Depois das contribuições que a nova história e a antropologia trouxeram para as ciências sociais - a história como um processo não-linear, tampouco universal, a história do cotidiano, a relativização do conceito de tempo - é demasiado infrutífero ficar procurando uma “data onde tudo começou” ou um acontecimento que influenciou a espécie humana a
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O Estado está sempre em disputa quando é entendido como um espaço de correlação de forças entre vários agentes e as estruturas do próprio estado. Os agentes de diferentes origens e que participam de outros diferentes campos tentam confirmar ou modificar a estrutura do Estado em que adentram de acordo com o habitus que lhes orienta. Estas estruturas são mais ou menos modificáveis de acordo com a correlação de força que elas mantêm com outros campos de força da sociedade. É muito mais complexo que isso, mas as transformações no Estado seriam produzidas quando os campos que se relacionam com ele geram tamanho atrito na inserção de novas práticas e pensamentos que as modificações são feitas pelos próprios agentes que já se encontram no Estado a fim de realizar a acomodação necessária que evitará maiores perturbações a própria constituição do Estado. Isto se refere à criação de políticas e decretos decorrentes de demandas do setor industrial, ou como no caso dos ambientalistas, de demandas em decorrência da poluição industrial que tornou insuportável a conivência do Estado com certas práticas industriais. A segunda forma pelas quais transformações acontecem no Estado é pela inserção de novos agentes oriundos de campos que já alcançaram um determinado patamar de capital simbólico mas não se sentem contemplados satisfatoriamente pelas políticas do estado. Novamente os pesquisadores e demais profissionais que se envolveram e se formaram dentro do campo ambientalista começam a entrar em diversos setores do Estado e, a partir daí, o modificam de duas formas: interferindo nas práticas e políticas sobre as quais tem algum poder, e abrindo espaço para que novos agentes do mesmo campo entre no Estado.
mudar sua postura frente à natureza. Mesmo em tempos de globalização e biologização, nesta perspectiva não existe um “destino humano” 32; existem trajetórias das diversas culturas. É assim que essa ambientalização ainda que venha a interferir em várias partes do planeta se liga principalmente a uma pretensa cultura “universal e global” que é a cultura imposta pelos centros urbano-industriais europeus e norte-americanos. Ou seja, mesmo já sendo uma generalização - que poderá ser melhor contextualizada para cada caso que se vá estudar – chamar este arbitrário cultural de ambientalismo moderno ocidental ao menos “não joga no mesmo saco” crítico as outras formas de pensar a relação homem-natureza que foram e vêm sendo desenvolvidas por outras culturas:
Quando afirmamos que é o pensamento dominante no ocidente, queremos deixar claro que a afirmação deste pensamento – que opõe homem-natureza – constituiu-se contra outras formas de pensar... ...se deu no corpo da complexa história do Ocidente, em luta com outras formas de pensamento e práticas sociais. Ter isso em conta é importante não só para compreender o processo histórico passado, mas, sobretudo, para compreender o momento presente. Isso por que o movimento ecológico coloca hoje em questão o conceito de natureza que tem vigorado e, como ele perpassa o sentir, o pensar e o agir de nossa sociedade, no fundo coloca em questão o modo de ser, de produzir e de viver dessa sociedade (GONÇALVES 2006, p. 28).
Se não há uma simples origem, há ao menos um consenso - perigoso e merecedor de uma séria análise como todo “bom consenso”– sobre alguns fatos e fatores da sociedade ocidental moderna que convergiram e criaram um terreno fértil para a difusão do ambientalismo em políticas, práticas sociais, mentes e corpos, ou como eu vinha me referindo ao processo de ambientalização dos conflitos sociais nesta sociedade. Estes fatos e fatores seriam:
o A crença em um conceito de natureza oposto ao conceito de cultura “a cultura
é tomada como algo superior que conseguiu dominar controlar e dominar a natureza” (GONÇALVES 2006, p. 25). Isto viria ocorrendo desde a adoção do modelo de pensamento dos filósofos gregos - Sócrates, Platão e Aristóteles em oposição aos sofistas que desde então tiveram suas contribuições menosprezadas – passando pelas revoluções científicas proporcionadas pelo método cartesiano e o positivismo, culminando na coroação da física como legítima e principal ciência humana, ela que estava ligada ao desenvolvimento industrial que ocorria desde o século XIX (idem, p. 61; MARIANA 2008, p. 23-24). Foi contra esta forma cristalizada pela civilização industrial de ver o
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Obviamente que me refiro a destino do ponto de vista histórico-cultural, tendo em vista que uma crise dos sistemas de produção globalizados ou mesmo as especuladas catástrofes ambientais que viriam a ocorrer por conseqüência destes mesmos sistemas trabalhariam por traçar um destino mais uniforme, ainda que trágico.
