• Sonuç bulunamadı

Assim sendo, queremos fazer ciente que neste trabalho estamos buscando alçar os primeiros passos rumo à consolidação de uma metodologia de pesquisa Materialista, Histórico-Dialética, partindo do princípio de que

“[...] o marxismo dispensa a adoção das chamadas abordagens qualitativas na legitimação da cientificidade de seus métodos de investigação, pois dispõe de uma epistemologia suficientemente elaborada para fazer o científico – a epistemologia materialista histórico dialética” (MARTINS, 2001).

Deste modo, Martins (2001), afirma que o método Materialista Histórico Dialético possibilita a superação das limitações impostas pelo positivismo, configurando-se em uma possibilidade de fundamentação teórico-metodológica inerente à busca da apreensão da realidade pelo pensamento. Neste mesmo sentido, Silva (2000), afirma que o confronto epistemológico existente entre o positivismo e o marxismo deve-se ao fato de que o positivismo, ao identificar os fenômenos sociais com os fenômenos da natureza, incorre em equívoco ao desconsiderar, deste modo, o processo histórico social de produção e reprodução do conhecimento por parte dos seres humanos.

De acordo com Silva (2000, p. 58), o positivismo surge entre o final do século XVIII e início do século XIX, aliado as transformações históricas e sociais da época, com forte inspiração nos ideais do iluminismo. A autora avalia que neste contexto histórico o positivismo cumpriu uma função revolucionária, ao passo que lançou bases teóricas e filosóficas relacionadas aos ideais de progresso e superação do estado feudal, aliando-se ao movimento modernista, vinculado intrinsecamente às demandas da Revolução Industrial. Deste modo, ao buscar fundamentar-se nas ciências da natureza, a sua perspectiva de mundo, posicionava-se de forma antagônica aos interesses do obscurantismo medieval.

Todavia, esse caráter revolucionário referente aos princípios medievais não ocorria do mesmo modo quando se tratava da análise da sociedade nascente de então.

53 Com relação ao capitalismo, desde seus primórdios, o positivismo sempre estabeleceu uma justificação lógica que visava compreender o terreno dos acontecimentos sociais enquanto lócus de “harmonia natural”, objetivando, desta forma, um apaziguamento e um consenso social (SILVA, 2000).

Embora os conflitos sociais não tenham cessado com o advento do capitalismo, ao contrário, se antagonizavam cada vez mais, o discurso positivista deixa “de lado o posicionamento ético ou político sobre o estado de coisas existentes [...] e limita-se a constatar que esse estado é natural, necessário, inevitável e produto de leis invariáveis” (SILVA, 2000, p.61). Deste modo, pode-se concluir, portanto, que este “naturalismo sociológico” postula uma “neutralidade axiológica da ciência”, que conduz a uma homogeneização epistemológica equivocada e politicamente ambígua ao desconsiderar o condicionamento histórico-social dos fatos e do conhecimento, bem como seu papel político, como afirma o autor.

O Materialismo Histórico Dialético, por outro lado, se estabelece antagonicamente ao positivismo, por buscar a gênese histórico-concreta das causalidades motrizes das transformações históricosociais, dos conflitos de interesses, da luta de classes, dos diferentes modos de produção e reprodução da vida humana na terra. Objetivando adentrar no cerne dos fenômenos, Marx e Engels (1985), necessitavam superar tais visões de mundo calcadas na superficialidade e na imediaticidade das aparências. Foi na inversão materialista da dialética Hegeliana que Marx conseguiu encontrar os instrumentos necessários ao raciocínio, para a superação de uma visão sincrética da realidade, rumo à apreensão de suas determinações concretas, por parte do pensamento.

Assim, Martins (2001), nos chama a atenção afirmando que a superioridade da “epistemologia marxiana” se encontra, portanto, na possibilidade de uma apreensão efetiva da concreticidade dos fenômenos, por parte do pensamento dialético, a partir de algumas pressuposições, quais sejam: a primeira defende que a apreensão do fenômeno por parte do pensamento não ocorre de forma imediata, necessitando, deste modo, o “desvelamento de suas mediações”; a segunda afirmativa indica que para alcançar tal objetivo é necessário que o pensamento realize inúmeras mediações, analisando o objeto investigado em suas múltiplas determinações e possibilidades, de modo a buscar captar de forma profunda suas diversas propriedades, ou seja, “enquanto síntese” de inúmeras determinações.

54 Neste mesmo sentido podemos destacar que a teoria marxiana explicita que o concreto é efetivamente concreto, porque se apresenta como síntese de múltiplas determinações, como unidade do diverso que aparece no pensamento humano como síntese, ou poderíamos dizer, como ponto de partida e, ao mesmo tempo, como resultado. Nesse sentido, a realidade empírica é o ponto de partida do pensamento para se chegar à realidade concreta e, na efetivação desse processo, o pensamento lança mão da análise como estratégia fundamental para elevar-se do abstrato ao concreto e reproduzi-lo como concreto pensado, como afirma Duarte (2000).

Na epistemologia marxiana o conhecimento é entendido como apropriação da realidade objetiva pelos homens, no sentido de superar visões pseudoconcretas da realidade, como afirma Kosik (1969), pois, compreende-se que é a própria realidade que é reproduzida no pensamento humano a qual deve ser reconhecida desde sua raiz e como síntese de muitas determinações. Nesse sentido, o concreto pensado, ou seja, o produto do pensamento constitui-se pela via da apropriação dialética do real, através da análise e mediação do abstrato.

Visando elucidar especulações idealistas sobre a questão da materialidade do pensamento, Oliveira (1996, p.28) afirma que “a universalidade é uma abstração que tem sua base concreta na própria realidade” e enfatiza que a ciência ao utilizar-se de abstrações mais gerais – as categorias – possibilita, no pensamento humano, a compreensão do movimento concreto da realidade. Para a autora, o desenvolvimento da realidade concreta, em sua multilateralidade e complexidade, se dá a partir da elevação de um determinado movimento específico da realidade, a um conceito (abstração) que representa esse movimento no pensamento humano.

Segundo Oliveira (1996, p.13), torna-se imprescindível compreender a realidade como síntese de muitas relações sociais isso porque “não existe o desenvolvimento do homem em geral à parte da história real das relações sociais concretas entre os indivíduos” e, cada sujeito humano, deve ser compreendido como resultado de um conjunto de determinadas relações sociais concretas, as quais, no processo de compreensão da realidade, devem ser captadas pelo pensamento humano.

Ademais, Martins (2001) ressalta outros dois aspectos fundamentais da epistemologia marxiana. O primeiro deles indica a necessária relação entre as partes e o todo, de modo a não considerar os fenômenos enquanto elementos isolados e passíveis de sobreposições diretas e mecânicas, e o segundo, alerta para a existência ontológica da realidade na sua total independência para com a consciência dos indivíduos.

55 Sobre estes aspectos trataremos nos itens seguintes, no sentido de buscar apontamentos para a possibilidade de construção, ainda que primária, de unidades de análise, objetivando construir respostas, mesmo que parciais, para os problemas de investigação apontados nos objetivos deste trabalho.

Benzer Belgeler