Riscos e imprevistos ocorrem em todas as atividades econômicas incluindo nestas as atividades relativas ao agronegócio que também estão sujeitas a uma variedade de incertezas, entre elas, podemos destacar que o tempo, a variação do preço das commodities no mercado e outras variações; a atividade possui alguns riscos específicos como os climáticos, surgimento de pragas e pestes, desastres naturais que não são eventos que podem ser controlados pelos produtores rurais e sua variação incidem diretamente no rendimento; neste contexto as cooperativas precisam trabalhar de forma a gerenciar o risco maximizando a relação risco e retorno.
Segundo Bignotto et al (2004):
(...) a gestão do risco no ambiente produtivo torna-se mais complexa do que naquele puramente financeiro, pois há riscos possíveis de serem hedgeados (taxas de juro, câmbio, algumas commodities etc.) e aqueles que não podem ser hedgeados, como os inerentes ao negócio e os referentes a produtos sem os correspondentes mercados derivativos, além do fato de o horizonte temporal de gestão desses riscos ser maior do que aquele contemplado por um modelo do tipo VAR. (Bignotto et al, 2004).
Comparados a outras organizações podemos observar que alguns riscos são únicos para a atividade agrícola, como o risco relacionado ao clima que pode reduzir significativamente a renda em um determinado período; outros riscos, tais como o preço ou os riscos institucionais são comuns a todos os tipos de empresas.
A OCDE (2000) classifica os riscos que afetam a agricultura em quatro categorias, sendo estas o risco de produção (condições climáticas, pragas, doenças e mudança tecnológicas), os riscos ecológicos (produção, mudanças climáticas, gestão de recursos naturais como água), o risco de mercado (variabilidade de preços tanto dos insumos quanto das commodities e o relacionamento destas com a cadeia de consumidores em relação à qualidade, segurança e entrada de novos produtos) e, finalmente, o risco regulatório e institucional (políticas agrícolas, de segurança alimentar e regulamentos ambientais).
Newbery e Stiglitz (1981 apud OCDE, 2009, p. 15) classificam o risco em sistemático, relacionados a eventos que se repetem ao longo do tempo com um padrão de probabilidades que podem ser analisados, e em sistemáticos os que apresentam dificuldades em estimar um padrão objetivo de probabilidades ou distribuição de resultados; nesta classificação a dificuldade está na linha de separação entre um e outro.
55 Os riscos que são relevantes na agricultura possuem diferentes características e podem ser classificados de diferentes formas, conforme destacou OCDE (2009); independentemente de como são classificados os riscos, os agricultores devem utilizar-se de instrumentos de gestão de risco de forma a garantir a sustentabilidade da atividade, ou seja, mitigando os riscos inevitáveis e minimizando ou limitando os riscos evitáveis através de diversificação na produção de forma que a queda de preço em um dos produtos seja compensado pelo aumento em outro, escolha de melhores sementes (melhoramento genético de sementes) de forma a aumentar a produção, utilização de tecnologias como a agricultura de precisão, utilizando-se de hedge, contrato a termo, operações no mercado futuro, seguros entre outros instrumentos de forma a reduzir a variabilidade nos fluxos de caixa da propriedade rural. Os riscos institucionais e de produção, como o clima, que são riscos inevitáveis devem ser mitigados.
