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A Metodologia Clínico-Qualitativa é definida como:

O estudo e a construção dos limites epistemológicos de certo método qualitativo particularizado em settings da Saúde, bem como abarca a discussão sobre um conjunto de técnicas e procedimentos adequados para descrever e compreender as relações de sentidos e significados dos fenômenos humanos referidos neste campo. (TURATO, 2003, p. 240).

Portanto, ainda segundo o mesmo autor, temos que o método citado “é concebido como um meio científico de conhecer e interpretar as significações – de naturezas psicológicas e psicossociais – que os indivíduos (pacientes ou quaisquer outras pessoas preocupadas ou que se ocupam com problemas da comunidade), dão aos fenômenos do campo saúde-doença”.

Para os fins deste trabalho, iremos nos utilizar da metodologia clínico- qualitativa procedendo da seguinte maneira: entrevistar os pacientes para descobrir quais as impressões pessoais mais significativas de se ter um coração de outra pessoa. Adota-se o conceito de entrevista de Haguette (2005) que a define como ”um processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte de um roteiro de

entrevista constando de uma lista de pontos ou tópicos previamente estabelecidos

de acordo com uma problemática central e que deve ser seguida”.

O presente estudo está apoiado em pesquisas qualitativas, utilizando-se de técnicas como a observação, narrativa e entrevistas semi-estruturadas. Visto que o processo de adoecimento é uma experiência única e inesperada, levantamos a hipótese de que os seres humanos não estão preparados para vivenciar essa situação. No caso de situações limite, como no caso dos transplantes cardíacos, esse evento exige das pessoas envolvidas ações específicas que permitam reconduzir e re-significar todos seus projetos e práticas cotidianas.

Sabemos que não podemos tomar o conteúdo das entrevistas como comprovação direta a respeito dos efeitos sociais que o transplante do coração traz. Por isso a importância da mediação com a teoria para que identifiquemos quais as

relações entre os aspectos teóricos e sua concatenação com os relatos dos pacientes.

Segue também em anexo um questionário, que serviu como base para recolher os dados que indicam a forma de conciliar as perguntas formuladas previamente com questionamentos extras, que se impõem ao investigador durante a narrativa criada pela própria situação de entrevista. Neste tipo de abordagem, o pesquisador deve manter uma postura de neutralidade para com os seus entrevistados, visto que existe, nessas situações de entrevista, a tendência dos entrevistados quererem, inadvertidamente, corresponder às expectativas dos

entrevistadores. Para evitar os problemas que acabam deformando e invalidando as

entrevistas narrativas, evitaremos pergunta do tipo: “por quê?”.

Basicamente, o investigador deve apenas pedir que o entrevistado relate a sua história. Como há pontos específicos que o investigador procura nas narrativas ouvidas, ele deve traduzir questões de interesse do investigador para a linguagem do entrevistado. Além, devido ao caráter fragmentado da fala e mesmo, às vezes, pouco lógico, deve-se evitar mostrar contradições na fala dos entrevistados, Bauer; Gaskell (2000).

Se as entrevistas realizadas, através de um questionário pré-definido, forem acrescidas daquelas em que se privilegia a escuta dos relatos dos entrevistados, teremos os mecanismos satisfatórios para que possamos captar os elementos necessários para reconstruir as vivências subjetivas em termos sociais mais amplos: os relatos deixam de ser apenas as impressões subjetivas para ser a condição de resgate para conectarmos o fenômeno subjetivo à teorização sociológica.

As narrativas revelam as diversas perspectivas dos informantes sobre acontecimentos e sobre si mesmos, enquanto que perguntas padronizadas nos permitem fazer comparações diretas percorrendo várias entrevistas sobre o mesmo assunto. Além disso, uma entrevista pode percorrer várias seqüências de narração e subseqüentemente questionamento. A interação entre a narração e o questionamento pode ocasionalmente diluir as fronteiras entre a EN [entrevistas narrativas] e a entrevista semi-estruturada. (Ibidem).

Por tratar-se de uma pesquisa com apenas cinco pacientes, a pesquisa qualitativa se impõe como o meio de captar a subjetividade dos transplantados. É certo que os pacientes não formulariam lingüisticamente a interpretação que eles

têm da experiência do transplante sem o inquirimento do pesquisador. Portanto, o próprio questionário é elaborado para produzir condições da fala ao estimular o discurso e a recomposição do conteúdo de suas experiências.

Perceber a natureza da escuta e a interpretação desses relatos garante ao pesquisador não cair nas armadilhas que são comuns nestes casos: tomar os relatos de forma literal. É necessário, portanto, estar atento para a especificidade do caso estudado (o transplante do coração) em coordenação com os aspectos individuais que encontramos do conceito de habitus. As entrevistas servirão para mostrar em que medida podemos identificar algum traço significativo que revele alguma mudança de vida, após a experiência do transplante.

Uma pesquisa que envolve dados qualitativos necessita fazer a mediação entre as histórias de vida e o contexto social. Por isso que, além do questionário para sondar as impressões diretas que os transplantados resgatam de suas experiências (suas trajetórias pessoais no interior de seus contextos), é necessário também que o pesquisador esteja atento a como estes pacientes interpretam ativamente o evento do transplante. Sabemos que organizar os fragmentos do discurso exige que se abandone a busca por uma linearidade do texto, em favor de marcas lingüísticas que indiquem os traços específicos da experiência do transplantado do coração.

Pelo fato dos transplantados compartilharem a mesma experiência, podemos inferir que alguns padrões de pensamentos indicarão o que é comum a todos eles. Esses procedimentos são essenciais para detectar os simbolismos e as palavras-chaves nas falas dos transplantados, que possibilitarão um cruzamento entre as representações simbólicas do coração e a experiência do transplante.

O habitus possui sua estabilidade, mas deve haver níveis que sejam alterados quando existe uma grande pressão externa. Para conferir quais as mudanças pessoais identificáveis nos transplantados aqui estudados, será necessário analisar se a operação em si mesma foi o fator isolado mais importante para determinar alguma reorganização da vida, ou se, devido ao fato de ser especificamente o órgão cardíaco, e sua carga simbólica já mencionada, também interferiu nas revisões que a experiência à beira da morte parece proporcionar. Os dois fatores podem se confundir, podendo ser complementares. Por isso, devemos

observar quais são os elementos que são estruturantes na formação deste habitus pós-operatório, seus elementos de continuidade e de ruptura.

Por todo o exposto acima, finalizamos com a ampla definição do método clínico-qualitativo:

A partir das atitudes existencialistas, clínica e psicanalítica, pilares do método, que propiciam respectivamente a acolhida das angústias e ansiedades do ser humano, a aproximação de quem dá a ajuda e a valorização dos aspectos emocionais psicodinâmicos mobilizados na relação com os sujeitos em estudo, este método científico de investigação, sendo uma particularização e um refinamento dos métodos qualitativos genéricos das ciências humanas, e pondo-se como recurso na área da psicologia da saúde, busca dar interpretações a sentidos e a significações trazidos por tais indivíduos sobre múltiplos fenômenos pertinentes ao campo do binômio saúde-doença, com o pesquisador utilizando um quadro eclético de referenciais teóricos para a discussão no espírito da interdisciplinaridade. (TURATO, 2003, p. 242).

Portanto, os próximos procedimentos serão confrontar a interpretação sociológica do fenômeno do transplante às impressões e visões que os transplantados têm da experiência, revelando de que maneira eles idealizam sua re- inserção na sociedade contemporânea.

Benzer Belgeler