O documento anteriormente citado, Elementos conceituais e metodológicos para definição dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento do ciclo de alfabetização (1º, 2º e 3º anos) do Ensino Fundamental, constitui-se de uma boa fonte de referência para o professor em sua prática pedagógica de ensino e de avaliação. Na página 49, é apresentado um quadro com os objetivos de aprendizagem do eixo estruturante da leitura. Estão postos 19 objetivos na primeira coluna, seguidos dos códigos “I, A e C”, que respectivamente significam: introduzir, aprofundar e consolidar. Esses códigos estão distribuídos em três colunas que se referem aos três anos do ciclo de alfabetização. Tal disposição possibilita ao professor saber qual objetivo deve ser introduzido, aprofundado e consolidado nos respectivos anos indicados.
Quadro 1- Objetivos de aprendizagem – Eixo Leitura EIXO ESTRUTURANTE LEITURA
Objetivos de Aprendizagem 1º Ano 2º Ano 3º Ano Ler textos não verbais, em diferentes suportes. I/A A/C A/C Ler textos (poemas, canções, tirinhas, textos de tradição oral, dentre outros) com
autonomia.
I/A A/C C
Compreender textos lidos por outras pessoas, de diferentes gêneros e com diferentes propósitos.
I/A A/C A/C
Antecipar sentidos e ativar conhecimentos prévios relativos aos textos a serem lidos (pelo professor ou pelas crianças).
I/A A/C C
Reconhecer as finalidades de textos lidos (pelo professor ou pelas crianças). I/A A/C A/C Ler em voz alta, com fluência, em diferentes situações. I A C Localizar informações explícitas em textos de diferentes gêneros e temáticas,
lidos pelo professor ou por outro leitor experiente.
I/A A/C C
Localizar informações explícitas em textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos com autonomia.
I A/C A/C
Realizar inferências em textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos pelo professor ou por outro leitor experiente.
I/A A/C A/C
Realizar inferências em textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos com autonomia.
I A A/C
Estabelecer relações lógicas entre partes de textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos pelo professor ou por outro leitor experiente.
I/A A/C A/C
Estabelecer relações lógicas entre partes de textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos com autonomia.
I A A/C
professor ou por outro leitor experiente.
Apreender assuntos/ temas de diferentes gêneros, com autonomia. I A/C A/C Interpretar frases e expressões em textos de diferentes gêneros e temáticas, lidos
pelo professor ou por outro leitor experiente.
I/A A/C A/C
Interpretar frases e expressões em textos de diferentes gêneros, lidos com autonomia
I/A A/C A/C
Estabelecer relações de intertextualidade na compreensão de textos diversos. I/A A/C A/C Relacionar textos verbais e não verbais, construindo sentidos. I/A A/C A/C Saber procurar no dicionário os significados básicos das palavras e a acepção
mais adequada ao contexto de uso.
I A
LEGENDA: I – Introduzir; A - Aprofundar; C – Consolidar Fonte: BRASIL, 2012b, p. 49
Nesse quadro também se identificam as habilidades avaliadas nos testes de larga escala aplicados aos alunos do ciclo da alfabetização, quer em âmbito local, estadual ou nacional.
O município de Fortaleza, por exemplo, tem desenvolvido um esforço significativo para a avaliação da competência leitora dos alunos do Ensino Fundamental e para o registro dos resultados, a fim de que estes se configurem como pontos de partida para o replanejamento das práticas pedagógicas.
A Coordenadoria de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação - SME elaborou um documento orientador sobre a aplicação de avaliações específicas para os anos iniciais do Ensino Fundamental (ANEXO A), no qual são definidos vários aspectos, tais como: a periodicidade de aplicação, os instrumentais, as normas de aplicação e de registro dos resultados, dentre outros. O registro dos resultados das avaliações é atualmente feito por meio da inserção dos dados no Sistema de Avaliação do Ensino Fundamental – SAEF.
Para os três anos do Ensino Fundamental, o município de Fortaleza adotou um rol de habilidades da competência leitora que estão contidos no “Instrumental de avaliação da aprendizagem” (ANEXO B), documento que serve para o professor registrar o que observa no desenvolvimento dos alunos acerca de cada uma das habilidades consideradas. Deve-se marcar “ED” para habilidade em desenvolvimento e “DS” para habilidade satisfatória.
Figura 1 – Habilidades do Eixo de Leitura para o 1º ano
Fonte: FORTALEZA. SME (2015).
