Nos meus tempos tinha tempo... (...) Depois vieram os relógios40.
Certa ocasião, no livro “O Encontro Marcado” (SABINO, 2008, p. 201), o personagem Eduardo, jovem escritor em crise, visita o seu amigo Germano, homem já de certa idade, diplomata aposentado... Num dado momento, Germano convida-o [como de costume] a se dirigirem ao banheiro para escutarem música.
(...) Vamos ouvir um pouco de música, tem agora um programa muito bom. Pegava Eduardo pelo braço, levava-o para o banheiro. Seu rádio, pequeno e barato, só funcionava no banheiro, em cima do aparelho sanitário. Sem se preocupar em descobrir a razão, o velho escutava música sentado no bidê (Ib.).
Mas Eduardo naquele dia não se contenta somente a ouvir música, resolve demonstrar sua sabedoria explicando ao velho as razões pelas quais o seu radinho pegava tão bem ali perto da privada. “Deve ser por causa do encanamento que serve de antena – explicou-lhe”. A resposta lhe veio como uma sova:
O velho Germano fitou-o longamente, desligou o rádio, levou-o para fora do banheiro:
– Por isso é que você não vai para a frente, meu filho. Entende as coisas demais, quer encontrar explicação para tudo. Era tão simpático da parte dele, só tocando onde bem entendesse. Então minha privadinha é uma antena? Você criou um problema para mim.
– Me desculpe.
– Não tem importância (Ib.).
Germano não é um ignorante do mundo, e também não é verdade que ele busca a ilusão, a
40 Dos Meus Tempos. Poesia de Maria Helena Walsh. Poesia latinoamericana contemporanea, Argentina. In.
FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender – O resgate do jogo infantil. São Paulo. Ed. Moderna, 1996. p. 47.
mentira. Ele é um ser poético.
Existe uma vivência de mundo que é mais totalizante, mais intensa, mais interessante e despretensiosa do que aquela racionalista. A poesia não explica as coisas, ela eleva, potencializa, faz as coisas comungarem com a essência delas mesmas e do mundo. Não era preciso uma explicação técnica que fizesse com que todo o mérito de uma visão alegórica fosse destruído. No meu entender, a criança dialoga – assim como o Velho Germano –, com essa linguagem: do ilimitado, da criação, da recriação, como se a elaboração do mundo fosse um grande jogo, fácil, simples. “No universo da infância a poesia e a imagem falam muito mais do que o discurso, porque o brincar está ligado à iniciação humana neste planeta, porque a criança tem um recurso fantástico, que é o brincar, que a natureza lhe dá” (PEREIRA, 2009, p. 30). E prossegue: “esse exercício contém os princípios fundamentais da liberdade, da bondade” (ib.).
Quem nos recorda muito bem essa postura de liberdade e de expressividade da criança é a pesquisadora Lydia Hortélio41, porém, evocando não as crianças, mas evocando os adultos, citando Schiller e depois Camus:
O homem só é inteiro quando brinca. E é somente quando brinca que ele existe na completa acepção da palavra: Homem (Friedrich Von Schiller).
(...) Sejam realistas, exijam o impossível! (Camus)
A preocupação com o adulto, para ambas, é parte da reflexão sobre a infância. A necessidade de um aprofundamento acerca do universo da criança é uma exigência de explicação das próprias vicissitudes humanas. Como se o homem houvesse perdido o elo, o fio que o pode conduzir à essência, ao principio, ao mistério divino. Lydia Hortélio, nesta mesma palestra (p.
41
20), se lembra do poeta português Fernando Pessoa, atormentado em sua busca por uma explicação existencial, como que pedindo a Jesus – tornado outra vez menino –, que o ligasse novamente ao cerne do ser:
(...) A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe...
(...) A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.42
A criança aqui serve de paradigma, referência primeira – o próprio Menino Deus –, revelando ao poeta o mundo como se fosse visto pela primeira vez: “a direção do meu olhar é o seu dedo apontando”; ligando, ensinando-o uma visão de mundo que ele não se recorda mais. Mas este poema me parece ser uma grande propaganda de si mesmo, no sentido que quer nos dizer que ele (o poeta), talvez seja exatamente essa pessoa, que vê nas coisas o que há de sublime nelas. O poeta me parece ser aquele que revela o óbvio: o que as crianças estão cansadas de ver e vivenciar.
Elas [as crianças] têm uma percepção muito particular, originalíssima, vêem o mundo por ângulos peculiares, abusam do que não é usual.43
Esta frase, assinalada acima – da doutora Ferrara –, é extremamente esclarecedora se mantivermos os olhos grudados nas crianças. Elas não vêem o mundo de modo utilitário, como se as coisas em geral houvessem sido criadas para uma função. Elas, acima de tudo, têm a audácia de experimentar antes de pensar, de raciocinar. Uma lapiseira não é somente o objeto de escrever feito de plástico resistente com um bastãozinho de grafite dentro. A lapiseira, antes
42 Fernando Pessoa. O guardador de rebanhos – poema VIII, Num meio dia de fim de primavera (Alberto Caeiro).
Disponível em:
<http://www.fpessoa.com.ar/livros.asp?Livro=o_guardador_de_rebanhos&Voltar=index.asp> - visto em 26/11/2010.
