nos fica lá! Ai da sexta feira quando eu não vou na aula já vou para a casa dele vira a noite todo mundo bebendo, de dia também só quando dá 09:00 da manhã que a gente vai embora. (G1-P4-F)
Sempre comparei e problematizei o fato das ruas dos bairros populares e os becos das vilas e favelas serem lugares extremamente movimentados, com pessoas conversando nas calçadas e nas esquinas, ao contrário do imaginário popular das elites da capital mineira que propagam que esta cena só é presente no bairro Santa Tereza em Belo Horizonte.
Do outro lado, as ruas dos bairros de elite, sempre vazias e tristes, tanto nos bairros verticalizados, como por exemplo, Lourdes, Sion e Santo Agostinho, como nos predominantemente de casas como o Bandeirantes, São Luís e São
Bento. Em eventos pontuais como o Carnaval de rua, que vem sendo resgatado pela juventude da cidade este quadro se altera. Para além da questão da segurança pública, poderíamos pensar que as elites incorporaram até os dias de hoje a função definida por Le Corbusier e seus arquitetos e urbanistas, que definiram a rua como espaço somente da circulação.
Mas a rua, segundo Lefebvre (1999), é o lugar do encontro, onde se efetua o movimento e a mistura, que tem a função informática, a função simbólica e a função lúdica. Nela joga-se. Nela aprende-se. E esta rua se torna o espaço praticado (CERTEAU, 1996) dos jovens dos bairros populares, se convertendo em equipamento específico de lazer.
Apesar de não ter sido construída para ser um equipamento específico de lazer, a rua, segundo Camargo (1979), Requixa (1980) e De Pelegrin (2004), por determinadas razões pode assumir este papel. Presenciamos no diálogo com os jovens que a rua assume este papel. E acreditamos que este fato pode estar ligado às poucas possibilidades de espaço e equipamento de lazer que os moradores dos bairros populares têm próximo às suas residências.
E no final de semana é acordar, tomar banho, e ir para rua. Fica lá o tempo todo... igual a gente vai muito na casa de um amigo meu que mora em Venda Nova, aí ele tem carro, ele busca a gente vai para lá! A rua dele é maior movimentada ele coloca som lá fora quem gosta de beber bebe (G1-
P3-F)
O uso da rua também pode estar ligado à questão da mercantilização das cidades. Segundo Rolnik (2004), os espaços das cidades estão cada dia mais mercantilizados, não há praticamente nenhum espaço que não seja investido pelo mercado. Uma das participantes que trabalha disse que sai raramente com o namorado por questões financeiras: “Deixa eu ver o que mais (pausa), é raro nós sair porque nois é pobre não tem dinheiro, aí shopping dificilmente a gente vai em shopping” (G1-P4-F)
O contexto social que os jovens cresceram está distante daquilo que Buere, (1997) chamou de Cidade do Lazer, ou seja, a região central da cidade que desde a sua fundação concentrou equipamentos reservados às elites e extratos médios da sociedade Belo Horizontina no início do século XX, lugares onde estão a
Rua da Bahia, Parque Municipal e os teatros.
Além de distante da residência dos jovens, Julião (1992) afirmou que no início da criação da cidade, nos espaços centrais existia uma lógica segregacionista que delimitava o limite entre ricos e pobres. Acreditamos que este fator tenha historicamente influenciado as gerações e desestimulado famílias a usarem os espaços de lazer do centro da cidade, reservados para as elites.
Fazendo uma análise nesta perspectiva, os jovens entrevistados moram em um ambiente afastado daquela cidade planejada, e este fator pode ter influenciado as práticas de lazer dos primeiros habitantes da região e, por herança, ter permeado nas gerações seguintes, chegando a influenciar até os dias de hoje as práticas de lazer, os usos e as formas de identificação, ocupação e empoderamento dos espaços pela juventude contemporânea.
Se o centro da cidade, espaço econômico, representava um lugar das elites e onde os moradores dos bairros populares iam somente para trabalhar, o local de moradia representava o espaço da vizinhança (BUTLIMER, 1986).
Este espaço da vizinhança e da rua vão se apresentar como um lugar, que segundo Tuan (1983), ao longo dos anos vai adquirindo profundo significado devido ao acúmulo de sentimentos e de experiências vivenciados neste espaço. Neste sentido também pode ser caracterizada como um pedaço (MAGNANI, 1984, 2000, 2007) que seria uma rede de relações formada por laços de parentesco, vizinhança e coleguismo.
Os equipamentos públicos específicos de lazer são uma novidade na Nova Regional Noroeste. E, segundo Silva e Couto (2013), é fruto da luta histórica do movimento social comunitário, que vem obtendo conquistas nos últimos 20 anos de Orçamento Participativo, ainda que diversas obras ainda estejam no papel, como é o caso da Área de Esporte e Lazer do Bairro São Salvador (NO3) e o Teatro do bairro Alípio de Melo (P04).
As questões que foram colocadas como motivos de utilização da rua como espaço/equipamento de lazer pelos jovens podem ser complementadas por outras possibilidades de análises, como, por exemplo, o fato da associação entre álcool e lazer pela juventude e da negação e proibição desta possibilidade na maioria dos equipamentos específicos de lazer mantidos pelo poder público.
Na conversa coletiva foi possível identificar que nas várias culturas juvenis, o álcool é algo muito presente na sociabilidade e nas práticas de lazer, inclusive pelos jovens que praticam esporte com regularidade - os que malham, os que jogam bola e os que fazem cooper.
