4.4. Kataliz Sonrası Ürünün Karakterizasyonu
4.4.1. Nükleer manyetik rezonans spektroskopisi
À semelhança do que Maldonado (2006) postula para o espanhol, também em PB observamos que o clítico se é utilizado nas construções formadas com verbos que denotam
verbos, o experienciador possui características passivas, uma vez que sofre uma mudança de estado. O exemplo abaixo, criado por nós, ilustra essa situação:
(83) Aquelas cobranças me preocupam.
O sintagma nominal aquelas cobranças é o estímulo que provoca, no experienciador, uma mudança de estado emocional. Apesar de a reação ao estímulo ocorrer no âmbito desse experienciador, tal reação não é controlada por ele, como podemos ver pela inserção do verbo
decidir: *Eu decidi que aquelas cobranças me preocupam. Não obstante, quando codificamos
essa situação por meio da sentença média com o se, o experienciador passivo acaba tendo maior participação/responsabilidade no evento, como mostra o dado abaixo extraído do
corpus:
(84) *FAB: então / assim / eu parei de me preocupar / &ass [/1] com aquelas cobranças // professor tem preocupação em ensinar cem por cento // preocupação / todo professor tem // mas preocupação / assim / não + &ce [/1] cem por cento da turma / alcançar / né / ene ás / ene és / isso é preocupação com números //
(C-ORAL-BRASIL)
A proposta de Maldonado (2006) acerca do experienciador médio reflete bem essa participação do sujeito no evento. Ele deixa de ser apenas afetado e adquire traços mais ativos, por assim dizer. O emprego do verbo parar (eu parei de me preocupar), nessa sentença, ratifica o caráter de maior responsabilidade por parte do sujeito. No entanto, o autor defende que, nesses casos, o experienciador está ciente do evento, mas não consegue controlá- lo. Embora o dado em (84) contenha indícios de controle por parte do sujeito, esse controle não é total, de modo que a ideia que perpassa a análise do autor é cabível: o experienciador médio possui propriedades mistas, apresentando traços passivos e, de certa forma, ativos.
Outras ocorrências encontradas nos corpora contendo esse tipo de experienciador incluíram os verbos: animar, assustar, afligir, decepcionar, divertir, estressar, importar,
incomodar, irritar, surpreender, revoltar, entre outros. Novamente, como se pode prever, o
emprego do clítico com esses verbos foi mais recorrente na fala paulistana que na mineira. O verbo preocupar, por exemplo, veio sempre acompanhado do clítico no corpus paulistano, ao passo que, no mineiro, houve variação, aparecendo ora com, ora sem ele. O dado abaixo representa um caso de não utilização do clítico:
(85) / a escola nũ tem som / nũ tem um datashow / nũ tem [/2] nũ oferece um xerox pra gente / então eu tô &a [/3] eu tô arcando com isso // [11] então eu já levo meu som / eu já levo + [12] graças a Deus / né // [13] que eu tem condição / eu tenho meu aparelho / meu [/1] meu [/1] meu computador / eu levo / então / assim / e eu / tô fazendo as minhas aula / e fazendo a minha obrigação / sem preocupar / com / a escola em si //
(C-ORAL-BRASIL)
A não ocorrência do clítico parece indicar menor responsabilidade/envolvimento do participante no evento, em relação às sentenças que exibem esse elemento.
Seguem na mesma linha de raciocínio alguns eventos de cognição, tais como se
enganar, se enrolar, se confundir, se iludir, se interessar. A ocorrência abaixo, formada com
o verbo enganar, serve como exemplo:
(86) / fui promovido em / dois-mil / se não me engano / e fiquei até dois-mil-e- quatro // onde fui [/1] completei / vinte-e / sete ano de serviço ativo no / bombeiro / somando com três anos que eu fiquei no Exército / totaliza trinta ano / na qual / me aposentei / como primeiro-tenente //
(C-ORAL-BRASIL)
Também nesse caso, o participante pode ser visto como iniciador, já que o evento ocorre dentro de si, porém o falante não engana a si mesmo desempenhando ao mesmo tempo os papéis de enganador e enganado. Trata-se de um experienciador médio: ele é afetado pelo evento e, ao mesmo tempo, participa dele com baixo grau de controle.