43 Dra. Ferrara (Palhaça dos Doutores da Alegria). Disponível em:
ainda de ter esse nome, é uma multiplicidade de coisas, capaz de infinitas utilizações. Aliás, ela é um objeto também espiritual, quente, vivo, energizado pela sua participação na vida das crianças. Ouso dizer que nada é sem vida segundo a percepção das crianças. Debortoli (2009, p. 73) compartilha desse pensamento quando afirma que “as crianças também experimentam os brinquedos além do seu uso comum. O que era para balançar passa a ser usado para dependurar, saltar, empurrar”.
Uma descrição a respeito disso foi feita no filme A Loja Mágica de Brinquedos44, em que a personagem Molly Mahoney (Natalie Portman), jovem vendedora da loja, provoca o sr. Mutante (Jason Bateman – personagem que é um contador, cético quanto à idéia de que a loja era mágica), dizendo que ele é um “cara só”. Para ela, o Mutante só consegue enxergar aquilo que é explicável, mensurável. Segue o diálogo:
(Mahoney) – Eu sabia, assim que vi esse terno. (Sr. Mutante) – Sabia o que?
– Você é um cara “só”. – O que é um cara “só”?
– Alguém como você. O mesmo cabelo, o mesmo terno, os mesmos sapatos. Anda por aí e sempre pensa: “Ah, é ‘só’ uma loja. Isso é ‘só’ um banco. É ‘só’ uma árvore. É ‘só’ o que é e nada mais”.
– Sim, mas isso... é só uma loja.
– Tenho certeza de que pra você... é isso mesmo.
Uma visão realmente redutiva sob o ponto de vista das crianças e dos poetas: a loja realmente era mágica e nem as leis da gravidade ali atuavam...
No meu relatório de março de 2001 recorro à história da Emilia45 para descrever essa característica de levantar vôo que as crianças – e os poetas –, têm:
Estávamos trabalhando a canção “Ciranda dos pares”, de Bia Bedran que é um poema de associações muito bonito e imaginativo, e então resolvi usar esta idéia para compor, junto com as crianças o nosso próprio poema dos pares. Bia canta:
Eu sou a nuvem, eu sou o céu Eu sou a concha, eu sou o mar Eu sou a linha, eu sou carretel Sou abelhinha, hoje eu sou o mel.
Fizemos então o nosso poema, com associações simples como:
Eu sou o ovo, eu sou a galinha Eu sou o arroz, eu sou o feijão.
E outras bem mais interessantes como:
Eu sou a serra, eu sou a lima Eu sou o vento, eu sou o tornado Eu sou o moleque, eu sou passarinho.
Causou-me grande surpresa e me fez pensar que cantando, brincando ou fantasiando, elas estão desenvolvendo a sua capacidade de criticar, comparar e, consequentemente, de usar a razão. Parece-me que elas estão entendendo as implicações das coisas:
Eu sou a serra, eu sou a lima; ou, eu sou o moleque, eu sou passarinho.
É verdade que elas são “moleques”, mas também é verdade que elas são “passarinhos”. Alguém pode negar? Não há limites para quem cria.
Em “Memórias da Emília”, de Monteiro Lobato (1994), a certa altura, Emília dirige-se ao Visconde de Sabugosa dizendo que queria que as suas memórias fossem impressas...
Em papel cor do céu, com todas as suas estrelinhas; com tinta cor do mar, com todos os seus peixinhos e penas de pato, com todos os seus patinhos.
Volto a afirmar que não há limites para quem cria, não cabe em nossas mãos a explosão de vida das crianças. E não vale a pena tentar amalgamá-las nos nossos projetos. (março 2001)
O poeta e cineasta russo Tarkovski46 (1932-1986) parece-nos de acordo com estas idéias acerca do valor da linguagem poética, quando diz, nas suas reflexões sobre cinema, que “há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia” (1998, p. 31). E não se esquece das crianças, lembrando que...
O poeta tem a imaginação e a psicologia de uma criança, pois as suas impressões do mundo são imediatas, por mais profundas que sejam as suas idéias sobre o mundo (p. 45).
Para ele – e acho que também para a Maria Amélia Pereira –, “o poeta não usa ‘descrições’ do mundo; ele próprio participa da sua criação” (Ib., aspas do original).
– Tio Marquinho, o meu irmãozinho que vai nascer vai se chamar Herbert! – Ah, que bonito! Queria tanto ter um irmão com esse nome: Herbert! – Ué, eu posso te emprestar ele!
Henrique (3 anos, Creche Etelvina, 2010)
– Tio Marquinho, será que você gostaria de ficar preto?
