80 PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, pp.29-34.
81 HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Crítica de la Razón Funcionalista, vol. II. Madri, Taurus, 1987, pp.120-121 e 127.
82 PERELMAN, Retóricas, 2004, pp.255-256 e263
83 Note-se que os recortes da racionalidade aqui propostos são posicionamentos distintos aos usados por ! " # . . São Paulo, Editora Revista dos Tribunais. 2001.p.180 que opta por aplicar a racionalidade em sentido lógico a analise das motivações
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O discurso gera uma correlação entre as várias facetas da racionalidade segundo HABERMAS, incluindo nelas o saber, o agir e a fala. A cada uma delas corresponde um tipo de racionalidade,84 epistêmica, teleológica e comunicativa, todas integradas na visão discursiva. Através do discurso, o ser humano compreende reflexivamente sua ação através de uma linguagem dependente do conhecimento que construiu.
Esta proposta sobre racionalidade permite constatar quando o ser humano torna-se capaz de perceber a validade de suas próprias pretensões. Assim, a própria racionalidade discursiva atrela-se a uma reflexão sobre o quê se faz, o quê se pensa e o quê se diz (o que confronta diretamente com o uso dogmático do Direito85 em contraste com as próprias crenças que cada indivíduo tem). O discurso será, então, um ato de reflexão em que a ação humana é posta à prova pelo sujeito; e a racionalidade discursiva, o procedimento que o põe à prova (o que se assemelha ao entendimento de PERELMAN).86 O que não logra encontrar alguma fundamentação (através destes passos justificativos) será discursivamente irracional. A racionalidade, ao mesmo tempo, exige uma fundamentação questionável para constatar a validade das ações que contenham alguma proposição apresentada por alguma performance.87 Apesar disso, no mundo objetivo onde as atividades orientadas a fins (e/ou sucesso) o instrumentalizam e os sujeitos não se encontram necessariamente em sincronia88 (mas numa relação próxima ao contraditório de FAZZALARI),89 é necessário uma relação comunicativa entre eles. Alguma fundamentação deverá reafirmar para o outro sujeito a validade deste discurso (reflexão) apelando à linguagem intersubjetiva o que revela a faceta comunicativa da racionalidade discursiva. Aliás, o saber verdadeiro e o saber falso só podem ser encontrados a partir do momento em que haja uma reflexão sobre eles, não só intima, mas compartilhada e correspondente ao objeto, dentro da vida, para não configurarem-se mitos90 ou dogmas.
84 HABERMAS, 2004, p.101.
85 Pois o uso dogmático do Direito apela a relações lógico-formais, inferenciais ou silogísticas como se depreende de PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, p.2, IDEM, Lógica Jurídica, 2004, pp. 129-130 e de HABERMAS, Direito e Democracia: entre a Faticidade e a Validez, vol. II, 1997, pp.210-212 ao tratar sobre da necessidade do Direito se submeter a uma contextualização e princípios.
86 PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, p.16. 87 HABERMAS, 1996, p.59.
88 Depreendido de SAUSSURE,1945, p.107,vista como relação de adequação entre os sujeitos desde uma perspectiva estática.
89 FAZZALARI, 2006, p.122 em posições dispares em detrimento do movimento de seus opositores
90 Termo a ser tratado nos capítulos seguintes, mas aqui com o sentido de poder anônimo ou total não reconstruível racionalmente.
1.1.1.1 Racionalidade Comunicativa
A racionalidade comunicativa responderá o como construir fundamentações e justificações para a reflexão discursiva válida no meio comunicativo (relação entre falantes ouvintes e não monológica). HABERMAS destaca que a racionalidade discursiva não abrange somente uma visão comunicativa, mas também uma teleológica e uma epistêmica, destacando sempre a primeira, pois esta depende de uma “referenciação a uma segunda pessoa”91o que é essencial ao Direito (ainda mais no Penal que depende, especificamente, de outro sujeito e sua ação).
