• Sonuç bulunamadı

Embora obra de ficção, Los informantes tem na literatura de testemunho um intertexto evidente. O primeiro ponto de contato está na própria trama, que conta o processo de composição de dois livros inequivocamente testemunhais. O segundo está na origem e na elaboração do romance, que teve como ponto de partida o testemunho de uma mulher “muito parecida com a Sara Guterman do livro”, conforme disse o autor (DE MAESENEER e VERVAEKE, 2010). Em pelo menos uma ocasião, Vásquez contou também que entrevistou outras pessoas, seguindo um procedimento que geralmente adota ao escrever um romance: “Procuro fazer com que os primeiros meses de contato com um material que me parece novelesco estejam bem ancorados na realidade e tomem como base os testemunhos de pessoas que tenham vivido o fato.” (SALAZAR, 2004). Assim, mesmo sem enquadrá-lo em nenhuma das categorias da literatura testemunhal, podemos associá-lo a registros correlatos que, independentemente da classificação, promovem o entrecruzamento de narrativa e história, realidade e ficção, e expressam, segundo Mabel Moraña (1995, p. 488), a vontade de “canalizar uma denúncia, dar a conhecer ou manter viva a memória de fatos significativos [...]”.

Testemunhas se debatem entre a necessidade urgente de expressão e a consciência do indizível e inimaginável que, muitas vezes, assume a experiência que viveram (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.46). Esta preocupação, que já aparece nos relatos de Primo Levi, é manifestada pela personagem Sara Guterman no cuidado com que guarda documentos, ciente de que é preciso mais do que a palavra (e a memória) para manter vivos os acontecimentos passados. Ao mencionar a bateria de entrevistas que fez com Sara para escrever Una vida en el exilio, Gabriel filho afirma que o que mais lhe chamou a atenção foi a facilidade com que ela prestou o depoimento – “sem parábolas nem rodeios, como se houvesse esperado toda a vida para contar aquelas coisas” (VÁSQUEZ, 2004, p.28). Principal

fonte do jornalista – narradora de um capítulo inteiro –, Sara é duplamente testemunha no romance: primeiro, da experiência do exílio, que viveu pessoalmente; segundo, dos episódios que culminaram com a morte de Konrad, dos quais tomou conhecimento pela confissão de Gabriel e pelo relato de Josefina. Com isso, Sara se encaixa nas duas acepções que – de acordo com Hugo Achugar (1992, p.59) e Émile Benveniste (1969, apud Ricoeur, 2007, p.173), respectivamente – estão na origem da palavra testemunha: aquele que sobrevive a grandes provações e dá testemunho de sua fé (derivada do grego mártir) e aquele que atua como um terceiro e atesta determinado fato (derivada da palavra testis – de tertius – que designava, no direito romano, as pessoas encarregadas de assistir a um contrato oral e autenticar essa transação).

Narrando em detalhes os dias que antecederam a morte de Konrad, Sara atribui a nitidez de suas lembranças à constatação, nítida na época, de que sua vida estava mudando para sempre (idem, p. 117). Impactados por acontecimentos marcantes, outros personagens revelam o mesmo afã de se comunicar. Assistindo à entrevista de Angelina, Gabriel filho observa que a fisioterapeuta fala “sem parar”, “como se sua vida dependesse daquilo” (idem, p.195). Em outro momento – ao encontrarem Josefina na pensão em que viveu com Konrad –, Sara e Gabriel pai a ouvem “falar e falar e falar durante toda uma tarde” (idem, p. 134). Mais adiante, Sara comenta que o filho de alemães Hans Bethke, um nazista que se mudara de Barranquilla com a mulher, “falava por vinte” (idem, p.149) durante um jantar na casa dos Deresser. E, algumas páginas à frente, queixa-se dos excessos verbais de Konrad, que, ao ser visitado no Hotel Sabaneta, “importunava a todos com sua cantilena, sem que houvesse jeito de que se calasse nem um segundo” (idem, p.164-165).

Para o jornalista-narrador, estes personagens quase sempre loquazes representam, na maioria das vezes, o único caminho possível para obter informações que – manipuladas ou reprimidas – desapareceram da esfera pública ou sequer foram transmitidas. Observando Sara

ao lado de seu pai, Gabriel reflete sobre a experiência acumulada por aqueles dois “receptáculos de memória”, e se angustia com a ameaça de esquecimento que sua futura morte representa (idem, p.85).

Eu recordava as palavras gravadas, erguia a cabeça para ver os outros comensais – minha família – e pensava isto que sempre é incrível: isso aconteceu com vocês. Isso, ocorrido há meio século, aconteceu com vocês, e aqui vocês estão, ainda vivos, funcionando como testemunho tangível de fatos e circunstâncias que talvez morram quando vocês morrerem, como se vocês fossem os últimos seres humanos capazes de executar uma dança andina que ninguém conhece, ou como se soubessem de cor a letra de uma música que nunca foi anotada e que se perderá para o mundo quando vocês a esquecerem (idem, p.85-86, grifo do autor).

