Nomeucasoespecífico,arelaçãocomaarqueologia vemdesdequeeueracriança.Lembroquequandoeuestava na quarta série do colégio – portanto tinha dez anos –, os alunos tiveram que escrever uma redação sobre o que queriamserquandocrescessem,eeudissequequeriaser explorador – não arqueólogo, ainda. Queria viajar pelas ruínas do Peru.Também sempre gostei muito de história; nuncafuiumbomaluno,masdehistória,sim.Deinícioeu não sabia que o interesse pela história e o interesse pela arqueologia podiam se combinar, mas no fim do segundo graucomeceiaperceberqueissoerapossível:eupoderia fazerocursodegraduaçãoemhistóriaeapós-graduação em arqueologia. Minha família não achava a arqueologia uma escolha interessante. Meu pai e meu avô queriam queeufosseadvogado.Fizentãovestibularparahistóriae
paradireito,porcausadapressão,masdepoisdeumano acabeilargandodireitoparafazersóhistóriaemededicar àarqueologia.
Uma coincidência que aconteceu comigo também teveumpapelimportante.Vocêsdevemterouvidofalarem NiédeGuidon,arqueólogafamosa.Elatemumprimoqueé muitoamigodomeupai,eporcontadissodesdemoleque euouviafalarnotrabalhoqueelafazianoPiauí.Fuiassistir a algumas palestras dela quando ainda estava no segundo grau.Essacoincidênciameajudouasaberquehaviagente trabalhando com arqueologia no Brasil e que existia essa possibilidade de estudo. Outra coisa é que sempre gostei muitodeler,masnuncameinteresseiporumtrabalhoque fosse excessivamente de gabinete. Sempre gostei, também, de viajar, de acampar. Mesmo sem formular isso na minha cabeça, devo ter sentido que a arqueologia era uma boa combinaçãoentrepegaramochila,sairporaí,conhecero Brasil,iralugaresaondeninguémvai,eterumaatividade intelectual.Atéhojeissoéumacoisadequeeugostomuito naarqueologia:acombinaçãoentreadimensãoempíricae
adimensãoteórica.Eapostoque,sevocêsforemconversar com dez arqueólogos ou arqueólogas, nove ou oito vão dizer:“Ah,eutenhoumaquestãoteóricaimportante,mas desdequeeueramolequeeuqueriaviajar,irparaocampo...” Issoéumacoisamuitocomumentreosarqueólogos. Aprofissãodearqueólogoéhojemuitoprocuradapelosjovens? Achoquesim.Hámuitagentefazendoarqueologia. NoMuseudeArqueologiaeEtnologiadaUniversidadede SãoPaulo,ondeeutrabalho,nóstemosumapós-graduação, commestradoedoutorado,etemosorientandosvindosde váriaspartesdoBrasilemesmodeoutrospaíses.Alémde daraulanapós-graduação,tambémdounagraduação,num cursooptativo,deintroduçãoàarqueologia,oferecidopelo Museu para os alunos de história e ciências sociais. Não existe graduação em arqueologia no Brasil, com exceção deumcursorecém-criadoemSãoRaimundoNonatopor NiédeGuidon.Então,oqueacontece?Umaboapartedos alunosquevãosetransformaremarqueólogosfazdurante a graduação vários cursos optativos que nós oferecemos
PesquisadecamponaAmazônia *FotodoAcervoParticular doPesquisadorEduardoNeves
e depois segue aquele caminho clássico, que eu também segui:começaafazerestágio,semremuneração.Esseéum fato que tem uma dimensão social, porque você percebe queamaioriadosarqueólogosnoBrasilédeclassemédia, há pouquíssimos arqueólogos negros, por exemplo. Pouca gentepodesedaraoluxodefazerumtrabalhoduranteum oudoisanossemganharnada,ouganhandomuitopouco. Amaioriadaspessoastemquetrabalharparasesustentar.
A maioria dos que fazem pós-graduação em arqueologia vem da história?
