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O poeta na Grécia arcaica era “funcionário da soberania” e árbitro supremo entre o louvor e a censura, a memória e o esquecimento, a serviço da comunidade dos “semelhantes” e “iguais”.203 A poesia, desde a Grécia antiga, pode ser considerada, portanto, pertinente à política. “A poética é, logo de saída, política”, pois “pertence a uma experiência política do sensível”, assevera Rancière.204 Pode-se entender por “partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa, portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas”,205 como já indicamos. Assim, estamos trabalhando com a premissa de que os poemas que encontramos em nossa pesquisa e que tratam de temas da política colaboram para constituir e instituir um comum partilhado e as partes exclusivas da sociedade e política do Brasil na segunda metade do século XIX.

No Brasil, desde a colônia, encontramos poetas e poemas tratando de questões correlatas. Lembremos de alguns exemplos de séculos e regiões diferentes: o “Boca do Inferno”, as Cartas Chilenas, Castro Alves, o Poema Sujo. No século XIX, Candido indica a emergência do escritor militante, quando o nativismo e o civismo tornaram-se pretextos para a criação literária, critério de dignidade e de valores a transmitir: “O escritor começou a adquirir consciência de si mesmo, no Brasil, como cidadão, homem da polis, a quem incumbe difundir as luzes e trabalhar pela pátria”.206 Parcela da poesia dos jornais e da atividade dos homens de letras da segunda metade do século XIX no Brasil era dedicada especialmente às questões que marcaram a conjuntura do final do Império, a saber, a Abolição e a República. Em conferência sobre sua geração literária, Olavo Bilac afirma que: “(...) não nos limitamos a adorar e a cultivar a Arte pura, não houve problema social que não nos preocupasse, e, sendo ʻhomens de letrasʼ, não

203

DETIENNE, Marcel. Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 18-21.

204

RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Editora 34, 1995. p. 107.

205RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível: Estética e política. São Paulo: EXO experimental org.;

Editora 34, 2005. p. 15. Ênfases no original.

206

deixámos de ser ʻhomensʼ”.207 A preocupação do grupo citado levou à constituição de uma poesia de combate ou social.208 Tal produção poética constituía-se em uma das dimensões do debate político, bem como do proselitismo pelo fim da escravidão e da Monarquia. A produção em questão informava, era informada e formava o debate e a mobilização pelo fim da Monarquia nas últimas décadas do Império.

Esses textos são parte integrante da ação política de grupos marginalizados pela Ordem Saquarema209 com vistas à sua reforma e/ou superação. Para os objetivos de nossa discussão, entendemos, baseados em Bourdieu, que:

Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas, teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer grupos (…) produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais.210

Ao darem visibilidade e ampla circulação ao conjunto de recursos simbólicos que marcava a forma pela qual essas questões eram tratadas, os poemas se constituem em atividade constitutiva e constituinte da esfera pública.211 No conjunto dos poemas, encontramos a formatação de um universo do debate político, o repertório de questões, os conjuntos de valores e de argumentos que serviam de lastro e de moeda de troca.

A linguagem não é aspecto secundário e passivo na interação dos sujeitos com o mundo que os cerca. “Ela cria ou ‘constitui’ a sociedade assim como é constituída pela sociedade”.212 Nomear algo, ou seja, estabelecer uma correlação entre um vocábulo e uma coisa ou prática, implica tanto a apropriação da coisa nomeada quanto colocá-la em 207BILAC, Olavo. Sobre a minha geração literária (No banquete offerecido pela sociedade do Rio de

Janeiro no Palace-Théatre, — Rio de Janeiro). In: _____. Ultimas conferencias e discursos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1924. p. 80.

208

MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 108.

209

A ideia de grupos marginais foi trabalhada por Ângela Alonso em Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

210

BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In:______.A Economia das Trocas Lingüísticas –

O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 117.

