• Sonuç bulunamadı

c) Yolculukta Musık

D) Musiki Hakkında Tiibi'in Fakihlerinin Görüşler

Fonte – Acervo da equipe do projeto de urbanização (2003).

Assumir a vida no Areado, como o morar na lama, era não ver as outras faces do lugar. O Areado destacava-se pela organização de eventos comunitários, como festas e torneios esportivos e também pela existência de uma biblioteca comunitária. Em meio ao local onde a população costuma depositar lixo, o endereço da biblioteca, no muro da casa 13 da Rua Santo Afonso, séde da biblioteca, um aviso: “ESTUDE! BIBLIOTECA AQUI”. Carlos Magno demonstra sintonia com a maioria dos moradores, sobre o sentimento pelo Areado,

“Eu gosto muito de morar aqui. Já gostei bastante, hoje eu gosto menos, mas gosto. Então o que me impressiona é a vida das pessoas, do hábito de pescar, de tomar banho no Rio, das crianças gostarem de passear de canoa, de se melar de lama, de jogar futebol, de sorrir apesar de toda problemática que tem” (Carlos Magno de Souza, entrevista à autora, em Abril de 2006).

De acordo com dados do Inventário Social do Complexo Favelar do Passo da Pátria, a maioria dos moradores declarou gostar de morar no bairro. No Areado foram 75,5% dos entrevistados; na Pedra do Rosário e Passo, 72,8%, e, no Pantanal, 75,8%. A localização é tida como a principal vantagem em todos os

questão se coloca, são os moradores da Pedra do Rosário e do Passo os que declaram não desejar residir no Areado ou Pantanal.

Observamos que os entrevistados do Areado, na interação com outro espaço da cidade, quando precisaram identificar onde moram, indicaram morar no Passo da Pátria e não no Areado. São situações que envolvem a procura por trabalho ou o preenchimento de documentos, por exemplo.

Ao substituírem o Areado pelo Passo da Pátria, os moradores do Areado acreditam acionar o status que o núcleo mais antigo possui, internamente, em relação aos outros pedaços. Além disso, segundo os mesmos, o Passo da Pátria é mais conhecido, na cidade de Natal/RN, que o Areado, o que, na percepção dos mesmos, evita parte dos constrangimentos sofridos pelo imaginário preconceituoso da cidade, que se opõe à favela. A percepção dos moradores é de que, ainda assim, o espaço é desvalorizado na maioria das vezes, como nos disse dona Célia:

“[...] quando perguntam onde você mora e você diz: no Passo da Pátria, aí dizem: vixi Maria! Na favela. Para mim já foi favela, hoje não é mais, que história que aqui é sempre favela. Você sabe que a gente quando mora num lugar não vai derrubar o lugar [...] porque queira ou não queira eu estou aqui, então eu tenho que defender, não esculhambar mais [...] está certo que a gente mora numa favela, mas a gente não quer ver ninguém derrubar. Porque se eu chego lá fora e mesmo que seja uma favela se eu digo que moro numa favela, eu tô dizendo tudo o que tem de ruim ali dentro, mas porque mora um ou dois não é obrigado todo mundo ser (Célia Alves Siqueira, entrevista à autora, em Novembro de 2006).

A existência das palafitas e a percepção sobre as situações de violência que ilustram o Areado para a cidade são, na opinião dos entrevistados, os motivos para a discriminação que existe, tanto internamente, entre os pedaços do Passo da Pátria, quanto para com o resto da cidade; no entanto, como percebemos na fala de Célia Alves, a imagem de favela atribuída ao lugar, enquanto significado de estigma e preconceito, convive com o “outro lado” do Areado constituído por moradores que “defendem” uma outra imagem do bairro em que vivem. Carlos Silva, artista plástico, morador do Areado relata que

“Quando eu digo que moro no Passo da Pátria tem discriminação, porque é violento, mas aí eu fui amadurecendo e botei na cabeça que violência tem em todo canto e perigo em qualquer lugar; e essa questão de ter vergonha [...] eu já disse que morava na Cidade Alta, Centro, mas através do meu trabalho isso passou a ser uma coisa mais simples. Ao mostrar como é o ambiente aqui eu não tive mais vergonha. Agora, eu tenho prazer em dizer que moro aqui e pretendo divulgar uma imagem melhor do bairro” (Carlos da Silva Ferreira, entrevista à autora, em Fevereiro de 2007).

Romper o preconceito foi também adquirir outro conhecimento sobre o lugar, construir outro olhar sobre o Areado, uma síntese própria a partir das suas diversas experiências cotidianas. Não ter vergonha é uma possibilidade plenamente realizável, se os moradores estiverem dispostos em focar nas positividades do Areado, as famílias, os trabalhadores, os equipamentos de lazer, as festas, ou ainda a paisagem que o rodeia, elementos que se configuram como suportes para o reconhecimento da própria dignidade negada pelos grupos “estabelecidos”.