Eu diria que mais da metade dos nossos alunos vem do curso de história. Mas, por exemplo, nós temos também uma médica, uma mastóloga, professora da USP, que agora resolveu trabalhar com arqueologia.Temos um engenheiro da Cetesb, Companhia de Saneamento Básico deSãoPaulo.ComoaCetesbestáotempotodocavando buracos, ele resolveu, em vez de ter que lidar com os arqueólogos, estudar arqueologia para entender o que elesdizem.Portanto,tambémhápessoasquevêmdeáreas diferentes.Háumcaminhopadrão,quefoioqueeusegui: entrei na graduação e comecei como estagiário logo no primeiro mês do primeiro ano. Mas há gente que começa depois,queencontraessecaminhomaistardenavida.Não éincomumqueissoocorra.MichaelHeckenberger,colega norte-americanoquetrabalhacomCarlosFaustonoXingu, é um exemplo interessante. Foi um péssimo aluno a vida inteira, uma criança rebelde, foi expulso de várias escolas, demorou anos para concluir a graduação, e hoje em dia é um arqueólogo brilhante; é professor universitário nos EstadosUnidos,publicamuitoefazumapesquisadealto nível naAmazônia brasileira. Ele encontrou a arqueologia quando foi fazer uma matéria optativa. Já tinha estourado a graduação, quando foi para um sítio-escola nos Estados Unidoseconheceuaquelacoisasuperbacanadotrabalhode campo.Apartirdaliencontrouoseucaminhointelectual.
QualéahistóriadadisciplinaarqueologianoBrasil?
Éumahistóriainteressante,quetemaltosebaixos. Começa no Rio de Janeiro, no Museu Nacional, no século XIX.UmafiguraimportantefoiLadislauNeto,quefoidiretor do Museu. Era botânico de formação, morou muitos anos na França e, quando voltou, começou a se interessar por arqueologia.Juntouaoredordesiumasériedejovenseformou umarededenaturalistasviajantes.Àmedidaqueforamsendo realizadasexpediçõescientíficasadiferentespartesdoBrasil, principalmenteaolitoralsul,SantaCatarina,ondehámuitos sambaquis,eàregiãoamazônica,essescientistasnaturalistas começaramasedepararcomaarqueologia.
AlémdeLadislauNeto,outrapessoaimportantefoi FerreiraPena.Eraumnaturalistaautodidata,mineiro,quefoi paraBelémelácriouoMuseuGoeldi,em1866.Naverdade, o Museu Goeldi era uma sucursal do Museu Nacional. FerreiraPenaouviarelatossobreolitoraldoParáefoilá verificar–hojenósconhecemososgrandessambaquisdo litoral do Pará, que têm cerâmicas de mais de cinco mil anos.AmesmacoisacomosaterrosdailhadeMarajó.As pessoastraziamaquelacerâmicabelíssima,eelescomeçaram afazerviagensparaentenderanaturezadaquelefenômeno. O debate científico na época era saber se aquelas coisas tinhamsidofeitaspelosíndios,pelosancestraisdosíndios, ouporpessoasvindasdeoutroscontinentes.Emrelaçãoaos sambaquisdeSantaCatarina,porexemplo,quesãograndes estruturas artificiais, de vários metros de altura, a dúvida quesetinhaeraseeleseramformaçõesnaturaisoutinham sidofeitospelaspopulaçõesindígenas.Naépoca,séculoXIX, estava-senoaugedoracismocientífico,doevolucionismo, usadoaserviçodasupremaciadoimperialismoeuropeue umpouco,também,norte-americano.
Há algumas figuras interessantes na história da arqueologianoBrasil.Agassiz,porexemplo,organizouuma importanteexpediçãocientíficaàAmazônia.Agassizeraum naturalistasuíço,foioúltimocientistacriacionistadoséculo XIX,nãoaceitavaodarwinismo.EraprofessoremHarvard, fazia parte do establishment acadêmico da época, e decidiu mostrarquenopassadotinhamocorridograndesepisódios catastróficos,grandesdilúvios,queeleassociavaaformações geológicas específicas.Achou que, se conseguisse mostrar que esses grandes dilúvios tinham ocorrido naAmazônia, umdoslugaresmaisquentesdomundo,emconseqüência do derretimento de geleiras; se conseguisse provar que a Amazôniajáfoimuitomaisfrianopassadodoqueéhoje, as suas hipóteses estariam corretas. Montou então uma grandeexpedição,daqualfezparteumgeólogochamado Hartt,queseapaixonoupeloBrasileacabouficandoaqui, foi o fundador do Serviço Geológico do Império. Hartt acabou se separando doAgassiz, porque mostrou que as evidências geológicas que encontrou não batiam com a hipótese dele. Era um geólogo, não um arqueólogo, mas encontrouváriossítiosarqueológicosemSantarém,Marajó, ecomeçouaescreversobrearqueologia.Tambémtrabalhou noMuseuNacionalemorreunoRiodeJaneiro.
