BÖLÜM 4. ARAŞTIRMA BULGULARI VE SONUÇLAR
4.1. Nar Sularının İşlenmesi ve Depolanması Sırasında Bulanıklık Oluşumları
A trajetória e os escritos de Polo de Ondegardo apresentariam um contraste significativo com relação àquilo que foi dito anteriormente a respeito de Sarmiento de Gamboa. Este, uma figura constitutivamente ambígua em sua condição de soldado, não teve a oportunidade de fazer circular as ideias contidas em sua Historia Indica. Como se viu, mesmo entre os aliados de Toledo, o apoio radical dado aos seus atos por Sarmiento de Gamboa representava um obstáculo à nova agenda política estabelecida com a consolidação das instituições imperiais na América, de modo que o autor soava como uma voz dissonante no consenso pretendido pela Coroa. Perante o ostracismo a que foi relegada sua principal obra, seria significativo o contraste representado pela ampla divulgação dada aos manuscritos de Ondegardo. Ao contrário daquele, este se tornou uma verdadeira autoridade no que tangia aos costumes dos índios peruanos. O próprio Sarmiento de Gamboa o mencionaria de forma insistente em sua Historia Indica, apresentando-o como principal promotor da descoberta e da eliminação das múmias incaicas58. Ondegardo também seria objeto de repetidas citações por
53 PAGDEN, Anthony. op. cit. pp. 201-202. 54 ACOSTA, José de. Historia. op. cit. pp. 65-67. 55 SARMIENTO DE GAMBOA, Pedro. op. cit. pp. 29-32.
56 Sobre as discussões a respeito da validade das bulas papais, cf. RUIZ, Rafael. Francisco de Vitoria. op. cit. pp. 62-66.
57 GLIOZZI, Giuliano. op. cit. pp. 311-317.
parte de autores tão importantes quanto Acosta ou Matienzo59. No caso do jesuíta, essa citação
seria tanto mais relevante na medida em que o autor era bastante econômico nas referências a autores contemporâneos; mais que citá-lo, Acosta chegaria mesmo a atribuir a Ondegardo a condição de autoridade fundamental para a escrita do capítulo da Historia dedicado às tradições peruanas.
Para compreender a contento o significado da obra e da trajetória de Ondegardo, é importante levar em consideração que se trata de uma figura oriunda de uma geração ligeiramente anterior àquela à qual pertenceram os demais autores analisados até aqui. O contexto ao qual responde essa personagem era, portanto, diverso daquele que conformou as trajetórias de Toledo, de Acosta ou de Toribio de Mogrovejo. Contudo, Ondegardo cumpriu um papel de suma importância para a reorientação missionária e política sofrida na região a partir da década de 1560, o que traria consequências fundamentais para os autores que o sucederam. Sua trajetória é mesmo passível de ser confundida com traços originários da nova agenda política esposada a partir de então pela Igreja e pelas instituições civis do vice-reino. Contudo, mesmo toda essa carga de significados não impediu que a maior parte dos escritos desse funcionário permanecesse inédita até inícios do século XX60. Ainda assim, restaria uma pequena exceção que deve ser mencionada a esse respeito, posto que significativa. Já em 1585, um pequeno texto de Ondegardo, intitulado Tratado y averiguación sobre los errores y supersticiones de los indios, seria incluído no material publicado pela oficina de Antonio Ricardo por ordem do III Concílio Provincial de Lima61. Mas embora essa publicação póstuma (o
autor morrera em 1575) sugerisse uma sintomática associação desse autor com um dos grandes marcos da virada ortodoxa ocorrida na região, é impossível extrair apenas desse fato uma ideia correta acerca da trajetória que alimentou suas considerações a respeito da problemática indígena.
Em verdade, todo o percurso inicial do autor na região distou bastante de sua imagem posteriormente difundida, que não sem razão seria associada à ortodoxia religiosa e à autoridade imperial. Ora, em contraste com essa personagem, a relação travada inicialmente por Ondegardo junto às diversas autoridades que lutavam pelo poder na região pode ser considerada vacilante. E se o ano de 1548 ficaria marcado na história local por conta da derrota maior sofrida pelos encomenderos frente a Pedro de la Gasca, essa viragem teria um significado especial para a trajetória daquele funcionário. Não é secundário a esse respeito que a potência
59 MATIENZO, Juan de. op. cit. pp. 119-122 e 176-177. ACOSTA, José de. Historia. op. cit. pp. 247, 254- 255, 287, 297, 314, 339, 343-346 e 415.
