3. MOZAİK DİZME OTOMASYONU YAZILIM
3.2 Mozaik Dizme Otomasyonu İçin Yazılım Geliştirilmes
3.2.7 Mozaik Dizme Otomasyonu İçin Geliştirilen Unsur Tanıma Algoritması
Antes de adentrar na análise puramente sociológica, cabe, neste momento, explicar a estruturação das normas penais para se compreender a valoração que recebe o patrimônio e, também, estabelecer a delimitação do objeto de estudo deste trabalho.
A estruturação da norma penal engloba o preceito primário e o preceito secundário. O preceito primário, como bem explica Alamiro V. S. Netto contém a norma de conduta, ou seja, no caso do roubo ou do furto, a norma primária traz o imperativo destinado a exigir que todos se abstenham de subtrair coisas alheias móveis. As normas de conduta apresentam a descrição de comportamentos a serem observados, prescrevem o que se deve e o que não se
deve fazer, orientando-se, preventivamente, para a realização de comportamentos futuros.66 O
preceito secundário contém a norma de sanção a qual prescreve uma reação à desconfirmação
da norma de conduta.67
Eduardo Saad-Diniz evidencia a distinção entre o pensamento de Binding, o qual parte desta distinção didática entre normas de conduta (norma primária) e normas de sanção (norma
65 Prof. Fernando A. Fernandes. Exposição oral: aula apresentada para o Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Direito, (17/09/2014), na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/Franca.
66 SALVADOR NETTO, Alamiro Velludo. Direito penal e propriedade privada: a racionalidade do sistema penal na tutela do patrimônio. São Paulo: Atlas, 2014. p. 8.
secundária), e o pensamento de Hans Kelsen. Binding defenderia o pressuposto de que o “[...]
medo à pena é a única motivação da conduta conforme o Direito.”68 Ao contrário de Binding,
Kelsen critica que “[...] a determinação dos fins não pode ser resultado de interpretação”69,
pois deixaria esta sob os domínios de um subjetivismo decisório. Em suma, pode-se compreender, nesta perspectiva, que o esquema proposto por Binding sobre a estruturação das normas jurídico-penais recai em uma “[...] mera referência às consequências ou aos efeitos jurídicos que apenas reforçam o caráter intimidatório, ao passo que para Kelsen a natureza
normativa não se limitaria à forma gramatical das normas jurídicas.”70
Pois bem, o que mais interessa, neste ponto, é a relação entre estruturação da norma e valoração, concebendo-se a norma como a essência do Direito Penal cuja pena é apenas sua
consequência jurídica.71 Na compreensão de Alamiro V. S. Netto a tipicidade penal tem o
papel de comunicar ao cidadão acerca dos comportamentos proibidos.72 E esta comunicação
não é alheia à valoração que o objeto da norma recebe. Como bem pondera Alamiro V. S. Netto, o fenômeno jurídico apresenta a dimensão de determinação e a dimensão de valoração, sendo que a primeira prepondera sobre a segunda. Assim explica o autor:
Ao se tratar do fenômeno jurídico, inegável é que a dimensão de determinação prepondera sobre a valoração. Isso porque, do contrário, imaginar-se-ia que a norma primária, dirigida ao cidadão, seria apenas um demonstrativo da valoração positiva que o ordenamento jurídico confere ao patrimônio. O Direito, para além de valorar, impõe ao cidadão a abstenção ou a prática de comportamentos, determinando que não furte ou que não roube.73
A norma mesmo sendo imperativa pressupõe valorações. “A norma, como imperativa, é
produto de uma valoração prévia feita pelo legislador.”74 Alamiro V. S. Netto afirma que a
valoração e a determinação de uma norma estão imbrincadas, pois é a valoração que o objeto da norma recebe que colocará os limites da dimensão de determinação. A crítica das modalidades delitivas dos crimes patrimoniais não pode ser realizada de forma alheia ao conteúdo material do tipo penal e aos juízos de valor que nele se manifestam. “O conteúdo da
68 Prof. Eduardo Saad-Diniz. Painel temático: Resgatando os domínios dogmáticos da norma jurídica: das ramificações metafóricas às nervuras dogmáticas complexas Normas Penais (22/11/2013), na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/Franca.
