4. YSA İLE FİLTRE TASARIMI
4.1.2 YSA Model
Destaca-se a importância de Michel Foucault para as análises sobre o currículo. Embora em suas obras o autor não aborde especificamente o currículo, oferece importantes contribuições a respeito dos processos de reorganização do poder nas diversas instituições da sociedade, entre as quais a escola, onde o currículo ocupa um lugar de destaque na produção e disseminação de “verdades”. Como diz Gallo (2008):
[...] importa-me, com Foucault, repensar a Educação; isto é, tornar uma vez mais o pensamento possível em Educação. Nessa área de saber grassam duas ervas daninhas, que atrapalham o pensamento e mesmo o impedem: a primeira espécie é das certezas prontas [...] A segunda espécie é das certezas prontas das novidades que são anunciadas a cada ano [...] tornando-se ela mesma um dogmatismo [...] Penso que a produção filosófica de Foucault, quando deslocada para se pensar a Educação, pode agir como um veneno contra essas ervas daninhas, tornando o pensamento de novo possível (GALLO, 2008, p. 253-254).
Para Foucault (1996, p. 8-9), a produção “do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos”. Para representar como o saber é aplicado em uma sociedade, o filósofo recorre ao conceito vontade de verdade6, que apoiada sobre uma distribuição institucional como, por exemplo, no sistema educacional, cria sistemas de sujeição do discurso, exercendo sobre os outros discursos uma “espécie de pressão e como que um poder de coerção” (FOUCAULT, 1996, p. 18).
Foucault (1998) adverte, entretanto, que o poder não se situa unicamente nas instituições, tendo sua expressão máxima no Estado, o poder está em pontos periféricos e variados da rede social, os micropoderes existem integrados ou não ao Estado.
Para Gadelha (2009), Michel Foucault também questiona as análises que correlacionam unicamente o poder à economia, discurso característico tanto das análises liberais quanto socialistas. O autor não nega a influência da economia nas relações de poder,
6 Para Foucault (1996), a vontade de saber se apoia sobre os suportes institucionais para validar ou modificar os
entretanto, formula novos instrumentos de análise, através dos estudos do sistema prisional e às modificações no aparato jurídico, no contexto que adentram novos saberes e personagens para o julgamento e a punição que incidem sobre o corpo do criminoso, de modo a torná-lo produtivo e dócil aos mecanismos de regulação. Essas análises inicialmente relacionadas ao sistema prisional e ao poder judiciário se aplicam posteriormente a diversas instituições da sociedade, que Michel Foucault denomina de sociedades disciplinares.
Corroborando com esse discurso e ressignificando para o campo educacional, Veiga- Neto (2008a, p. 34) destaca que “a partir do século XVII a escola constitui-se como a mais eficiente maquinaria encarregada de fabricar as subjetividades”. No entanto, para o autor as intensas e profundas mudanças na sociedade e no cenário educacional atual possibilitaram um enfraquecimento da subjetivação realizada pelas práticas disciplinares que operam na escola.
Discorrendo sobre os processos de regulação, Foucault (1996) destaca como certos discursos são altamente regulados e restritos, como exemplo, cita a ritualização do discurso, que define os indivíduos que difundem a verdade e o discurso doutrinário, que regula às verdades. A educação parece se encaixar nesses dois processos de regulação: na ritualização do discurso, pois, embora restrito em sua produção, o discurso educacional é amplamente difundido; e na doutrinação do discurso, na medida em que “liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe, consequentemente, todos os outros” (FOUCAULT, 1996, p.43).
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes? (FOUCAULT, 1996, p. 44-45).
No que tange ao cenário educacional, Silva (2011a) destaca que o currículo tem como intuito o governo e regulação do sujeito. A própria teorização curricular, quando tece críticas a outros currículos existentes, também está envolvida em estratégias de governo e regulação, na medida em que pretende a emancipação do sujeito ou projeta determinado tipo de cidadão. Nesse sentido, Hall (1997, p. 19) esclarece que nosso modo de agir no âmbito das instituições e na sociedade mais ampla é regulado pela cultura através de um sistema de significados7, formando nossas identidades. O autor questiona, por exemplo, o que é a educação senão um
7 Hall (1997, p. 10) compreende que “o significado surge, não das coisas em si – ‘a realidade’ – mas a partir dos
sistema de valores e padrões dominantes de uma determinada sociedade, “o que é isso senão regulação – governo da moral feito pela cultura?”.
