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O Golpe Militar abalou toda a organização das Ligas existentes nesta região. Inquéritos políticos, zelosamente conduzidos pelos militares, caçavam muitos daqueles supostamente comprometidos com a “subversão” que havia prevalecido durante os anos da presidência de João Goulart (KADT, 2003, p. 11). Após o Golpe Militar de 1964, as primeiras medidas dos militares foram de cunho repressivo, visando conter, a qualquer custo, a luta dos trabalhadores rurais pela terra e por sua afirmação de sujeitos políticos (ARANTES, 1984, p. 56-57). A repressão militar foi um duro golpe para a esquerda. Os militares não perderam tempo no desmantelamento das organizações. Em todo o país, as Ligas Camponesas foram alvos da sanha punitiva desfechada pelos militares: intervenções em sindicatos e redefinição de suas funções, ameaças, prisões e torturas de líderes populares, cassação de mandatos entre outras (GORENDER, 2003, p. 77).

Em Itauçu, vários trabalhadores rurais foram presos imediatamente após o golpe. Bailão conseguiu fugir, mais foi preso em São Paulo, anos depois. O medo tomou conta da cidade. As conseqüências para os trabalhadores rurais foram inúmeras: Bailão teve seu mandato de vereador cassado no dia 04 de abril de 1964, alegando ser ele comunista, antipatriota, hostil às instituições religiosas e democráticas da Nação Brasileira, uma ameaça para o povo itauçuense por ser um elemento pernicioso e subversivo:

O referido vereador, pelas atitudes assumidas, principalmente na atual conjuntura política, tornou-se um elemento pernicioso e subversivo contra as instituições democráticas da nação. É um elemento comprovadamente comunista, e nestas circunstâncias esta Câmara Municipal não poderia obrigá-lo em seu meio, o que implicaria na compactação dos demais vereadores com os princípios anti- democráticos e altamente lesivos à segurança do regime, de vez que o referido vereador por suas atitudes subversivas vem ferindo diretamente a Lei Magna do país [...] A permanência do Sr. Sebastião Gabriel Bailão neste legislativo constituirá uma afronta ao povo democrático e religioso de Itauçu, e seria também um malogro aqueles que confiaram tão honroso mandato (CÂMARA..., 1964).

Assim, foi cassado o mandato de vereador de Sebastião Bailão. Ele fugiu de Itauçu para não ser preso, somente retornando à esta cidade em 2003. Bailão foi preso em 1971, permanecendo durante quatro anos no Cepaigo, cumprindo sua pena de dez anos, que foi reduzida por bom comportamento. Quando saiu, ficou um ano sem conseguir emprego.

Os demais trabalhadores rurais envolvidos na organização, após suas prisões, sofreram muita discriminação da sociedade local, sendo taxados de “revolucionários e

comunistas”. O pastor Vergílio Pentecoste entregou o trabalho de pastor, vendeu os seus bens e mudou para Itaguaru. Muitos mudaram, outros permaneceram.

Na década de 1970, acontece mais uma prisão. Benedito Alves, filho do vice- presidente do Sindicato dos Agricultores e Produtores autônomos de Itauçu, a pedido de D. Belony, esposa de José Prata, vai até a casa de Bailão, que se encontrava foragido em Anápolis, solicitando a ele que ajudasse a encaminhar sua filha Sueli a um médico em Goiânia. Bailão tinha muito conhecimento neste assunto, em razão do trabalho que havia feito em Itauçu levando pessoas para fazer tratamento médico numa média de três a quatro vezes por semana. Benedito chegou à tarde em Anápolis. Bailão o recebeu, escreveu um bilhete encaminhando a garota ao Dr. João, em Goiânia, e saiu para uma reunião, deixando Benedito repousando. De madrugada, o rapaz é acordado por policiais federais que descobriram o endereço de Bailão. Benedito é preso e torturado para que falasse onde estavam Bailão e José Porfírio, sendo solto somente 17 dias depois, por intervenção de um deputado. Ele ficou aproximadamente um ano e meio sem sair de casa, temendo ser novamente preso e torturado, não conseguia nem trabalhar, só não passou fome por causa da ajuda de familiares.