Pedro (Menino negro de 5 anos, creche Dora Ribeiro, 2010)
– Mamãe, você quer salada completa ou descompleta? Ester (Em casa, 2011)
Enquanto isso, na sala do segundo período da Creche Gilmara Íris (4-5 anos, 2011), os meninos brincam de super heróis...
– Vem pra roda Homem Choque! Eu digo.
Envergonhado o Artur responde: – Eu mudei de herói... agora eu sou o Avatar. – Tio Marquinho, eu também mudei de herói, agora eu sou o Cara Sem Dúvidas! – O quê, Paulo?
– É, eu agora sou o Cara Sem Dúvidas! – Uau!
Maria Amélia Pereira (2009, p. 30), acena para uma questão que penso ser crucial para todos
que se preocupam com a educação no nosso país, e por que não dizer no nosso planeta:
A linguagem do brincar é uma linguagem mediadora de vínculos. Eu digo hoje que falar do brincar é falar da sobrevivência da espécie humana. Ao deixarmos as crianças brincarem, estaremos construindo o melhor currículo educacional de um país.
Acho que estamos preocupados com essa cultura na infância porque estamos preocupados com a humanidade.
Para ela, esse ato criador/revelador da criança no brincar – vindo da espontaneidade –, é um tesouro, que nós adultos nos esforçamos para eliminar, mas que devemos, ou que temos quase a obrigação de preservar:
É um modo de ver o mundo e viver convivendo com a espontaneidade que a todo custo se procura eliminar do ser humano, mas que por enquanto permanece na criança, último refúgio, talvez a única reserva para o futuro. O nosso interesse pela criança não se coloca simplesmente por ser ela uma criança. A criança interessa porque interessa o ser humano. Todo e qualquer pensar sobre uma metodologia infantil deverá partir de uma didática geral para o homem (SAWAYA47, M. A. Pereira, 1981, p. 19).
Tarkovski (1998) também acena para essa distração do homem moderno para com o poeta e sua busca pela essência, ou pela verdade, quando diz que “o homem contemporâneo simplesmente permanece surdo ao sofrimento do artista que tenta compartilhar com os outros a verdade por ele alcançada” (p. 48).
Se continuarmos a compartilhar as idéias desses dois autores – Tarkovski e Maria Amélia Pereira –, nos termos de uma visão poética reveladora do mundo, migraremos para um campo de discussão ao qual, talvez, essa dissertação não se proponha. Mesmo assim, vale a pena prosseguir um pouco mais, não nos termos de uma análise literária, porém filosófica.
A criança (e o poeta), parece ser uma criatura modelo – como no poema de Fernando Pessoa
citado anteriormente –, reveladora de uma profundidade humana perdida. Nesse sentido, ela poderia se tornar quase um profeta, anunciando não uma profecia para o futuro, mas uma voz que ecoa de muito muito longe: quem sabe, do tempo da criação.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre (...) Fernando Pessoa48 (Alberto Caeiro).
Talvez por isso, as cantigas de roda sejam tão íntimas a elas, tão ligadas ao passado e também ao mais imediato presente. “A pessoa é sempre o presente do próprio passado” (RIOLI, s/d, p. 147). E a criança tem um passado: o influxo da vida dos pais, nove meses de gestação, uma semana de vida, seis meses de vida, três anos... Este é um passado quantitativo, mas qual é o valor do tempo? Qual é a consistência do instante? Um ano de vida, quanto vale? E além do mais, a vida não é um mergulho infindo no insondável?
Para Tarkovski (1998), o poeta é alguém revelador de verdades e profecias: o poeta é esse profeta. E para justificar esse seu pensamento cita um poema de Alexander Puchkin (de 1826), em que o eu lírico recebe a visita de um anjo de seis asas, que lhe arranca o coração fremente,
e no vazio de seu peito coloca um pedaço de carvão em chamas:
(...) Fiquei como um cadáver, deitado no deserto, E ouvi a voz de Deus clamar:
“Levanta, profeta, e vê e ouve, Sê portador da minha vontade – Atravessa terras e mares
E incendeia o coração dos homens com o verbo.” (p. 266, aspas do original)
Em outro poema, Fernando Pessoa retoma a idéia de sua natureza profética, mesmo quando afirma se sentir com dificuldades e até com certa indisposição para a escrita:
Ainda assim, sou alguém. Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. Trago ao Universo um novo Universo Porque trago ao Universo ele-próprio49.
08/08/2011.
49 XLVI - Deste Modo ou Daquele Modo. Poema de Fernando Pessoa. Disponível em:
<http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:41Y_BI5u6tIJ:www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/fern
ando-pessoa/poemas-completos-de-alberto-caeiro-
2.php+podendo+%C3%A0s+vezes+dizer+o+que+penso,+fernando+pessoa&cd=2&hl=pt- BR&ct=clnk&client=qsb-win> Visto em: agosto de 2010.