Para analisar os dados, optou-se por utilizar uma abordagem de natureza quantitativa. A pesquisa quantitativa, realizada através da análise estatística, justifica-se, pois, segundo Brown (1988), os estudos estatísticos são caracterizados por examinarem comportamentos de grupos ou indivíduos em um determinado espaço de tempo ou em vários momentos distintos. Outra característica atribuída a esse tipo de estudo é a questão de a análise estatística avaliar a probabilidade de que os resultados não aconteceram por acaso (BROWN, 1988).
De acordo com Brown (1988), os estudos estatísticos buscam identificar as relações entre variáveis. Neste estudo, duas variáveis foram analisadas: (1) estratégias de comunicação e (2) tarefas orais. As estratégias de comunicação representam a variável dependente, uma vez que o estudo examinou qual efeito a outra variável (as tarefas orais) teve sobre elas. As tarefas orais são a variável independente, pois se observou o efeito delas sobre a variável dependente, isto é, as estratégias de comunicação.
A presente seção está divida em duas subseções: a primeira reporta o design escolhido para analisar estatisticamente os dados do presente estudo, e a segunda apresenta os critérios adotados para redefinir os conceitos de algumas estratégias de comunicação identificadas na análise de dados.
3.3.1 Análise dos dados
Para realizar a análise estatística dos dados, o programa utilizado foi o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS 20.0) e Microsoft Excel 2010. O teste de Kolmogorov- Smirnov e Shapiro-Wilk (Teste K-S) foi utilizado para verificar a distribuição de frequência da utilização das estratégias de comunicação nas três tarefas orais aplicadas e nas três retrospecções realizadas pelos participantes.
A análise de correlação de Spearman entre o nível de dificuldade das tarefas (1, 2 e 3) e as estratégias de comunicação foi conduzida para verificar se houve correlação entre o uso de estratégias de comunicação com os tipos de tarefas. Conduziu-se a ANOVA (Análises de Variância de Medidas Repetidas) de um fator para medidas repetidas para analisar as diferenças entre os resultados das tarefas entre si. Análises post-hoc foram conduzidas entre pares de tarefas (tarefa 1 com tarefa 2, tarefa 2 com tarefa 3, por exemplo) para identificar onde elas se diferiram entre si.
3.3.2 Classificação das estratégias de comunicação
A classificação das estratégias de comunicação na qual o estudo se embasou foi elaborada por Dörnyei e Kormos (1998, p. 359-376, conferir no cap. 2, subseção 2.2.2). A escolha dessa classificação se justifica, pois os autores (ibidem) tiveram como referências outras categorizações (TARO E, 1978; ӔRCH; KASPER, 1983) e fizeram uma relação entre as EC e os processos da produção oral baseados em Levelt (1989).
Contudo, algumas observações a respeito da classificação adotada no estudo precisam ser pontuadas. Embora o modelo escolhido tenha sido muito útil, notou-se que, ao fazer a identificação das EC encontradas, algumas delas apresentavam conceitos ambíguos de forma que não foi possível identificar as diferenças que existiam entre essas EC. Em razão disso, foi necessário estabelecer alguns critérios para uma melhor interpretação na análise os dados.
As estratégias consideradas mais complexas estão inseridas na classificação de Dörnyei e Kormos (1998) e se encontram na primeira parte da tabela que expõe os problemas associados ao déficit de recursos (conferir a tabela no cap. 2, subseção 2.2.2). Essa parte do modelo envolve os mecanismos de resolução de problemas lexicais e gramaticais utilizados pelos falantes de L2/LE. Os critérios adotados para a classificação dos tipos de estratégias empregadas pelos participantes, que geraram problemas de interpretação foram:
a) a tradução literal, que, segundo Dörnyei e Kormos (1998, p. 360), ocorre quando o aprendiz tenta “traduzir literalmente um item lexical, uma expressão idiomática, uma palavra composta ou estrutura da língua materna para L2/LE”;
b) a estrangeirização, que, conforme Dörnyei e Kormos (1998, p. 360), incide ao “utilizar uma palavra da língua materna, ajustando-a fonologicamente (por exemplo, com a pronúncia da L2/LE) ou morfologicamente”;
c) a substituição gramatical, a qual engloba as estratégias de generalização em excesso e a transferência e que são definidas, conforme Dörnyei e Kormos (1998, p. 360), como “mudanças nas especificações gramaticais através da generalização em excesso de regras na L2/LE ou transferência no uso de regras da L1 para a L2/LE”.
