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Modernite ve Hristiyanlığın dönüşümü

III. Medeniyet Dönüşümü ve Hristiyanlık

3. Modernite ve Hristiyanlığın dönüşümü

todos são induzidos a agir de modo justo por amor à utilidade, e não neguemos que muitos evitaram atos ilícitos por amor à honestidade. As boas pessoas, que não são oprimidas por medo da punição, não deveriam ser classificadas junto às maldosas, que são oprimidas por tal medo, ou, do contrário, tudo se tornaria misturado e confuso. Vós, realmente, apresentai-nos um argumento vazio, pois exigis apenas um de dois pontos que estão atados e não se distinguem. Como pode ser que pelo bem da honestidade um fuja de atos ilícitos e, pelo bem da mesma honestidade, não busque coisas lícitas? Vós não temeis ser considerados malvados?! “Um medo servil mantém longe da torpitude essas pessoas, como diz Demóstenes273, “por medo da tortura, do tormento e da morte”. Vós, ao contrário, sois

172 oprimidos, digamos, por um generoso medo: aquele de perder a benevolência, a glória e a autoridade.

XXVI. (1) Mas vós não quereis aceitar essa explicação, à qual vós vos opondes,

lutais e chutais com um pontapé. Já que não podeis reproduzir qualquer exemplo advindo da história, refugiai-vos em lendas e criais para vós mesmos testemunhos totalmente livres de qualquer impunidade. E, entre vossos primeiros exemplos, encontra-se o famoso Giges de Platão. Eu poderia com razão escarnecer de tais coisas, tendo feito já o suficiente em nome de minha causa ao rebater todas as evidências que poderiam ser danosas. Aquelas testemunhas obscuras, mais mascaradas do que homens verdadeiros, devem incitar o nosso riso e nada mais. Porém, estou pronto para qualquer duelo ao qual meus adversários me conclamem. Assim, para replicar a fábula de Giges, é necessário primeiro expor o fato exatamente como ele aparece nas orações para, daí então, discutí-lo.

(2) Usarei não as palavras de Platão, mas as de Cícero274. Este pega de Platão aquela famosa figura de Giges: “(...) após a terra se abrir em consequência de violentas chuvas, desceu pela cratera e, como diz a lenda, avistou ali um cavalo de bronze com aberturas nos flancos. Entrou e deu com o cadáver de um homem avantajado, que trazia no dedo um anel de ouro. Arrancou-o, colocou-o no seu próprio – era pastor do rei – e dirigiu-se à assembléia dos pastores. Lá, toda vez que girava a pedra do anel para a palma da mão, todos deixavam de vê-lo, mas ele continuava vendo a todos. Voltava a ser visível quando repunha o anel no lugar. Valendo-se dessa propriedade do objeto, desonrou a rainha e, com a ajuda dela, assassinou o rei seu senhor, suprimindo também os que julgava seus opositores, sem que ninguém o visse no momento em que perpetrava tais crimes. Ninguém pôde vê-lo enquanto cometia tais crimes. Assim, inesperadamente, viu-se sagrado rei da Lídia, graças ao anel”.

(3) O efeito desse anel e a intenção dessa fábula é a de nos pôr a seguinte questão:

se acaso tu pudesses fazer qualquer coisa com o fim de acumular riquezas, poder, dominação e luxúrias, sem que ninguém jamais o soubesse nem sequer suspeitasse, se tudo permanecesse aos deuses e aos homens ignorado para sempre, tu ainda assim o farias?275 Assim diz Cícero. No entanto, antes que eu dê a minha opinião, gostaria de mostrar que o

274 Platão, República, II, 359-60; Cícero, De officiis, III, IX, 38 (Cf. Dos deveres, trad. Angélica Chiappeta, Martins Fontes, São Paulo, 1999).

173 autor dessa fábula não soube bem como concebê-la. Ela não se sustenta e lhe falta coerência. E digo isto, não porque queira travar uma disputa sobre o princípio da narrativa276, mas porque, se seguirmos as palavras de Platão, toda a fábula se desfaz. (4) Quem pode garantir que Giges tenha de fato escondido dos deuses e dos homens seus feitos? Poderia esse anel produzir tal efeito, ou Giges teria esperado que poderia escapar dos olhos dos deuses, sobre os quais, como muitos pensam (tolos eles são, e, contudo, numerosos), se eles são benevolentes conosco, também podem encolerizar-se? Assim o Ilioneu de Virgílio diz:

(...) mas espereis que os deuses se recordem dos seus feitos bons e maus277.

