Sem esperar, durante o alvoroço que habita a oficina, vejo alguns meninos em volta do Jackson e um deles com a câmera na mão. Este começa a procurar pessoas e coisas por meio da lente; quando encontra o amigo e aprende o zoom, acha graça da brincadeira. O menino continua à procura de outros meninos pelo Galpão. Vê o João, tenta focar nele, mas pega a parede vermelha, o descascado branco, uma almofada, uma folha de papel amarela, um joelho de menino todo ralado, dobrado no corpo com uma roupa inteira azul. Ao chegar no rosto, um olhar singelo e um sorriso nos lábios, sem mostrar os dentes, só fazendo pose para a câmera. João fixa o olhar, quase não se move, sabe que está sendo filma- do. Mas se distancia na medida em que voltamos do zoom. Agora, o cenário é um menino de azul, pés juntos, um joelho dobrado para cima, o outro para o lado, rodeado de papéis amarelos e laranjas. Um sorriso no meio do galpão, entre vozes que gritam, conversam e silenciam. Entre cores, lápis e desenhos, aí está um menino posando para a câmera. Pes- soas cruzam a sua imagem e a câmera procura outro personagem para ser o seu foco. Ainda dá para ver o João se esquivando, na tentativa de continuar sendo a imagem observada.
Agora encontramos outro menino, com a língua para fora (nos cantos dos lábios), que movimenta o braço sobre o rosto para es- pantar as moscas. O corpo sobre o joelho e os braços no chão, parece um montinho sobre o papel. Os pés tomam impulso, caminham em dire- ção à câmera e o menino diz: Porque você está apontando pra mim?
Jackson é interpelado pelo que acontecia na oficina; nas suas palavras: aprendi a ver como as pequenas coisas fazem uma grande diferença
na oficina [...] Como, por exemplo, ao ver um sorriso de uma criança,
que segurava uma câmera no ombro e ria muito ao dar o zoom; coisas simples Figuras 64, 65, 66 e 67. Livro construído
na oficina “É um livro...?”, no Ponto de Lei- tura Jardim Lapenna em 15/03/2014. Foto: Camila Feltre. Fonte: arquivo pessoal.
assim, mexeram muito comigo. Eu olhava admirada para o acontecimento
que tomava corpo no encontro – e que eu nem podia ter imaginado. A experiência não antecipa, não prevê.
Relato a minha admiração durante o processo de oficinas no diário de campo:
Me chamou a atenção a maneira que as oficinas estão afetando ao Jackson, algo que não esperava [...] Acreditava na parceria, porque conheço o seu lado profissional atento, o olhar sensível e ele já conhecia o meu trabalho113, mas não tinha a dimensão de como o processo afetaria o seu ser, seu lado humano e profissional. Ele me contou que a experiência no Ponto de Leitura foi muito rica para ele, e isso foi perceptível, porque ele viu as crianças interagindo com a câmera como algo mágico, novo. Ele se viu ali, na oficina, transmitindo algo, possibilitando sorrisos, alegrias. Relatou pra mim, na volta para a estação de metrô, sobre a felicidade que sentiu quando uma criança viu no visor da câmera o amigo e com o zoom no seu rosto, não parava de rir. Ele se viu não somente como alguém que domina uma técnica, mas alguém que tem algo a oferecer, propiciar sorrisos, ensinar114.
Sobre essa experiência, leva a pensar sobre o que significa olhar por meio de uma câmera. Será que é olhar por outro ponto de vista ou pode provocar uma outra percepção sobre a imagem capturada? Quando a criança se vê ou vê o amigo, ou o lugar que habita pelo visor da câmera pode ser algo novo, pode provocar muitas descobertas, pode mudar a forma de ver algo a que se está habituado. Lembro da experiên- cia que Paulo Freire relata quando participava de um encontro
de alfabetização para adultos. O educador conta:
Visitávamos um Círculo numa pequena comunidade pesqueira chamada Monte Mário. Tinha-se como geradora a palavra bonito, nome de um peixe, e como codificação um desenho expressivo do povoado, com sua vegetação, as suas casas típicas, com barcos de pesca ao mar e um pescador com um bonito à mão. O grupo
113 Quando trabalhamos juntos na Casa das Rosas, de março de 2010 a março de 2013. 114 Minhas anotações no diário de campo em 11/04/2014.
de alfabetizandos olhava em silêncio a codificação. Em certo momento, quatro entre eles se levantaram, como se tivessem combinado, e se dirigiram até a parede em que estava fixada a codificação (o desenho do povoado). Observaram a codificação de perto, atentamente. Depois, dirigiram-se à janela da sala onde estávamos. Olharam o mundo lá fora. Entreolharam-se, olhos vivos, quase surpresos, e, olhando mais uma vez a codificação, disseram: “É Monte Mário. Monte Mário é assim e não sabíamos (FREIRE, 2006, p. 44).
A distância tomada pelos moradores de Monte Mário desloca o olhar costumeiro para observar a comunidade e também a si mesmos com atitude crítica e curiosa. Será que a experiência com a câmera também é capaz de provocar outros olhares? A experiência extrapola, algo que não se esperava acontece no encontro entre as pessoas, livros, olhares, sorrisos e possibilidades.
Esse lugar de quem possibilita algo ou do mediador, que é sujeito da experiência, está em constante transformação. Nas palavras
de Larrosa:
Se alguma coisa nos anima a educar é a possiblidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar- -nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa para além do que vimos sendo (LARROSA, 2014, p. 05).