211

Não nos interessa, aqui, a discussão dos limites e dinâmica desta esfera pública. Diferentes autores trabalham com a noção de uma incipiente esfera pública em formação no Brasil dos novecentos, tais como Marcello Basile (O Império em construção: projetos de Brasil e ação política na Corte regencial. Rio de Janeiro, PPGHIS-UFRJ, 2004), Ângela Alonso (Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002) e Maria Tereza Chaves de Mello (A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007). As conferências, meetings, publicações e circulação de impressos (jornais e brochuras, principalmente) podem ser interpretadas como evidências da existência de uma esfera pública em formação.

212

BURKE, Peter. A História Social da Linguagem. In: _____. A Arte da Conversação. São Paulo: Unesp, 1995. p. 42.

relação a toda uma rede de ideias, conceitos, práticas, símbolos. Faz, em último caso, inseri-la em uma rede hipertextual, para usarmos a metáfora de Lévy.213 Se considerarmos a crítica de Bourdieu à visão substancialista e sua defesa do mundo como relacional,214 o ato de nomeação revela-se como uma ação que interfere e modifica as representações aceitas e partilhadas na sociedade nos seus princípios de visão e de divisão. No limite, configura mesmo sua instituição, sua incorporação em um universo simbólico, em uma série, que faz com que deixe ser uma coisa para se transformar em algo para nós, ou seja, o mundo social. “Uma coisa nomeada não é mais inteiramente a mesma, perdeu a sua inocência”.215 No que tange a esse entorno, as palavras possuem um poder estruturante, de ordenar e hierarquizar o aparente caos. A palavra manifesta e torna evidente para os que a ouvem (ou leem) o útil e o nocivo, a virtude e o vício, o justo e o injusto.216

Ao nomear o inominado, a palavra altera o mundo, confere objetivação a experiências difusas, tornando-as comuns e comunicáveis, sensatas e socialmente aceitas.217 Assim, os poemas estabeleciam temas e termos para o debate no mercado das ideias. Os poetas dos jornais pretendiam ser, tais como os gregos, os árbitros do louvor e da censura. Marcavam o que deveria ser lembrado e silenciavam sobre o que deveria ser esquecido; denunciavam o que precisava ser corrigido, prescreviam o que deveria ser instituído e elogiavam o que deveria ser mantido. Indicavam quais personagens deviam ou não ser imitados e quais enunciados convinham ou não àquilo que deveria ser a sociedade.218 Atuavam diretamente sobre a moeda de troca do “comércio da palavra [que] é o laço de toda a sociedade doméstica e civil”.219

Essa produção dava concretude às abstrações políticas e filosóficas que justificavam a Abolição e a República. Conceitos como liberdade, justiça, direito, eram atualizados e ganhavam significados em linguagem próxima da população não intelectualizada. Esses conceitos e suas implicações eram transpostos para a experiência do cotidiano desta população. Mais do que simples tradução, operava-se uma 213

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Editora. 34, 1993. p. 70-73.

214

BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: ______. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 81-125.

215

SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? São Paulo: Ática, 1999. p. 20.

216

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – Política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996. p. 17.

217

BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 119.

218

RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Editora 34, 1995. p. 107.

219

transformação das ideias. Em outras palavras, não havia preocupação em manter fidelidade absoluta com o universo conceitual, filosófico ou teórico do discurso republicano. A esse, os poemas acrescentavam (ou modificavam) aspectos, noções, ideias, justificativas, valores, personagens e linguagens. Assim, mais do que nos tratados de teoria política, nos poemas é que, em parte, definiu-se, para o grande público, o que se pretendia com as reformas e seus limites. As ideias ou noções que a população tinha das bandeiras do final do Império podem em boa parte ser buscadas nesses poemas.