De maneira similar, as construções médias formadas com os verbos lembrar e
esquecer também contam com um experienciador médio e nível baixo de controle sobre a
atividade. Normalmente, esse tipo de evento ocorre de forma espontânea, independentemente da vontade do participante. São comuns situações em que a lembrança de algo simplesmente surge em nossa mente ou, repentinamente, nos damos conta de que nos esquecemos de fazer algo importante. Se as atividades desse tipo pudessem ser controladas, dificilmente teríamos lembranças ou esquecimentos indesejáveis. Todavia, em alguns contextos específicos, parece ser possível aumentar o nível de controle da situação, como em: A Maria decidiu esquecer o
João de uma vez por todas. Um olhar mais atento revela que essa construção não é tão bem
formada quando acompanhada do clítico: ?A Maria decidiu se esquecer do João de uma vez
A análise de Maldonado (2006, p. 91) sugere que, em alguns casos, o uso da preposição funciona como um tipo de barreira entre sujeito e objeto, de modo que, na presença desse elemento, o objeto não pode ser diretamente transformado pelo sujeito. Por outro lado, quando não há preposição, o sujeito possui maior interação com o objeto, como no caso da sentença mencionada: A Maria decidiu esquecer o João. É possível decidir esquecer
alguém, pois, nesse caso, há maior controle do sujeito sobre o objeto, que é compatível com o
uso de decidir. No entanto, quando o clítico é inserido na construção, ele atua no sentido de reduzir o controle do sujeito sobre o evento, o que faz com a sentença cause estranhamento ao ser combinada com o verbo decidir. Assim, mais uma vez, as construções formadas com os verbos lembrar e esquecer, acompanhados do clítico, possuem um experienciador médio, que participa do evento mental, mas não pode controlá-lo. Quando esses verbos forem usados em contextos de maior controle, a expectativa é a de que eles sejam empregados na forma ativa, e não na forma média com o clítico.
Não foram analisadas, neste trabalho, as ocorrências desses verbos sem o se. Contudo, podemos dizer que, em ambos os corpora, houve variação quanto à utilização do clítico que se deu, por vezes, na produção de um mesmo falante. Os dados a seguir servem como exemplo:
(87) não tinha eu lembro da primeira geladeira que meu pai comprou S1 era ah assim uma caixa de metal que punha gelo dentro D1 olha S1 e eu me lembro muito bem que nós gelávamos as melancias S1 ah dentro do poço você punha num/ num balde D1 uhn S1 com uma corda e deixava lá
(Projeto SP2010)
(88) *LAU: / eu me lembro que eu [/1] eu &aco [/2] eu &aco + &f + era o meu primeiro dia de aula / num grupo escolar aqui em Belo Horizonte // e / essa experiência / eu nunca me esqueci / que foi a [/1] a [/1] a + eu acordei muito cedo / assim / a aula começava sete / eu acordei tipo cinco horas / cinco e meia / com a minha mãe / e a minha mãe acabou de encadernar meus cadernos / com / um plástico azul / e [/1] e / eu nunca vou me esquecer / assim / porque / toda a família tava dormindo / e eu já tinha muitos irmãos nessa época / &e [/1] nós éramos já um [/1] um [/1] um grupo numeroso de [/1] de filhos / e todos tavam dormindo / meu pai tava dormindo / e [/1] e &e [/2] e / eu nunca vou me esquecer dessa experiência / assim /
Passando para a esfera emocional, Maldonado (2006, p. 107) explica o uso do clítico com o verbo sentir, a partir da comparação entre as sentenças:
(89) Cada vez que entro a este cuarto (*me) siento mucho frío ‘Cada vez que entro neste quarto (*me) sinto muito frio’
(90) Anoche me (*ϕ) sentí mal/triste/deprimido
‘Ontem à noite, me (*ϕ) senti mal/triste/deprimido’
Segundo o autor, em (89), o falante tem consciência da temperatura ambiental, que é diferente da temperatura corporal. Por outro lado, em (90), o uso do clítico faz com que a atividade passe do terreno perceptual ao emocional, de modo que se torna mais difícil distinguir o sujeito de suas emoções. Assim, também em PB, essa indistinguibilidade na conceitualização do participante é verificada, e as sentenças formadas com o verbo sentir apresentam um comportamento estável, sendo normalmente marcadas com o clítico, em ambos os dialetos:
(91) que minha vida meio que sempre se fez S1 pra Zona Oeste meus amigos e tal os lugares que eu gostava de ir com eles e S1 aí eu me sentia meio S1 isolada lá D1 uhum D1 e você tinha amigos no prédio S1 não tinha também tinha esse problema meu prédio só tinha velho