Observando a relação entre Areado e Pantanal, existe a percepção de semelhanças entre os dois pedaços, as quais baseiam-se no tempo, condições de moradia, convivência com o Canal do Baldo, existência de equipes esportivas, festas comunitárias e laços familiares entre moradores. Não obstante o reconhecimento de simbioses entre os dois pedaços, prevalece um tipo de inter-relacionamento, o qual aponta o Pantanal com maiores desvantagens de moradia, considerando-o a favela do Passo da Pátria, estando assim o Pantanal abaixo do Areado na hierarquia dos

pedaços.

Um exemplo disto são os conflitos que passaram a acontecer, quando os moradores das palafitas do Areado mudaram-se para o Pantanal, onde ficou clara a não receptividade dos moradores do Pantanal aos novos vizinhos. A lista de reclamações é enorme, quando entrevistei D. Célia Alves, que se mudou de uma das palafitas para uma casa construída pela urbanização, localizada nas imediações do Campo São Francisco II no Pantanal. Ouvi queixas sobre os jogos que

resultavam em intrigas, quando as bolas atingiam as casas, sendo os usos do campo São Francisco II um elemento da tensão e do desentendimento entre moradores.

2.6 – O outro lado do canal: o Pantanal e o meio-ambiente

O Pantanal é o pedaço de ocupação mais recente do Complexo Favelar do Passo da Pátria. Está situado entre o Canal do Baldo, a linha férrea, o muro da Base Naval e o Rio Potengi. Caracteriza-se como o pedaço com maior número de

habitações, famílias e moradores26. Apesar de serem identificadas algumas

moradias, desde a década de 70, do século XX, seu crescimento deu-se a partir da década de 90. A origem da denominação Pantanal deriva da existência de vários pequenos córregos que cortam a área, os quais aumentam de volume, de acordo com o movimento das marés. Conforme os dados do Projeto de Urbanização, o Pantanal

“ [...] possui ainda uma área com características de favela, marcada pelos pisos de terra batida (44 casas= 12,7%) e edificações sem alvenaria (53 unidades = 15,3%). Tem como único acesso uma rua localizada próxima ao horto municipal, sendo isolado dos demais pela existência do canal do Baldo e fazendo divisa com o muro da Base Naval (Marinha)27”.

Os aspectos sócio-ambientais do Pantanal, do período anterior ao agravamento da poluição do Rio Potengi, em que predominavam áreas alagadiças e vegetações, como manguezais, têm enorme influência no imaginário popular no Passo da Pátria. Conheci uma moradora do Passo, residente há mais de 40 anos, que afirmou nunca ter ido ao outro lado do canal. Segundo a moradora, a última vez

26 Ver tabela 01 deste capítulo na página 69.

27 PREFEITURA DO NATAL. PROJETO INTEGRADO PASSO DA PÁTRIA – Projeto do trabalho de

participação comunitária. Natal,RN: Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social. Maio de 2002. P. 62.

que ela avistou a área, o Pantanal possuía poucas moradias e podia chegar até as casas com canoas, nos períodos das marés mais altas, em Janeiro e Agosto. Oliveira Pedro Barbosa, morador do Pantanal relatou-nos a paisagem que encontrou, quando lá chegou, para morar, muito tempo depois, na década de 90:

“Quando eu vim, isto aqui era tudo mato, tinham algumas casas.[...]. Antes era só Pedra do Rosário e Passo da Pátria e aí eu não sei se em 85, ou 86, um pessoal de Mãe Luiza e João Câmara vieram e invadiram uma parte do Areado, formando a comunidade e depois invadiram aqui formando a comunidade do Pantanal. Quando eu cheguei aqui, já tinha muitas casas, ruas,[...] os primeiros moradores foram por invasão e os outros compraram a posse de quem tinha invadido” (Oliveira Pedro Barbosa, entrevista à autora, em 03/08/06).

Assim como no Areado, o crescimento da população do Pantanal foi mais recente do que o da Pedra do Rosário e do Passo. Seus moradores, em sua maioria, são pessoas vindas de diferentes locais da própria cidade de Natal/RN. No Pantanal também existiram palafitas e grande quantidade de barracos, favorecendo a percepção de que o lugar era uma favela, como indicaram os outros moradores do Passo da Pátria.

Além disso, o Pantanal estava mais próximo do Canal do Baldo. A poluição das águas do Rio Potengi, do Canal do Baldo e dos pequenos córregos se configuram em problemas ambientais complexos e condições de alto risco, principalmente para os moradores do Pantanal. A atividade pesqueira é notória e foi afetada pelos altos níveis de poluição do Rio Potengi. A pesca é feita em pequenas embarcações ou canoas e hoje, predominante, como cultura de subsistência e, não mais, para o comércio, os pescadores apontam a desconfiança dos compradores sobre a segurança do produto (peixe, camarão, siri, etc.), já que o mesmo foi retirado de águas poluídas.

Benzer Belgeler