homem fora da natureza, este arbitrário cultural formador de vários habitus modernos, que o pensamento ambientalista se contrapôs, mesmo que a priori como a outra face da mesma moeda: agora não somos mais os dominadores da natureza e sim seus destruidores, jamais parte integrante da natureza.
o A sucessão de desastres promovidos por essa mesma civilização industrial:
duas guerras mundiais, inclusive o massacre nuclear em Hiroshima e Nagasaki, a depressão de 1929, a guerra do Vietnã e a produção de novas armas químicas e biológicas, a produção de resíduos tóxicos contaminantes de toda a cadeia alimentar em que o homem, apesar de não ser natureza, se via dependente e muito prejudicado33, enfim a constatação de que o modelo de pensamento hegemônico nas sociedades “desenvolvidas” agia também contra a sua própria sobrevivência.
o A legitimação científica alcançada pela Ecologia34 assim como a expansão do
seu escopo de estudo através das suas ramificações: ecologia natural, ecologia humana, ecologia cultural, etnoecologia, ecologia neofuncionalista, ecologia processual, ecologia espiritual e ecologia política. Cada uma destas linhas de pesquisa gerou conceitos questionadores que permitiram entender distintas dimensões da realidade ambiental (LITTLE 2006, p. 87), pondo em xeque o modelo de sociedade industrial que, contraditoriamente lhe garantia, não só as condições materiais, mas também as simbólicas de reprodução. Some-se a isto o fato de que, ao mesmo tempo em que estes estudos e conceitos elevavam a
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Alguns autores gostam de frisar a importância e o pioneirismo que o livro de Rachel Carson, A primavera silenciosa, teve “ao desvelar os abusos do sistema industrial moderno” (ROBERT 2002, p. 15). Este livro foi o resultado de uma pesquisa feita, a pedido de uma amiga, com o objetivo de descobrir se havia alguma relação entre a morte de milhares de aves existentes em um “santuário ecológico” e o DDT que era utilizado para o controle de mosquitos nas proximidades. Os achados de Carson foram incisivos e polêmicos, despertando a ira da indústria química, que por diversas vezes tentou difamá-la, e a massiva adesão de cientistas, políticos e criadores de políticas, além do público em geral que partiu em sua defesa (MILLER 2007, P. 257, grifos meus). Como José Augusto Pádua (PÁDUA 2002) bem lembrou, outros visionários, ou pessoas de bom senso se preferirem, tentaram alertar para a destruição dos ecossistemas naturais antes mesmo da revolução industrial. Entre os inúmeros fatores que concorreram para arquivar seus trabalhos , não posso deixar de pensar na importância que tem o local privilegiado de onde o locutor se expressa. Havia também uma terrível e desnecessária destruição nas colônias sul-americanas, mas certamente elas não tinham - e talvez ainda não tenham - o mesmo peso político dos EUA na segunda metade do século XX.
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“A palavra ecologia foi usada pela primeira vez em 1858, pelo naturalista norte-americano Henry David Thoreau, e ganhou uma acepção propriamente científica pelo biólogo alemão Ernst Haeckel em 1866 (LITTLE, 2006, p. 86). Neste mesmo artigo de Paul Little também é possível conhecer algumas referências fundadoras de várias ramificações da ecologia.
ecologia a um patamar mais privilegiado dentro do campo acadêmico, eles também se enraizaram dentro da sociedade civil como um novo movimento social (idem, p. 86), talvez graças à própria expansão desenfreada da industrialização e do consumo que tornaram seus rastros mais que evidentes.
o Por fim, as tentativas de institucionalização, a criação de comitês específicos e
os debates através de organismos supra-nacionais, como a ONU e a UNESCO, dos quais a primeira que se tem registro é a Conferência de Estocolmo35 em 1972, de onde emergem a maioria das diretrizes de ação para os Estados e a sociedade civil.
Poderíamos ficar elencando outros diversos fatores, pensamentos e pensadores que contribuíram para o surgimento do ambientalismo. Pádua (2002), Diegues (1996), e até mesmo Gilberto Freyre (2000) gostam de citar os filósofos do romantismo naturalista americano e europeu que, ao se rebelarem contra a sociedade instituída, muito influenciaram na criação do sistema de parques e áreas protegidas que lá existem. Bem diferente era o caso do Brasil onde o romantismo naturalista e a preocupação com o meio ambiente ocuparam locais diferentes na sociedade. Segundo o próprio Pádua (2002, p. 25) a segunda ainda que “minoria da minoria”, arquivo morto dentro do cenário intelectual e político brasileiro, era pensada como estratégia progressista contra a devastação irracional dos recursos naturais brasileiros. Já o naturalismo romântico brasileiro, segundo Freyre (apud PÁDUA 2002, p. 26), era “um naturalismo morno e apenas literário, à sombra de mangueiras de sítio e macacos amestrados pelos negros da casa”.