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Qualquer pedagogia ‘da normalidade social’ leva o sujeito a adiar os sonhos mais para frente, “para quando for possível”. No momento, o importante é cumprir as regras estabelecidas, reprimir os sonhos e anseios, adiar os desafios e conquistar espaços para a sobrevivência. O sujeito acaba se convencendo de que mais tarde

haverá oportunidade de realizar aquilo que sonha conquistar na vida. Dessa forma, pode-se chegar ao fim da vida, de ilusão em ilusão, até a decepção final que é de ter vivido de forma medíocre, sem fazer a diferença no mundo.

A religião faz e diz a mesma coisa. Se o fiel se sacrifica, renunciando a si mesmo, receberá como recompensa o reino dos céus. O mesmo acontece com os programas políticos: não é agora já que vai melhorar; sempre se ouve dizer que no próximo ano haverá recuperação.

Como membro da sociedade, o sujeito assume vários papéis: pais, filhos, amantes, trabalhadores, estudantes, etc. As escolhas dar-se-ão dentro desses papéis, porque, quase sempre não se pode fugir deles, apesar de ser possível reinventá-los. Essas escolhas se colocam entre seguir as ordens da sociedade e, portanto, tornar-se cúmplice dela, ou fazer tudo de modo a atender as necessidades de realização da originalidade pessoal, através de ações protagonistas.

Na maioria das vezes, não são colocados dilemas existenciais para os que vivem aqui e agora. A tendência à evasão do espaço e tempo, nos quais se está inserido, é enorme. Rejeita-se o que se é e onde se está, sem criar algo novo, sem a aventura de novos caminhos, a não ser em fantasias. A pessoa é deste mundo, deste lugar, mas acaba morando em um castelo imaginário, que nem é prazeroso, construído por suas frustrações e pela incapacidade de mudar a rota da vida. Então, quando é possível, procura-se responder a esses anseios, consumindo aquilo que a publicidade vai dizer que resolve, e se cria dilemas existenciais cada vez maiores.

Os riscos que trazem a busca de construção de uma vida protagonista causam medo e o medo paralisa. Entre o risco no prazer e a certeza no sofrer, acaba-se assumindo a última opção.

A partir do momento que se arrebenta a casca social, a espontaneidade renasce, levando a superar as dificuldades e obstáculos, tornando a pessoa mais próxima do aqui e agora. Viver de uma maneira crítica e criativa inclui assumir as próprias limitações, mergulhando na aventura criativa da superação e da transformação do que é socialmente dado como obstáculo à ação protagonista, em relação a si mesmo e aos outros. Assim, acaba-se por resgatar a própria individualidade e originalidade. Quando o sujeito pode ser ele mesmo, tudo o que fizer sair de si será de extraordinário valor para a sociedade. Pode-se dizer: só é possível assumir a sociedade no sentido de sua transformação, assumindo a própria individualidade. É por aí, pelos caminhos da originalidade, que fluirá a força

transformadora. A paixão de viver é justamente trazer os sonhos para o presente e recriá-los permanentemente.

É extremamente chato, entediante, acreditar que a história já está contada, os caminhos já estão prontos, basta segui-los. É muito melhor contar a história que estamos fazendo. E esta será sempre nova... Estamos tentando fazer um trabalho simples, um capítulo sobre como seria possível conciliar a busca da liberdade individual com a conquista da liberdade coletiva... Existem caminhos diversos, e estamos procurando aqueles que possibilitam a expressão de nossa originalidade própria... O grande perigo é o de ficarmos falando da cátedra, quando apenas começamos a engatinhar na descoberta do que tem sido e pode ser a nossa própria libertação. (Brito, 1988, p.25).