As classes de riscos nas atividades agropecuárias foram estudados por Patrick et al (1985), Shapiro e Brorsen (1988), Asplund et al (1989), Schnitkey et al (1992), Musser et al (1996), McLeay e Zwart (1998), Kimura (1998), Mishra e Perry (1999), Hardwood et al (1999), Gomes (2000); USDA (2000 e 2007), Katchova e Miranda (2004), Pinochet-Chateau et al (2005), USDA (2006), Gimenes e Gimenes (2006), Ueckermann et al (2008), Gimenes et al (2008), Costa (2008), Moreira (2009); OCDE (2009), Moreira et al (2012), sendo classificadas em:
Risco de mercado ou de preço – os preços são determinados principalmente pelos
mercados globais e mudanças inesperadas na demanda global ou no fornecimento de um produto pode levar às mudanças inesperadas na demanda global; os preços podem ser afetados por mudanças de legislação, taxas de câmbio, acordos internacionais sobre commodities, política monetária e fiscal, comportamento do consumidor entre outros fatores fundamentalistas conforme destacado no quadro 1; conforme BM&F (1998, p. 76) um dos principais fatores de influência sobre o preço de uma commodity é o nível geral de preços de todas as commodities, pois, na maioria das vezes, seus preços tendem a mover-se em conjunto; o risco de mercado reflete os riscos associados com as mudanças inesperadas nos preços recebidos pelas commodities ou pagos pelos insumos necessários para produção como fertilizantes, sementes, combustíveis e eletricidade; na agricultura o período produtivo geralmente é longo; o preço da commoditie fica atrelado diretamente à situação econômica nacional e internacional; assim como a oferta e demanda da referida commodities e é importante
56 lembrar, conforme destacado por BM&F (1998, p. 76), que aumentos de preços, em geral, propagam-se de uma commodity para outra e que fatores macroeconômicos tendem a manter os preços relativos entre commodities em sintonia e as relações entre preços relativos mudam quando movimentos tecnológicos ou regulatórios alteram a relação básica entre as commodities; como os mercados de commodities são complexos, o retorno pode ser afetado por acontecimentos em qualquer parte do mundo.
Quadro 1 – Tipos de fatores fundamentalistas que afetam os preços
Macro Micro . Balança comercial . Taxas de câmbio . Política fiscal . Condições da economia . Inflação . Taxas de juro
. Mudanças no poder de mercado dos produtores
. Mudanças nos gostos . Custo de insumos
. Perspectivas das vendas externas . Mudanças de comercialização . Influências sazonais . Commodities substitutivas . Mudanças tecnológicas . Ameaças à produção . Condições climáticas Fonte: BM&F (1998, p. 76)
O risco de mercado ou de preço pode ser administrado através da diversificação da produção, buscando outros mercados, utilizando informações no mercado para planejamento da produção, utilização de hedge nos mercados futuros e de opções; o grande problema está na falta de acesso a estes instrumentos pela maioria dos produtores rurais, o que justificaria a formação de cooperativas para que esta em função do volume e da escala consegue mitigar estes riscos.
Risco de produção (rendimento) – este tipo de risco varia regionalmente e depende
do tipo de solo, do clima, do uso da irrigação, pragas, desastres naturais que afetam diretamente o volume de produção; este tipo de risco, diferente do que ocorre em outras atividades econômicas, é elevadíssimo na atividade agropecuária, pois, no caso relacionado ao clima podem ocorrer secas ou chuvas em excesso, granizos, ventanias entre outros eventos climáticos que não podem ser controlados; a redução de risco
57 pode ser alcançada com seguros ou através da tecnologia na produção (novas variedades de sementes, plantas mais resistentes e novas técnicas de plantio).
Risco Financeiro (exposição a taxas de juros) - este risco difere dos demais riscos
por resultar da forma com que o capital social da organização é obtido e financiado; mudanças no custo da dívida e do valor do capital devido às alterações nas taxas de juros, afetando diretamente os fluxos de caixas dos produtores e das cooperativas; além das alterações desfavoráveis nas taxas de juros a baixa liquidez e as oscilações cambiais são as principais fontes deste tipo de risco. O agricultor pode, assim como a cooperativa, estar sujeito à flutuação nas taxas de juros sobre os empréstimos ou enfrentar dificuldades de fluxo de caixa.
Risco operacional e risco de liquidez – as cooperativas ao financiarem seus
cooperados provoca um aumento do risco operacional, pois dependendo da safra estes não conseguem honrar seus compromissos tornando-se inadimplentes; a inadimplência aumenta o risco de liquidez da sociedade cooperativa afetando diretamente a taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras.