As publicações de membros do movimento republicano, seus diversos manifestos e mesmo as conferências e meetings tinham alcance limitado. Artigos longos e linguagem abstrata demandavam tempo para leitura e eram de difícil reprodução. Colaborou para isso a orientação oficial do partido: “não bastava falar à imaginação e ao sentimento, não bastava a evocação das paixões que entusiasmam e das visões que seduzem; era mister falar à razão nacional”, defende Bocaiuva, ao tratar da missão do Partido Republicano.220 A opção de “ficar no terreno da evolução social, repudiando absolutamente todo e qualquer apelo à revolução material”, teria reforçado uma situação de hermetismo.221 Tais encaminhamentos oficiais sinalizam um receio da mobilização das massas que potencialmente resultasse em levante popular.

Os poemas, nesse ponto, caminhavam em outro sentido, dirigiam-se ao grande público e os alcançava, mobilizando aquilo que Bocaiuva rejeitara. As centenas de poemas veiculados pelos jornais entre 1870 e 1890 confirmam um esforço no sentido de ampliar o público alcançado pela e na campanha.

Os poemas levantados alcançam a cifra de três centenas e tratam da organização social e política do Império.222 Dada a dimensão deste universo e diante da dificuldade de analisar com minúcias todos eles, fomos obrigados a proceder uma dupla opção metodológica. A primeira foi apresentá-los em seu conjunto, oferecendo de modo panorâmico os temas que abordam e a maneira como o fazem. Já a segunda opção, decorrente dessa primeira, foi escolher os poemas mais expressivos para proceder uma análise verticalizada em número reduzido de textos, já que seria impossível analisar a 220

BOCAIUVA, Quintino. O que se deve fazer [1872]. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986., v. I, p. 347.

221

BOCAIUVA, Quintino. Apresentação do candidato escolhido pelos eleitores republicanos em Assembléia Geral do Partido a 15 de agosto de 1881. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986., v. I, p. 564. Ênfase no original.

222

Ver Anexo 1 (Relação nominal dos poemas localizados) e Anexo 3 (Tabela: poemas por periódico e ano)

todos detalhadamente. Essa opção pretendeu conciliar dois aspectos importantíssimos para o trabalho. De um lado, demonstrar o quão significativa foi a prática de publicação dos poemas, seja pela quantidade ou pelo universo de questões que tratavam; de outro, explorar o tratamento dado às questões abordadas na construção de uma representação das práticas sociais e políticas do Império.

A pesquisa privilegiou jornais e poemas que criticavam ou condenavam a organização política e social tal como existia sob o Império. Apesar desta aparente unidade, procedemos uma separação dos textos em função dos temas e de seu tratamento. Delimitamos um primeiro conjunto que se pauta por críticas genéricas às condições sociais e/ou políticas existentes, mas não chega a explicitar nem uma crítica à monarquia, nem um elogio à república. A crítica é, antes de mais nada, expressão de um descontentamento difuso, que não estabelece claramente um nexo entre a queixa que o poema veicula e a forma de governo. No segundo conjunto, foram agrupados os poemas que apresentam claramente uma denúncia da Coroa como injusta e/ou tirânica. Neste, as adversidades e problemas são diretamente relacionados à existência da Monarquia. A desqualificação foi acompanhada pelo resgate de antecedentes do movimento republicano e buscava separar a ideia de liberdade, dissociando-a da Monarquia e do 7 de Setembro e produzindo uma nova economia do tempo histórico. Nesse sentido, a recuperação dos movimentos e protagonistas das lutas anteriores à publicação do Manifesto Republicano promoveu a “republicanização” das lutas desde o período colonial até o II Reinado ao tratar os combates e personagens como precursores do partido.