Figura 2 – Habilidades do Eixo de Leitura para o 2º ano
Figura 3 – Habilidades do Eixo de Leitura para o 3º ano
Fonte: FORTALEZA. SME (2015).
As habilidades elencadas nos quadros acima estão em consonância com as concepções teóricas atuais sobre a leitura. Entretanto, na busca documental não foram encontrados os testes a serem aplicados aos alunos a partir dos quais seriam avaliados os aspectos supracitados.
Os instrumentais de avaliação a que se refere o documento orientador elaborado pela SME são disponibilizados às escolas pela Secretaria e avaliam apenas a fluência no âmbito da palavra, frase e texto.
A fluência é um aspecto importante no desenvolvimento da competência leitora. Rasinsky (2004), em seu ensaio intitulado Creating fluent readers, defende que para a leitura ser bem-sucedida os leitores necessitam processar o texto contemplando o nível superficial de leitura e o mais profundo, o qual se refere à compreensão textual. Para o autor, a fluência na leitura relaciona-se à capacidade de o leitor desenvolver o controle sobre o processamento do texto em ambos os níveis de modo que possa se concentrar na compreensão dos níveis mais profundos de significado incorporados no texto.
Em seus estudos, o autor define três dimensões da fluência que possibilitam a chegada à compreensão. A primeira dimensão é a precisão na decodificação de palavras. Para
ele, os leitores devem ser capazes de ler as palavras em um texto com o mínimo de dificuldades. Em outras palavras, essa dimensão está relacionada à fonética e outras estratégias para decodificar palavras. A segunda dimensão é o processamento automático. Os leitores precisam canalizar o menor esforço mental possível na etapa de decodificação, a fim de que possam usar todos os seus recursos cognitivos na compreensão (LABERGE; SAMUELS, 1974). A terceira dimensão relaciona-se à habilidade para aplicar adequadamente os traços prosódicos na leitura das sentenças e parágrafos (expressividade).
Leitores fluentes tendem a ler de uma forma a construir o significado, ao passo que leitores menos fluentes tendem a fazer um grande esforço para chegar ao sentido. [...] Uma prosódia pobre pode levar à confusão através de agrupamentos inapropriados ou sem sentido das palavras (PAIGE et al., 2012, p. 67).
Ler com expressividade é fazer o uso apropriado da estrutura de entonação da língua, respeitando as pausas e dando ênfase em trechos específicos, bem como mantendo um ritmo conversacional consistente. Rasinsky (2003) sintetiza que se os leitores leem com rapidez e precisão, mas sem expressão em suas vozes, colocando a mesma ênfase em cada palavra e ignorando a pontuação, desrespeitando os marcadores textuais que representam as pausas, é pouco provável que eles compreendam completamente o texto lido.
As pesquisas sobre a importância da fluência para o desenvolvimento da competência leitora apontam para uma especial atenção a essas três dimensões. No entanto, na busca documental não foi encontrado nenhum registro teórico sobre a justificativa de se avaliar a fluência da leitura por meio da aplicação dos instrumentais elaborados pela SME. Essa lacuna possibilita variadas interpretações dos resultados, pois não se sabe ao certo o que exatamente os professores que aplicam o teste consideram ao registrar que o aluno lê com fluência. Os critérios considerados na avaliação estão dispostos no quadro a seguir.
Quadro 2 – Critérios de Avaliação da Leitura - 1º e 2º anos
Na leitura de textos, frases e palavras o avaliador tem duas opções de registro. Analisando essas opções, a primeira dúvida é sobre o entendimento do que significa essas duas categorias (para o texto: 1- com pausas e 2- com fluência; para frases e palavras: 1- silabando e 2- com fluência). Percebe-se que a fluência pode estar relacionada, simplesmente, ao aspecto da rapidez na leitura. A segunda dúvida é sobre a ausência da avaliação da compreensão textual. Esse aspecto será discutido no item 5.3.1.
Ressalte-se que a simples identificação da velocidade de leitura da criança por meio de testes avaliativos não é suficiente para dar ao professor subsídios à sua prática que auxilie o aluno no desenvolvimento de sua competência leitora.
De acordo com o documento orientador da SME, essa avaliação é realizada mensalmente para todas as crianças do 1º e 2º anos do Ensino Fundamental das escolas de Fortaleza.
No estado, desde 2007, o Ceará vem desenvolvendo ações que envolvem a avaliação em larga escala da alfabetização, aplicando testes que avaliam a competência leitora dos alunos matriculados em toda a rede pública de ensino. Essas ações integram o eixo de avaliação externa do Programa Alfabetização na Idade Certa - PAIC7. A matriz de referência, que norteia a elaboração dos testes diagnósticos aplicados do 2º ao 5º ano no primeiro semestre letivo e do SPAECE-Alfa, aplicado aos alunos ao término do 2º ano, contém um rol de habilidades da competência leitora.