Neste ambiente, a racionalidade teleológica92 pauta-se por uma meta estabelecida pelo agente, sem levar, obrigatoriamente, em consideração a participação de outros sujeitos sobre a intenção daquele. Ela destina-se a observar a consciência do agente sobre a realização e o êxito da ação, assim como sobre as motivações que levaram a esta execução e êxito. Esta visão sobre a racionalidade, no entanto, recorre à necessidade de um ambiente discursivo anterior e presente ao ator que ponha à prova a consciência da realização e os motivos para a escolha da execução quando destinada a causar algum efeito no mundo.
Assim, a racionalidade teleológica necessita recorrer a um espaço comunicativo (para ser pragmática) que lhe proponha a linguagem e a informações que servirão à análise da ação. A comunicação através dos atos de fala e a racionalidade correspondente a esta servirão como base para a reflexão da intencionalidade do que é proposto pelo agente.
Mas não só a racionalidade teleológica mantém relação com a comunicativa quando direcionada à persecução de fins ilocucionários93 e de efeitos no mundo; a racionalidade epistêmica também recorre à linguagem, pois necessita dela para estabelecer o conhecimento válido sobre as coisas. O “ ‘saber o quê’ esta implicitamente ligado ao ‘saber por quê’ ”,94 exigindo justificações que retornam à relação de linguagem quando apelam à fundamentação e/ou à crítica que estabeleça a “verdade”.
O centro principal tanto da racionalidade teleológica, quanto da epistemológica (subsumidas pelo ambiente discursivo), ronda à fundamentação e à argumentação, provocando um retorno ao “por quê”, que só logra ser estabelecido por uma relação de linguagem em que as manifestações ou as emissões dos agentes são postos à prova nas suas
91 HABERMAS, 2004, p.10.
92 HABERMAS, 2004, pp.106-107. 93 HABERMAS, 2004, pp.106-107. 94 HABERMAS, 2004, p.104.
relações de validade (verdade do enunciado e eficácia da ação).95 Dessa maneira, caso a ação seja pautada pelo uso da racionalidade comunicativa, alcançar-se-á uma resposta sobre a validade que alimenta as racionalidades anteriores, pois esta se destina a formação de consensos através da anuência96 dos integrantes de uma relação argumentativa que supera a subjetividade individual, entrando em contato com as convicções motivadas, que mantém a unidade entre o que há de objetivo e de intersubjetivo na vida.
A partir da fundamentação os comunicantes conseguem entender-se sobre algo no mundo, propondo sua pretensão de validade sobre este; a outra parte propõe sua crítica através de outra pretensão, tornando-se racional o que encontra o entendimento97 com o outro sobre algo no mundo (o que não significa consenso, mas aceitação da validade da proposição). É sobre esta base que trabalha o Processo Penal, uma vez que ele não intenta fazer uma representação pura de um fato ou coisa, mas afirma fatos que pretendem ser reconhecidos publicamente (principalmente por parte da acusação, pois a defesa ainda pode trabalhar sobre a indeterminação dos fatos).
1.1.1.2 Superação dos Mitos e Racionalidade
HABERMAS propõe a racionalidade comunicativa para superar as visões míticas da realidade que não conseguem tornarem-se inteligíveis.98 O intuito principal é tentar estabelecer a possibilidade de um modo de vida racional, compreendendo as estruturas que pertencem ao mundo da vida.99
O autor aponta inicialmente que as imagens míticas não conseguem adequar-se ao entendimento de racionalidade discursiva, apesar de darem uma aparência de unidade de tudo que há na vida através do mito. O mito apresenta uma perspectiva totalizante sobre o contorno geográfico, social, econômico, entre outros elementos, através de representações primitivas100 que se contrastam e assemelham-se numa combinação una e/ou total. Nesta proposta, a