Temáticas recorrentes nos poemas foram percebidas, capazes até de resultar em novos conjuntos, para além dos dois estudados. Estes poderiam ser divididos da seguinte maneira: a presença da liberdade como tema principal, levando a um terceiro conjunto. Um quarto agrupamento, tendo em vista a apresentação dos chamados valores republicanos, posto que há, de um lado, uma divinização e personalização; e, de outro, a exposição destes como coerentes com o cristianismo. A escravidão como metáfora, isto é, como equivalente da condição de súdito comporia, por fim, o quinto grupo. Tais agrupamentos não foram efetivamente trabalhados como conjuntos ao longo da tese. Todavia, a recorrência de temáticas aponta para o estabelecimento desses lugares- comuns no palco de discussões que se formava via poemas. Desse modo, acredita-se

que a divisão acima possa ser um campo frutífero para o desenvolvimento de futuros trabalhos com o mesmo corpus.

Na análise dos dois grupos principais acima citados, é possível perceber com clareza os enunciados, as denúncias, as descrições e prescrições que constituíram essa empresa que buscava desqualificar a monarquia e propor sua substituição pela república.

Se naquilo que explicitamente declaram, os poemas permitem estabelecer essa separação e classificação, o mesmo não pode ser dito se analisarmos a presença dos vocábulos e recursos linguísticos a que recorrem. De modo geral, a sensibilidade de uma ruptura não representava um fiat lux, uma dissociação absoluta com a tradição de séculos. Os discursos do progresso e da inovação como necessidades convivem com evidências da sobrevivência de arcaísmos e da tradição. Ou seja, aparentemente, há uma discrepância entre o que é explicitamente dito nos poemas e a utilização dos recursos linguísticos disponíveis para verbalização da negação de uma ordem. A falta de uso de recursos originais para valorizar e justificar algo novo revela, a despeito da novidade que se buscava alcançar, uma continuidade de certas formas de ver o mundo.

Nos poemas, o elogio explícito do que será, do porvir, da novidade, da busca do novo pelo novo, não impede a presença formal de continuidades, o que parece indicar que nem sempre este conteúdo foi acompanhado por mudanças linguísticas “coerentes”. Os adjetivos derivados ou associados à monarquia permanecem como elogiosos, mesmo na denúncia desta e defesa das qualidades da república.

E a nobre democracia, Fulminando a tirania, Seu reino formará.223

Neste pequeno exemplo, observemos que a nobre democracia formará um reino. A democracia e/ou a república a ser instituída conformaria um futuro nomeado como a forma política da qual pretende ser negação e superação. Mais do que meras palavras, poderíamos ver aqui uma continuidade com a ideia da política como território da imposição. A democracia constituiria um reino, ou seja, não seria um modo de convivência de cidadãos portadores de direitos, mas a imposição de um padrão ao qual

223710319 O Povo. A República. (Os poemas estão reproduzidos no Anexo 7 e identificados por seis

dígitos seguidos de seu título. Os dois primeiros números indicam o ano da sua publicação; os dois seguintes, o mês; os dois últimos, o dia. Assim, “O Povo” foi publicado em 19 de março de 1871).

todos deveriam se sujeitar, subordinar-se. Não traria a emancipação e a participação, mesmo que restrita, dos homens e mulheres no jogo e atividade política.

A presença do discurso do moderno e da novidade com elementos “tradicionais” e de continuidade não parece ser uma singularidade dos poemas. É possível sugerir que não seja nem uma característica do século XIX, mas parte do processo histórico. A despeito dessa ressalva, parece-nos importante indicar que a encontramos na imprensa da Corte no final do século XIX. A título de exemplo, os anúncios de máquinas elétricas dividem as páginas dos jornais com os de “bichas hamburguesas” (sanguessugas) e de videntes.

O anúncio veiculado na página 4 da edição de 15 de dezembro de 1875 é profundamente esclarecedor nesse sentido. Trata-se de um anúncio de campainhas elétricas da loja Ao Grande Mágico (figura 2, p. 89). O produto é anunciado e justificado como economia de tempo, “time is money!!”, de ganhos em termos de elegância e asseio. A eletricidade e a velocidade modernas são promessas do anúncio: meio de comunicação rápido, que nunca falha, e que tornaria desnecessário percorrer distâncias para chamar, falar ou mandar. Há, em nosso entendimento, elementos que associam a campainha elétrica ao progresso. No entanto, essa relação aparece ao lado de elementos do não-moderno, cuja superação se daria por meio do produto.