69 Ibid. 70 Ibid.
71 Prof. Fernando A. Fernandes. Exposição oral: aula apresentada para o Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Direito, (27/05/2015), na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/Franca.
72 SALVADOR NETTO, Alamiro Velludo. Direito penal e propriedade privada: a racionalidade do sistema penal na tutela do patrimônio. São Paulo: Atlas, 2014. p. 9.
73 Ibid.. 74 Ibid., p. 10.
norma é determinante, eis que quanto mais ampla a sua proibição, mais frequente será o
acionamento da norma de sanção e maior será a criminalização secundária.”75
Assim, pode-se assegurar que uma valoração excessiva do patrimônio pelo legislador vai resultar na elaboração de normas rígidas, destinadas a impor ao cidadão a abstenção de
toda e qualquer conduta que possa colocar em risco o patrimônio alheio.76 Para os fins do
trabalho aqui apresentado, o que interessa está especificamente no que tange a estruturação da norma penal na elaboração das normas de conduta e na valoração do patrimônio que é incorporada por tais normas.
Neste sentido, por se considerar a essência do Direito Penal sendo a norma e a pena sendo apenas a consequência jurídica, não será aqui trabalhada a supervalorização que o patrimônio recebe no que se refere esta última, pois diante das análises que serão elaboradas, esta supervalorização no plano da pena é apenas uma consequência necessária da estruturação das normas penais e da valoração do patrimônio ali incorporada.
Outro aspecto importante que foi apontado por Alamiro V. S. Netto em sua obra
“Direito Penal e propriedade privada: A racionalidade do sistema penal na tutela do patrimônio,” é a localização na qual os crimes patrimoniais estão na estruturação e
organização da parte especial do Código Penal que acaba por revelar a importância dos valores penalmente relevantes: “O legislador colocou o patrimônio em uma posição de
destaque situando-o apenas atrás da proteção penal à pessoa.”77
Ainda pode-se acrescentar como mais um aspecto saliente nos estudos sobre os crimes patrimoniais a diferença entre patrimônio e propriedade privada para que não haja confusão em termos epistemológicos. Alamiro V. S. Netto aponta a seguinte passagem de Nelson Hungria, sobre os Comentários ao Código Penal, no tocante à utilização do termo patrimônio no Código Penal e não a utilização do termo propriedade privada:
Esta rubrica é, sem dúvida, mais adequada, pois os crimes de que se trata não têm por objeto jurídico apenas a propriedade, que, disciplinada pelo direito civil, significa, estritamente, o domínio pleno ou ilimitado sobre as coisas – direitos reais - , mas, também, todo e qualquer interesse de valor econômico – avaliável em dinheiro. Para designar o complexo de bens e interesses de valor econômico, em relação de pertinência com uma pessoa, o termo próprio é patrimônio.78
Considera-se, portanto, que a propriedade é uma porção integrante do patrimônio. E este é a universalidade dos direitos reais e obrigacionais de uma pessoa avaliáveis em pecúnia.
75 SALVADOR NETTO, Alamiro Velludo. Direito penal e propriedade privada: a racionalidade do sistema penal na tutela do patrimônio. São Paulo: Atlas, 2014. p. 11.
76 Ibid. 77 Ibid.
78 HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal, 2ªEd. RJ: forense, 1958, v.II, p. 7 apud SALVADOR NETTO, op. cit., p. 22.