Silva (2011b, p. 189) esclarece ainda que a cultura e o conhecimento são compreendidos como produção e, consequentemente, o currículo também é tido como produtivo, o que permite destacar seu caráter político e de relações sociais de poder. Dessa forma, o currículo como atividade produtiva deve ser compreendido não apenas como a transmissão de um rol de conteúdos, mas vê-lo em suas ações, isto é, “aquilo que fazemos” com ele e “o que ele nos faz”. Os discursos do currículo estão envolvidos no processo de constituição e posicionamento do sujeito, ao corporificar noções sobre conhecimento, sociedade e grupos sociais representados.
Sabe-se que a educação, embora seja, de direito, o instrumento graças ao qual todo indivíduo, em uma sociedade como a nossa, pode ter acesso a qualquer tipo de discurso, segue, em sua distribuição, no que permite e no que impede, as linhas que estão marcadas pela distância, pelas oposições e lutas sociais. Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo (FOUCAULT, 1996, p. 43-44).
Frequentemente, o currículo é visto apenas como conceitos e informações, no entanto, Silva (2011b) destaca o aspecto do currículo como disciplinamento do corpo. Para o autor, os aspectos cognitivos do currículo são facilmente esquecidos, já o disciplinamento dos corpos preconizados pelo currículo, muitas vezes, acompanham o indivíduo pela vida toda. Esse disciplinamento se dá, por exemplo, na regulação de gestos, nos rituais e cerimônias, nas formas de agir, do lugar do sujeito de acordo com as posições sociais, de gênero e de raça. O objetivo do currículo é o corpo controlável, silenciando-o para torná-lo útil e produtivo.
De acordo com Soares (2008), os conceitos de biopoder e biopolítica desenvolvidos por Michel Foucault, também são úteis para examinar as teorias curriculares. Grosso modo, a biopolítica é uma técnica de poder em que o controle e a regulação não se dão mais no plano individual, mas se aplica de maneira global a toda população. Para a autora, os conceitos de
biopoder e biopolítica são importantes porque o currículo atua tanto com o objetivo de
disciplinamento quanto regulamentação dos corpos. No campo curricular da Educação Física, destaca que esses conceitos parecem estar mais evidentes nos currículos higienista e esportivo.
Como coloca Silva (2011b, p. 195), compreender as representações envolvidas no currículo é um processo central para uma análise crítica do currículo, questionando quais
grupos sociais estão representados ou excluídos, quais as ideias de gênero, de raça, e de classe são apresentadas no currículo, quais os discursos utilizados para transformar as representações em “verdade”. Através desses questionamentos, o currículo pode se tornar um “território contestado”, pois através do processo de contestação “as identidades hegemônicas constituídas pelos regimes atuais de representação podem ser desestabilizadas e implodidas”.
Silva (2011b) compreende ainda que a representação através da linguagem é um processo de produção de significados, que atuam para tornar o mundo social conhecível e, assim, governável. O currículo também se vincula à produção de identidades sociais através dos processos de representação, pois as diferentes narrativas dos grupos sociais estão representadas no currículo de acordo com as relações de poder.
Algumas abordagens tendem a identificar o conhecimento do currículo com o produzido no campo científico, artístico ou cultural. No entanto, Silva (2011b) adverte que esses conhecimentos são recontextualizados quando passam para o campo da educação, essas mudanças transformam o currículo em um processo de regulação moral. Essa regulação moral está historicamente ligada ao processo de escolarização de massa, tendo o currículo centralidade nesse processo. Compreender o vinculo entre currículo e regulação não significa sua aceitação, ao contrário, o objetivo é investigar as formas desse vínculo.
Silva (2011b, p. 196) afirma que “a diferença entre um regime de regulação e outro pode significar a diferença entre mais exclusão e menos exclusão, entre maior discriminação e pouca ou nenhuma discriminação”. Para o autor, além da regulação, outro aspecto central do currículo são as narrativas, que trazem implícitas histórias sobre o mundo social tentando estabelecer as identidades hegemônicas e identificando as identidades não hegemônicas como o “Outro”. Porém, os significados não são estáveis, há uma luta pelo significado e narrativa, daí a possibilidade de desconstruir os discursos hegemônicos. Dessa forma, investigar os regimes de regulação presentes no currículo se tornam importantes para contestá-los e modificá-los quando inferiorizam ou excluem saberes de grupos sociais subalternos.
3 ANUNCIANDO AS FERRAMENTAS ANALÍTICAS