O desenvolvimento dos modelos de crescimento econômico permitiu que fatores até então considerados exógenos passassem a determinar o crescimento das nações. Este é o caso do capital humano, incorporado às funções nos modelos de crescimento endógeno e que foi objeto do presente estudo.
Na tentativa de revelar a influência desse fator no processo de crescimento, o trabalho teve por objetivo investigar a evolução dos indicadores educacionais do Brasil, enfatizando o período de 1980 a 2000. As principais constatações podem ser assim sumariadas:
1.O gasto público com educação aumentou, refletindo na queda da taxa de analfabetismo, sobretudo na faixa etária de 15 anos ou mais, que em 2000 era de 13,6%.
2.O número médio de anos de freqüência escolar aumentou para ambos os sexos, mas este aumento foi maior no caso do sexo feminino, refletindo no maior ingresso destas no mercado de trabalho.
3.Diminuiu a repetência e a evasão nos ensinos fundamental e médio, implicando em maiores taxas de promoção. Cumpre ressaltar que isso foi possível, principalmente no ensino fundamental, devido às disposições criadas pela esfera governamental, tais como a promoção automática nas primeiras quatro séries.
4.No ensino superior cresceu, expressivamente, a participação das instituições privadas na oferta total de vagas. Em 1998, perfaziam um total de 78,5% de todas as instituições de ensino superior do país. O número de inscrições no vestibular, assim como o número de matrículas, também é maior no setor privado. Contudo, a taxa de concluintes do ensino superior privado é a menor, comparativamente às demais dependências administrativas.
Devido ao aumento da escolarização da população brasileira, o mercado de trabalho passa a recrutar mão-de-obra em função da escolaridade. Espera-se, assim, que o nível de remuneração aumente a cada nível de escolaridade concluído, já que um indivíduo com o primeiro grau completo recebe, em média, 27% do salário de um com o superior completo. Apesar disso, o grau de desigualdade de renda no Brasil, no decorrer das últimas duas décadas, permaneceu estacionário.
Torna-se necessário fazer a distinção entre formação educacional tradicional (fundamental, média e universitária) e a qualificação e a reciclagem da mão-de-obra frente aos avanços tecnológicos da produção. Essa última ação apresenta retorno mais rápido e visa integrar os trabalhadores ao mundo da tecnologia da informação, haja vista que a tecnologia moderna exclui e não reincorpora, pois as pessoas se tornam obsoletas diante dela, não são qualificadas mas não deixam de ser consumidoras, o que exerce enorme pressão social.
No caso do Brasil, para o período analisado, embora tenha ocorrido melhoras significativas na escolaridade média da população, a perseguição ao crescimento econômico contínuo e estável ainda não levou aos resultados almejados. As elevadas taxas registradas quando do "milagre econômico" parecem longe de serem alcançadas novamente. Além disso, a realidade distributiva no Brasil permanece pautada por uma iniqüidade intolerável, que precisa ser enfrentada com mais afinco nas mais diversas frentes: conscientização social, política econômica e vontade política.
A hipótese de que o crescimento econômico emana da educação não foi confirmada nesse estudo. Na realidade, o trabalho mostra uma aparente contradição com a teoria que pode ser explicada, no modelo de crescimento, pela
famosa condição ceteris paribus. A causalidade na relação educação- produtividade-salários pressupõe que o aumento da escolaridade média, tudo o mais constante, redundaria em aumento da produtividade do fator trabalho e, portanto, contribuiria para o crescimento econômico e redução da pobreza. É bem verdade que o Brasil contou com melhorias educacionais, entretanto, por ser a economia dinâmica, outros fatores contribuíram para que o país não atingisse níveis satisfatórios de crescimento, como por exemplo, a abertura comercial que proporcionou aumento contínuo das importações, não acompanhado do aumento das exportações, e conseqüente elevação do déficit em transações correntes.