Dois elementos constantes no impresso nos levam a tratá-lo na chave da permanência de elementos não-modernos, em associação com as novidades do mundo moderno. O primeiro é o próprio nome da loja na qual a campainha está sendo vendida: Ao Grande Mágico. O segundo é o desenho que consta no anúncio. Nele, aparece um serviçal sob o quadro de campainhas indicativas do serviço que está sendo solicitado – porteiro, cocheiro, criado, mucama, copeiro ou cozinheiro. Tendo em vista a data do jornal, podemos supor que o negro representado é um ex-escravizado, pois usa calçados. O homem à porta e a mulher no quarto são brancos. Das três pessoas constantes no desenho, só o serviçal é negro. A condição social e a identificação racial estariam se sobrepondo. Nesse sentido, podemos supor que, em uma sociedade na qual a escravidão era uma instituição, os negros escravizados ou livres partilhavam de condição social próxima: a exclusão. Nesta linha de interpretação, estamos considerando que o anúncio sugere uma modernização conservadora, ou seja, inovações técnicas modernas e manutenção do status quo.

Os poetas, de ocasião ou de ofício, autores dos poemas que analisamos, pretendiam falar em nome do povo, apresentavam-se como porta-vozes desta entidade, seus tribunos ou funcionários. Entretanto, a identidade entre o projeto e o povo só seria estabelecida através do discurso, a exemplo do que ocorreu na Revolução Francesa, uma vez que, se só o povo é soberano, o poder estaria nas mãos daqueles que são reconhecidos como falando em seu nome, daqueles que apropriam pela palavra a vontade do povo. Teríamos, assim, uma “competição dos discursos para apropriação da

legitimidade”.224 Somente através da apresentação e reconhecimento públicos, por meio da palavra como expressão da vontade do povo, é que os republicanos construiriam a legitimidade política. Há, então, distintas construções em curso. A do povo como soberano, a da República como o bom governo e a dos republicanos como aqueles que podem falar da República e em nome da vontade do soberano.

Os poemas podem ser tidos como parte da subversão cognitiva necessária à subversão política. A (inov)ação política só é possível se os sujeitos acreditarem na legitimidade de sua iniciativa e na possibilidade de sua eficácia, assim, não há ação ou mudança política que não seja acompanhada de uma subversão herética.

A subversão herética explora a possibilidade de mudar o mundo social modificando a representação desse mundo que contribui para sua realidade, ou melhor, opondo uma pré-visão paradoxal (…) à visão comum que apreende o mundo social como mundo natural. (…) Contribui praticamente para a realidade do que anuncia pelo fato de enunciá-lo, de prevê-lo e de fazê-lo prever; por torná-lo concebível e sobretudo crível, criando assim a representação e a vontade coletivas em condições de contribuir para produzi-lo.225

Os poemas contribuem para transformar a significação e o valor simbólico da escravidão e da Monarquia. Ambas eram apresentadas como injustas, relativas à falta de liberdade, ao atraso, frutos do privilégio, como manifestações da mesma carência, como dois lados da mesma moeda. Assim, um senso comum que as tinha como naturais e morais estava sendo solapado, apresentando-as como decisões e opções políticas indefensáveis moralmente. Os poemas, então, são responsáveis pela significação e circulação da ideia de República e do ser republicano, do abolicionista e da abolição para a grande parte da população do Império e da Corte.

A poesia primordialmente era oral, tinha um componente religioso e consistia em uma das formas de alcançar a verdade (alethéia).226 A cultura cristã ocidental manteve a poesia como atividade intelectual, depurando-a das demais características. A forma

Benzer Belgeler