Tu mesmo, Catone, demonstravas pensar assim quando atribuías à Natureza as guerras, os naufrágios e as moléstias, de modo que me parecias ter saído não de uma escola de filósofos, mas do templo de Numa Pompílio. (5) Como puderam as ações de Giges serem mantidas ocultas aos deuses se nem sequer aos homens elas puderam ser ocultas? Platão pensou o mesmo. Os homens que haviam visto Giges primeiramente como pastor, e depois como substituto do rei assassinado, não eram tão estúpidos a ponto de não perceberem que ele jamais poderia ter elevado-se a tão alto posto senão através de um crime, especialmente porque o assassinato do rei e dos demais não podia ser atribuído a ninguém mais que o novo rei. Certamente o impressionante e miraculoso anel não era segredo algum, uma vez que os pastores com os quais Giges se reunira sabiam da sua existência. (6) Pois, de que modo ele poderia ter compreendido o poder do anel se os seus colegas não lhe tivessem indicado o milagre quando eles o perceberam? A menos que me digas que ele não mostrou o anel aos pastores. Mas, oras: ele portava em seu dedo um anel de ouro que nunca havia usado antes, de insólita grandeza, o qual girava repetidas vezes com a outra mão; relatava aos presentes sobre a coisa mais maravilhosa que jamais havia visto em vida e, sobre o anel, o qual acredito que todos haviam notado, manteve silêncio

276 Ver fingere in L&SLD: to form mentally or in speech, to represent in thought, to imagine, conceive, think, suppose; to sketch out: Cic. Mil. 29, 79: “fingite animis ... fingite cogitatione imaginem hujus condicionis

meae”; id. N. D. 3, 18, 47: “omnia quae cogitatione nobismet ipsi possumus fingere”. 277 Virgílio, Eneida, I, 543.

174 absoluto?! Que mantenha silêncio então, o anel fala por si próprio! Consintamos que somente ele tenha compreendido a fonte do milagre. Ainda assim, foi suficiente para que outros tenham percebido que Giges, por alguma razão obscura, podia permanecer no meio da multidão sem ser notado por ninguém. O rumor deve ter-se estendido por toda a região como um estranho prodígio e alcançado os ouvidos do rei. Nem Giges poderia ter impedido isso, já que ainda não era rei. E mesmo se o tivesse feito, os próprios pássaros, ao voarem cantando, teriam difundido ainda mais longe essa história. E o junco, convertido em gaita de fole, como sucedeu a Midas278, teria transformado, sozinho, tal notícia em sons compreensíveis.

(7) Por que digo isto? Porque somente em meio ao mais profundo ódio generalizado

aconteceria de um homem reinar depois de, claramente, como todos tinham visto, ter sido elevado de humilde serviçal à magnificência real; e mais, ter ascendido à esta posição por meio de feitos violentos contra a rainha e pela morte do rei e dos optimates279. Um homem que eles temiam, de dia e de noite, ser capaz de precipitar-se por sobre as suas esposas e riquezas, e, como um demônio socrático, fazer-se presente para cuidar de tudo o que diziam e faziam, para então, por fim, inesperadamente assassiná-los com veneno, ferro ou quaisquer outros meios. Desse modo, que tipo de vida podemos pensar que levava Giges, não sendo amado por ninguém, temido por todos e continuamente na espera pela vingança dos deuses e dos homens? Teria sido preferível nunca ter descoberto aquele anel, nem ter passado da companhia dos pastores do campo, para a cidade e o palácio real.

(8) Mas, no que isso diz respeito a Platão? Se alguém me perguntar se aprovo os

feitos de Giges, responderei: não os aprovo. E, então, se me perguntasse: “Pões a virtude acima de um reino?”. Como?! Eu antepus a vida dos pastores - a prazerosa seguridade de uma vida primitiva - à ansiosa vida de um rei, e, por essa razão, acho que Giges agira de modo desvantajoso contra si mesmo. Assim, é necessário que Platão permaneça em silêncio, leve de volta para casa sua invendável e mal formulada fábula e a remeta à forja; ou melhor, ao torno mecânico.