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Sobre a dificuldade de publicação das obras de Ondegardo, inclusive devido à incerteza da autoria de muitas delas, cf. ALONSO, Alicia e GONZÁLEZ, Laura. op. cit. pp. 7-25.
dos vecinos rebelados fosse uma das tônicas dominantes da Historia del descubrimiento y conquista del Perú, publicada em 1555 por Agustín de Zárate, tio de Ondegardo62. Esse fato confere inteligibilidade àquela fidelidade vacilante acima mencionada. Dada a incerteza representada pelo equilíbrio de forças existente entre moradores e representantes da Coroa, tornava-se compreensível a oscilação dessa personagem entre o vice-rei Blasco Nuñez Vela e aqueles que levaram à sua execução, agrupados no partido dos irmãos Pizarro. A prisão de Ondegardo por parte das forças de la Gasca, ocorrida em 1546, precipitou seu engajamento definitivo na defesa da autoridade da Coroa no Peru. Em consequência, sua trajetória posterior a essa conversão à causa realista corresponderia a uma defesa sistemática das prerrogativas da Coroa frente aos anseios autonomistas acariciados por muitos vecinos. Mesmo sua posterior identificação com a política levada a cabo por Toledo pode ser compreendida nesses quadros. Mas antes mesmo da chegada desse governante à região, Ondegardo assumiria algumas funções militares por ocasião das diversas revoltas que teimaram em eclodir entre moradores insatisfeitos. Essa personagem atuaria não apenas na repressão do partido de seu ex-aliado Gonzalo Pizarro, mas também ajudaria a desmantelar a revolta encabeçada em 1553 por Francisco Hernández Girón, que pôs em questão o controle das instituições imperiais sobre Cusco. Comprovada sua fidelidade à causa realista, essa figura seria recompensada com encomiendas e com minas, o que conferiu à sua trajetória um caráter bastante diverso daquela representada por soldados como Lope de Aguirre ou Sarmiento de Gamboa. Ao mesmo tempo em que este último seria agraciado com o título tão marginal quanto duvidoso de governador do estreito de Magalhães, Ondegardo construiria uma carreira mais sólida e menos espetacular, amealhando postos que levariam até sua nomeação, em 1558, como corregedor da cidade de Cusco. É possível afirmar que a cessão de favores oficiais corresponderia a uma aceitação facilitada de seus escritos na região.
Mas se o final da década de 1540 marcaria a opção definitiva dessa personagem pela autoridade real, os últimos anos da década seguinte teriam também um papel central para a constituição de suas reflexões acerca das tradições indígenas. Como se viu, Ondegardo ocupava então o cargo de corregedor em Cusco, o que lhe proporcionava um ponto de vista privilegiado com relação aos índios, posto que se lhe facultavam diversas informações a respeito destes. Foi munido desse conjunto de dados que o funcionário pôde apresentar aos olhos dos demais espa h isàaà des o e ta à ueàfi a iaàpo à uitoàte poàasso iadaàaoàseuà o e:àt atava-se da e o stituiç oà daà e dadei aà teiaà idol t i a à ep ese tadaà pelasà huacas que permaneceram
62 MACCORMACK, Sabine G. op. cit. pp. 66-100. Sobre a obra de Zárate, cf. PEASE G. Y., Franklin. op. cit. pp. 161-190.
discretamente presentes em torno das quatro coordenadas do Tahuantinsuyo63. Essa
descoberta não poderia deixar de ter grande impacto, posto que sua localização, o coração administrativo da Coroa nos Andes centrais, evidenciava as dissimulações indígenas que medravam no próprio quintal dos espanhóis. Na verdade, essa descoberta deu azo a inúmeras denúncias de teor semelhante, sendo Cusco o epicentro a partir do qual se estenderia uma geografia idolátrica de amplo alcançe. A aplicação do mesmo princípio usado por Ondegardo em Cusco permitiu-lhe descobrir um sem-número de huacas escondidas em outras localidades. Foi nesse momento que se deu a descoberta dos túmulos e das múmias dos Incas, tida por Sarmiento de Gamboa, como se viu, enquanto um dos principais feitos daquele funcionário. Essa nova ferramenta, utilizada de forma exemplar pelo corregedor cusquenho, daria subsídios imprescindíveis à atividade iconoclasta levada a cabo a partir de então por missionários e por outros funcionários reais, que reproduziriam com relativo sucesso nos diversos povoados pré- hispânicos o modelo empregado inicialmente por Ondegardo na antiga capital do Tahuantinsuyo64.