(Projeto SP2010)
(92) *BRU: não / eu acho que eu nũ vou ter problema não // o caso era com o caminho // porque / eu tô [/1] tô <me sentindo mais segura> //
(C-ORAL-BRASIL)
Outros casos que apresentam indistinguibilidade do participante e o uso do clítico envolvem verbos como concentrar, dedicar, esforçar, como mostram as seguintes ocorrências:
(93) *EME: agora vou me concentrar // falou / parceiro // *GUS: <não / beleza> //
*FLA: <é / gente> //
*FLA: concentra <aí porque> //
(C-ORAL-BRASIL)
(94) D1 e nas horas de lazer que que você costuma fazer? S1 ah então eu S1 depende ultima/ ultimamente não né nesses últimos dois anos eu tenho me dedicado muito a esporte eu gosto de correr S1 começar a ter/ tomar gosto por correr S1 então meus finais de semana assim eu corro bastante S1
(Projeto SP2010)
(95) *LAO: alguma coisa sobra // porque eu sou [/1] sou ruim nesse negócio de [/1] de / <nũ bagunçar> a casa //
*MBA: <yyyy> +
*LAO: mas o Zé é pior que eu // e eu / como eu tô arrumando / eu me esforço mais / né // mas o Zé / não tem / uma coisa que ele pegue / que nũ [/1] nũ fique / no lugar que ele / usou / entendeu //
(C-ORAL-BRASIL)
Nesses dados, percebemos que o participante é a força indutora, desencadeando os eventos em questão. Em outras palavras, esse participante é quem atua para ‘concentrar’, ‘dedicar’ e ‘esforçar’ e possui, inclusive, certo tipo de controle sobre a situação (Eu decidi me concentrar
no jogo / me dedicar ao esporte / me esforçar pra arrumar a casa). Ao mesmo tempo, ele é
afetado por essas ações, sendo também aquele que ficou concentrado, ‘dedicado’ e ‘esforçado’. Assim, a ideia proposta por Maldonado acerca do experienciador médio – que contém traços ativos e passivos – parece adequada para entender esses casos em que o clítico é utilizado. Como já apontado anteriormente na discussão acerca do verbo preocupar, o autor não atribui a esse experienciador a capacidade de controle (ele fala, na verdade, em maior participação e responsabilidade sobre o evento). Todavia, acreditamos que seja mais interessante pensar no experienciador médio como um participante que pode exibir níveis de controle variados. Em determinados casos (a exemplo dos eventos que trazem resultados negativos para o participante), esse controle será baixo ou, até mesmo, nulo; em outras situações (como nos eventos de dedicar, esforçar e concentrar), o participante exerce um pouco mais de controle sobre o evento. De qualquer modo, em ambos os casos, mantém-se a ideia de um participante que exibe, simultaneamente, características ativas e passivas.
Em se tratando do aspecto ‘ocorrência’ vs. ‘não ocorrência’ do clítico com tais verbos, verificamos que, no dialeto paulistano, a preferência é pela utilização do clítico. Todas as
sentenças formadas com o verbo esforçar apareceram com o clítico; o verbo dedicar apareceu sem esse elemento em apenas uma ocorrência; e o verbo concentrar não foi empregado com esse sentido. Já no dialeto mineiro, houve variação quanto aos verbos concentrar e dedicar; o verbo esforçar só foi produzido uma vez no corpus e, nesse caso, apareceu com o clítico. Vejamos alguns exemplos de não utilização do clítico com o verbo dedicar:
(96) *GET: descobri / Carlão / nũ adianta / não // é a alimentação // *CAR: mas e o pólen / Getúlio / como é que cê tá dando o pólen //
*GET: porque pólen / de certa forma ela acha bem por aqui / né / Carlão // mas eu vou dar o pólen agora que eu vou fazer uma &fa [/2] uma [/1] uma [/1] <uma mistura pra ela> //
[...]
*CAR: como é que é / Getúlio // cê vai fazer <o quê> // *GET: <eu vou> [/2] eu vou + é uma mistura // de [/1] de + [...]
*GET: então / Carlão / a base desse trem é alimento mesmo / não adianta não // [...]
*GET: e eu vou [/2] <eu> vou <dedicar> <a isso> //
(C-ORAL-BRASIL)
(97) S1 então então e ela fazia muito isso e a gente eu ia sempre sempre nunca deixei ela sozinha S1 sempre sempre balé ia se apresentar não sei aonde S1 faz fantasia borda fantasia eu ficava até de madrugada pra bordar as fantasias dela D1 nossa S1 pra ela ir então como eu te falei eu dediquei muito e não me arrependo de maneira alguma... de maneira alguma
(Projeto SP2010)
Não é óbvio que haja diferença de sentido entre as sentenças construídas com e sem o clítico. Contudo, se houver tal diferença, nossa hipótese é a de que o emprego do clítico vem reforçar a participação do sujeito no evento, enfatizando sua energia.