278 Segundo a mitologia grega, o rei Midas recebera de Apolo orelhas de burro como represália por uma ofensa. Envergonhado, escondeu as orelhas com um turbante e pediu ao seu barbeiro para que guardasse o segredo. Não podendo mais resistir, o barbeiro cavou um buraco na terra e ali proclamou o segredo, enterrando-o em seguida. Porém, todas as vezes que o junco que ali crescera era balançado pelo vento, ele cantava as palavras do barbeiro, espalhando o segredo de Midas pelo reino.

279 Os optimates (“os melhores”) compunham a facção de senadores aristocráticos na antiga República romana.

175 No entanto, como levaríamos muito tempo em esperar que Platão alterasse a sua história no torno e a enviasse polida para publicação, vamos supor que ele, querendo corrigi-la, a despeito de sua vergonha, tenha ousado novamente expô-la à luz do dia. (9) Nesse caso, podemos concluir que a sua intenção, embora ele não soubera expressar, era a de que o anel trazia as trevas não apenas aos olhos dos homens, mas também às suas mentes, de modo que eles não seriam capazes de reconhecer o que era evidente; ou então, mesmo se eles fossem capazes, ainda assim eles não poderiam odiar tal rei. Suponhamos também que os deuses, ao assistirem tais feitos, fossem coniventes e que, finalmente, o próprio Giges não temesse nem aos deuses, nem aos homens – embora quem tema aos deuses, não possua mais respeito pela virtude do que alguém que não viole as leis por medo da punição; e quem não teme aos homens, certamente não é humano. Mas, consideremos todas essas coisas e indaguemos: é digno de imitação as façanhas de Giges ao violar a rainha, assassinar o rei e tantos outros? (10) Dos dois feitos, elogio apenas um, não o outro. Já que devo dizer-vos o que penso, eu teria sim violentado a rainha se ela fosse desejável pela idade e beleza, mas, os meus costumes e natureza teriam me impedido de assassinar o rei. Quanto ao tema de violar a rainha, gostaria de perguntar-te, Catone, o que terias feito sob tais circunstâncias? Julgarias adequado aos deveres religiosos violar a rainha Drusila, uma mulher sobre a qual sei que notaste, se encontra no viço de sua idade e beleza? “Não absolutamente”, me responderias. Pois, além de ser contrário à honestidade corromper o matrimônio de outrem, também as leis o proíbem. (11) Meu caro Catone, acredito que temas às tuas leis e aos homens, mas não acredito que temas manchar um matrimônio; a menos que tu sejas impotente. De todo modo, não precisas temer às leis, pois estas punem apenas os réus confessos e convictos, e quanto aos adúlteros, não é pela sua depravação que elas os condenam, mas sim porque estes poderiam incitar desavenças brutais, guerras e massacres. Porém, tais perigos não se manifestarão aqui: o marido não saberá, o resto do mundo permanecerá na ignorância, a mulher regozijar-se-á e tu divertir-te-ás. Portanto, se nenhuma dissensão, infâmia ou controvérsia brotarem de teus atos, supões que um legislador seria tão bárbaro e desumano a ponto de enfezar-se contra os teus prazeres e os da rainha? (12) Acredita-me, se te dirigisses a Sólon, Foroneu, Júlio ou a quem mais que tenha formulado uma lei contra o adultério, e lhe perguntasse o que ele pensa, certamente te responderia: “Catone, minha lei não se refere a ti, em absoluto! Tua fortuna é boa demais

176 para ser incluída sob minha formulação. Continua e aproveita bem a tua sorte com o selo de minha aprovação”. E digo pouco! Qualquer um te imploraria para poder vestir aquele afortunado anel por alguns dias a fim de que pudesse também ele arrematar a sua rainha. Não disfarces, Catone, e não ergas a sobrancelha de censor! Se te conheço bem, se tivesse sido tu a encontrares o anel, sei que de algum modo terias ultrapassado o luxurioso Júpiter em amores furtivos; ou melhor, em adultérios.