Num texto muito comentado pela historiografia peruanista, o estudioso Guillermo Lohmann Villena caracterizou a realidade peruana da década de 1560 sob o signo da i e teza à eà daà e pe tati a 65. A perspectiva de estabilização alcançada pelo governo de
Hurtado de Mendoza, entre 1556 e 1560, logo seria rompida sob a dúvida sistemática levantada ao mesmo tempo por diversos autores. Tomada de consciência e prurido reformista tornaram-se as palavras de ordem de uma geração que se via às voltas com problemas tão grandes quanto variados. Do declínio da produção de prata à fragilidade das instituições imperiais sobre uma região pródiga em revoltas, passando pela suspeita já mencionada acerca de uma vasta articulação (indígena e protestante) contra o domínio espanhol no Peru, tudo concorreu para alimentar uma inquietação que viria a deixar fartos desdobramentos documentais66. Nesse contexto, a descoberta realizada pelo corregedor no final da década de
1550 alimentaria num outro sentido as angústias que se propagaram nos anos seguintes. Como se viu, a atitude imediatamente posterior à descoberta das huacas não se fez esperar e tomou a forma de sua eliminação. Mas essa destruição física dos signos idolátricos não apagava da
63“o eà aà i po t iaà si li aà dessaàdi is oà espa ialà doà I p ioà dosà uat oà a tos ,à f.àWáCHTEL,à Nathan. La vision des vaincus. op. cit. pp. 122-124.
64 DUVIOLS, Pierre. op. cit. pp. 99-107. Sobre a relação entre os modelos de organização urbana espanhola e indígena, cf. MACCORMACK, Sabine G. op. cit. pp. 101-136.
65 LOHMANN VILLENA, Guillermo. Étudeàp li i ai e. àE :àMáTIENZO, Juan de. op. cit. pp. I-LXIX. 66 A respeito da riqueza documental desse período, veja-se a periodização proposta por Franklin Pease. PEASE G. Y., Franklin. op. cit. pp. 15-63. Sobre as variações a produção de prata no Alto Peru, cf. BARRANDON, Jean-Noël, COLLIN, Bruno, GUERRA, Maria, LADURIE, Emmanuel Le Roy e MORRISSON, C ile.à “u àlesàt a esàdeàl a ge tàduàPotosí. àE :àAnnales. Économies, Societés, Civilisations. v. 45, n. 2, 1990. pp. 483-505.
consciência dos espanhóis a percepção de sua onipresença no vice-reino. Fossem pequenos objetos, fossem elementos inescapáveis da paisagem, tudo poderia servir aos índios para manter vi aàsuaà eligi o àa te io à à hegadaàdosàespa hóis. O próprio Ondegardo parecia se dar conta desse fato tão desanimador à prática missionária ao mencionar o caráter sagrado atribuído à própria terra que se pisava em Cusco, objeto que fora sob o domínio incaico de transposição desde regiões longínquas do império67.