Frágil, efêmera e muitas vezes coibida, a memória dos outros deve então ser capturada e preservada, acredita o jornalista, que, munido de gravador, desenvolve o “curioso fetichismo de conservar a voz alheia” (idem, p.82). Ficar sozinho em outras casas também está entre as suas “perversões” (idem), pois sabe que a memória nem sempre se oferece, ávida, como a de Sara. Para acessar as lembranças de Enrique e de seu pai – resguardadas pela culpa e pelo rancor –, é preciso escarafunchar na vida íntima de cada um: fotos, livros, correspondências particulares. Seu método de trabalho, invariavelmente, supõe a quebra de fronteiras entre o público e o privado. “Gosto das vidas alheias; gosto de examiná-las com vagar. É provável que ao fazê-lo viole vários princípios da discrição, da confiança, das boas maneiras. É muito provável” (idem, p.222).

Mas, embora seja sua principal matéria-prima, a memória se mostra insuficiente, com suas frequentes omissões (deliberadas ou não), imprecisões, modificações e os contumazes acréscimos e desvios produzidos pela imaginação. Um primeiro revés para o jornalista vem de sua maior informante, Sara, que, nas entrevistas que concedeu para sua biografia, preferiu ocultar a presença de Gabriel pai entre os delatores das listas negras. “‘Não se faça de boba. Você sabia? E, se sabia, por que não está no livro? Por que não me contou durante as

entrevistas?’”, indaga Gabriel filho, sobressaltado, ao descobrir que o pai tivera participação ativa em alguns episódios relatados em seu primeiro livro (idem, p.77).

As revelações sobre seu pai também mostram que a memória, muito longe de imutável, pode ser totalmente reformulada a partir de informações colhidas no presente. Ao saber da traição a Enrique, Gabriel filho constata, de súbito, a radical modificação das lembranças que tinha do pai. Diversos elementos de sua biografia – como uma carta enviada a Sara e o discurso para os 450 anos de Bogotá – começam a lhe parecer, antes de tudo, alusões cifradas ao dano provocado no amigo.

Ocorreu-me a ideia de que muito a contragosto eu acabaria por dedicar-me a isso, a rever recordações em busca das inconsistências, das contradições, das mentiras descaradas com que meu pai protegeu – ou melhor, fingiu que não existia – um fato mínimo, uma ação entre milhares de outras de sua vida mais cheia de ideias que de ações (idem, p.186).

No decurso de suas investigações, Gabriel filho lamenta ainda que acontecimentos cruciais, como a delação feita pelo pai, sequer disponham de testemunhas, o que condena os interessados (sobretudo Enrique, neste caso) à angústia de tentar reconstituí-los unicamente pela via imaginária. Inerente ao processo de recordar, a imaginação aparece a todo instante, principalmente quando faltam documentos e dados sólidos. E, se por vezes consegue chegar bem perto dos fatos concretos (como quando Sara imagina a carta enviada por Margarita aos senadores), outras vezes passa distante do que realmente ocorreu (como nas conjecturas do jornalista sobre os rumos tomados por Enrique).

Os liames surpreendentes da memória às vezes se notam em pequenos detalhes, como no sonho que Gabriel pai tem na UTI do hospital e do qual desperta com o desejo de se reconciliar com o passado (idem, p.48-49). No sonho, que pode simbolizar o renascimento da esperança para o personagem, Gabriel se surpreende ao ver sua falecida mulher em uma sessão de cinema. Ao falar com ela, ouve-a dizer que continua viva e que lhe avisará quando de fato tiver de morrer. Não por acaso, o filme que estava sendo exibido, “Escravo de uma

paixão”, era o mesmo que – conforme nos diz Sara, muitas páginas à frente (idem, p.118-119) – Gabriel e ela tinham ido ver uma semana antes de receber a notícia da morte de Konrad, e que ficou, para ambos, como uma espécie de madeleine proustiana (uma madeleine amarga, neste caso) dos episódios que culminaram no suicídio de Konrad. Ou seja, para Gabriel pai, descobrir sua mulher ainda viva no filme significava a possibilidade de se reencontrar com o passado que até então quisera ver sepultado.

Em diversos momentos do romance, o jornalista adverte o que há de escorregadio e potencialmente traiçoeiro na memória, e por isso se ampara em documentos, confronta dados e se permite a possibilidade de corrigir as informações obtidas em testemunhos.

Enquanto escrevo, verifico que no curso de vários meses acumularam-se sobre minha escrivaninha, mais do que as coisas e os papéis de que necessito para reconstruir a história, as coisas e os papéis que provam a existência da história e que podem corrigir minha memória caso seja necessário. Não sou cético por natureza, mas também não sou ingênuo, e sei muito bem a que magias baratas a memória pode recorrer sempre que lhe convém [...] (idem, p.94, grifo do autor).