A noção de experienciador médio também é interessante para explicar o caso dos clíticos inerentes, como bem apontado por Maldonado (2006). Nos corpora analisados, encontramos ocorrências do clítico em sentenças formadas com os verbos arrepender e
(98) de estudar não D1 aham S1 eh S1 pelo menos ah S1 até a oitava assim eu fui depois eu já D1 uhum S1 acabo me arrependendo de não ter feito faculdade essas coisas né S1 não S1 eh não tinha uma cabeça S1 muito aberta né agora pra S1 pro futuro
(Projeto SP2010)
(99) S1 temos imobiliárias temos posto de gasolina S1 nós temos tudo S1 ahn em cinco minutos de de caminhada D1 uhum S1 então eu não posso me queixar eu aqui tenho tudo D1 uhum S1 apesar de ser ah não sou estamos num bairro operário D1 uhum S1 não sei se você notou
(Projeto SP2010)
Esses casos servem para reforçar que a associação entre o experienciador médio e a ideia de controle em níveis variados é mais interessante do que a noção de um experienciador médio incapaz de controlar o evento, como proposto por Maldonado (2006). Enquanto arrepender está associado a uma atividade emocional sem tanto controle por parte do sujeito (quase como se fosse uma reação emocional), o evento de queixar aparece como manifestação de uma emoção e, nesse caso, permite maior nível de controle.
É interessante mencionar que, nas produções dos falantes paulistanos, todas as ocorrências formadas com esses dois verbos apareceram com o clítico. Curiosamente, os dados encontrados no corpus do dialeto mineiro, embora em quantidade bem menor, revelam uma situação contrária: as ocorrências envolvendo os verbos arrepender e queixar não apresentaram clítico. Podemos ver alguns exemplos abaixo:
(100) *JAN: o que é um pedevê //
*JRM: &he / pedido / de demissão / voluntário // *JAN: ah / <tá> //
*JRM: <es> dão dinheiro pr' ocê / tal / oferece uma grana / aí cê endoida com a grana / e pega e sai hhh //
*JAN: hhh <ótimo isso> //
*JRM: <saí> // nũ arrependo não // nũ arrependo não / porque &realmen [/1] eu gosto / demais / de mexer / com cabelo //
(101) *KAT: [38] mas ela / diminuiu a dor / foi / depois que ele / receitou antiinflamatório / nũ foi //
*SIL: [39] não // [40] no mesmo dia ea já nũ tava queixando mais // [41] que ele perguntou pra ela / ea falou que nũ tava sentindo nada //
(C-ORAL-BRASIL)
Novamente, se houver diferença quanto ao emprego desse elemento, levantamos a possibilidade de que ele seja utilizado no sentido de reforçar a participação do sujeito no evento. No caso de se arrepender, por exemplo, o participante chega mais perto de interferir no evento do que quando a sentença é formada sem o clítico. Nesse último caso, o evento seria visto como uma emoção que acomete o indivíduo de maneira mais espontânea, sem nenhuma possibilidade de interferência por parte do indivíduo.
Em todos os casos discutidos nesta seção, observa-se que o participante é codificado como tendo facetas indistinguíveis. Kemmer (1993) justifica o baixo grau de distinguibilidade dos participantes nas médias menos elaboradas (a exemplo daquelas que envolvem eventos mentais) da seguinte maneira: o participante experienciador é um iniciador, já que o evento mental se origina em sua mente; ao mesmo tempo, ele é alvo, uma vez que é afetado mentalmente. Assim, para a autora, nesse tipo de evento, não há separação conceitual entre iniciador e alvo (1993, p. 129). Já Maldonado (2006) explica essa indistinguibilidade em outros termos, mas remete à mesma ideia. O autor se baseia no conceito de experienciador médio e atribui a ele traços passivos e ativos. Esse aspecto induz Maldonado (2006) a falar em uma neutralização de papéis.
Apesar de os conceitos explorados por Maldonado (2006) – experienciador médio e baixo nível de controle sobre a atividade – terem sido postulados principalmente para verbos de reação emocional, vimos que, no PB, eles também dão conta de explicar dados contendo outros tipos de verbo.