É importante recordar a essa altura que a nova consciência que então despontava acerca da precária penetração do cristianismo entre os índios não teve nos missionários seu núcleo inicial. O próprio fato de a denúncia de Polo de Ondegardo ter formado um modo de proceder que se tornaria típico nos futuros extirpadores, a começar por Francisco de Ávila, é por si só revelador68. E se aquela figura pode ser considerada prototípica, o fato é que foram os funcionários reais o grupo responsável pela primeira difusão da tese da insuficiência evangelizadora e da consequente onipresença idolátrica. Apenas com o passar do tempo essa posição fincaria suas raízes no interior do clero peruano. Mas mesmo após instaurar-se entre os religiosos, o tema idolátrico ainda conheceria um percurso bastante atribulado até tomar de assalto o topo da hierarquia eclesiástica local. Basta comparar as disposições tomadas no II e no III Concílio de Lima para constatar o crescente peso dessa temática; em contraste com sua institucionalização na década de 1580, o II Concílio Limenho optara por manter, em linhas gerais, a abordagem instituída pela primeira evangelização a respeito dos costumes indígenas69. Não era estranha, portanto, a partir desse ponto de vista, a proximidade
finalmente cultivada por Ondegardo, nos últimos anos de sua vida, perante Toledo. Embora não encontrasse naquele funcionário um patrocinador direto, fica evidente a convergência de suasà o side aç esà o à aà teseà daà idolat iaà i su e io al ,à ad ogadaà u à í elà i stitu io alà pelo vice-rei. Para compreender essa convergência é preciso atentar à importância que a constatação da deficiência missionária adquiriria, ainda que num contexto discursivo estranho a Ondegardo, na medida em que acenava com a possibilidade de estabelecer id lat as à eà e eldes à u à es oà a poà se ti o.à Masà ao mesmo tempo em que se prestava às extrapolações mais radicais, representadas por Toledo e por Sarmiento de Gamboa, as considerações de Ondegardo serviram igualmente àquelas figuras, tais como Acosta, que não partilhavam dessas consequências conspiratórias. Não era de modo algum inocente, portanto, que o já mencionado Tratado tenha sido veiculado junto com o material produzido a mando do
67 ONDEGARDO, Polo de. op. cit. pp. 97-106. Sobre o caráter simbólico atribuído pelos índios à paisagem, cf. MACCORMACK, Sabine G. op. cit. pp. 29-65.
68 Sobre a forma como ocorreu a denúncia de Ávila, cf. DUVIOLS, Pierre. op. cit. pp. 148-154. 69 ESTENSSORO FUCHS, Juan C. Del paganismo a la santidad. op. cit. pp. 167-178.
III Concílio Limenho, que cristalizava o revés sofrido nas últimas décadas do século XVI pelos representantes da primeira evangelização. Da mesma forma, seria sintomática a receptividade demonstrada por Toledo com relação à figura do funcionário, o qual se encontraria engajado até sua morte na visita geral que o governante realizava nas suas jurisdições.
Mas as boas relações cultivadas entre Ondegardo e Toledo devem ser matizadas para que se compreenda com mais precisão o sentido de seus escritos. Ora, à diferença do que ocorreu com Sarmiento de Gamboa, o funcionário não poderia ser contado entre os colaboradores mais estreitos do vice-rei; sua obra prestava-se ao uso por parte do governante, mas de forma alguma reivindicava de forma explícita sua agenda política, com a qual Ondegardo dificilmente concordaria em seus pontos mais extremados. Sendo assim, entre os posicionamentos encampados na Historia Indica e as considerações avançadas pelo funcionário havia uma grande distância. Essa discrepância merece ser relevada para que se compreenda melhor o alcance das considerações tecidas por Ondegardo, bem como sua aceitação por parte de um conjunto mais amplo de autores. Ainda que exista uma inegável convergência de fundo entre ambas as personagens, a análise de suas particularidades confere uma maior riqueza para a compreensão do panorama relativamente heterogêneo que se delineava no Peru entre as décadas de 1560 e de 1580. Nesse sentido, parece pertinente colocar em perspectiva com a Historia Indica a análise da obra de Ondegardo intitulada Relación de los fundamentos acerca del notable daño que resulta de no guardar a los indios sus fueros. Diga-se de passagem, a opção pela leitura da Relación e não do Tratado ou da Instrucción sobre las cerimonias y ritos que usan los indios conforme al tiempo de su gentilidad se deve exclusivamente à dificuldade do acesso à edição da Colección de libros y documentos referentes a la Historia del Perú, aparecida em 1916. Certamente que a leitura de Polo aqui empreendida ressente-se dessa lacuna, embora a obra analisada propicie algumas discussões muito a propósito das questões que vem sendo analisadas até o momento. Trata-se de um manuscrito aparecido em 1571, data que corresponde ao contexto marcado pelos primeiros anos do governo de Toledo. Aliás, a possível utilização posterior da Relación por parte do extirpador Francisco de Ávila apenas reforça a tese da importância adquirida por Ondegardo na paulatina constituição de um dispositivo institucional de extirpação da idolatria70.