Ponderações como esta se multiplicam ao longo do livro e mostram que, para Vásquez, assim como para Beatriz Sarlo (2005), a valorização da memória não deve significar, de nenhuma forma, uma renúncia à discussão crítica sobre ela. A estrutura metaficcional do romance evidencia ainda mais esta dupla escolha. Até a última página, o dever de memória caminha lado a lado com o imperativo da reflexão.

          

CONCLUSÕES

As observações feitas na análise do romance permitiram, em diálogo com o quadro teórico apresentado nos capítulos anteriores, elucidar as principais questões que orientam este trabalho. Chegado este momento, retorno ao problema identificado na introdução e às perguntas norteadoras da pesquisa para ensaiar algumas conclusões.

Os deslocamentos, ao estabelecerem não apenas uma demarcação física – um “aqui” e um “lá”–, mas também cronológica na vida dos sujeitos – um “antes” e um “depois”–, produzem uma disposição particular à reconstrução memorial, derivada primordialmente dos anseios de autorreflexão e busca identitária. Quando o deslocamento está associado ao trauma e à violência, como é o caso tematizado no livro (o exílio forçado de Sara, o suicídio do pai de Enrique ou as diversas perdas de Angelina), a reação dos sujeitos oscila entre lembrar e esquecer.

O deslocamento gera uma propensão questionadora na memória, passível de romper com os paradigmas anteriores e propor novas formas – mais críticas e inclusivas – de olhar a comunidade nacional. Ao afastar-se do imaginário nacional e da memória histórica do país deixado, o sujeito deslocado desenvolve frequentemente uma memória de inequívoca índole crítica, capaz de desafiar a “história oficial” e desvelar as dissonâncias da suposta harmonia nacional.

Publicado oito anos depois de Juan Gabriel Vásquez mudar-se da Colômbia, Los informantes (2004) é um exemplo eloquente desta memória questionadora, resgatando um passado de ignomínias silenciadas e escancarando um presente mais digno de vergonha do que de orgulho pátrio.

Além de denunciar a violência, a hipocrisia e a superficialidade da Colômbia e, principalmente, de Bogotá – cidade maldita para todos os personagens –, Vásquez promove uma reflexão aguda sobre sua principal matéria-prima, a memória. Ao mesmo tempo em que

critica o esquecimento coletivo promovido pelo poder, o romance aponta as limitações da memória e mostra as complexidades de se evocar acontecimentos traumáticos, optando, duplamente, por uma memória desimpedida, mas jamais isenta de reflexão.

A tendência a uma memória questionadora – que se insurja contra o imaginário nacional e a memória histórica do país deixado – é confirmada por outros autores deslocados, que capitanearam nos últimos anos algumas das empreitadas mais arrojadas de retorno literário ao passado latino-americano. Como mostro no primeiro capítulo, embora ocorra desde as origens da literatura hispano-americana, o deslocamento dos escritores passou a exigir novas leituras desde a década de 1980, considerando as inovações no campo da historiografia literária e as diversas reflexões teóricas que colocaram em crise a ideia de nação e identidade nacional como essência. Longe do projeto ideológico acalentado pela geração do boom, os autores mais jovens assumem o deslocamento como uma maneira mais natural de estar no mundo translocal de hoje, demonstrando menor apego à nacionalidade e ressaltando a consciência de uma identidade múltipla e descentrada. Escrevem sobre seus países sem nenhuma perspectiva militante nem o anseio de consolidar uma tradição.

Alargar o escopo da discussão – citando outras obras literárias sugestivas para o tema – foi uma das minhas preocupações neste trabalho, com a esperança de contribuir para novas investigações que continuem a avançar sobre o campo, ainda pouco explorado, das relações entre memória e deslocamento. Conforme afirmei na introdução, a busca em bibliotecas e bancos de teses de diversas universidades brasileiras indica uma considerável predominância, no âmbito da literatura hispano-americana, de pesquisas sobre os deslocamentos da modernidade – como as viagens modernistas do início do século XX e, principalmente, os exílios políticos das décadas de 1960 e 1970. Há quem afirme, diante disso, que o assunto está esgotado, como se todos os deslocamentos fizessem parte de um só fenômeno. Dizer isso é ignorar a historicidade dos processos. É preciso estudar o sistema literário hispano-americano

nas condições atuais de cultura translocal, valorizando os deslocamentos e as práticas de extraterritorialidade na hora de historiar seus processos literários.

Neste mundo transnacional – em que os deslocamentos assumem proporções inéditas na história –, tornam-se ainda menos sustentáveis visões essencialistas da cultura; e ainda mais imperioso compreender a experiência cultural como um conjunto de interações que abrangem tanto o enraizamento quanto a mobilidade. Para a historiografia literária, é imprescindível consolidar as revisões propostas há 30 anos por alguns dos mais iluminados intelectuais latino-americanos, como Antonio Candido, Ángel Rama e Antonio Cornejo Polar. De lá para cá, a busca de novos parâmetros para historiar a literatura encontrou novas e variadas formulações. Mas ainda enfrenta a enorme resistência dos que insistem nos paradigmas limitadores de território, Estado-nação e unidade linguística.

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Benzer Belgeler