Quando é transmitido o conhecimento histórico acumulado, normalmente dize-se que apenas esse conhecimento é o saber e não se mostra que este saber é uma condição para que, a partir dele, se possa protagonizar novos horizontes ainda não trilhados. Desta forma, aprender, para um protagonista, é ao mesmo tempo, a arte de desaprender e de acostumar-se a superar velhos hábitos de ver e pensar as coisas. O jeito de viver protagonizando inicia-se já nos primeiros momentos da vida e instala-se definitivamente na primeira infância, tempo em que se pratica permanentemente atos de amor e de medo. Depois, as estruturas sociais continuarão esse trabalho com mais facilidade.

Nos inícios do século XXI, as instituições estão se mostrando tanto quanto antes, ou até mais autoritárias: família, órgãos públicos, escolas, movimentos sociais, política partidária, entre tantas outras. Ao lado disso, as pessoas, em geral, mais que submissas, estão se acostumando a se tornar indiferentes, talvez por estarem desiludidas ou desencantadas. A ‘era do sujeito’ pode levar a uma cultura de extremo individualismo, que é outra forma de repressão ou de negação do protagonismo.

Mas, como fazer para desenvolver a autonomia e o protagonismo, a partir de uma sociedade estruturada em instituições autoritárias?

O processo em si traz o aprendizado mais fundamental: o da liberdade e, ao mesmo tempo, nada é tão contagiante como o gosto para a liberdade. Como é possível ensinar sem ser autoritário? Como é possível romper as relações de dominação na transmissão do conhecimento? A situação de posse do conhecimento já dá uma posição de superioridade, de poder. É uma posição de autoridade, queiramos ou não. Através do brilhantismo, da empatia, usamos a chantagem para conseguir submeter as pessoas ao nosso saber. Para atingir isso, o fundamental é convencer os que são objeto de nosso poder da sua capacidade de atingir o conhecimento de maneira crítica,... Isto significa que o mais importante é ensinar as crianças como estudar. Ajudar as pessoas a desenvolver sua capacidade crítica e

torná-las aptas a saber o que fazer com o conhecimento... (Idem, 1988, p. 41).

Pode ser um grande empecilho para o desenvolvimento do protagonismo, independentemente de qualquer idade, o ‘medo paralisante’ de romper barreiras e a ilusão de estar se educando apenas de cabeça, ou seja, um ensinamento que não desce ao corpo, transformando-se em atitudes; uma educação em que as pessoas estão bloqueadas em sua criatividade e liberadas para a imitação.

A atitude protagonista, portanto, requer que, em meio aos conflitos e embates humanos do cotidiano, a pessoa vá se liberando pela prática cotidiana, a partir de pequenos atos protagonistas, com base em paradigmas escolhidos, pensados e amadurecidos que nos oriente na direção para onde se quer ir. Pode-se aproveitar a originalidade e a criatividade dos outros, mas não viver apenas delas, pois o sujeito tem compromisso intransferível e inalienável como pessoa e com sua pessoa.

Quando se decide viver a vida de forma protagonista, inevitavelmente encontra-se oposições das mais diferentes naturezas, por parte de pessoas e organizações sociais, pois estas tendem sempre para a conservação e segurança, evitando riscos. Uma pessoa protagonista traz “incômodo” porque as demais sentem a vontade de fazer o mesmo, mas não têm coragem para isso. Essa pressão social se dá através de gratificações às quais a maioria não tem coragem de rejeitar.

Quem gosta do risco e se aventura, aceita a insegurança, porque tem sua própria utopia... O máximo da segurança é a escravidão. Sendo escravos, somos propriedade de alguém, não corremos nenhum risco desde que obedeçamos às leis da escravidão, que não abrem mão do fundamental... Então alguém opta por nós, se nós delegamos este poder a alguém. Temos menos medo porque não estamos nos arriscando. Se somos nós que temos de optar outra vez, se não delegamos nada a ninguém, vivemos permanentemente em risco. É uma coisa natural do homem esta necessidade de segurança, em conflito permanente com a necessidade de risco... Ninguém se faz livre sem desobedecer socialmente. (Idem, 1988, p. 65-66).

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Benzer Belgeler