha dado lugar. Además, el no pago de las pensiones no depende de la voluntad del gobernador, sino que responde a una situación de crisis del departamento.”
que ocasionou a inclusão de novos requisitos, com a evolução da jurisprudência da Corte Suprema colombiana.
SONIA PATRICIA CORTÉS ZAMBRANO277 identifica esta evolução a partir
do conteúdo das sentenças T-025/04278 e T-068/2010279 proferidas pela Corte
Constitucional colombiana que elencou novos requisitos para a declaração de um estado de coisas inconstitucional.
A partir dos julgados em referência, a Corte Constitucional colombiana consolidou como requisitos para a declaração de um estado de coisas inconstitucional os seguintes:
1) Uma vulneração massiva e generalizada de vários direitos constitucionais que afeta a um número significativo de pessoas;
2) Uma prolongada omissão das autoridades no cumprimento de suas obrigações para garantir estes direitos;
3) A adoção de práticas inconstitucionais, como a exigência de incorporar a ação de tutela como parte do procedimento para garantir o direito violado; 4) A não expedição de medidas legislativas, administrativas ou orçamentárias necessárias para evitar a vulneração destes direitos;
5) A existência de um problema social cuja solução requer a intervenção de várias entidades para a adoção de um conjunto de medidas multissetoriais que exigem um nível de recursos que demanda um esforço orçamentário importante;
6) Se todas as pessoas afetadas pelo mesmo problema ajuizarem ações individuais de tutela para obter a proteção de seus direitos, se produziria um maior congestionamento judicial.
Estes seis elementos podem ser resumidos em dois elementos principais, denominados por Cesar Rodrigues Garavito280 como condições do processo (falhas
277
ZAMBRANO, Sonia Patricia Cortés. Poder Discrecional de la Corte Constitucional en el Estado de Cosas
Inconstitucional. Disponível em: <http://www.revistas.usantotomas.edu.co/index.php/viei/.../1149>. Acesso em 13/01/2016.
278 A referida sentença reconheceu o ˜Estado de Coisas Inconstitucional” em defesa da população vítima do despojo violento
de terras, nos seguintes termos, in litteris: (…) En razón de esta multiplicidad de derechos constitucionales afectados por el desplazamiento, y atendiendo a las aludidas circunstancias de especial debilidad, vulnerabilidad e indefensión en la que se encuentran los desplazados, la jurisprudencia constitucional ha resaltado que éstos tienen, en términos generales, un derecho a recibir en forma urgente un trato preferente por parte del Estado. Este derecho al trato preferente constituye, en términos de la Corte, el “punto de apoyo para proteger a quienes se hallan en situación de indefensión por el desplazamiento forzado interno”, y debe caracterizarse, ante todo, por la prontitud en la atención a las necesidades de estas personas, ya que “de otra manera se estaría permitiendo que la vulneración de derechos fundamentales se perpetuara, y en muchas situaciones, se agravara”.
279
De igual maneira, a referida sentença tutela os direitos da população vítima do desplazamiento forzado.
280 Apud LYONS, Josefina Quinteros, MONTERROZA, Angélica Matilde Navarro e MEZA, Malka Irina. La Figura del Estado
de Cosas Inconstitucionales como Mecanismo de Protección de Los Derechos Fundamentales de La Población Vulnerable em Colombia. Disponível em: <http://www.dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/4767667.pdf>. Acesso em
estruturais das políticas públicas de um país) e condições de resultado (violação massiva dos direitos fundamentais de um número indeterminado de pessoas).
A estes dois elementos essenciais deve se somar a necessidade imperiosa de trabalho em conjunto de várias autoridades públicas para a mudança de uma realidade que se mostra contrária à Constituição.
Como já foi dito, entretanto, tais requisitos não são idênticos em outros países latino-americanos.
MIGUEL ENRIQUE FALLA LY e SERGIO ENRIQUE ZAPATA TELLO281
explicam que no Peru, o Tribunal Constitucional estabeleceu na sentença 2579- 2003-HD/TC282 que os requisitos necessários para o reconhecimento de um estado
de coisas constitucional são basicamente quatro, quais sejam:
1) Violação generalizada de direitos fundamentais;
2) Violação gerada por um único ato ou por um conjunto de atos; 3) Vulneração ou ameaças de direitos de pessoas alheias ao processo; 4) Na hipótese de decorrer de um único ato, o estado de coisas inconstitucional se declarará quando se sustentar em uma interpretação inconstitucional de uma lei ou de uma disposição regulamentar por parte do órgão público.
Percebe-se que o modelo peruano traz a inovação de poder se declarar um estado de coisas inconstitucional mesmo diante de um fato isolado, desde que se sustente em uma interpretação inconstitucional de uma lei.
Além disso, o Tribunal Constitucional peruano já ensaia no terceiro requisito supramencionado a ideia de expansão dos efeitos da sentença, o que será melhor analisado no próximo subcapítulo.
Repise-se que o modelo brasileiro ainda está em plena construção e será analisado oportunamente, ao final deste capítulo.
281 Op. cit. 282
Caso Arellano Serquén, já mencionado anteriormente. A íntegra da sentença pode ser consultada no sítio do Tribunal Constitucional Peruano (www.tc.gob.pe).