Em sessões anteriores destaquei alguns dos elementos e atores que participam do processo de segregação do Timbó. Primeiramente observei que os atrasos quanto às inovações da legislação do território urbano em João Pessoa, além da falta de ação do poder público em
investimentos urbanos nas áreas carentes da cidade eram alguns dos elementos que influenciaram na segregação do Timbó. Além disso, as formas de representatividade do bairro e as posturas e comportamentos de alguns moradores dos outros setores em relação aos moradores do Timbó também foram apontados.
Apesar de compreender que não há uma postura segregacionista na totalidade dos moradores de classe média dos Bancários, reforço nesta sessão que a participação de alguns indivíduos desse grupo também é relevante para a promoção da segregação no bairro. Realço adiante algumas histórias de vida contadas por moradores do Timbó que relatam situações vividas por eles e que envolvem pessoas de classe média do bairro.
O primeiro trecho faz parte do relato da história de uma mulher residente no Timbó a mais de 20 anos, casada e mãe de três filhos.
Eu mesma um vez fui fazer compras no Bem Mais, lá tem uma Kombi que leva a feira do pessoal nas suas casas. Só que de uma vez eles levam logo 4 ou 5 clientes. Aí eu botei minhas compras no carro, quando o motorista perguntou: à senhora mora aonde? Eu disse: no Timbó. Então tinha uma mulher de lá do conjunto dentro do carro que deu um grito e disse: Meu Deus no Timbó! Me leve logo na minha casa porque eu tenho medo de ir lá! Ela ficou histérica! Eu me senti muito discriminada naquele dia, mas também eu não fiquei calada não. Eu disse: minha filha lá também tem gente de bem. Minha mãe construiu a casa dela lá porque foi o jeito, e com a ajuda da patroa dela, uma mulher muito fina, mais educada do que você, e rica, que mora no Altiplano. Mas pra que eu fui dizer que ela não era educada. Ela foi logo dizendo: Minha filha, de pobre eu quero distância, pobreza pega! Depois disso, ela perguntou ao motorista se ele ia me levar primeiro, porque se fosse ela não iria.
Ele perguntou onde ela morava, ela disse que logo no início dos Bancários, ele falou que era pra ela ser uma das últimas devido ao lugar que mora. Mas mesmo assim ele pediu pra que eu esperasse e todos os outros clientes por que ele ia deixar primeiro aquela mulher e depois voltava pra nos pegar. Ela não foi de jeito nenhum e disse ainda que jamais botaria os pés no Timbó e não quer conversa com ninguém de lá! Eu mesma não gosto de fazer feira no Bem Mais por conta disso. Porque eu não posso pagar táxi pra trazer a feira, e quando a gente vai usar um benefício que é pra todo mundo que faz feira lá acontece essas coisas com a gente, eu prefiro ficar fazendo minhas compras aqui mesmo.
(Fabiana, 32 anos, moradora do Timbó)
A situação passada em um dos estabelecimentos comerciais do bairro reflete bem a evitação que determinados moradores de classe média realizam em relação aos moradores do Timbó. A ação preconceituosa termina por inibir a moradora do Timbó em realizar suas
compras no supermercado do bairro, ou seja, termina por expulsar a moradora daquele espaço de compras, e segregá-la. Pois para se proteger de possíveis constrangimentos como esse, prefere utilizar os mercados existentes no Timbó mesmo, confinando-se em seu espaço próprio.
Verifiquei que na perspectiva da mulher do conjunto, o afastamento, funciona como uma forma de preservação da sua identidade, a necessidade de não “misturar-se”, a fim de evitar parecer-se com o outro “o pobre”, estigmatizado.
Tal como afirma Goffman(1988) que entende a identidade dos indivíduos como resultado do social, de forma que para ele, a identidade passa a ser concebida não somente por atributos e características inerentes aos indivíduos, mas sim pelas trocas e pela interação que estes indivíduos estabelecem. Para esse autor, o outro relacional é fundamental no arranjo da identidade, já que a observação das marcas distintivas e a percepção da combinação única dos fatos que compõe a vida são realizadas pelo, e no meio social. Ele ainda diz que “a diferença, em si, deriva da sociedade antes que uma diferença seja importante ela deve ser coletivamente conceitualizada pela sociedade como um todo” (GOFFMAN,1988, p. 134).
Me remetendo a Goffman(1988) para analisar a posição da mulher do relato que ao afirmar a frase “Pobreza pega!” percebo que ela procura o afastamento como instrumento de proteger sua identidade de classe média. E não misturar-se através da interação com a pessoa do Timbó era o posicionamento mais que indispensável para que isso fosse garantido.
Outro fato relatado a seguir foi comentado por um rapaz morador do Timbó há 5 anos e que trabalha na PIB JCU.
Eu pelo menos me sinto bem em morar ali no Timbó, porque as pessoas são todas do meu patamar. Esse povo daqui parece que só querem ser melhor do que nós. Eles são mesmo, porque sabem falar direito, estudaram, tem as coisas, andam arrumados, come bem. Mas eles querem ser mais além disso. Sabe como é? Querem ser humanamente melhor. Não fala com a gente nem nada, passa tudo de nariz pra cima. Só na hora de precisar de alguma coisa é que olha pra você. Na hora de falar com agente até pra pedir um favor, é por cima. Sabe como é? Então só pra mostrar que isso não existe eu não me rebaixo, porque veja, chegou um dia aqui e disse fulano lava meu carro, aí agente lava com maior boa vontade, quando é depois ele fala: rapaz tu não serve nem pra lavar um carro?!
Porque você veja, eu não estava nem recebendo, lavei e tal, no horário do meu serviço eu nem podia fazer isso e fiz pra agradar a ele, só porque ficou um pouco sujo ainda em baixo, por conta do barro duro, o cara vem e diz uma dessa. Pois agora eu não lavo mais, ele agora que pegue as mãozinhas de fada dele e vá lavar...Porque os ricos pensam que o dinheiro pode tudo, só que até pra lavar um carro precisa de alguém, não tem ninguém que não
precise de outra pessoa, agora veja ele que vá pagar aí 20 reais no lava jato. Desse povo eu quero distancia! Sabe como é? É cada um no seu quadrado! É desse jeito!
(Wellignton, 24 anos, morador do Timbó)
A frase: “Tu não serve nem pra lavar um carro”, relatada no trecho acima, demonstra uma forma depreciativa de se comunicar. Também não deixa de ser um tipo de violência (MICHAUD, Y. apud Porto, 2002). Onde entra em cena a depreciação moral. Isso, na opinião da pessoa do relato só pode ser evitado com o afastamento, como uma forma de preservação.
Em sua fala o entrevistado deixa claro que, ao se identificar com as pessoas do Timbó, sente-se mais a vontade de estar lá do que em outras área do bairro. As diferenças de comportamento, e sua visão de que os moradores de classe média do bairro assumem uma postura de superioridade em relação aos moradores do Timbó, lhe confere um sentimento de indignação e de aversão.
Logo se vê que, os ares de superioridade que permeiam os comportamentos de parte dos moradores de classe média do bairro têm o poder de afastar os moradores do Timbó de sua presença. Funcionando assim como um mecanismo de expulsão, na medida em que as relações não se tornam agradáveis, contribuindo para que e os moradores do Timbó sintam-se mais a vontade apenas em „seu próprio ambiente‟, ambiente aliás de confinamento e porque não dizer de reclusão. (WACQUANT,2001)