Considerar o capital humano isoladamente para o crescimento econômico não espelha a dinâmica econômica. Talvez deva-se considerar o capital humano como elemento de uma estratégia mais abrangente que incluísse também outros tipos de investimentos, como por exemplo os realizados em pesquisa e desenvolvimento, em infra-estrutura e em capital físico necessários para ocupar os trabalhadores progressivamente mais qualificados.
Uma das limitações do trabalho é não apresentar um instrumental que possa quantificar a importância da educação para o crescimento econômico. Entretanto, outros estudos já o fizeram e não se quer aqui, negar sua importância. Ao contrário, a educação é fundamental para que um país atinja níveis cada vez mais elevados de desenvolvimento.
A despeito do resultado do estudo, duas inferências podem ser feitas: ou o capital humano no Brasil não está, de fato, se acumulando; ou, embora o capital humano esteja se acumulando, outros fatores estão contrabalançando seu efeito positivo sobre o crescimento, como mencionado anteriormente.
A não acumulação de capital humano pode estar relacionada à qualidade da educação que está sendo oferecida. A expansão quantitativa da rede de ensino básico, ainda que significativa, foi acompanhada por um processo de deterioração de um sistema, em que a baixa qualidade do ensino se associa a um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente: formação deficiente dos professores, baixos salários pagos a estes, redução da jornada escolar, situação
socioeconômica dos alunos, precárias condições dos prédios escolares e insuficiência de material didático, entre outros.
Além disso, algumas indagações persistem. A grade curricular, nos diversos níveis de ensino, é adequada? Os alunos aprendem mais hoje do que aprendiam no passado? Há, por parte das escolas, uma preocupação com a formação cidadã de seus alunos, no sentido de torná-los cada vez mais "socialmente inteligentes"? Ou as escolas estão preocupadas apenas em diplomar uma quantidade cada vez maior de pessoas, sem se preocupar com sua formação? Estas são preocupações que devem ser consideradas pela sociedade como um todo, pois, ter cada vez mais pessoas qualificadas não é suficiente para que a nação possa alcançar níveis satisfatórios de crescimento econômico e, consequentemente, se tornar mais desenvolvida. Grande parte dos diversos trabalhados que tratam da educação no Brasil restringem-se aos aspectos quantitativos, sendo pouco discutidos os aspectos qualitativos. A eficiência do processo educacional deve ser preocupação dos estudiosos da área para que se possa corrigir as falhas no menor período de tempo possível, minimizando-se as conseqüências desastrosas. Enquanto a maior preocupação da sociedade está na qualidade de modo geral, o setor educacional visa a quantidade, indo na contra mão da história.
Outra possível explicação para o desencontro entre educação e crescimento econômico pode residir na existência de capacidade ociosa de capital humano. O Brasil pode estar acumulando maior quantidade de capital humano, porém, não está conseguindo utilizá-lo adequadamente, por não estar havendo suficiente impulso do lado da demanda. O fato de os trabalhadores possuírem qualificações superiores àquelas demandadas por suas atividades produtivas pode implicar em ociosidade desse fator, ou seja, para absorver estes trabalhadores, a economia deveria contar com infra-estrutura e capital físico adequados. Assim, a carência de investimentos nesse tipo de capital pode constituir gargalos econômicos que anulam o efeito do crescimento educacional sobre o crescimento econômico.
Sabe-se que, nos países do primeiro mundo os níveis educacionais são mais elevados que nos países subdesenvolvidos como o Brasil. Resta saber, no entanto, o sentido da causalidade: se são países desenvolvidos por conta do perfil educacional elevado, ou se têm o perfil educacional elevado por serem desenvolvidos.
Por fim, ficam algumas sugestões para trabalhos posteriores. Dentre elas destaca-se a necessidade de conhecer a evolução dos indicadores educacionais por estratos de classe, podendo-se identificar quais são os maiores beneficiadas. Disto decorre o estudo da mobilidade social, ou seja, verificar se a tendência à imobilidade é maior na classe média, assim como a mobilidade ascendente na classe baixa.
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