4. BULGULAR
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No Brasil sabe-se a partir de estudos históricos que as águas termais já eram utilizadas pelos indígenas para tratamentos, mesmo sem uma comprovação científica de seu poder curativo.
Entretanto, o marco que regulariza o início da utilização das águas termais no país, ocorre em 1818, ano em que foi criada a estância termal de Caldas da Imperatriz em Santo Amaro da Imperatriz/SC (Foto 2), considerada a primeira do Brasil. “Segundo Mourão (1992), a situação deve-se ao fato de, em 1812, terem sido
enviadas para a corte amostras de água termal das Caldas do Cubatão (SC), hoje Caldas da Imperatriz, para se proceder à análise”. (MORAES, 2008, p. 3).
Reconhecendo a importância terapêutica desta água D. João VI construiu no local um hospital termal, como mostra Quintela (2004)
Esta situação levou a que D. João VI tenha emitido em 1818 um decreto onde ordenava a construção de um hospital termal, que se deveria reger pelos estatutos do Hospital das Caldas da Rainha (Portugal). Este é considerado o marco do início do termalismo no Brasil (Mourão,17 1992; Silva, 1994), entendendo-se este como uma prática terapêutica desenvolvida a partir da água termal e usada no espaço de um estabelecimento balnear – já que notícias de fontes de águas com propriedades curativas já tinha havido no final do século XVIII. (Rodrigues, 1833; Gonsalves, 1936; Mourão 1992; MARRAS 2002 apud QUINTELA, 2004, p. 10).
Foto 2 – Hospital termal de Caldas da Imperatriz, hoje funciona como hotel.
Fonte: Site Hotel Caldas da Imperatriz-SC
Desde então as práticas termais começam a se desenvolver no Brasil, principalmente a partir do século XIX, “tudo começa com a descoberta das análises químicas, ainda na primeira metade desse século, e com a edificação de alguns estabelecimentos termais (Caldas do Cubatão, Caxambu e Poços de Caldas) na segunda metade do mesmo século”. (QUINTELA, 2004, P. 10).
As águas minerais no Brasil seguem uma classificação como mostra Macêdo (2007) quando diz que: aságuas minerais conforme definido no Decreto Lei nº 7841, de 8 de agosto de 1945, define em seu artigo 1º, que águas minerais:
São aquelas provenientes de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas, que possuem composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas comuns, com características que lhes confiram uma ação medicamentosa.
Ressalta-se que, no § 2º- "poderão ser, também consideradas como águas minerais, as águas de origem profunda que, mesmo sem atingir os limites da classificação estabelecida nos capítulos VII e VIII, possuam inconteste e comprovada propriedade favorável à saúde. (MACÊDO, 2007, p. 1079).
Com o passar do tempo às estâncias termais foram se desenvolvendo no Brasil, com suas características próprias foram conquistando espaço no turismo brasileiro. Com isso surgiram também as pesquisas e publicações sobre o assunto, entretanto é na área da medicina onde predominam as publicações sobre o tema.
O primeiro a discorrer sobre o tema foi Antônio Maria de Miranda Castro, na
Escola Medica do Rio de Janeiro em 1841. “Esta tese de medicina é o primeiro inventário realizado sobre estações de águas brasileiras. E aí são mencionadas as águas existentes nos estados brasileiros, classificadas segundo a sua composição química. [...]” (AZEVEDO, 1892, p.34 apud QUINTELA, 2004, p. 11).
Nesta tese, o autor fala das potencialidades destas águas e da necessidade de o Brasil investir neste campo, à semelhança do que se passava na Europa, onde as águas minerais serviram de “meio sanitário” e “fundo precioso de interesse e prosperidade”, enriquecendo e civilizando “estéreis villas”, citando como exemplos Caldas da Rainha, Gerês (Portugal), Spa (Bélgica) ou Forges (França). (QUINTELA, 2004, p. 11).
Sobre o desenvolvimento do termalismo no Brasil Quintela (2004) define que este processo histórico está dividido em duas fases, sendo:
A primeira, relativa ao século XIX, é a fase das descobertas das
águas minerais como “factos científicos”, medicamentos, na
perspectiva da química e da geologia e das suas propriedades terapêuticas. É focada aí a necessidade de se proceder às análises químicas para legitimar o seu uso médico e este não ser limitado, apenas, aos usos ditos populares, evitando o risco de práticas classificadas como de “charlatanismo”. É, portanto a afirmação da
medicina como detentora dos saberes relativos a esta prática terapêutica que cria mais um espaço para exercer a clínica, através
da prescrição do “medicamento natural” – a água. E na medida em
que a água é classificada como medicamento, e as termas como “uma pharmacia da natureza”, é na cadeira de terapêutica médica que são ministrados os saberes a ela relativos, tal como propõem Correia Neto (1917) e Renato de Sousa Lopes (1936). (QUINTELA, 2004, p. 12).
E a segunda fase compreende o período da consolidação de estabelecimentos destinados às práticas termais, onde se misturam áreas para tratamento conjuntas com áreas destinadas ao lazer. Quintela (2004) diz que:
É a segunda fase, iniciada no século XX, que corresponde à afirmação das estâncias hidrominerais como lugares de cura e de turismo. O período áureo do termalismo brasileiro terá acontecido entre 1930 e 1950 (Silva, 1994; Mourão, 1992), associado às dimensões terapêutica e lúdica – uma das razões do declínio é imputada à proibição do jogo em 194621. (SILVA 1994 apud QUINTELA, 2004, p. 12).