Quadro 3 - Matriz de Referência PAIC – 1º ao 5º ano EIXO 2: LEITURA
Tópicos Descritor/Habilidade Nível 1º 2º 3º 4º 5º
1- Quanto à leitura de palavras
D10- Ler palavras com silabas no padrão canônico.
N1: Ler palavras dissílabas. X X N2: Ler palavras trissílabas e
polissílabas.
X X
D11- Ler palavras com silabas no padrão não canônico.
N1: Ler palavras dissílabas. X X N2: Ler palavras trissílabas e
polissílabas.
X X 2- Quanto
à leitura de frases.
D12- Ler frases. N1: Ler frases com estrutura sintática simples (sujeito, verbo e complemento), na ordem direta.
X X X
N2: Ler frases com estrutura sintática complexa (sujeito, verbo, complementos etc.), na ordem direta.
X X
N3: Ler frases com estrutura sintática complexa (sujeito, verbo, complementos, adjuntos, aposto
X X
7
etc.), na ordem indireta. 3- Quanto à leitura de textos: 3.1- Quanto à leitura do texto verbal ou não verbal D13- Localizar informação explicita. N1: Localizar informação explícita em texto de extensão curta, com vocabulário e sintaxe simples (sujeito, verbo e complemento).
X X
N2: Localizar informação explícita em texto de extensão mediana, com vocabulário e sintaxe mais complexos (sujeito, verbo, complementos, adjuntos, aposto etc.).
X X X X
N3: Localizar informação explícita em texto de extensão mais longa, com vocabulário e sintaxe mais complexos.
X X
D14- Inferir informação em texto verbal.
N1: Reconhecer uma informação implícita em texto verbal, de extensão curta, com vocabulário e sintaxe simples (sujeito, verbo e complemento).
X X X X
N2: Reconhecer uma informação implícita em texto verbal, de extensão mediana, com vocabulário e sintaxe simples (sujeito, verbo e complemento).
X X X X
N3: Reconhecer uma informação implícita em texto verbal, de extensão curta, com vocabulário e sintaxe mais complexos (sujeito, adjunto, verbo, complementos, adjuntos, aposto etc.).
X X
N4: Reconhecer uma informação implícita em texto verbal, de extensão mediana, com vocabulário e sintaxe mais complexos (sujeito, verbo, complementos, adjuntos, aposto etc.).
X X
D15- Inferir o sentido de palavras ou expressão.
N1: Inferir o sentido de uma palavra ou expressão, a partir do contexto, em texto de extensão curta ou mediana, com vocabulário e sintaxe simples(sujeito, verbo e complemento).
X
N2: Inferir o sentido de uma palavra ou expressão, a partir do contexto, em texto de extensão curta ou mediana, com vocabulário e sintaxe mais complexos (sujeito, adjunto, verbo, complementos, adjuntos, aposto etc.).
D16- Interpretar textos não verbais e textos que articulam elementos verbais e não verbais.
N1: Interpretar textos não verbais. X X N2: Interpretar textos, com
vocabulário e sintaxe simples, que articulam elementos verbais e não verbais.
X X
N3: Interpretar textos, com vocabulário e sintaxe mais complexos, que articulam elementos verbais e não verbais
X X
D17- Identificar o tema ou assunto de um texto (ouvido).
N1 – Identificar o tema ou assunto de textos de extensão curta, com vocabulário e sintaxe simples.
X X
N2: Identificar o tema ou assunto de textos de extensão curta, com vocabulário e sintaxe mais complexos.
X X
D18- Identificar o tema ou assunto de um texto (lido).
N1: Identificar o tema ou assunto de textos de extensão curta ou mediana, com vocabulário e sintaxe simples.
X X
N2: Identificar o tema ou assunto de textos de extensão curta ou mediana, com vocabulário e sintaxe mais complexos.
X X
D19- Distinguir fato de opinião relativo ao fato.
Distinguir um fato de uma opinião relativa a este fato, em textos de extensão mediana, com vocabulário e sintaxe mais complexos.
X
D20- Formular hipótese sobre o conteúdo do texto.
Formular hipóteses sobre o conteúdo de um texto, a partir de elementos como: manchete, título, formatação do texto etc., em texto verbal, de extensão curta ou mediana, com vocabulário e sintaxe simples ou complexos.
X 3.2-