1. GENEL BİLGİLER
1.2. Konuyla İlgili Daha Önce Yapılmış Çalışmalar
1.2.3. Model Kalibrasyon ve Güncelleme ile İlgili Yapılan Çalışmalar
“Dificilmente seres humanos que não encontram obstáculos para explorar ou oprimir integralmente outros seres humanos encontrarão limites na apropriação unilateral/instrumental da natureza”
(POKER, José Geraldo A. B., 2011: 100) De acordo com Corsi (2011), o debate sobre o desenvolvimento sucede a II Guerra Mundial na conjuntura de descolonização, de avanço dos projetos nacionais de desenvolvimento e predomínio das políticas econômicas keynesianas. Nesse contexto, o desenvolvimento foi crescentemente identificado com a industrialização, que passou a ser a principal estratégia dos países chamados “subdesenvolvidos” para enfrentar tanto a miséria e a desigualdade social quanto à posição subordinada na economia mundial.
A problemática ecológica emerge com força apenas no final da década de 1960, conforme aponta o mesmo autor, vinculados ao crescimento dos movimentos pacifistas e antinucleares. Intensificaram-se as discussões sobre o desenvolvimento e sua relação com o problema ecológico, particularmente no âmbito da ONU, culminado com o Informe “Nosso futuro comum”, de 1987 da Comissão Mundial para o Meio Ambiente, no qual aparece o conceito de desenvolvimento sustentável.
Segundo Foladori (2001), o desenvolvimento sustentável é concebido como “aquele
que responde às necessidades do presente de forma igualitária, mas sem comprometer as possibilidades de sobrevivência e prosperidade das gerações futuras”. O relatório da comissão atrelava os problemas ambientais com a miséria e a pobreza e anunciava que qualquer solução deveria ser necessariamente conjunta.
A partir desse pressuposto, organizaram-se as conferências internacionais da década de 1990, particularmente a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) que firmou várias resoluções importantes, como a convenção sobre a mudança climática, a convenção sobre a biodiversidade, a declaração sobre o manejo sustentado e preservação das florestas e a Agenda 21.
Para Poker (2011), a fórmula do desenvolvimento sustentável encontra o limite lógico de sua aplicabilidade por não conseguir superar a irresponsabilidade predatória da racionalidade instrumental capitalista na sociedade moderna. Mesmo que seja formulado a partir de um princípio de direito, que é a consideração acerca da necessidade das futuras gerações, isto não é suficiente para propor outra forma de relação com a natureza que seja qualitativamente diferente da anterior. Ademais, o autor frisa a insistência na apropriação dos recursos que considera unilateralmente os interesses e intenções humanas a despeito de tudo o mais que existe.
Por essa mesma razão, Corsi (2011) afirma que o conceito de desenvolvimento sustentado não passaria de uma ideologia que buscaria encobrir as contradições dessa sociedade. Segundo Novaes (2001, p.42), “a superação de problemas ambientais exigirá
mudanças fundamentais na organização social, e não simplesmente a introdução de pequenas modificações técnicas e institucionais”.
Para Corsi (2011), o problema ambiental está imbricado nas relações sociais que estruturam a sociedade, portanto não é possível isolarmos a questão ecológica da dinâmica econômico-social do sistema capitalista como se fosse apenas uma questão de fluxos de energia e de utilização de recursos renováveis e não renováveis ou um problema sanável pelo mercado. Afinal, não se altera o padrão de consumo sem modificar as relações de produção que o sustentam. Ora, Chesnais e Serfati (2003) denunciam que o próprio combate à degradação ambiental está se tornado em um novo campo de acumulação de capital.
Dentro desse contexto e à luz desses apontamentos deve ser debatida a conformação das modalidades de assentamentos rurais denominadas “sustentáveis” pelo INCRA originadas a partir dos meados da década de 1990.
De acordo com Bernini (2009), influenciados e fortalecidos pelo movimento ambientalista nacional e internacional, os povos da Amazônia pressionaram o governo a fim de garantir seu direito de permanecerem em suas terras.
Dentro da estratégia de mitigação dos conflitos fundiários na região amazônica, diversos formatos de assentamentos rurais passaram a ser desenvolvidos pelo Estado, enquanto possibilidade de conservação da natureza e de regularização fundiária. A partir daí, surgiram modalidades de assentamentos diferenciados como os Projetos de Assentamentos Agroextrativistas (PAEs), Projetos de Assentamentos Florestais (PFs) e os Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs).
Bernini (2009) reforça que o peso das reivindicações desses movimentos sociais da Amazônia, na criação dessas estratégias de assentamento, fica expresso, por exemplo, no texto da portaria INCRA n.477/99 que cria a modalidade de Projeto de Desenvolvimento Sustentável. O texto da portaria (em Anexo) se refere à necessidade de conservação da biodiversidade dos domínios brasileiros a partir do apoio às práticas tradicionais de produção, deixando claro que o Plano Nacional de Reforma Agrária deve ser um fator básico de conservação.
Segundo a mesma autora, as características essenciais desse tipo de assentamento são o desenvolvimento de atividades de baixo impacto ambiental, principalmente por meio da adoção de sistemas de produção considerados tradicionais e do manejo de espécies florestais.
Outra indicação expressa na portaria acima referida diz respeito ao compromisso firmado entre o INCRA e as famílias assentadas. As áreas destinadas aos assentamentos PDS devem ser de domínio público e cedidas por meio de concessão de uso em regime comunal às famílias participantes do projeto. Outra característica essencial do PDS é a forma de gestão do projeto. Valorizam-se o desenvolvimento da gestão comunitária e do estabelecimento de parcerias entre a instância local, o INCRA e outras instituições do Estado ou da sociedade civil.