Aí os amigos ia a gente encontrava todo mundo comprava Big Aplle tudo, ficava com a cabeça cheia de marimbondo” É uê! Chapado, todo mundo lá!.
(G1-P2-M) (…) “Ah fica a galera conversando. Eles fica bebendo lá na rua lá no Glória lá nós fica lá! Aí da sexta feira quando eu não vou na aula vira a noite todo mundo bebendo, de dia também. (G1-P4-F)
Juntar os amigos para tomar uma cervejinha e jogar um truco, ficar chapado com os amigos na Praça, encher a cabeça de marimbondo e ir para o baile funk, juntar a galera para conversar e ficar bebendo na rua, ou jogar uma sinuca e ficar de boa com a galera.
Segundo o Jornal Metro (2012), ao divulgar dados de parte da conclusão da pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro, quatro milhões de jovens mineiros com idade 14 e 19 anos são consumidores de álcool e 25% deste universo, exageram consumindo até 20 doses por mês.
Malheiros (2012), ao analisar a relação dos jovens do ensino médio tecnológico com os bares e a escola, afirma que os jovens escolhem a bebida alcoólica para o consumo, baseando no ato dela ser uma droga legalizada, que apresenta alto uso entre os jovens, e pelo fato de seu consumo ser aceito pela sociedade em geral.
A relação da juventude com as drogas ilícitas também se apresentou como algo presente nos espaços frequentados. Alguns relataram que preferem não frequentar ambientes onde há o uso de drogas e outros disseram não se importarem. Na interação a seguir, os jovens discutem o evento de Rappers - Duelo de Mcs - que acontecia todas as sextas-feiras embaixo do viaduto Santa Tereza na regional centro sul da cidade e ilustra esta situação:
(G1-P2-M) Ah o Rap aí! (G1-P3-F) Este aí é o Rap (G1-P2-M) É o Rap!!
(G1-P2-M) Lá é bom só para escutar música! (..) (G1-P3-F) É horrível!
(Entrevistadora/Mediadora 2) Por que? (G1-P3-F) Você vê menino de 10
anos fumando maconha! (G1-P3-F) É horrível (G1-P2-M) Não! Cada passo que você dá você sente um cheiro diferente (G1-P3-F) Nossa lá é horrível (G1-P2-M) Você já foi lá? (Entrevistador/Mediador 1) Já! (G1-P2-M) Lá cada passo que você dá, mas se você for para curtir é bom, se você for com alguém assim que não fuma assim é bom. (G1-P3-F) Não! É horrível!
Embora as pesquisas citadas apontem para a relação dos jovens com o álcool e com as drogas, não podemos afirmar que existe homogeneidade nas práticas. No grupo focal um jovem disse ter migrado de equipamento quando seus amigos passaram a exagerar no consumo de álcool e a usar drogas.
(G1-P7-M) É porque tem uns amigos meus que é skatista. Aí eles vão andar
de skate eu fico jogando bola com os menino que tem lá. Eu não sei andar de skate não. (Entrevistador/Mediador 1) Mas você vai lá direto? (G1-P7-
M) Não eu ia muito!! Todo final de semana eu ia, agora eu parei. (Entrevistador/Mediador 1) - Mas por que você parou de ir lá? (G1-P7-M)
Porque agora eu estou frequentando o lá de Contagem.
(Entrevistador/Mediador 1) Mas por que vocês trocaram esta pela de
contagem? (G1-P7-M) É por que os menino que frequenta muito me distanciei dele por eles começaram a usar coisa errada (...) (G1-P7-M) Foi por causa disto mesmo por que uns amigos meus que começou a usar coisa errada (Entrevistador/Mediador 1) O que errado Droga? (G1-P7-M) Droga e beber demais, colega meu quase deu como alcoólico nele porque ele ficou bebendo a tarde inteira no sol quente. Ai eu distanciei deles e fui para outro lugar. (G1-P2-M) Uso de Entorpecentes (rindo)
(Entrevistador/Mediador 1) Entendi.
No silêncio e nas risadas também percebemos que algo de diferente se passa nas pracinhas dos bairros da região. Segundo os participantes, lá são locais propícios para “ficar de boa” conforme interação a seguir:
(Entrevistador/Mediador 1) E você jovem? Para onde você vai? (G2-P13- M) Uai eu vou para um tanto de lugar. Né! (Todos) - Risadas (Entrevistador/Mediador 2) Vai falando aí (G2-P13-M) Marco Zero. Deixa
eu ver aqui. Lá é bom né! (risadas) você fica em paz lá não sei por que!! (….) (Entrevistador/Mediador 1) E além destes lugares aqui. Tem outros lugares que você vão? (G2-P13-M) Nó tem lugar demais cultural assim de pracinha que eu vou? (G2-P9-M) Tem a pracinha do Castelo ali. Tem uma pracinha no Castelo Bakana (...) (G2-P13-M) Eu vou lá direto. Vai de noite encontra com os amigos e fica lá de boa. (….) Entrevistador/mediador 02 Mas o que que vocês fazem lá nestas praças? (G2-P9-M) – Pô sentar, bater
um papo, tomar um vinho (G2-P13-M) Lembra de antigamente (G2-P12-F) Tocar uma viola e por ai vai. Tocar um violão (G2-P13-M) Toma um vinho (G2-P9-M) Não pode contar tudo né? Entrevistador/mediador 02 - Pode falar!! Todos Risadas (G2-P9-M) Não mas é só isto mesmo. (…) (G2-P13-