95 IDEM, Teoria de la Acción Comunicativa: Racionalidad de la Acción y Racionalización Social, vol. I. 1987, p.26.
96 IDEM, p.27.
97 HABERMAS, 2004, pp.117-118 Entendimento formado através das finalidades ilocutórias presentes nos atos de fala.
98 HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Crítica de la Razón Funcionalista, vol. II. 1987, pp.120 Inteligibilidade como processo de racionalização
99 IDEM, pp.171 e 186-187 (apenas para ilustrar, sem aprofundar o conceito de mundo da vida r o como este aporta imagens já interpretadas que permitem a existência de uma racionalidade comunicativa)
100 HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Racionalidad de la Acción y Racionalización Social,
analogia responsabiliza-se por tecer a correspondência entre todos os fenômenos sem responder ao “intuitivamente apreensível”.101
Para isto, esta rede recorre a “poderes anônimos”102 que humanizam a natureza (seus fenômenos) igualando-a à cultura (e vice-versa), fazendo correspondê-la a uma pratica que o controla, ainda que imaginaria e magicamente. Mas isto “no permite una clara distinción
categorial entre cosas personas, entre objetos que pueden manipularse y agentes, sujetos capazes de lenguaje y acción…”,103 fazendo que tudo torne-se um todo. Ao mesmo tempo, a própria linguagem confunde-se com o mundo.
O mundo contemporâneo, porém, não aceita esta perspectiva, pois deseja ser racional e, através desta racionalidade, estabelecer a validade universal das proposições advindas de desacordos na linguagem (que as compreensões míticas não conseguem reunir). Estes desacordos necessitam que as imagens que o mundo nos apresenta não contenham uma única dimensão unitária entre o mundo como objeto, o mundo que socialmente compartilhamos e o mundo que, subjetivamente, introjetamos.
HABERMAS de acordo com Piaget104 indica que o ser humano passa por um processo de aprendizagem em que sua compreensão não detém ou integra um mito total anterior a ele, mas que se desenvolve ampliando a sua racionalidade através de suas relações com o mundo da vida, nas interações sociais com objetos e consigo mesmo. Superando uma compreensão unitária, com o diferencial destes ambientes, ao invés de recorrer a uma resposta fundada nas relações analógicas, a proposta do autor permite a distinção entre o que nos é interno e o que nos é externo, assim como a distinção entre o nosso mundo subjetivo e o dos demais.
A divisão entre mundo exterior e o interno que os mitos reúnem, também é superada quando objetivado o mundo, o que permite interações instrumentais com as imagens deste sem que sejam uma mera reprodução do mágico.105 No entanto, esta objetivação necessita de um ambiente interpessoal que se comunique com as vivências internas de cada indivíduo, representadas pelo conceito anteriormente exposto, através de uma linguagem intersubjetivamente compartilhada.
101 IDEM, p.74.
102 IDEM, p.76. 103 IDEM,p.77.
104 IDEM, p.32. O processo de aprendizagem da linguagem também esta presente em POZZEBON, 2005, p.329 como constituinte do que se considerará verdade
105 HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Racionalidad de la Acción y Racionalización Social,
Esta perspectiva que aceita a divisão da vida em outras esferas componentes e dependentes de um desenvolvimento do conhecimento humano (social, subjetivo e objetivo) não redunda numa perspectiva totalitária correspondente ao mito (seja ele do amor divino, criação, etc). Dá-se abertura, assim, a uma racionalidade discursiva que, ao contrário de responder de única maneira, permite argumentações que podem se contrapor tendo um substrato em comum que não é um “todo” e que não equivalem a ele, mas pretendem sê-lo.
Ainda nesta visão sobre a superação dos mitos, HABERMAS aponta que a construção de um mundo da vida, que compreende estas divisões da realidade em objetiva subjetiva e social. Tal mundo é um fundo que “acumula el trabajo de intepretación realizado
por las generaciones passadas;...”106 o que reforça a incompletude que ele representa e a necessidade de novas interpretações próprias a cada um para validar à realidade. O Direito, seguindo esta interpretação dependente de um mundo que necessita de comunicação e argumentação para existir, é construído não através de um mito total que o inclui dentro da própria natureza, mas através da possibilidade de ser justificado argumentativamente dentro de um seio social que observa um objeto e apela ao entendimento entre sujeitos com apreensões próprias sobre ele, necessitando, portanto, de uma linguagem que tenha elementos assegurados anteriormente (o que permite visualizar o Processo Penal como um decorrer no tempo não restrito a apenas um caso).