(13) Já proferi mais do que o suficiente sobre os deleites do amor na parte onde

tratei sobre a continência. Retornemos agora à justiça, assunto que precisamos ainda tratar. Sobre este propósito, é inquirido se Giges nos deu um bom exemplo ao eliminar o rei e os outros que encarava como obstáculos. Como eu disse, desaprovo e condeno tal feito porque o rei e os outros não mereciam a morte. É possível que sejam boas ações matar um tirano e seus comparsas e, consequentemente, fazer um favor à tua nação; especialmente se tu mesmo arrematares o reino? Tal ação será permissível se o tirano pensar mal de ti e for teu inimigo, sem possibilidade de reconciliação. Neste caso, é lícito eliminar tais homens porque, de outro modo, não se poderia viver seguro. (14) Porém, se não for assim e o rei possuir a afeição de seu povo, e seus optimates forem como ele, possuirías tu tal disposição sangrenta, serias tu tão destituído de compaixão a ponto de levantares tua mão contra um excelente príncipe e um excelente senado e alegrar-te antes com o luto generalizado do que com a alegria comunal? Por isso tudo, não merecías ser considerado um assassino e carrasco? Pergunta aos demais quais tiranos tu podes destruir (existem tantos!) e, então, toma os seus reinos e ali reina tu, seguro e amado! Eis a ti um campo largo e aberto para acumulares riquezas, benevolência e glórias. Por Hércules!, aquele mesmo Hércules por cuja memória de benevolência eu jurei e o qual os homens posicionaram entre os deuses celestes, te digo: não se econtrará quem tenha feito mais pela raça humana do que tu! Faze de modo que os bons te adorem e os maus te temam, e para onde quer te dirijas, sejas sempre recebido com aplausos e triunfo. Enfim, que após a tua morte o teu povo te coloque junto aos deuses, se assim o desejares. (15) Por que te conduzires com insana fúria para dentro de inquietantes dificuldades, onde deves temer aos herdeiros e parentes dos assassinados, a menos que prefiras matar a todos; onde não possuas nem amigos nem conhecidos, a menos que tu tragas aqueles insignificantes pastores ao Senado e os coloque à frente de todos os outros (se bem que até estes deveriam temer a tua crueldade e os teus

177 crimes); e, finalmente, onde dia e noite a preocupação pelo teu reino te tortures, sendo tu bruto, ignorante e inexperiente nas elevadas ocupações? Por esses motivos, Giges, não te condeno por desonestidade, mas sim por imprudência e injustiça, como já disse.

XXVII. (1) Mas, acrescentemos algo, embora de menor importância, como resposta

às objeções apresentadas pelos nossos adversários. Suponhamos que tu aches pela estrada o dinheiro de um viajante. Deverias tu restituir-lhe o dinheiro, caso ele não fosse um criminoso ou mal caráter? Apesar de que a ofensa a criminosos deva ser evitada a fim de não lhes darmos motivo para cometerem danos aos outros, todavia, aos bons tu deverias devolver o dinheiro; não porque seria honesto fazê-lo, mas a fim de obter prazer da satisfação e da alegria alheias, e para conquistar confiança e afeição. Mas, aqui, é particularmente necessária certa ponderação para que isso não pareça prejudicial, pois, de outro modo, os homens poderiam pensar que agiste não em prol da utilidade, mas pelo bem da honestidade, como registrei muitas vezes.

(2) Se o teu princípio é o de não prejudicar a nenhum homem, muito mais

apropriada e digna é a minha idéia: ser útil tanto ao outro, quanto a ti mesmo. Apesar de fazer as coisas exclusivamente para o meu próprio bem, as faço de modo a serem úteis também à outra pessoa e assim, igualmente úteis a mim mesmo. Logo, se eu não devolvesse o dinheiro ao viajante, feriria a minha própria reputação. E isso é tão verdadeiro que, se eu precisasse do dinheiro para salvar a minha vida, segundo o teu princípio, eu não poderia devolvê-lo; e assim, se não pudesse sobreviver de nenhum outro modo, teria a permissão de roubar para comer. Do mesmo modo, Rômulo demonstrara não apenas fortitude, mas também prudência ao apoderar-se das esposas das cidades vizinhas ao não conseguir obtê- las através de súplicas. (3) Portanto, tu podes trapacear, ludibriar e fraudar alguém em um contrato, porém, deves fazê-lo de maneira sutil e engenhosa para que, caso sejas mal sucedido, não aparente que tu tiveras a intenção de fazê-lo, mas apenas a habilidade de iludir, para que assim, depois, tu possas fazê-lo acreditar que preferirias uma amizade a dinheiro e que, podendo enganá-lo impunemente, não quiseras fazê-lo, ou por conta de tua benevolência, ou em razão de seus méritos, ou ambos; e que tu não terias pensado em fazê- lo nem mesmo por uma grande importância de dinheiro e lucros; tu quiseras apenas indicar o teu afeto e disposição favoráveis a seu respeito. Dir-lhe-ás tais palavras mais de uma vez e com parcimônia, enquanto que ele as divulgará amplamente.

