As esquemáticas integrais podem ser compreendidas como elementos constitutivos de uma psicogênese por integrações combinatórias de fatores subsistêmicos afetivo-cognitivos.
Fazemos, assim, a formulação da combinação de certos elementos do sistema com certos outros elementos: haverá, na realidade psíquica, algum elemento motivacional relacionando-se com algum elemento cognitivo, havendo simultaneidades e sucessões de fatores, relacionamentos e relações de subestruturas na estrutura orgânica e psíquica total.
Novamente uma série de explicações de Piaget devem nos apoiar nas nossas reflexões:
[...] importa primeiramente mostrar em que [o] caráter necessariamente circular, e não somente hierárquico, do sistema (por diferenciação da estrutura em possíveis subestruturas) caracteriza a organização cognitiva espontânea tanto quanto a organização biológica. (Ibid., p. 182).
Definição das estruturas. — Uma estrutura contém em primeiro lugar elementos e relações que os ligam, mas sem ser possível caracterizar ou definir estes elementos independentemente das relações em jogo. Mesmo no caso de simples agregados, se os considerarmos como estruturas de composição atomística, os elementos não são dados independentemente de suas relações (reunião, disposição espacial), do contrário não haveria estrutura. Estes elementos podem ser de natureza muito diversa: corpos químicos, quantidades energéticas, processos cinemáticos ou dinâmicos, para as estruturas biológicas, e percepções, lembranças, conceitos, operações, etc., para as estruturas cognitivas. As relações podem igualmente consistir em ligações de toda espécie: espaço-temporal, causal, implicativa, etc., conforme as estruturas orgânicas ou cognitivas, e sobretudo estáticas ou dinâmicas (por exemplo, anatômicas ou figurativas e regulatórias ou homeorrésicas, etc.). Em segundo lugar, as estruturas assim definidas podem ser consideradas independentemente dos elementos que as compõem. Isto não quer dizer que possam existir sob esta forma (salvo no caso das estruturas “abstratas” do matemático), mas que, fazendo abstração dos elementos que a compõem, pode-se ainda considerar a estrutura como “forma” ou sistema de relações. Isto é indispensável às nossas comparações, porque é o princípio de todo isomorfismo. Em terceiro lugar, existem estruturas de diversos “tipos” lógicos, isto é, convém considerar estruturas de estruturas, etc. [...] Ora, são naturalmente as estruturas de “tipos” elevados que procuraremos comparar entre os domínios orgânicos e cognitivos, porque o isomorfismo se reduziria a muito pouca coisa para os “tipos” inferiores, que são inumeráveis. Em quarto lugar, [poder-se-á dizer] que existe isomorfismo entre duas estruturas se for possível estabelecer uma correspondência biunívoca entre seus elementos, assim como entre as relações que os unem, conservando o sentido dessas relações. Como é possível fazer abstração desses elementos e de sua natureza, um isomorfismo entre duas estruturas reduz-se, pois a reconhecer a existência de uma mesma estrutura, mas aplicada a dois conjuntos diferentes de elementos. Em quinto lugar, chamaremos subestruturas um setor ou parte de uma estrutura de conjunto que pode ou não apresentar isomorfismo com a estrutura total. Por exemplo, a estrutura do estômago com relação à de todo o tubo digestivo ou a estrutura da operação inversa com relação a
uma estrutura de “grupo”. Não se deve, portanto confundir uma subestrutura (nesta terminologia) com uma estrutura de “tipo” inferior, nem com uma das estruturas comparadas em um isomorfismo (embora uma subestrutura em certos casos possa ser isomorfa da estrutura total, como um “subgrupo” relativamente a um “grupo” matemático). (Ibid., p. 163-165).
Estas conceituações de estruturas e subestruturas biológicas são as que mais nos importam, neste estudo, e que vêm sendo por nós utilizadas. Mas voltemos ao tema da cognição e da afetividade: entendemos que a experiência psíquica do bebê envolve esquematizações sensório-motoras sincrônica e diacronicamente combinadas aos fatores afetivos. Da mesma forma, a criança pequena se organiza por esquematizações simbólicas, pré-operatórias em “consonâncias” com elementos motivacionais. O mesmo se dá nas relações entre as organizações operatório-concretas e os sentimentos próprios desta fase (juízos de certa reciprocidade com sentimentos correspondentes, etc). Com o adolescente e o adulto podemos conceber a existência de sentimentos interligados ou integrados aos esquemas operatório-formais. O universo afetivo-operatório pode ser detalhado, por exemplo, em indignação operatória, generosidade operatória, etc.
Como vimos, a denominação “esquema integral” pode desdobrar-se em idéias relativas aos seus pormenores: se tomarmos, por exemplo, os esquemas afetivo-operatório- concretos, entenderemos que estes “afetos” podem ser vários: o sentimento de raiva integrado a certos pensamentos operatórios, por exemplo, o da reciprocidade nas relações interpessoais pode levar a alguma atenuação da própria agressividade. Se o sujeito
do exemplo considerar que ele mesmo pode agir da mesma maneira. Ilustrando melhor: O garoto A rouba um brinquedo do garoto B. B descobre o roubo e ofende A. A fica indignado pela ofensa, mas reconsidera: “quando eu era menor, me roubaram um brinquedo e percebi que isto dá mesmo raiva”. Analogamente, o medo conjugado a uma operação concreta pode gerar tipos especiais de relacionamento: “eu sinto medo, ele sente medo, podemos nos unir para nossa defesa mútua”.
Em cada etapa da vida do ser humano há esquemas integrais em profusão de tipos: a variedade de afetos (alegria, tristeza, raiva, medo, dor, excitações genitais, etc) pode combinar-se com organizações cognitivas também muito ricas em sua diversidade. A combinação de muitos afetos (e não pretendemos saber, aqui, quanto são) com um grande número de formas de organização cognitiva implica, por combinação, uma “imensidade” de esquemas integrais possíveis.
Segundo compreendemos, o afeto, ao longo da vida do indivíduo humano, sofre a participação das sucessivas construções cognitivas. Esta participação não apenas dá sentidos intelectuais aos afetos, emoções e sentimentos, mas os transforma em novas realidades, em novos sentimentos que não seriam possíveis se não houvesse tais ou quais pensamentos em atividade. Pode haver afetos integrados a cognições formais e vice-versa, formando uma esquemática integrada. Um pensador que formule uma teoria ou uma fantasia utópica vive sentimentos diferentes de outros, por exemplo, o carinho pela família. Há
afetos mais egocêntricos, etnocêntricos, sóciocêntricos, etc. Cada etapa deste caminho construtivo deve ter seu valor nas conquistas seguintes e não perde sua função antiga por surgirem as novas. Uma mãe idealista que trabalha em causas planetárias não deve perder os vínculos com o filho, com a família, amigos, etc. Funções afetivas podem se construir em esferas que preservam outras.
Notemos que algumas organizações cognitivas específicas em consonância com outras organizações afetivas particulares, podem gerar experiências morais de tal ou tal nível. A Ética, por exemplo, geralmente envolve combinações de certas inteligências formais (como generalizações sobre o bem coletivo) e alguns afetos especiais (como a compaixão, o bem- querer ou até a indignação). Diversos elementos motivacionais podem se ativar e desativar individual ou simultaneamente. Todo o sistema afetivo se integra e se combina com outras organizações psíquicas mais móveis, as cognitivas.