Para a dogmática penal, a expressão patrimônio compreende qualquer relação entre os
indivíduos, fática ou jurídica, que represente valores auferíveis em dinheiro.79
Ao analisar-se o Código Penal Brasileiro verifica-se que os crimes essencialmente patrimoniais estão dispostos do Artigo 155 ao Artigo 180, incluindo todos os crimes denominados de pluriofensivos, como o roubo, o estelionato, a extorsão, extorsão mediante sequestro, que além de atingirem o patrimônio, afetam a liberdade, a integridade física, a autodeterminação individual, e no caso do latrocínio, a própria vida humana. Alamiro V. S. Netto afirma que estes crimes são essencialmente patrimoniais, devido à finalidade do agente ser de modalidade patrimonial, e que a política criminal adotada pelo legislador considera sempre prevalente a ofensa ao patrimônio.
Algumas distinções são demonstradas por Alamiro V. S. Netto: No Artigo 168-A incluem-se alguns casos que mais se assemelham aos crimes tributários e previdenciários do que essencialmente patrimoniais. O mesmo ocorre nos artigos 177 e 175, os quais tratam de fraudes ocorridas no âmbito do comércio. Nestes casos podem se verificar componentes de ordem supraindividual, os quais atingem a própria economia popular, o Código de Defesa do Consumidor, e a configuração de crimes societários. Para explicar as diferenciações entre os crimes patrimoniais tradicionais e o conceito de criminalidade econômica, Alamiro se baseia em Tiedemann: “[...] pertence à criminalidade econômica as hipóteses de abuso dos instrumentos e instituições econômicas, ainda que os interesses afetados sejam de natureza particular.”80
Estas ponderações são relevantes para se definir o objeto deste estudo o qual se define com vista aos crimes patrimoniais tradicionais os quais apresentam uma proteção ou reforço à
normas tipicamente de direito privado81. Pode-se, portanto, delimitar o objeto de estudo deste
trabalho na criminalidade patrimonial clássica e massiva, a qual contém as relações de propriedade privada como um instituto jurídico fundamental:
Criminalidade patrimonial clássica, na qual, inegavelmente, a propriedade privada apresenta-se não como único, mas como instituto jurídico fundamental. Trata-se aqui de afetações ou riscos patrimoniais diretas, com vítimas individualizáveis já no momento da realização do ilícito, no cerne de relações privadas. Isso significa, sem desprezar as demais modalidades, que são essas espécies que consubstanciam o núcleo central da criminalidade patrimonial de massas contemporânea.82
79 SALVADOR NETTO, Alamiro Velludo. Direito penal e propriedade privada: a racionalidade do sistema penal na tutela do patrimônio. São Paulo: Atlas, 2014. p. 16.
80 Ibid., p. 19.
81 Ibid., p. 23. Nas palavras de Alamiro, destaca-se: “[...] a percepção de um dano patrimonial em referencia à vítima individualizada, detentora de direitos privados que são protegidos e reforçados pela tutela penal.”
Neste ponto, deve-se, antes de se construir a análise no âmbito puramente dogmático- penal, compreender o porquê da valorização intensa do patrimônio realizada pelo legislador e absorvida pela norma penal, assim como entender como se formam as relações de propriedade privada e quais seus reflexos na configuração atual do Direito Penal. Iniciar-se-á uma análise sobre a estrutura econômica e social que embasará a valoração do patrimônio na norma penal. Esta análise será realizada por meio do método do materialismo histórico, orientada ao fim de
se compreender o porquê do recorte escolhido ao objeto83 de estudo, qual seja: a
criminalidade patrimonial clássica na qual as relações de propriedade privada apresentam-se como o objeto das normas penais dos crimes patrimoniais. Para se compreender a valoração deste objeto das normas penais, faz-se necessário compreender a própria estrutura da sociedade e seu funcionamento. Dessa forma, o próximo tópico tratará de um estudo sobre a própria sociedade capitalista fundada nas relações de propriedade privada.
1.5 Elementos básicos para a compreensão da estrutura social: Trabalho, Capital e