Ao buscarmos compreender as falas da professora Ana, vemos que ela carrega uma grande experiência de magistério por uma longa vivência nesse trabalho. Esse percurso é relatado por ela, indicando três etapas de sua carreira: a primeira etapa retrata-a jovem, tomando a docência como um desafio interessante e prazeroso que, apesar das dificuldades de distancia, locomoção e acúmulo de atribuições, dava a ela satisfação e muito prazer no que estava realizando. No segundo momento de sua carreira, Ana revela situações difíceis, desafiadoras, que são enfrentadas por ela com muita coragem e otimismo. Já no terceiro momento, mais precisamente nos últimos anos, vive a carreira com muita dificuldade, sendo a indisciplina apontada por ela como causadora dessas dificuldades.
Ana menciona situações em que se sente desautorizada, desrespeitada e desvalorizada por seus alunos. Nessa direção, os estudos de Estrela (2002) mostram que a indisciplina pode produzir efeitos negativos não só no aproveitamento dos alunos, mas também efeitos que geram no professor uma queda da auto-estima, sentimentos de frustração, desânimo e até vontade de abandonar a profissão, aspectos bem destacados na entrevista de Ana.
Ana também parece revelar um certo saudosismo em relação às suas experiências passadas, não conseguindo percebê-las presentes no momento atual. Recorrendo à categoria historicidade, que destaca a realidade como um processo dinâmico, inacabado, em constante mudança, mas resultado acumulado das experiências do sujeito, podemos explicar as falas de Ana em relação à sua trajetória profissional e às transformações por ela vividas como de grande valia na compreensão dos sentidos constituídos em relação à (in)disciplina.
Em relação ao conceito de disciplina e indisciplina, estes não divergem do que mostram a literatura e os estudos de diversos autores. Disciplina é tomada como respeito e bom relacionamento, diálogo e clima receptivo, aspectos que garantiriam o aprendizado e a socialização do aluno. Já a indisciplina apresenta-se em oposição, estando relacionada ao desrespeito e aliada ao desinteresse do aluno.
Entretanto, a professora expressa que nos dias de hoje não há disciplina por causa dos alunos e isso inviabiliza o processo ensino-aprendizagem. Ao falar de suas turmas, hoje, Ana menciona tratar-se de alunos que não têm interesse, não ouvem, não são educados. São filhos
de pais desconhecidos ou problemáticos, que não dão educação aos filhos; são alunos que não se assumem como pobres, são orgulhosos, drogados e até traficantes, que não têm limites. No âmbito da aprendizagem, Ana menciona que o nível dos alunos é muito baixo: em sua maioria, são analfabetos funcionais. Não produzem textos próprios, não participam das atividades e nem têm ideias. Poucos são os alunos organizados, bem vestidos, arrumados e interessados. Por eles serem assim, Ana justifica a falta de diálogo e a impossibilidade de dar aula num espaço de troca e de boa comunicação.
Contudo, ao considerarmos o espaço escolar, o que se espera, é que, se hoje o aluno apresenta-se assim, com tantas deficiências, a educação deveria acolhê-lo e levá-lo a uma situação diferente da atual. Nessa direção, a pesquisa realizada por Casassus (2007, p.115) revelou que “a qualidade da aprendizagem dos alunos é em grande parte influenciada pela qualidade dos processos que ocorrem na sala de aula, e a qualidade dos processos de aula passa pela compreensão que os docentes têm do que lá ocorre”, o que nos faz pressupor que os alunos cujo professor assume a responsabilidade por seu desenvolvimento pedagógico, apresentam melhores resultados. A pesquisa também revelou a tendência de os docentes de meios pobres colocarem a responsabilidade do baixo rendimento de seus alunos nos contextos desfavorecidos em que vivem e na “funcionalidade” de suas famílias (CASASSUS, op cit., p.148).
Em relação a essa mesma questão, Freire (1996) vem contrapor-se a essas posturas e aponta saberes fundamentais, necessários à prática docente. Entre eles estão rigor metodológico, ética, competência profissional, respeito pelos saberes do educando, rejeição a qualquer tipo de discriminação ou segregação. Charlot (2000) também propõe uma escola que valorize o aluno, suas origens e sua auto-estima, visando à melhoraria na relação do jovem com o saber.
Assim, torna-se é importante que o professor enxergue o aluno em sua totalidade e concretude, buscando entender como ele aprende. Ao considerarmos os aspectos apontados por Freire e Charlot, notamos que a professora Ana parece não assumir a responsabilidade pela aprendizagem de seus alunos e utiliza-se das condições de vida deles e de suas fragilidades para justificar o trabalho que não consegue desempenhar.
Observamos também que na fala de Ana há contradições. Ao mesmo tempo em que descreve seus alunos em condições de desigualdade, apresenta um contraponto, dizendo que aos alunos nada é perguntado sobre o que querem fazer. Como saída para os problemas, a professora aponta soluções que ela mesma não consegue realizar. Entre elas estão: estabelecer limites para os docentes e discentes, elaborar regras em conjunto com a comunidade, envolver as famílias, promover eventos que agradam a comunidade, enfim, fazer um movimento contrário ao que ocorre na escola, ou seja, fazer com que as ações partam do interesse dos alunos.
Assim, podemos perceber pela entrevista que a professora Ana sinaliza um discurso que não corresponde à sua prática e ao tipo de aula que se propõe realizar, pautada em um ambiente agradável e afetivo, tendo o aluno como parte integrante na construção do conhecimento e no processo ensino-aprendizagem. Sua prática revela-nos uma relação contrária a essa, pautada no autoritarismo, no desrespeito e nos conflitos que se arrastam sem solução.
A relação estabelecida com o aluno é de total desrespeito, baseada em xingamentos, agressões verbais, desrespeito por ambas as partes. A própria condição da professora ao apresentar-se, em situação de desgaste, sem recursos para contornar a situação, inviabiliza qualquer possibilidade de mudança que favoreça o processo ensino-aprendizagem, muito embora ela reconheça, em seu discurso, a importância de uma relação pautada no diálogo e no respeito.
Percebe-se também, no relato da professora Ana, que suas experiências tornam-se dramáticas. As relações se deterioraram, as vivências são marcadas pelo desrespeito; o ensino transfigura-se em situações tensas e conflituosas. A educação parece esvair-se nos relatos. Ela, que marcava as primeiras experiências da professora, dilui-se e os sentidos tornam-se carregados de termos que desvalorizam o aluno.
A professora tenta salvar, disso tudo, o seu trabalho, mas não consegue e, recorrendo a um recurso protetor de sua face, coloca um fone de ouvido, que parece fazer o papel de escudo que a protegerá contra as questões que o novo paradigma educacional impõe ao profissional. É uma forma de distanciar-se da realidade social e manter-se resguardada por sua história de docência.
O diálogo como valor pedagógico desaparece. Os xingamentos e ofensas ocupam esse lugar, como únicos recursos pedagógicos. Nessa direção, os estudos de Souza (2003), apontam para uma escola que não se adequou às novas demandas do mundo contemporâneo; as perspectivas para a construção do conhecimento ainda parecem apoiar-se numa visão tradicional, incompatível com o mundo atual. Patto (2010) também ressalta que a falta de formação continuada traz implicações para o fato de o professor não conseguir fazer com que seus alunos aprendam e se comportem como o esperado. Desse modo, a formação continuada passa a ser um elemento de grande valor no processo de transformação, uma vez que possibilita ao professor refletir e assumir uma postura mais crítica sobre a realidade.