O silêncio dos trabalhadores rurais durante todos estes quarenta anos e sua resistência a colaborar nas entrevistas relaciona-se às lembranças traumatizantes que muitos acreditam ser, ainda, comprometedoras.

Pollak (1989, p. 3-15) mostra que este silêncio tem razões políticas e pessoais, uma vez que os pais querem poupar seus filhos de crescerem na lembrança de suas feridas. Agora, quarenta anos depois, quando estão bem idosas, após certa resistência, as testemunhas oculares aceitam colaborar nas entrevistas por quererem inscrever suas lembranças contra o esquecimento. Hoje, seus filhos também querem conhecer este passado ocultado. O próprio contexto histórico, a abertura dos arquivos da Ditadura e as indenizações às suas vitimas estão colaborando para que esta memória dos sofrimentos, antes proibida, clandestina, ocupe a cena política, o setor editorial e os meios de comunicação. “O silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento e a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais” (POLLAK, 1989, p. 6). Para o autor, conforme as circunstâncias, ocorre a emergência de certas lembranças e a distinção entre as conjunturas favoráveis e desfavoráveis às memórias marginalizadas são importantes para se reconhecer a que ponto o presente colore o passado.

A organização dos trabalhadores rurais pelo Partido Comunista é vista de forma diferenciada pelos moradores de Itauçu. Muitos a explicam como “coisa do Partido”

revelando o poder da ideologia dominante que não só rechaça da história oficial a luta dos vencidos, como também procura apagá-la da memória de suas testemunhas. A opinião pública, no geral, esqueceu-se da luta ou minimizou a tal ponto sua importância que ela se tornou insignificante (LOUREIRO, 1988, p. 98). Os trabalhadores rurais que dela participaram, com raras exceções, são arredios e se mostram temerosos de abordar o assunto, pois é algo que desejam esquecer e temem passar novamente pela experiência da prisão. A maioria da população se refere a ela como um mal que foi retirado do seu meio.

A sociedade itauçuense tentou ocultar, com o esquecimento, os fatos que acreditavam comprometer a sua imagem, ou seja, procurou ocultar aquilo que poderia revelar seus paradoxos, suas falhas, uma vez que o comunismo era visto como um mal a ser banido da sociedade. Para Bailão, o representante do Partido, a organização, apesar de suas falhas, conseguiu “abrir a picada da organização dos trabalhadores rurais para que outros seguissem com a estrada”.

Recuperar a história dos movimentos sociais dos trabalhadores rurais brasileiros torna-se ainda mais importante quando se considera o fato de que a censura e a repressão rechaçaram os acontecimentos reais para o inconsciente das populações, mantendo na memória somente a explicação dos vencedores sobre o acontecido.

Esta trama da atuação das ligas em Itauçu é explicada pelo conjunto de condições e contradições em que se desenvolveu o sistema capitalista no Brasil.

Analisando a evolução e o processo de organização e de conscientização dos trabalhadores rurais durante este período, concluímos que, em 1956, no início do contato entre Partido Comunista e os trabalhadores rurais, estes não possuíam nenhuma organização. Portanto, é preciso reconhecer que o trabalho de Sebastião Bailão no município permitiu que estes trabalhadores rurais saíssem de seu isolamento e começassem a se reunir e organizar, partindo de uma consciência de si mesmo para uma consciência de grupo. Acreditamos que, apesar das falhas, ocorreram avanços significativos, pois estes trabalhadores rurais se uniram e começaram a lutar por interesses comuns.

Embora reconhecendo as limitações do trabalho das Ligas, é preciso reconhecer a singular importância do saber social que veio sendo acumulado historicamente pelos trabalhadores itauçuenses com as experiências das Ligas Camponesas, do Movimento de Educação Base (MEB) – outro importante elemento que será nosso próximo assunto –, acrescidas das posteriores lutas travadas nas CEB’s, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, e na Associação Sebastião Rosa da Paz.

Benzer Belgeler