Os Arquivos do Museu Nacional, do século XIX, são umapublicaçãomuitointeressante,porqueporalisevêque havia muita gente escrevendo sobre arqueologia naquela época, em várias áreas do Brasil.A região de Lagoa Santa, emMinasGerais,eraumtemajálevantadonaquelaépoca, que até hoje ainda está sendo debatido. Algumas áreas
importantesdaarqueologia,algunstópicos,jáeramtemas dedebatenoséculoXIX.
A arqueologia, portanto, começou muito bem no Brasil, e parecia que iria continuar dessa maneira. Mas, do início da República até a Segunda Guerra Mundial, por diversasrazões,eladeuumaestagnada,deuumaafundada, embora o Museu Nacional continuasse a ser um centro importante. Uma figura de peso dessa época foi Heloísa AlbertoTorres,quenãoeraarqueóloga,mastinhainteresse por arqueologia e escreveu um trabalho sobre cerâmica marajoara. Depois da Segunda Guerra a coisa começou a melhorar de novo, graças a dois casais estrangeiros que trabalharam aqui: um de arqueólogos franceses e outro dearqueólogosnorte-americanos.Dosquatro,aúnicaque ainda está viva é a norte-americana, Betty Meggers, uma pessoa muito ativa; tem 84 anos de idade, é muito lúcida ainda, e por sinal critica muito o meu trabalho – é uma críticaimpiedosa,eassuasobservaçõessãosempremuito boas. O marido dela era Clifford Evans, que já morreu. AmbostrabalharamaquiapartirdoMuseuNacional.Jáo casalEmperaire,francês,trabalhoubasicamenteapartirda UniversidadedeSãoPaulo.Avindadelesteveavercomo EstadoNovo.PauloDuarte,jornalistadeSãoPauloquefoi exilado, conheceu o antropólogo Paul Rivet na França, no Museu do Homem. Interessou-se pela arqueologia, voltou para o Brasil e trouxe esses arqueólogos para trabalhar nos sambaquis do litoral que estão sendo destruídos. O trabalhodosEmperairegerou,porexemplo,NiédeGuidon, Páginaaolado SítiosarqueológicosnaAmazônia Acima FerramentaArqueológica *FotosdoacervoparticulardopesquisadorEduardoNeves
AndréProus,umarqueólogoimportantequetrabalhavana UFMG,váriosarqueólogosdeSãoPaulo,ativosatéhoje.E háaturma,tambémativaatéhoje,quepassouatrabalhar nalinhanorte-americana.
Eramlinhasdiferentes?
Eram linhas diferentes, inclusive conflitantes em alguns casos. Lembro que quando eu comecei a fazer estágio em arqueologia, em 1983, havia um grande debate teórico entre a linha francesa e a linha norte-americana. Eraumdebateumpoucocolonizado,quetinhamaisaver commetodologia,comamaneiradetrabalharcomossítios arqueológicosecomosdocumentosemsi.Decertomodo, hojeemdia,essadivisãonãoexistemais.Aarqueologiatem crescidomuitonosúltimos20anos,hámuitomaisgente trabalhandodoquequandoeucomecei.Em20anos–não étantotempoassim–ocrescimentofoiimenso:nãosóhá maisgente,comohánovoscentrosdepesquisa,trabalha-se emáreasquenãoeramconhecidas. Éumaprofissãomaismasculina?
Aqui no Brasil não, é mais feminina. NaAmérica doNorteémaismasculina.Porqueaquiaprofissãoémais feminina? Porque arqueologia é“coisa de quem não tem o que fazer”, de quem ganha menos, não sustenta a casa. Issoagoraestámudando,estáhavendoumequilíbrio.Mas durantemuitotempoaarqueologianoBrasilfoicomandada pelasmulheres,eatéhojeaindaéumpouco.NosEstados Unidos,écoisadehomem.