Portanto, para que a identificação de algumas estratégias de comunicação ficasse mais precisa e não gerasse dúvidas, algumas denominações e critérios foram acrescentados aos conceitos já apresentados por Dörnyei e Kormos (1998) para prover as necessidades do presente estudo quanto à classificação das EC. Além disso, pequenas amostras retiradas da coleta de dados da pesquisa foram utilizadas para exemplificar as definições, como é possível observar no item subsequente:
3.3.2.1 Mecanismos de resolução de problemas lexicais:
3.3.2.1.1 Tradução literal: foi identificada quando palavras, colocações ou expressões
idiomáticas da L2/LE foram utilizadas inadequadamente por serem semelhantes a uma palavra da língua materna, mas que, todavia, apresentaram significados diferentes nas duas línguas. Exemplos desses tipos de estratégias são os falsos cognatos, que por serem palavras parecidas nas duas línguas, parecem ter o mesmo significado da língua materna, no entanto, possuem significados distintos na L2/LE. Do mesmo modo, foram consideradas traduções literais as palavras que existem na L2/LE, todavia não foram palavras corretamente empregadas no contexto utilizado pelo aprendiz, ou seja, a combinação ou a colocação da palavra foi considerada inadequada. Exemplos: gave a hug (deu um abraço), stable union (união estável), compromisse (acordo) utilizado com o significado de compromisso.
3.3.2.1.2 Estrangeirização: foi considerada quando uma palavra da língua materna (similar ou
não com uma palavra existente na L2) foi utilizada na L2 com pequenos ajustes fonológicos, morfológicos (quando um sufixo foi acrescentado) ou quando somente uma letra foi retirada da palavra. Exemplos: extraterrestre (para dizer extraterrestre) e sement (para dizer semente).
3.3.2.2 Mecanismos de resolução de problemas gramaticais: Substituição gramatical (generalização em excesso e transferência)
3.3.2.2.1 Generalização em excesso: a generalização excessiva aconteceu quando houve troca
de classes gramaticais, por exemplo, quando um substantivo foi utilizado como se fosse um verbo, ou um verbo como se fosse um substantivo. Do mesmo modo, no que diz respeito aos tempos verbais, quando o acréscimo do –s, adicionado ao verbo conjugado na terceira pessoa do singular no presente simples, foi generalizado e utilizado em todas as pessoas (singular e plural), ou ainda, quando a forma do passado -ed foi utilizado em todos os verbos independentemente de eles ser regulares ou irregulares. Em resumo, a generalização excessiva
de regras gramaticais aconteceu da L2 para a L2. Exemplo: cames em vez de came ou comes,
marriage (utilizado como casamento e casar), swimed em vez de swam.
3.3.2.2.2 Transferência: a transferência foi reconhecida quando as regras da L1 foram
transferidas para a L2. Por exemplo, quando um adjetivo foi utilizado depois do substantivo, como acontece no português, isto é, as regras ou estrutura da língua materna foram transferidas na construção de sentenças na língua alvo (exemplo: relationship good em vez de
good relationship, o que em português significa relacionamento bom). Estabeleceu-se que, a
diferença entre a transferência e a tradução literal foi concebida ao se considerar que a transferência aconteceu no âmbito das regras gramaticais (sobretudo sintáticas) da L1 para a L2 ao se construir sentenças na L2. Desse modo, a transferência de regras gramaticais ocorreu da L1 para a L2. Ao passo que, a tradução literal permaneceu no âmbito lexical, ou seja, esta não envolveu as regras gramaticais ao se produzir sentenças da língua alvo.
Após apresentar a metodologia de pesquisa utilizada neste estudo, o capítulo seguinte objetiva exibir os resultados e a discussão da análise dos dados.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este capítulo apresenta os resultados e discussão do presente estudo. Na primeira seção (4.1), mostram-se os resultados da Estatística Descritiva (seção 4.1.1) dos dados de cada uma das variáveis investigadas e os resultados do Teste de Inferência Probabilística (seção 4.1.2). Na segunda parte do capítulo, discorre-se a respeito dos resultados (seção 4.2) relacionados a cada uma das perguntas de pesquisa propostas no estudo.