No Serviço Social a formação consiste num processo amplo e desafiante, que parte da compreensão da educação como um direito social explícito na Carta Magna107, 108. Alba Maria
Pinha o de Carvalho manifesta que, no Serviço Social, a formação “não se confunde com a simples preparação para o emprego, não se limita ao processo que se restringe a formar quadros profissionais. É, sim, um projeto educacional que articula ensino/pesquisa/extensão orientado por diretrizes básicas” (ABESS, 1986, p. 17). Nessas premissas situa-se a lógica sobre a
105 São normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação que asseguram a flexibilidade, a criatividade e
a responsabilidade das IES na elaboração dos Projetos Pedagógicos de seus cursos. As DCNs têm origem na LDB e constituem referenciais para as IES na organização de seus programas de formação, permitindo flexibilidade e priorização de áreas de conhecimento na construção dos currículos plenos, possibilitando definir múltiplos perfis profissionais e privilegiando as competências e habilidades a serem desenvolvidas (Parecer CNE/CES 67/2003). Os currículos dos cursos devem apresentar coerência com as DCNs no que tange à flexibilidade, à interdisciplinaridade e à articulação teoria e prática, assim como os conteúdos obrigatórios, à distribuição da carga horária entre os núcleos de formação geral/básica e profissional, às atividades complementares e às atividades desenvolvidas no campo profissional. Interdisciplinaridade é uma estratégia de abordagem e tratamento do conhecimento em que duas ou mais disciplinas/unidades curriculares ofertadas simultaneamente estabelecem relações de análise e interpretação de conteúdos com o fim de propiciar condições de apropriação, pelo discente, de um conhecimento mais abrangente e contextualizado.
106 “Base” como superfície de apoio, fundamento [...] indica direção geral a seguir, não as minudências do caminho.
Esta significa os alicerces do edifício, não o próprio edifício que sobre o alicerce será construído” (LINHARES, p. 112, Nota 443).
107 Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a
colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola” Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/constituicao.pdf>. Acesso em: 13 de mar. 2015.
108 A área da educação claramente também passou pelos infortúnios das políticas sociais brasileiras: parcos
recursos, desvalorização dos recursos humanos, desmazelo com a gestão pública e fortalecimento progressivo do setor privado mercantil, interessado sobremaneira em ampliar novos nichos de mercado consumidor, o que exigia por sua vez a fragilização do ensino público. (CFESS, 2010 p.18)
concepção de formação profissional, que atualmente norteia o projeto ético-político109 no
Serviço Social. Projeto este, concebido nos pilares do Código de Ética e Lei de Regulamentação da Profissão de 1993, além das Diretrizes Curriculares/1996/2002, corresponde a um projeto político:
Todo projeto e, logo, toda prática, numa sociedade classista, tem uma dimensão política... se desenvolvem em meio às contradições econômicas e políticas engendradas na dinâmica das classes sociais antagônicas... no modo de produção capitalista elas são a burguesia e o proletariado...o projeto profissional (e a prática profissional) é, também, projeto político: ou projeto político- profissional (CFESS, 2009, p. 188).
Partindo deste pressuposto, Marilda Vilella Iamamoto (2013, p. 191) expressa que a formação “não se reduz à oferta de disciplinas que propiciem uma titulação ao Assistente Social para responder a uma condição para sua inserção no mercado de trabalho”. Para a autora, a oferta integra o processo, no entanto, ele o sobrepuja, pois, trata-se de preparar cientificamente quadros profissionais capazes de responder às exigências de um projeto profissional coletivamente construído e historicamente situado:
Trata-se, aqui, de um projeto profissional que, demarcado pelas condições efetivas que caracterizam o exercício profissional do Assistente Social diante da divisão social e técnica do trabalho, seja capaz de responder às demandas atuais feitas à profissão a partir do mercado de trabalho e de reconhecer e conquistar novas potenciais alternativas de atuação, expressão de exigências históricas que se apresentam à profissão pelo desenvolvimento da sociedade em um contexto conjuntural específico (IAMAMOTO, 2013, p. 191).
A formação de profissionais críticos, criativos, capazes de vislumbrar novas proposições, a partir do conhecimento acumulado, faz-se condição para que o referido projeto profissional, além de existir, seja também questionado frente às novas configurações da questão social. Este conhecimento constrói-se no debate constante e na assimilação teórica que embase a intervenção, suprindo-a. É no revolver da terra que se possibilita semear o novo. A formação, assim compreendida, concentra características próprias que a distanciam da preparação técnica e aligeirada direcionada, única e exclusivamente, ao mercado de trabalho.
109 Os projetos profissionais [inclusive o projeto ético-político do Serviço Social] apresentam a auto-imagem de
uma profissão, elegem os valores a legitimam socialmente, delimitam e priorizam os seus objetivos e funções, formulam os requisitos (teóricos, institucionais e práticos) para o seu exercício, prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as balizas da sua relação com os usuários de seus serviços, com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais, privadas e públicas [...] (NETTO, 1999, p.95).
Dessa forma, temos duas questões inseparáveis: a) formar assistentes sociais a partir dos parâmetros apontados no interior da profissão; b) e atender à demanda por esses profissionais no mercado de trabalho; demanda ascendente desde o início do século XXI. A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, a Assistência Social passou a ser compreendida como um direito. A implantação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS no país, com a criação dos Centros de Referência e Assistência Social – CRAS; Centros de Referência Especializada e Assistência Social – CREAS; programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada – BPC, e outros, tratarão de absorver os profissionais no serviço público, principalmente através de concursos.
Naquele momento, o Serviço Social, com raízes pautadas na benemerência e dirigidos ao público feminino exigiu, no início, que as assistentes sociais recém-formadas se empenhassem na organização da consolidação de princípios e diretrizes de um projeto de formação em consonância com a demanda do mercado, mas não dirigido exclusivamente a ele. Convém conhecermos a construção dessas diretrizes para compreendermos seus parâmetros na atualidade.