OtrabalhonaAmazônia
Olhandodefora,tem-seaimpressãodequeaarqueologiaéuma área do conhecimento que precisa de outros saberes, como por exemploabiologia,aquímica,paraconfirmarsuasdescobertas.Isso écorreto?Aarqueologiaédefatoumaciênciainterdisciplinar. Apesar de lidar com a história, vejo a arqueologia como uma ciência social, que dialoga muito com outras áreas: comaantropologia,socialebiológica,comageologia,com a pedologia, que é o estudo dos solos, com a ecologia, e assim por diante. Isso é uma coisa muito interessante na arqueologia:nóssomosforçadosaterumaidéiabásicade comoessasciênciasfuncionam,parafazermosasperguntas corretasecobrarmosasrespostasadequadasparaosnossos problemas. Na verdade, a arqueologia tem que trabalhar a partirdeproblemas.Comeceidizendoqueémuitolegalir paraocampo,eesseésemdúvidaumaspectoimportante, mastodaessaatividadetemqueestaraserviçodeproblemas depesquisa.
Eu,porexemplo,trabalhocomahipótesedeque havia muita gente vivendo na região amazônica antes do descobrimento. Já a arqueóloga norte-americana Meggers, dequefalei,trabalhahámaisde50anoscomahipótesede queaAmazônianãoeramuitodensamenteocupadaantesda conquistaeuropéia.Meuargumentoestábaseadonofatode queossítiosarqueológicosdaAmazôniasãoimensos,têm muitos hectares de área e muitos depósitos arqueológicos, de dezenas de centímetros de profundidade, que mostram queosolofoimodificadopelaaçãohumana.Paramim,esses grandes sítios são o correlato material da ocorrência de grandes aldeias. Betty Meggers concorda que os sítios são
grandesmesmo,masachaqueosdepósitoscorrespondem a pequenas aldeiazinhas ocupadas em diferentes épocas do passado.Elanosacusadesermosanacrônicos,oqueéuma críticamuitoboa.Nóstemosoônusdaprova,temosque iracampoeabrirummontedeescavações,espalhadaspor essessítiosgrandes,demaneiraamostrarqueosdepósitos sãocontemporâneos,queacerâmicaéamesma,queossítios foramocupadosporgrandesaldeiasdurantebastantetempo. Temos que poder dizer:“Nós temos sítios de 90 hectares querealmentemostramisso.”Ounão:“Realmentevocêtem razão,estedepósitode90cmtemdoismilanos,eaquelede 90cm, do outro lado do sítio, tem 1.500 anos. Parece que houveváriasocupaçõessucessivasnestelocal.”Esseexemplo mostraqueotrabalhodecampoedelaboratório,adimensão empírica,sãofundamentaispararesolverumproblema,que éumproblemahistóricoamplo:haviamuitaoupoucagente noBrasil,edesdequando,antesdodescobrimento? Aarqueologia,nomeuentendimento,temqueestar aserviçodosproblemasdepesquisa,quesãoosmaisvariados. Agassiz,noséculoXIX,éumestudodecasosuperbonito.Ele tinhaumproblema,umahipótese,eveioparaaAmazôniapara tentartestarasuahipótesecomasevidênciasgeológicas.Se testou de uma maneira favorável ou não, isso não importa tanto,oimportanteéqueeleorganizouapesquisaaserviço deumproblema.Porqueeuinsistotantonisso?Porqueessa éumacríticaqueaminhageraçãofezmuito,nosanos1980 e1990,àarqueologiadosnossosmestres.Achávamosqueera umaarqueologiamuitodescritiva,semproblemasdepesquisa, quequeriaapenasmapearoterritóriobrasileiro.Acho,hojeem dia,queessacríticafoiinjusta,porque,paraosarqueólogosdo segundopós-guerra,atarefademapeamentoerafundamental. Elestinhamquefazerisso.Eramuitofácilparanóscriticar,e essacríticafoifeitacommuitaforça.Hojeeufaçoummeaculpa, porqueelestiverammuitapaciênciacomaminhageração. PorquevocêescolheutrabalharcomaAmazônia? Porváriasrazões.FuiàAmazôniapelaprimeiravez com20anos.Eraestudantedegraduaçãoejátrabalhavacomo estagiário de arqueologia em São Paulo. Peguei um ônibus emSãoPaulo,fuiparaBelém,visiteioMuseuGoeldi,fiquei impressionadodeconheceraquelacerâmica,viajeipelailha deMarajóepensei:istoaquiémuitolegal,querotrabalhar aqui! Havia uma combinação entre paisagem e arqueologia quemepareciasermuitointeressante.Quandomeformei, meuprimeiroempregofoiemBelém.Nessaépoca,comecei aconhecerumpoucomaissobrearqueologiaamazônicae percebiquehaviaaliváriosproblemasinteressantes.Acrítica que nós fazíamos era justamente a de que a arqueologia feita até então não tinha problemas, o sujeito ia ao sítio
arqueológico, escavava, publicava um monte de fotos de cerâmica, e era só. Pensávamos: não, a arqueologia é uma ciência, ela tem que ter problemas. E ali, na arqueologia amazônica,pudevervários,comoporexemploessaquestão da população, do determinismo ambiental muito forte, do soloqueseriamuitopobreelevariaagrandesmobilidades, e não à formação de adensamentos demográficos, ao sedentarismo.Haviaaidéia,defendidapelaMeggers–que aliástinhaumaformaçãoantropológicamuitoboa–,dequea Amazôniaseriaumaáreaperiféricanocontextodeocupação dasAméricas, e que o grande centro de desenvolvimento seriam os Andes centrais. Havia um outro antropólogo quemorreu,chamadoLathrap,quetrabalhavanaAmazônia peruanaediziaocontrário:acerâmica,aagricultura,tudo começounaAmazônia,eapartirdaAmazôniaseexpandiu para outros lugares daAmérica do Sul. Eram argumentos muitodifusionistaseumpoucosimplistas,masofatoéque existiaumdebatepolarizado,quepediatrabalho.
