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10. BAKIM

10.1. MOTOR YAĞI

A identidade profissional de professores e a profissionalização docente têm se tornado objetos de destaque, nos últimos anos, nas pesquisas na área da Educação, como escrevem André et al. (2006) e Gatti et al. (2006). Entretanto, esses são temas silenciados ao se tratar do ensino superior em Saúde.

Definindo como objeto de estudo justamente a docência no ensino superior em Saúde, mais especificamente as configurações identitárias profissionais de docentes da área, buscou-se uma metodologia de pesquisa que permitisse responder aos questionamentos que orientam esta investigação: qual a concepção que um grupo de professores do ensino superior na área da Saúde tem de sua docência? Como se configuram a identidade profissional e a profissionalidade desses professores?

Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa, cuja base epistemológica credita ao sujeito o papel de elaborador de conhecimento e ao mundo a função de oferecer-lhe a história, embora lhe possibilite o ‘devir’, como conceitua Hegel. A história é aqui compreendida como processo social e individual que abarca os diferentes contextos que envolvem e agem na constituição subjetiva do ser humano.

Como se pretendem investigar processos identitários de docentes do ensino superior, buscou-se associar uma vertente da Sociologia do Trabalho com conhecimentos da Psicologia da Educação. Para tanto, fez-se necessário buscar uma ferramenta que permitisse entrecruzar essas duas áreas do conhecimento; a ferramenta encontrada foi a análise de conteúdo proposta por Franco (2005). Segundo a autora, o ponto de partida dessa proposta é a mensagem, que pode ter diferentes formas, mas necessariamente expressa um significado e um sentido. O significado de algo pode ser compreendido e generalizado a partir de suas características definidoras; já o sentido é justamente...

[...] a atribuição de um significado pessoal e objetivado, que se concretiza na prática social por meio de representações sociais,

cognitivas, valorativas e emocionais, necessariamente contextualizadas. (FRANCO, 2005, p. 15).

Na análise de conteúdo proposta por Franco (2005), o pesquisador não pode apenas descrever o conteúdo das mensagens; ele precisa ter um arcabouço teórico sólido para ser capaz de articular significados e sentidos. O objetivo final da análise de conteúdo é, assim, articular as mensagens com os referentes teóricos. Para tanto o pesquisador faz inferências – passagens da descrição para a interpretação. Não se utilizam aqui programas informatizados para análise semântica dos conteúdos, interessa destacar os sentidos das mensagens e torná- los significados dentro da teoria utilizada. Nesse sentido, as etapas seguidas foram a pré-análise, o levantamento de temas e a elaboração de categorias de análise – representadas, neste trabalho, pelos modelos profissionais docentes.

4.1 Critérios de Seleção dos Participantes

Para investigar o ser professor na área da Saúde, selecionaram-se alguns cursos dessa área — Medicina, Fisioterapia, Enfermagem, Terapia Ocupacional e Nutrição. Em virtude do objetivo da pesquisa, definiram-se os seguintes critérios para a seleção dos participantes:

1. Disponibilidade para participar da pesquisa;

2. Atuação docente nos cursos de Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição e Terapia Ocupacional;

3. Tempo mínimo de três anos de atuação como professor.

O terceiro critério (tempo mínimo de três anos de atuação docente) resulta de uma opção por ouvir professores considerados ‘experientes’. No estudo do desenvolvimento profissional, encontra-se no trabalho de Imbernón (2004) a diferenciação entre professores iniciantes, experientes e catedráticos. Para o autor os professores precisam ter experiência superior a três anos de atuação docente

para superar a fase de socialização profissional, em que se dão as negociações identitárias iniciais da profissão, e ser considerados experientes.

Decidiu-se fazer convites pessoais aos professores por pensar-se que, dessa forma, eles teriam liberdade para optar por participar ou não da pesquisa, sem pressões burocrático-administrativas. Houve dificuldades para encontrar professores dispostos, de livre e espontânea vontade, a conversar a respeito da docência e de sua profissionalização.

Com apoio teórico nos escritos de Dubar, compreendeu-se que o controle da variável instituição era fundamental para análise das transações biográficas e relacionais. Definiu-se, então, que esta pesquisa seria realizada com professores de uma mesma instituição de ensino superior em Saúde.

Inicialmente, contataram-se via e-mail professores de uma universidade pública de São Paulo, mas não se obteve retorno. Tentou-se uma segunda instituição também em São Paulo, mas tampouco houve retorno.

Diante desse limitador optou-se por convidar alguns professores por intermédio de uma assistente social que trabalha em um hospital-escola particular do interior de São Paulo. Como esse caminho foi bem sucedido, foram marcadas entrevistas com oito professoras — duas médicas, duas fisioterapeutas, uma enfermeira, duas terapeutas ocupacionais, uma nutricionista. No decorrer das entrevistas as professoras sentiram-se livres para falar: algumas definiram a situação como desabafo, outras consideraram-na uma oportunidade de contar histórias; para todas foi uma conversa entre colegas.

No final das primeiras entrevistas as professoras se propuseram a convidar outros colegas para participar da pesquisa (em alguns casos deram o contato dos colegas para que a pesquisadora agendasse as demais entrevistas). Partiu-se de um total de oito entrevistas e concluiu-se a coleta de dados com dezesseis entrevistas.

4.2 Coleta de Dados

O tipo de entrevista utilizado na coleta de dados foi a semi-estruturada. A sessão era iniciada com uma apresentação sucinta da pesquisadora — formação e experiência profissional — e da pesquisa — destaque à importância do diálogo entre as áreas da Saúde e Educação12. Em seguida era proposta a seguinte questão:

- O que é ser professor para você?

Caso o entrevistado não falasse a respeito dos temas previstos eram formuladas questões como:

- Há quantos anos você é professor? - Em quais instituições você já lecionou?

- Como você aprendeu a ser professor? Você recebeu alguma formação específica?

- Que motivos o levaram a ser professor? Você se sente motivado a continuar sendo professor?

- Como seus colegas vêem sua opção pela docência? E sua família? - Como você desenvolve seu trabalho em sala de aula? Como é uma aula

típica?

- Que condições a instituição lhe oferece para o exercício da docência: o A instituição oferece apoio pedagógico? Há reuniões

pedagógicas? Do que elas tratam? o Quantos alunos há em sala de aula?

o Qual é seu tipo de contrato de trabalho? Qual sua dedicação à instituição?

o Quais os incentivos que a instituição oferece para o desenvolvimento da pesquisa?

o Qual a relação entre a qualificação profissional e as condições de trabalho?

Ao transcrever e analisar as entrevistas foram encontrados vários pontos obscuros e percebeu-se que alguns elementos importantes não haviam sido discutidos. Portanto, foi necessário realizar uma segunda entrevista com todos os participantes. Uma vez que se tinha a experiência anterior como base, decidiu-se levar um pequeno roteiro composto por cinco questões:

1. Como é o seu relacionamento com os colegas professores? Conte algumas situações de seu dia-a-dia.

2. Como é a postura da coordenação em relação ao seu trabalho? 3. Como você é reconhecido na escola pelos seus parceiros e pelos

alunos?

4. Como é o seu relacionamento com os alunos? 5. Quais são os seus projetos futuros?

12Cada participante recebeu uma carta informativa (anexo C) e assinou o termo de consentimento

Benzer Belgeler