“Durante os anos de 1950 o chamado ‘termalismo científico” entra em declínio
no Brasil, com o desinteresse e consequente diminuição de publicações sobre o assunto na área médica, entretanto Quintela (2004) mostra que:
Este fato não permitiu que se desenvolvessem os estudos científicos, e "confunde-se termalismo com turismo" (idem, 1997, p. 84). Mas Mourão afirma que, embora a parte médica tivesse entrado em declínio, o termalismo nacional, no "seu enfoque físico", desenvolveu-se nos estados de Santa Catarina, Goiás e São Paulo, por meio de "modernas instalações termais". (QUINTELA, 2004, p. 9)
Mesmo sem grande destaque o termalismo continua se desenvolvendo no país,
como diz Moraes (2008). “Com o forte apelo ao turismo de praia, atualmente pouco
percebe-se o desenvolvimento nas estâncias termo minerais, que embora não estão em total evidência na mídia ainda existem.” (MORAES, 2008, p. 4).
Atualmente há iniciativas para revigorar este segmento no Brasil, como mostra Lazzerini (2012),
Apesar do histórico descaso com as Estâncias Hidrominerais do Brasil, não só político, mas econômico e acadêmico; os últimos governos federais começam atentar-se para este tema. Com FHC, através do Decreto Federal de 08/07/2002 que prevê a criação de grupo executivo para integração entre a pesquisa e todo o setor produtivo relacionado às águas minerais, balneários e recursos hídricos; além de uma nova Comissão Permanente de Crenologia para rever o Código das Águas Minerais de 1945, que ainda regula estes recursos. E com LULA tivemos o grande avanço da Portaria do Ministério da Saúde 971 de 03/05/2006 que, seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde considera, entre outras, que: “o Termalismo Social/Crenoterapia constituem uma abordagem reconhecida de indicação e uso de águas minerais de maneira complementar aos demais tratamentos de saúde e que nosso País dispõe de recursos naturais e humanos ideais ao seu
desenvolvimento no Sistema Único de Saúde (SUS)”. (LAZZERINI,
2012).
A criação de um curso de bacharelado sobre o tema, sobre o qual Rego (2008) aponta:
A criação recente do Curso de Bacharelado em Termalismo e Águas Minerais em Cambuquira no Estado de Minas Gerais, pela Universidade Vale do Rio Verde (UNINCOR, 2008). Este curso terá por objetivo formar gestores na área de águas, podendo seguir linhas de pesquisas nas áreas de saúde, turismo e meio ambiente. É possível que a partir da criação deste curso se inicie uma
organização dentro do termalismo e que se possa desenvolver uma legislação específica sobre o assunto. (REGO, 2008, p. 22).
No Brasil as estâncias hidrominerais são regulamentadas pelo Decreto nº 20, de 13 de julho de 1972, que dispõem:
Artigo 3 º - Constituem requisitos mínimos para a criação de estâncias hidrominerais:
I - A localização, no município, de fonte de água mineral natural ou artificialmente captada devidamente legalizada por decreto de concessão de lavra expedido pelo Governo Federal, com vazão mínima de 96.000 litros por vinte e quatro horas. Ver tópico
II - A existência, no município de balneário de uso público para tratamento crenoterápico, segundo a natureza das águas e de acordo com os padrões fixados neste regulamento.
Em terras brasileiras encontramos águas termais segundo Rego (2008),
Em Minas Gerais encontram-se dois circuitos famosos: o das Águas Carbogasosas de Caxambu, São Lourenço, Cambuquira e Lambari e o das Águas Termais Radioativas Sulfurosas de Araxá e Poços de Caldas, Caldas, Pocinhos do Rio Verde e Patrocínio. Não se limitando à região sudeste do Brasil, existem Estâncias Hidrominerais espalhadas por todo o território como o circuito baiano, onde está localizado o primeiro hospital termal das Américas, no Vale do rio Itapicurú, em Cipó. Podem-se citar, também, outros locais com ocorrências de águas minero medicinais: Brejo das Freiras na Paraíba, Mossoró e Apodi no Rio Grande do Norte, Caldas de Barbalho no Ceará, Caldas do Bamburral, Olinda e Salgadinho em Pernambuco, Gamboa no Maranhão (LAZZERINI, 2007). Em Santa Catarina, há a cidade de Gravatal e no Paraná, encontram termas no
município de Iretama. Em São Paulo existe um grupo de 11 cidades intituladas pelo governo do Estado como Estâncias Hidrominerais. São cidades que reúnem uma série de exigências de estruturas e atrativos turísticos voltados para a prática do termalismo. Estas cidades são: Águas da Prata, Águas de Lindóia, Águas de Santa Bárbara, Águas de São Pedro, Amparo, Ibirá, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Poá, Serra Negra e Socorro. (REGO, 2008, p. 22).
Existem hoje poucos trabalhos que abordam o tema do termalismo, como mostra Rego (2008),
Hunter-Jones (2005), Connell (2006) e Sayili et al. (2007) já afirmaram que a pesquisa científica no mundo sobre o termalismo é restrita e limitada a estudos descritivos sobre as técnicas aplicadas nos tratamentos. Porém já existem alguns trabalhos recentes sobre demanda turística em cidades de águas como os de Castro (2007). (REGO, 2008, p. 22).
Entretanto, o termalismo é uma importante vertente do turismo brasileiro, que se difere do tradicional turismo de praia, teve seus períodos de altos e baixos, mas continua atraindo pessoas que buscam tratamento e outras que procuram apenas descanso e relaxamento.