Conforme apresentam Vastella et al. (2009), o modelo do PDS na região Sudeste configurou uma adaptação às áreas antropizadas, onde se faziam necessárias, melhoria dos recursos hídricos e recuperação do solo, a partir de um modelo pré-existente de assentamento, a saber, o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAA). Este foi idealizado em atendimento às reivindicações de movimentos sociais da Região Amazônica, já citados outrora, que desenvolviam atividades extrativistas na floresta aliadas à produção agrícola e regularizado pela Portaria INCRA n˚268 e 269 de 23 de outubro de 1996.
Ainda, segundo os autores, politicamente estratégico, o PDS atendia a demanda social de assentamento de um grande número de famílias por parte do governo, uma vez que nesses PDS, em geral, são realocadas em áreas pequenas muitas pessoas - cerca de 1ha de terra/família, ao contrário do que se realizava na Região Amazônica em que se ofereciam maiores extensões de terra para cada família.
A fim de apoiar o desenvolvimento de novas tecnologias e práticas ambientalmente sustentáveis e promover a recomposição do potencial original das áreas de assentamentos em atendimento à legislação ambiental, conforme exigido pelo INCRA, a introdução de consórcios com culturas perenes, sistemas agroflorestais e manejo agroecológico são conceitos comumente adotados em PDS.
É importante ressaltar que nos Projetos de Desenvolvimento Sustentável a ocupação da área ocorre apenas sob a forma de concessão de uso das parcelas, tanto individuais como coletivas, por um período previamente determinado, como um condomínio rural, onde devem ser observadas a aptidão da área e a vocação das famílias assentadas.
Em consonância a essa modalidade de assentamento rural, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra desenvolveram a proposta das Comunas da Terra. De acordo com Goldfarb (2006), a Comuna da Terra trata-se de uma nova forma de assentamento rural idealizada pelo MST do Estado de São Paulo, a partir de 2001. Essa proposta atende as pessoas que viveram muitos anos em grandes centros urbanos como São Paulo, Campinas, ou Ribeirão Preto e que, portanto, não possuem, necessariamente, um passado intrínseco e
recente ligado à terra, o que difere do PDS, em que obrigatoriamente as pessoas deveriam ter esse pré-requisito. Além disso, as Comunas da Terra são implantadas em áreas bem próximas aos grandes centros urbanos, adotam a agroecologia e a cooperação como principais diretrizes na produção e conforme reivindicação do próprio movimento as famílias possuem a Concessão Real de Uso da área no nome de um coletivo (associação ou cooperativa) e não individualmente e nem o título de propriedade da terra, de maneira que as famílias não poderão, em nenhum momento, vender o que seria a sua parcela.
Goldfarb (2006) reforça que a proposta da Comuna da Terra constitui a possibilidade do retorno ao campo, uma vez que há a permanência de elementos do modo de vida camponês nessa população espoliada dos grandes centros urbanos, assim como a possibilidade de recriação desses elementos, ainda que haja diferenças. Segunda a autora, há uma manutenção dos elementos do modo de vida camponês, mesmo nos grandes centros urbanos, através da prática ou valores da vida camponesa que são recriados nas periferias dos centros urbanos, como as redes de solidariedade na vizinhança, a organização de pequenas produções agrícolas, como hortas ou mesmo criação de animais.
Entretanto, o trabalho de Torres (2012) denuncia como tal modelo de Projeto de Assentamento Rural proposto pelo INCRA e, guardadas as devidas diferenças, de proposta correlata do MST aprisionam e expropriam os camponeses delimitado da forma que estão em áreas tão pequenas e geralmente em locais aonde os recursos naturais – sobretudo água e solos – estão extremamente pauperizados.
O autor ressalta que embora a instituição da modalidade de PDS flexibilizasse – em favor das populações tradicionais – a proibição de se criar assentamentos em área de floresta, seu efetivo uso inverteu completamente essa vocação original. Constata-se áreas imensas de assentamentos, na região Amazônica, criados em locais absolutamente inapropriados para uso agrícola “sustentável”, mas com altíssimos interesses para as madeireiras.
Ademais, Torres (2012) ressalta a adoção do PDS como uma maneira de inflar os números de famílias assentadas, aumentando a capacidade dos assentamentos já existentes. Da mesma forma como foram criados, alguns assentamentos tiveram sua capacidade para abrigar famílias aumentada: sem embasamento, sem qualquer análise técnica ou, em alguns casos, contra elas.
Dessa forma, em geral, a relação de hectares/família é de impossível sustentabilidade. A área reduzida disponível para cada família torna-se um fator de risco para o sucesso dos projetos, isso porque cada família ficaria, em muitos casos, com uma área produtiva muito pequena, e, portanto, incompatível com a proposta do PDS, que prevê o manejo florestal.
As frações disponíveis às famílias muitas vezes são inferiores ao módulo rural e até mesmo à fração mínima de parcelamento. Conforme discute Torres (2012), ao garantir-lhes a miserável porção, em vários casos inferior a 10 ha/família, o INCRA não lhes confere terra para viver, mas, sim, assegura a mão de obra barata aos latifúndios grilados do entorno.Isso demonstra como o PDS é utilizado para assentar famílias, mas sem sustentabilidade alguma.
3.5 O humano e as ressignificações na natureza: modificações antrópicas nos solos