Até hoje pouca gente trabalha naAmazônia, mas noiníciodosanos1990,sevocêtivesseiniciativa,estivesse afimdetrabalhar,tivessegásparairláepensarumprojeto, aAmazôniaeraumaáreaextremamentefértil,umaáreaque tinhaproblemasinteressantesdepesquisaesobreaqualhavia Acima Objetosdecerâmica encontradosnaAmazônia Aolado Localdepesquisaarqueológica *FotosdoacervoparticulardopesquisadorEduardoNeves
rios,sãorealmenteamparadospelaevidênciaarqueológica. Pararesolveressaquestão,estoufazendoummapeamento extensivo, de mais ou menos 100 sítios levantados nessa área. Desses 100 sítios levantados, só estamos escavando comdetalhecinco.Adiferençaémuitogrande,entreachar osítio,fazerumaidentificaçãoprévia,relativamenterápida, efazerotrabalhodetalhado.
Comoseachaumsítio?Háalgumaindicaçãoprévia?
Porexemplo,naAmazôniaexisteumacoisachamada terra preta. O que são as terras pretas? São solos escuros, muito férteis, que foram formados pela ação humana no passado.Sabemoshojequesãosolosantrópicos.Ondeexiste terrapreta,existeroçahojeemdia.Egeralmentetambémexiste uma demanda muito grande de dados empíricos. Há uma
geração de arqueólogos daAmazônia, que não são muitos –souumdeles–,quecomeçouatrabalharlánosanos1990 dentro desse quadro. E tem sido muito interessante esse diálogoentreashipóteseseadimensãoempírica.
ComoéoseutrabalhonaAmazônia?Oquevocêfaz,eonde?
Trabalhodesde1995comalgunsproblemasbásicos de pesquisa, que me levaram a escolher uma determinada área–umdeles,comojádisse,éaquestãodapopulação da Amazônia antes do descobrimento. Peguei então uma áreaentreorioSolimõeseorioNegro,eoqueeuquero entender é se os relatos dos cronistas do século XVI e XVII,quefalamdeummontedegentevivendonabeirados
sítioarqueológico.Nóstentamostrabalharcomumcontrole maior da nossa amostra, plotar quadrados etc. Mas, como é um trabalho exploratório, resolvemos que a melhor coisa é pegarobarquinho,avoadeira,oupegarocarroatéondeder, parar nas casas e ir perguntando: aí tem terra preta? Já viu cacodepote?Aspessoasconhecem,porquevivemali,mexem comaterra.Ecomissovamosconstruindoonossobancode informações. Existem esses outros métodos de levantamento, com maior rigor amostral: pega-se um mapa, plota-se uma linhade20quilômetros,eestuda-seaquiloali.Éumaespécie de objetivismo, porque, se houver um sítio ali do lado, você nãoregistra,sóregistraossítiosqueestãonaquelalinha.No meucasoespecífico,comoéumaregiãoqueninguémconhece direito,oquevierélucro.Oimportanteéobterainformação.
Suapesquisatemalgumtipodecontrole?Vocêtemqueterautorização paraotrabalhodecampo?