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(4) É difícil expressar o quão frutífera será tal benevolência entre os homens e

quantos frutos lhes trará este benefício. Aqueles que ignoram este comportamento, e burlam, ludibriam e fraudam por ganância, são maléficos porque se revelam inimigos de si mesmos, não extraindo nenhum fruto do amor alheio e criando ainda, muitas vezes, danos e perigos contra si mesmos. É desnecessário descrevermos exemplos sobre tais tipos de homens porque este assunto, como dizem, está claro até mesmo aos cegos, e também porque já tracei vários exemplos anteriormente. Desta forma, espero que se entenda e se recorde eternamente que nós devemos ter cautela para não valorizar bens de menor valor em detrimento dos de maior valor, por algum motivo precipitado. (5) Coisa que o primeiro Africano parece ter compreendido muito bem, como todas as coisas. Este, após tornar-se senhor da Cartagena na Espanha, encontrou certa jovem virgem entre os reféns entregues pelos espanhóis aos cartaginenses, de nobre família e extraordinária beleza. Ele a devolveu intocada ao homem para quem havia sido prometida como esposa a fim de conquistar a amizade dos espanhóis. E para provar que que ele não agia assim pela troca de um resgate, adicionou ao seu dote todo o ouro que eles haviam trazido para resgatá-la280. Assim, com esta dupla virtude, primeiro a continência e depois a generosidade, cativou as almas dos espanhóis e aumentou sua glória e domínio no Estado. (6) Se, ao invés disso, ele tivesse seguido a luxúria, ele teria exasperado a ferocidade dos seus inimigos e, simultaneamente, evocado a maior das cóleras contra si mesmo. Vício que muitos outros caíram, a começar por Xérxes. Ao mesmo tempo em que desejava aumentar sua fama e poder, ele procurava em todos os lugares por deleites – inimigos da guerra –, prometendo um prêmio a quem encontrasse um novo tipo de prazer281. E assim, ele não apenas enfraqueceu o seu poder, como também perdeu para sempre seu famoso nome que tanto fazia nações estremecerem; além da sua possibilidade de desfrutar de prazeres futuros. Com muita justeza, à vezes nós investimos contra homens devotados ao prazer, dedicando-lhes desprezo e ódio.

XXVIII. (1) Creio que já discuti todos os aspectos referentes à defesa do prazer.

Todavia, atesto que meus inimigos, tendo sido conquistados na batalha e na guerra justa, refugiados em seus acampamentos, por detrás de seus muros vociferam e insultam aos

280 Valério Máximo, IV, 3, 1; Tito Lívio, História de Roma, XXVI, 50. 281 Cícero, Disputas Tusculanas, V, 7, 20; Valério Máximo, IX, 1, 3.

179 vencedores, dizendo que a vida contemplativa e a tranquilidade de ânimo lhes pertencem e são bens dependentes apenas da honestidade, comuns aos deuses imortais; e que nós, ao contrário, seguimos o tipo mais vil dos prazeres, repleto até a borda de torpitude, desgosto e remorso. Debelemo-nos contra esses insolentes inimigos até destituí-los completamente de seu acampamento, o qual nomeiam como os “dois bens secretos da alma”. (2) Observemos primeiro a contemplação, sobre a qual Catone disse algo.

O teu Aristóteles estabeleceu que existem três bens desejados282. Ele diz (para usar as palavras do nosso amigo Leonardo Aretino, o qual recentemente traduziu a Ética para um latim claro e evidente): “nós desejamos a honra, o prazer, toda a inteligência e toda a virtude, sejam por si mesmas, seja pela felicidade”283. Ora, isso já havia sido indicado por ele, tempos antes, com outras palavras, ao descrever as vidas voluptuosa, política e

Benzer Belgeler