Assim como ocorre na Historia elaborada por Sarmiento de Gamboa, é notória a riqueza da Relación em termos de dados etnográficos acerca das populações peruanas. Ambos os autores, aliás, são fartamente utilizados nos estudos contemporâneos acerca das populações indígenas. Mas já a partir da leitura do título do manuscrito de Ondegardo é
possível ter uma ideia acerca da distância que sua obra carrega com relação ao livro do soldado. Assim como na Historia Indica, o ano de seu aparecimento é central para compreender a Relación. Lembre-se que por essa época já era franca a deterioração das relações com o Inca resistente, que redundaria em sua morte no ano seguinte. Tendo em vista esse acontecimento71, é possível mesmo sustentar que o autor procurava expressar naquela
altura uma objeção importante à política de ruptura com o passado incaico proposta pelo conjunto das edidasàpat o i adasàpo àToledo.àNesseàse tido,àdis o e àso eà oà ot elàda oà ueà esultaà deà oà gua da à aosà í diosà seusà fo os 72 era um gesto carregado de significado
profundo na época da redação do manuscrito, municiando mesmo aqueles que criticavam a pretensão de derrocar os costumes indígenas em proveito de uma nova ordem, em tudo distinta da anterior. A esse propósito deve-se lembrar que o próprio Toledo teve que transigir com uma série de costumes nativos, fosse de bom grado, fosse pela constatação da impossibilidade de eliminar num horizonte imediato tradições tão arraigadas. Um exemplo disto pode ser encontrado em suas disposições no que tange à escolha da língua em que estas seriam apregoadas; era notório nesse sentido o contraste existente entre a defesa inicial do emprego exclusivo do castelhano e a utilização das línguas nativas como meio necessário para a divulgação das ordenações ulteriores. Mesmo assim, essas mesmas disposições deixam claro que a ruptura desejada por Toledo com relação ao passado indígena era substancialmente mais radical que aquela advogada por outras personagens, tais como Ondegardo ou Acosta73.
Essa contraposição certamente não colocava o autor da Relación num campo integralmente oposto ao do vice-rei, havendo entre ambos, como se viu, uma convergência de fundo entre suas formulações. Ainda assim, as questões específicas levantadas por Ondegardo tornavam ainda mais clara sua distância perante a política oficial. Isso adquiria um sentido tanto mais relevante na medida em que o funcionário escolheu como objeto central para a Relación um tema particularmente sensível ao vice-rei: o funcionamento do sistema tributário74. A tributação foi um dos principais temas a inquietar as autoridades e os cronistas das décadas de 1560 e de 1570. E isso não era para menos, posto que tal problema dizia respeito à própria viabilidade das instituições imperiais no Peru, ao fundamento material da soberania. Sempre premidos pela perspectiva de redução das receitas advindas da extração de prata, diversos autores deram-se com o tema fiscal anos antes das medidas postas em prática
71 Sobre a relação entre ontologia e acontecimento, cf. BADIOU, Alain. op. cit. 72 ONDEGARDO, Polo de. op. cit.
73 TOLEDO, Francisco de. op cit. v. 1. pp. 61-64. v. 2. p. 31.
74 ONDEGARDO, Polo de. op. cit. Sobre o tema da tributação num contexto minerador, cf. GRESPAN, Jo geà L.à daà “.à U a izaç oà eà e o o iaà i e ado aà aà á i a:à oà asoà deà Potosi. à E :à á)EVEDO,à Francisca L. N. de e MONTEIRO, John M. (orgs.). Raízes da América Latina. São Paulo; Rio de Janeiro: Edusp; Expressão e Cultura, 1996. pp. 303-316.
nesse campo por Toledo. Juan de Matienzo fornece um exemplo de particular interesse, posto que lidava cotidianamente, desde sua província de Charcas, onde se localizava Potosi, com o tema. Em seu Gobierno del Perú, esse autor propôs uma reforma integral do sistema de arrecadação de impostos instituído inicialmente pela Coroa, tendo em vista o desarranjo que diagnosticava nesse domínio75. Ora, de modo semelhante a Matienzo e a Toledo, Ondegardo
era um intransigente defensor das prerrogativas imperiais no Peru. Sua discordância com relação ao vice-rei tinha início quando da definição do grau a que deveriam chegar as reformas