Risco Institucional – este tipo de risco resulta de mudanças nas políticas e
regulamentos que afetam o agronegócio; governos podem alterar as leis e regulamentos (leis ambientais, sanitárias e fiscais), barreiras comerciais ou tarifárias para exportação, subsídios agrícolas em outros países, falta de política governamental de preços mínimos, mudanças em programas agrícolas gerando este tipo de risco. Como exemplo deste tipo de risco podemos citar que mudanças nas regras do governo sobre utilização de pesticidas (para as culturas) ou drogas (para animais) podem afetar diretamente os custos de produção ou causar restrições impostas por países importadores da produção; podemos destacar também as políticas com restrições nas práticas de utilização e conservação do solo, restrições ao uso de determinadas sementes, mudanças nos impostos e na política de crédito.
Risco humano – este tipo de risco é comum aos funcionários e gestores de
organizações; eventos como morte, depressão, divórcio, acidentes, erros humanos, lesões, ou problemas de saúde dos gestores podem causar danos à organização; alterações no quadro de gestores poderá afetar o desempenho em longo prazo.
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Risco de ativos - comum a todas as empresas este tipo de risco envolve roubo,
incêndio ou outras perdas ou danos a máquinas, equipamentos, edifícios, instalações e comportamento oportunista dos parceiros comerciais.
Risco Cambial – comum às cooperativas agropecuárias e as demais empresas do
agronegócio, pois os preços das commodities e dos insumos estão diretamente atrelados à cotação no mercado internacional, acarretando o risco cambial que pode ser definido como a possibilidade de movimentos desfavoráveis das taxas de câmbio entre a data da cotação e da liquidação de uma determinada negociação causando perdas devido às oscilações; consequentemente reduzindo os fluxos de caixa da organização.
Além dos riscos anteriormente abordados há também o Risco Moral (Moral Hazart) que aborda o risco existente da relação entre o cooperado e a cooperativa onde os interesses não estão alinhados e as ações são de difícil observação e monitoramento, possibilitando o oportunismo da parte que possui mais informações adotando decisões em prol de seus objetivos e interesses; o risco moral está vinculado à existência de free-rider e a custos de influência conforme salientado por Cook (1995), Zylberstajyn (2002) e Bialoskorski Neto (2004).
Moral hazard pode ser definido como sendo as ações dos agentes econômicos que
buscam maximizar suas próprias utilidades em detrimento dos outros, em situações em que elas pagam por todas as consequências, ou, de forma equivalente, não desfrutam de todos os benefícios de suas ações devido à incerteza ou a contratos incompletos ou restritos que antecipem as responsabilidades pelos danos causados ou benefícios do agente responsável (KOTOWITZ, 1987 apud COSTA, 2009, p. 43).
Segundo Eisenhardt (1989), o risco moral está relacionado a comportamentos oportunistas por parte do agente no desempenho de suas atribuições, já que ele pode simplesmente não se esforçar para cumprir o acordado com o principal, pois ele sabe que o principal não pode detectar precisamente o seu comportamento (assimetria de informações entre agente e principal).
Problemas de risco moral se aplicam em várias situações econômicas devido ao fato de que em muitos relacionamentos uma das partes possui mais informações que a outra e os interesses são divergentes; corroborando neste sentido, Pindyck e Rubinfeld (2006, p. 539) exemplificam no caso de uma pessoa ou empresa que se encontra plenamente seguradas e não
59 pode ser meticulosamente monitorada por uma companhia de seguros, já que esta só dispõe de informações limitadas, a parte segurada pode agir de um modo que aumente a probabilidade de um acidente ou dano ocorrer.
Holmstron e Milgrom (1987 apud COSTA, 2009, p. 44) consideram o risco moral um problema de informação, falta de alinhamento de interesses, diferentes níveis de conhecimento para delegação e dificuldades de observar os níveis de esforço dos agentes econômicos; para minimizar o problema de risco moral entre o principal e o agente torna-se necessário monitorar suas atividades e estabelecer incentivos contratuais que busquem o alinhamento dos interesses.
O grande problema está em conseguir documentar a existência do problema de risco moral em qualquer relacionamento, conforme salientado por Costa (2009, p. 42), uma vez que o agente possui mais informações do que o investigador; torna-se difícil poder afirmar se o esforço dele foi ineficiente ou não, tendo assim, poucos estudos que apresentem evidências consistentes do comportamento de risco moral.